Archive for outubro \09\UTC 2012

Aviso de férias: em novembro o blog volta à ativa

09/10/2012

Olá, pessoal.
Este blog está saindo de férias hoje. Embarco em pouco mais de uma hora para a Itália, para 20 dias de viagem pelo Piemonte, pela Toscana e pela Úmbria, talvez dando uma esticada até Milão.
No caminho, muitas trufas, como essas aí da foto, Barolos, Barbarescos, como esse aí da foto, e muito mais.

No dia 30 eu tô de volta, e retomo os posts cariocas – e flumineses – deste Rio de Janeiro a Dezembro, que este ano ficará fora do ar por quase todo o mês de outubro.

Obrigado pela companhia.

Até lá.

Um abraço

 

 

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Aproveito para deixar aqui os links do índice de posts, com grande parte de tudo o que já saiu aqui.

 

 

 


28 (ou Pastoria)

Aboim

Academia da Cachaça (com menu de Rodrigo Oliveira e Beth Beltrão)

Aconchego Carioca (com o Bar da Frente) – e o quase surreal (e delicioso) perupatolinha, e mais: uma década de Aconchego Carioca

Adega Flor de Coimbra

Adegão Português

Adega Pérola

Adonis

Alameda

Albamar (que saudades do antigo…)O velho Albamar (e o novo Albamar)

Alessandro & Frederico

Alfaia

Alloro

Ambre

Amir

Anna (e mais: Ristorante Anna conquista o diploma de “buona cucina 2012″ da Accademia Italiana della Cucina)

Antiquarius (e mais: uma noite no bar, de tapas em tapas e mais um jantar com steak tartar e filezinho de cordeiro, e O Antiquarius não é um restaurante caro, e pode ser até barato, se compararmos com a concorrência atual; e Novidades no Antiquarius: caldinho de bacalhau e acarajé de bacalhau)

Astor

Astrodome +

Azumi (e mais: a perda do Jack Ueda, e mais uma visita ao japa, e mais O Azumi sempre surpreende)

Baalbeck

Bar Brasil

Bar da Amendoeira

Bar da Dona Ana (ou Galeto 183)

Bar da Dona Maria

Bar da Frente (com o Aconchego Carioca)

Bar do Gomez (ou Armazém San Thiago)

Bar da Portuguesa

Bar d’Hôtel

Bar Imaculada

Bar Lagoa

Bar Luiz

Bar Urca

Bazzar (e mais: o novo cardápio de wagyu)

Bazzar Café

Bip Bip

Blason +

Botequim do Jóia

Bottega del Vino

Braseiro da Gávea

Bracarense (e mais: o bolinho Gente Boa, de jiló com linguiça)

Brasileirinho

Bráz (e mais: a edição 2012 do Fora de Série, com ingredientes da Sicília)

Bretagne +

Brigite’s

Cachambeer

Capricciosa

O Caranguejo

Casa Carandaí

Casa da Feijoada

Casa da Suíça

Casa do Alemão

Chez l’Ami Martin

Chico e Alaíde (e mais: um boteco que deveríamos visitar todos os meses)

Cipriani

Clipper

Codorna na Brasa

Cosmopolita

CT Boucherie

CT Trattorie (e um post mais completo, com menu e mais fotos)

Da Brambini

D’Amici

Delirium Café

Doiz

Duo

Eça

El-Gebal

Enchendo Linguiça

eñe (Festival de Jamón para celebrar um ano e um incrível jantar harmonizado)

Enotria por Joachim Koerper

Entretapas (e o Entretapas vai abrir uma filial mais encorpada no Jardim Botânico)

Escola do Pão

Escondidinho

Esplanada Grill (e mais:  o jamón serrano, a morcilla e o beef tea; e amorcilla “dulce o salada”)

Ettore

Faria

Fasano al Mare (mais um comparativo Gero x Fasano)

