Uma lembrança, uma despedida, um almoço no Garden, um picadinho: é a vida

O picadinho do Garden, casa que frequento desde que nasci: ela mudou, eu também

Como jornalista eu adoro ser entrevistado. Especialamente por me colocar em situação contrária à habitual. Ser alvo de perguntas, para mim, que vivo de averiguar, tem múltiplos sentidos. Além da sensação gostosa de ser tema, fonte ou personagem existe o prazer de aprender a fazer o que fazemos estando em nova condição. É como médico ser paciente; e o piloto, passageiro; e o advogado, réu. É como o leitor escrever. O salva-vidas se afogar. O calouro virar jurado. Ou o pescador virar peixe.
Por conta do Guia do Gosto Carioca vivi essa situação muitas vezes. Adorei ser entrevistado nessas circunstâncias, ser personagem, bater papo sobre o mundo da cozinha carioca, refletir sobre a vida.
Recebi perguntas engraçadas, outras estranhas, e até aquelas sem sentido. Algumas, nem entendi. Imagino que aconteça o mesmo com as pessoas que entrevisto. Entre tantas, uma das mais recorrentes foi: “Quando você começou a fazer o livro?”.
A questão não é fácil. Porque, embora pareça simples, já que em termos práticos o livro começou a ser escrito no meio do ano passado, quando acertei os trâmites e as datas de fechamento com a Editora Senac-Rio, a pergunta não é tão fácil assim. E a resposta mais precisa é que este livro someçou a ser feito há uns 30 anos.
Quando eu tinha uns seis ou sete anos comecei a prestar atenção na comida, que deixou de ser apenas alimento para se transformar, também, em fonte de prazer. Comecei, ainda menino, a reparar nos restaurantes. Nos cardápios, na execução dos pratos, nos acompanhamentos, nas louças e nos garçons. Circulava pelas mesas. Pedia para visitar a cozinha. Jamais imaginava que, algum dia, escreveria sobre comida. Mas sabia que gostaria de cozinhar. Minha mãe cozinhava bem, e tratou de me ensinar muitos macetes.
Neste fértil período infantil, quando me alfabetizei nas letras e nos ingredientes, nos temperos e nos acentos, nos verbos e nas massas, aprendi muita coisa.
Então, quando me perguntam quando o Guia do Gosto Carioca começou a ser feito a resposta mais correta de todas é que foi há uns 30 anos. Há uns 30 anos, no momento em que comer deixou de ser uma necessidade fisiológica para ser encanto.
Acabei me lembrando disso hoje. Tô embarcando à noite para o Canadá, país que na verdade não tem nada a ver com essa história. No momento, escrevo do Galeão. Acabo de chegar à sala de embarque. Escrevo, na verdade, porque fui almoçar no Garden, ali no Jardim de Alah. Por algumas razões escolhi o lugar. É perto de casa, e eu tinha muito pouco tempo. E também porque tem uma cozinha descomplicada. E gostosa. E barata. Bem, barata não é a palavra, mas menos cara que estamos habituados a pagar em Ipanema, e no Rio, e no Brasil, de uma maneira geral.
Mas fui almoçar ali no Garden, sobretudo, porque acabei me recordando da infância nesses últimos dias. Por conta das conversas ao redor do Guia do Gosto Carioca. O Garden está entre as minhas mais antigas referências de restaurantes no Rio. Entre os que eu frequentava quando criança, é dos poucos que ainda existem, ao lado do Antiquarius, do La Mole, do Alvaro’s, aqui no Rio, e do Dona Irene da Taberna Alpina, em Teresópolis. E do Luigi, em Petrópolis. Parece incrível, mas são lugares que frequento desde que nasci, praticamente. O Le Coin acabou. O Jangadeiros acabou. O Rio Napóles acabou. A Carreta… O Nino… O teresopolitano Café Ângelo acabou. Restaram as memórias, saborosas lembranças, da inocência do gosto, dos sonhos a respeito do que seríamos, os prazeres da boca, o beijo…
Tudo bem que muita coisa mudou no Garden. Como em Ipanema. Como no Rio. Como no Brasil. Como nas Américas e no mundo, no universo. Mas continua sendo o Garden. O nome é o mesmo, a disposição física da casa também. O que hoje é o salão com parede envidraçada era uma varanda. O que hoje é o espaço mais reservado na parte da trás era o salão. Ali eu comia uma lasanha verde à bolonhesa que ainda hoje é referência… para mim. E tascava queijo ralado, a meu ver, moído, daqueles que enchiam potinhos sobre as mesas. Coisa sem graça, aos olhos de hoje, uma delícia sob os padrões gastronômicos de antigamente.
Fato é que lá fui eu almoçar hoje. O Garden é um restaurante de bairro, frequentado pelos locais, o que é sempre um bom indício.
– Tô indo pra minha mesa – diz a senhorinha elegante, que chega para almoçar só.
Como se vê na foto, o bar é cheio de garrafas de uísque etiquetadas com o nome dos seus donos, os vinhos habituês.


Hoje eu queria algo simples, brasileiro. Com tom de despedida. Tendo em vista que só volto em dez dias praticamente, resolvi pedir algo bem carioca. Do menu de almoço, escolhi o picadinho ao poivre, uma linda ideia, que mescla essa receita típica carioca à pimenta, dando um toque especiado, um ardor delicioso, uma persistência de sabor.
Uma composição rica: carne picadinha em molho gostoso, batatinha frita (infelizmente, congelada), arroz, couve frita, e um potinho com caldo de feijão. Para caprichar ainda mais na potência, joguei uma boa malagueta, que é item indispensável em restaurantes carioca, apesar da recente ditadura do Tabasco, algo tão lamentável quanto peixe que não tá fresco, pão bolorento e vinho azedo.

O tal picadinho estava gostoso. Foi um almoço agradável. Ligeiro, na medida da necessidade.

Estava bom. Muito gostoso. Mas nada demais.
Não foi o prato da minha vida.
Mas, sim, foi o prato da minha vida.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

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6 Respostas to “Uma lembrança, uma despedida, um almoço no Garden, um picadinho: é a vida”

  1. Dri Says:

    AMO o Garden. É exatamente o estilo de restaurante que eu sinto falta de não ter em maior número na Zona Sul do Rio. A comida é sempre boa (não necessariamente fantástica), o ambiente é agradável, o serviço atencioso. o couvert que já vale por uma refeição, caso a ideia seja ficar mais bebericando do que jantando.

    Mas cadê o ovo poche? Cade a banana? Picadinho pra mim tem que ter esses dois itens!!

    Boa viagem e tomara que vc passe por Niagara on the Lake, quero conhecer num futuro próximo!

  2. Júlio Castro Says:

    Comemoramos a conquista da copa de 70 lá no Garden.Na época bebia Chivas escondido mas nesse dia meu pai liberou geral.Saudades.

  3. Lauro Says:

    Adorei seu comentario, pois o Restaurante Jangadeiros de teresópolis acabou porque meu pai que era proprietário faleceu com 62 anos de insuficiencia renal enão tivemos mais cabeça para administrar! Abraçosssssssssssss

  4. Lauro Says:

    O Restaurante permanece até hoje em ruínas , pois foi tudo abandonado pelo nosso sofrimento !!!

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