Filé de Ouro

Fim de Tarde

Fogo de Chão

Garden

Gero (e mais: a novidade da temporada, o bollito misto servido aos domingos, e a mesa na cozinha, mais um comparativo Gero x Fasano, o risoto del contadino e o tartar do maitre Alves)

Giuseppe Grill

Gonzalo

Gracioso

Gruta de Santo Antônio (em Niterói)

Guimas

Hare Burguer

Irajá (e o novo menu, lançado em junho de 2012)

Ix Bistrô

João de Barro

Kiosque do Português

La Carioca

La Fiducia

La Forneria

La Goulue

Laguiole (e mais: um fotoblog de um almoço gostoso e criativo)

Leiteria Mineira

Le Pré Catelan (e mais: o novo menu do restaurante e a mesa no escritório do Roland Villard e o  novo cardápio do Le Pré Catelan, com preços mais baixos, e o chef patissier que acaba de chegar: o último jantar antes das férias de Roland Villard)

Le Vin (e mais: uma noite italiana no Le Vin)

Lorenzo Bistrô

Majórica

Málaga

Margutta (e mais: o restaurante lança menu executivo)

A Marisqueira

Mekong Bar

Meza Bar

Miam Miam

MiniMok

Mosteiro

Nova Capela

Olympe (e mais: um fotoblog do almoço executivo e mais um jantar no Olympe, e a tratoria italiana que o chef Claude Troisgros vai inaugurar; e o palmito pupunha “Os moelle”, um dos maiores pratos jamais criados)

Opus

Original do Brás

Oro (e mais: o novo menu, ainda mais sensacional, de Felipe Bronze)

Osteria Dell’Angolo

Oui Oui

Padaria Bassil

Paladino

Pastoria (ou 28)

Pérgula (e mais: um brunch em família)

Petit Paulette

Pintxo

Pomodorino

Pontapé

Porcão

Q Gastrobar

Quadrifoglio

Quadrifoglio Caffe

Restô

Rio Minho

Roberta Sudbrack (e mais RS: a nova coleção 2011: “Da terra e do Mar” (e um fotoblog com a coleção 2011 da chef). Leia também: ”Quem me navega é o mar” e a matéria para revista a Wish Report da coleção 2010; e mais o menu 2012 da chef; e um jantar inesquecível:  Roberta Sudbrack e Castello di Ama: um encontro grandioso de cores, sabores, aromas e formas)

San Remo (no complexo Lagoon, na Lagoa)

Satyricon

Shin Miura

Stuzzi (e mais: o novo almoço de domingo, o bufê da Mamma)

Sushi Leblon (e mais: as novidades lançadas em agosto de 2010)

Ten Kai

Térèze

Terraço

Terzetto

The Ale House

Universo Orgânico

Venga! (e Venga! parte 2: por Leonardo Azevedo)

Vieira Souto

Yalla by Amir

Zot

OBS.: Restaurantes com a cruz ao lado (+) estão fechados, mas o blogueiro – saudosista que só ele – adora, e os mantém aqui.

Crônicas e reportagens

Roberta Sudbrack e Castello di Ama: um encontro grandioso de cores, sabores, aromas e formas

Porque comemos melhor no Rio do que em São Paulo

Modernismo gastronômico brasileiro

Botecos do Maracanã

Os (ótimos) botecos da Praça da Bandeira

Chef ou cozinheiro?

Feijão dá samba: a relação entre o carnaval carioca e o mais brasileiro dos pratos

Galetos

O dossiê do chope no Rio de Janeiro

O que aconteceria se o fast food encontrasse a gastronomia contemporânea?

Qual é a diferença entre se comer em um restaurante a convite ou pagando?

Restaurantes para uma refeição inesquecível no Rio de Janeiro

Sábado em Benfica

Sugestões afetivas de restaurantes para o Dia dos Pais

Gero x Fasano: qual é o melhor restaurante para um almoço nos dias de semana, o menu mezzogiorno

Uma pensata sobre as personalidades do Gero e do Fasano

O restaurante Mosteiro (e uma pensata sobre o trabalho das assessorias de imprensa e o dos repórteres)

Superchefs: uma noite memorável, histórica – e solidária

Casa do Alemão x Pavelka: quem é melhor?

O que o Alain Ducasse me ensinou sobre os cozinheiros (ou O brilho no olhar faz um grande chef)

A carne é forte: Enquanto grifes tradicionais da gastronomia carioca abrem steak houses, as mais famosas redes paulistas anunciam a chegada ao Rio de Janeiro

Um dossiê amoroso sobre a rabada no Rio de Janeiro

O poder da cura: chefs cariocas descobrem o alho negro, ingrediente versátil que é resultado de um longo processo maturação

Steve Jobs, Garcia & Rodrigues: não entendo tamanha comoção

Alimentação, culinária e gastronomia

Morcilla, mi amor

Baixa gastronomia em alta: os dez melhores bolinhos (e afins) do Rio de Janeiro

Porque comemos melhor no Rio do que em São Paulo

Rio, a capital mundial do bacalhau

Lasagna, amore mio

Putanescas, me aguardem: um mergulho no passado, no amor pelas massas, sonhando com o futuro

Sabor do Brasil, de Alice Granato e Sergio Pagano: um livro lindo e delicioso de ler e de olhar

A arte da cozinha, e a estética da comida: algumas considerações

As cervejas, o coelho e o shoulder steak serrano, e a beleza da surpresa e das novidades à mesa

Comer, e não ter a vergonha de ser feliz, brindar, e brindar, e brindar, a beleza de ser um eterno aprendiz”

La dolce vita: os novos restaurantes italianos  no Rio de Janeiro

Lagoon: drinques e casas muito cariocas com lindas vistas para a Lagoa (e a volta do Waldeck Rocha às coqueteleiras)

Eu também vou reclamar (viva Raul Seixas): muitas vezes o que parece ruim é ótimo

Manjericão, em Teresópolis: a pizzaria que começou a ensinar o carioca a comer pizza, acabando com a piada de paulista

Copacabana, princesinha do bar: comemorando os seus 120 anos o bairro reúne a melhor e mais variada seleção de botequins do Rio de Janeiro

Capricciosa lança mozzarella bar (e quanta diferença da muçarela de antigamente para a mozzarella de agora)

Churrascarias rodízio: (meu) modo de usar, e fazer valer a pena o investimento

O Antiquarius não é um restaurante caro, e pode ser até barato, se compararmos com a concorrência atual

Feijoada completa: receita de bambas

O bolinho Gente Boa do Braca, com jiló e linguiça, e a teoria de que, muitas vezes, dividir é multiplicar (e danem-se os chatos)

Gastronômade Brasil pela primeira vez no Rio de Janeiro: no próximo dia 22, sábado da outra semana, na Reserva Aroeira, em Piraí

Três é mais: trabalhando com poucos ingredientes, nova geração de chefs busca o equlíbrio e a valorização da matéria-prima

Gastronômade Brasil: o amor à comida em um almoço campestre com Roberta Sudbrack em Piraí

Outros índices

De cidades no estado do Rio de Janeiro

Enotria por Joachim Koerper: um dos melhores restaurantes do Rio (e uma pensata reflexiva sobre shoppings, preconceitos e outros temas)

03/10/2012

Gastronomicamente falando, sou um sujeito de muitos preconceitos. Assumo. Tenho, por exemplo, preconceito contra restaurantes a quilo e bufês, de uma maneira geral, a não ser que sejam de saladas, queijos, frios, quiches, pães, com bons azeites e vinagres, legumes grelhados… Tenho preconceito em relação à paella, e foram poucas vezes na vida que um prato desses me comonveu, em ambos os casos eram do tipo negra, feitas com tinta e carne de lulas, com camarões e um toque de aioli, uma delas, em 2004, acho, na ilha de Menorca, em Mahon, onde teria nascido este tipo de molho (mahonesa, em espanhol), outra, bem recente, no Entretapas. Também tenho certo preconceito com salmão, e com truta salmonada: gosto apenas de salmão defumado, e eventualmente posso até comer um salmão cru – claro que a máxima não vale para salmão selvagem do Hemisfério Norte: Alasca, Escócia, Canadá, respeito os seus salmões, mas esses exemplares chilenos safados, que chegam aqui após dias de congelamento, isso quando não são trutas salmonadas, eu desprezo totalmente. Também não acho a menor graça nas tão famosas, badaladas e exaltadas ostras de Santa Catarina. Acho muito fraquinhas, falta sabor. O único mérito é conseguir uma boa distribuição pelo Sudeste, garantindo frescor, abastecimento diário. Mas falta gosto. Troco-as por qualquer ostrinha menor, e selvagem, seja de Cananeia, em São Paulo, seja dos mangues dos arredores de Jericoacoara. Passo batido quando vejo em um cardápio “Temos ostras de Santa Catarina”. Também acho, na maioria dos casos, o arroz branco uma bobagem, que sempre pode ser substituída pela farofa. Quando como uma feijoada não uso uma colherzinha sequer de arroz, só farofa, couve e torresmo, e uma laranjinha, para acompanhar o feijão e as carnes – quando adolescente, até quando pedia um estrogonofe o acompanhamento era farofa, acredite. Claro que isso não vale para um risoto, e mesmo para um arroz à piemontese, coisa que inexplicavelmente eu adoro. Tenho preconceito contra bares prostitutos, que se vendem às cervejarias, como fez o centenário Bar Luiz, abandonando a Brahma, parceira histórica, para vender chope da Sol: eu parei de ir, ainda que ainda seja deliciosa a salada de batatas, com as salsichas, o milanesa fininho, a língua, o kassler e o eisbein. Lamento, perdi o tesão de ir. Quando quero comer comida alemã, ali pertinho encontro o Bar Brasil, esse, sim, tradicionalista no abastecimento dos barris que molham a serpentina centenária, respeitoso ao chope.
Analisando a fundo a questão, acho que poderia passar um dia aqui escrevendo sobre preconceitos com a comida. Tenho preconceito, por exemplo, com toda a cozinha mexicana, da forma que ela se apresenta mundo afora, nessa denominação americana de tex-mex, uma gordureba desprezível. No México é outra coisa, mas esse modelo sem caráter, moldado em nachos, frijoles refritos, tacos, nachos e encilladas eu acho um horror… Tenho preconceito com restaurantes de pescados que não têm peixe do dia, e com lugares que vendem incontáveis variedades: liguado, cherne, badejo, atum, salmão, truta, tudo em um só cardápio só, tudo congelado, nada fresco. Tenho muitos preconceitos à mesa.
Mas, taí, quer saber um preconceito que não tenho? É com restaurantes de shopping. Antes ter um bom restaurante em shopping que só os medíocres. Para início de conversa, a melhor refeição da minha vida acho que foi no Per Se, em Nova York, que funciona  em um shopping. E, sem sombra de dúvidas, uma das melhores refeições do ano foi no Makoto, do Bal Harbour, shopping chique ao norte de Miami.
Eventualmente, por conveniência, como em restaurantes de shopping, e ainda bem que encontro um Ráscal, um Joe & Leo’s, uma Cavist, um Le Vin, um Antiquarius Grill, um Ct Brasserie, um Bazzar Café, um Alessandro & Frederico e mesmo um Outback nesses lugares. Imagine se não tivesse? O Chez Michou, e o Royal Grill, o The Fifities, uma Focaccia. São muitos lugares que prezo. Enfim…
Para mim, só existe um defeito inadmissível em um restaurante: comida ruim. O resto é possível admitir.

Todo esse manifesto é para dizer que o Enotria, agora chamado Enotria por Joachim Koerper, é hoje um dos melhores restaurantes do Rio. Está no CasaShopping, e eu seria capaz de ir até lá para almoçar mesmo que não estivesse interessado em comprar móveis ou objetos de decoração. Uma boa refeição é o que mais importa para mim.

Já acompanho o trabalho do chef Joachim Koerper há algum tempo. Primeiro lendo a respeito de sua casa portuguesa, o Eleven. Depois, me informando a respeito do restaurante, através de reportagens e relatos de amigos. E com a entrevista que ele deu ao Jô, simpatizei muito com este alemão casado com uma brasileira, que trabalhou na Espanha até chegar a Portugal. Hoje ele se divide entre a terrinha e o Brasil.

Fui me animando com as palavras positivas. Estava seguro de que a chegada do chef foi algo ótimo para a gastronomia carioca E fui visitar o restaurante seguro de que teria um lindo almoço.
Mas sabe que foi melhor do que pensei?
Começo de setembro. Era um lindo domingo desses de inverno. Sol. Temperatura agradável.
Tudo bem, estava lá convidado pela casa. Canso de visitar restaurantes a convite. Dá para ver quem é muito bom, quem é bom, quem é mediano e quem é ruim. No fim das contas, mesmo quando vou por minha conta a um restaurante, muitas vezes sou reconhecido. Conheço chefs, maitres e garçons. A rigor, mesmo pagando, seja a lazer, seja em almoços de trabalho, seja por curiosidade de visitar um lugar novo, dá no mesmo. Enfim, isso é outro assunto. E esse texto tá ficando demasiadamente autorreflexivo. Mas só queria falar da cozinha do Enotria, e de como gostei do restaurante.

O salão é claro, com muitas janelas, do jeito que eu gosto (apreço, em parte, devido à necessidade de fotografar). Logo à entrada existe uma espécie de lojinha, onde vemos os muitos produtos que carregam o nome do chef, de azeite e flor de sal até uma respeitável linha de vinhos, três alemães, de uma vinícola da região natal do chef, e três portugueses, produzidos no Alentejo, por duas vinícolas diferentes (para ler sobre os vinhos, clique aqui). Simpático.

Foi bom começar o almoço bebericando um bom espumante nacional, recebendo uma cestinha de pães quentinhos,…

…além de dois produtos da casa, uma garrafa de azeite e um potinho de flor de sal.

Foi divertido esperar o amuse bouche, que foi muito mais que um afago para a boca. Tartare de atum com sorbet de wasabi, vol-au-vent de frango, patê de salmão, creme de baroa. Bonito, gostoso, apropriado para se começar uma refeição.

Com um branco alemão na taça, um Riesling Spatlese 2007 com assinatura do chef (muito bom por sinal), que acompanhou de maneira sublime…

…o foie gras envolto em maçã verde com um toque de beterraba, e uma espécie de financier de especiarias. Bravo. Prato delicado. Vinho bem escolhido pelo sommelier português Jorge Nunes, que ao fim deste almoço já se colocou a meu ver entre os melhores da cidade. Na hora de se começar um almoço com foie gras eu não gosto muito de Sauternes e Tokaji, acho muito doces. Sempre digo: um Riesling desses alemães são perfeitos. O Jorge acertou na mosca.

Com o mesmo vinho na taça, tive a maior surpresa da tarde. Um prato lindo, alegre, colorido: uma sopa de pimentões vermelhos e amarelos com creme de abacaxi e cavaquinha. Brilhante. Além de bonito.

Em seguida, apresentando a influência lusitana de maneira clara, um belo lombo de bacalhau com risoto de vinho do Porto.

Bom, muito bom, ainda mais com o Syrah, novamente assinado por Joachim Koerper, produzido pela Herdade da Malhadinha Nova, ótima vinícola alentejana, com ótimo restaurante, que por sinal tem a consultoria do chef.

O bacalhau estava muito bom, e se entrosou perfeitamente com o vinho. Mas realmente formidável estavam as costeletas de cordeiro, macias e saborosas muito saborosas, servidas sobre uma espécie de polenta rústica. Estava bom demais,…

…ainda mais com o vinho, produzido por Paulo Laureano, dentro do projeto Chef’s Collection (a Mônica Rangel, do Gosto com Gosto, também tem o seu vinho feito em parceria com o grande enólogo português).

Pensava na vida e me distraí vendo o sommelier usar um aparelho que trouxe de Portugal para facilitar o uso do tenaz,…

… uma ferramente portuguesa para tirar a rolha de vinhos do Porto com parte do gargalo, através de choque térmico.

Era um Graham’s Quinta dos Malvedos Vintage 1999. Um Porto Vintage é sempre um Porto Vintage, a glória engarrafada, uma bênção líquida.

Olha como fica a garrafa.

Em seguida, um pratinho que abrilhantou a apreciação do vinho: um brulée de queijo dos Açores, um pouco de queijo da serra, damasco, goiabada, nozes, frutos secos.

Estava perto do fim. Quando achava que não poderia haver nada tão grandioso quanto o Porto, eis que chega um Ortega Beerenauslese 1999, novamente assinado pelo chef. Delirei. Vinhaço-aço-aço-aço. Realmente muito bom.

Olha só a cor. Linda demais.

Depois, a pré-sobremesa: o savarignan com sorbet de abacaxi, para limpar a boca. Assim resumi na minha caderneta o lugar depois de receber esse prato: “Um restaurante que pensa nos detalhes, que usa boa matéria-prima, e que as trata com criatividade e boa técnica.”

Tão bom era o vinho que até ofuscou a etapa seguinte, um macarons de caramelo, um sorvete cremoso e uma espécie de pamonha brulée (desculpe, mas não tomei nota, e essa refeição já tem mais de um mês para eu conseguir resgatar esses detalhes do fundo da memória).

Quando eu pedi o café ele veio acompanhado do ato final da cozinha, um divertido pratinho com telha de amêndoas, bombons, uns biscoitinhos e até uma balinha embalada em palha.

Saí de lá certo de que o Enotria é um dos melhores restaurantes do Rio, especialmente para os que querem uma refeição que fuja do óbvio.

Achei realmente sensacional. No nível das grandes cozinhas cariocas. Parabéns ao chef. Parabéns ao sommelier. Foi um lindo almoço.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

O celestial cozido servido aos domingos no Antiquarius em uma palavra: amém

01/10/2012

Resumo da ópera: três travessas repletas de delícias, o ambiente fino, uma refeição dominical gloriosa e que custa menos que churrascaria rodízio

O cozido do Antiquarius merecia tombamento como Patrimônio Imaterial do Rio de Janeiro. Do Brasil. Da Humanidade, pela Unesco. Rabada, joelho de porco, língua defumada, morcela, paio, farinheira, peito bovino, costelinha suína salgada… E arroz puxado no caldo. E grão-de-bico al dente. E pirão, glorioso pirão. E mais meio repolho, tiras de cenoura, batata baroa, folhinhas de hortelã. Pimenta malagueta. Vinho tinto. A glória. Amém.
Já sabia desde muito que o prato é servido no restaurante do Leblon aos domingos, como reza a liturgia semanal na tradição carioca. Sábado é dia de feijoada, domingo, de cozido. Mas foi numa visita recente, ao lado do amigo Pedro Mello e Souza, sentado no balcão do bar, petiscando, e saboreando a vida, algo tão bom de se fazer ali (noite que rendeu este post aqui) que a vontade de provar o cozido do Antiquarius bateu forte pela primeira vez. Sou fã desta receita de raízes portuguesas. Mas foi o meu camarada que fez cair a ficha, mostrando certa indignação.
– Mas como você nunca provou o cozido daqui? Tem morcela e farinheira, língua defumada. É um clássico – disse ele, certamente usando um discurso muito mais refinado, como sempre, do que essa sentença pobre que minha memória permitiu lembrar.
Ele falou com tamanho entusiasmo, isso eu me lembro bem, que logo decidi: no meu próximo domingo livre no Rio eu iria visitar o restaurante, e já sabia o que pedir. Acabei me rendendo a duas novidades, porque jornalista também não resiste a uma novidade (o bollito misto do Gero, e o bufê da Mamma do Stuzzi). Hoje, enfim, estive lá.

Claro que aceitei o couvert, porque jamais vou rejeitar aquele conjunto de petiscos, com rissóis de camarão impecáveis, bolinhos de bacalhau idem, para serem lambuzados em bom azeite da Fundação Eugênio de Almeida, o pratinho de queijo de ovelha cremoso aquecido, o queijinho frescal, o patê, e o pratinho de berinjela cujo nome não sei, além das torradinhas.


Depois, ainda chegou o pão de alho, e o garçom ofereceu uma cesta de pães.
Pedi um Paulo Laureano, em homenagem ao grande enólogo, com quem já estive ali no próprio Antiquarius, casa sempre visitada por ele, como fazem tantos português, quando visitam o Rio de Janeiro. Custou R$ 87. Diante do que se vê por aí, vinho de categoria como esse, por esse preço, aqui no Rio, é coisa rara de ver: em muitos lugares sequer existem garrafas a menos de R$ 100, e muitas vezes não há nada realmente digno por menos de R$ 150.
Embora já soubesse o que pedir, claro que dei uma olhada no cardápio: só de curiosidade (aproveitei e tirei fotos, que estão lá no fim do post).
Vi coisas apetitosas, como o pato à bigarrada, ou seja, com laranja, e não me pergunte o porquê, e o arroz de garoupa com lagostins e hortelã da horta. Bochecha de porco com favinhas é covardia. Quase pedi um camisa 10, ou seja, o camarão à Zico, com crustáceos grandes, afogados na tijelinha de barro fervente, com pimentões e alho frito: show de bola. Havia muitas tentações. Sabendo que a porção do cozido era farta, resisti a todas, e fui direto ao ponto.


O vinho descia redondo. O couvert dava o prazer de sempre. Pedi até uma porção extra de rissóis.


Eis que chega o cozido. Na verdade, chegava apenas a primeira travessa, com os vegetais: meio repolho, baroa, aipim, tirinha de cenoura, e algo que fui incapaz de identificar, mas que parecia abobrinha. Folhinhas de hortelã: toque de gênio, dando frescor, temperando o conjunto. Demais.

Depois, mais uma panela, desta vez contendo o filé, na minha opinião: morcela, farinheira, língua defumada, peito de boi, rabada. Acredite, ainda chegou um terceiro continente de comida.
– Aqui são as carnes brancas.


Meus Deus. Obrigado. Eram costelinhas de porco salgadas, joelho de porco, frango… Senti um frio na espinha, um prazer. É a travessa que aprece bem no meio da foto.
Nos três casos, aquele caldo perfumado e rico, que eu sempre usava para regar o prato, que dava sabor ao pirão.


Logo, então, o garçom voltou. Primeiro, ofertando o arroz, saboroso, sensacional, puxado aparentemente no próprio caldo do cozimento. Servido de maneira elegante e certeira, em caçarola de cobre. Depois, trouxe grão-de-bico, cozido bem al dente, como manda a regra. Enfim, em seguida, chegou o pirão. Perfeito.


Quando comecei a provar as carnes e vegetais, suas diferentes texturas, cores e sabores, fiquei pensando. Só falta uma boa pimenta. E logo veio o pote de malagueta.
Hummmm, mas bem que podia ter um ovo cozido picadinho (ou passado no espremedor de batatas, como na incrível pizza carbonara da Bráz, uma técnica simples, que abrilhanta uma receita: pode provar aí e me diz). Pensei isso como exercício de imaginação, de como aquelo que estava parecendo perfeito poderia melhorar. Bem, em se tratando de Antiquarius, caso eu queira, sei que basta pedir, que eles atenderão o pedido, e quando voltar lá, talvez, assim farei.
Depois do primeiro prato montado, continuei a me servir: mais língua, mais morcela, mais farinheira, mais peito, mais cenoura, mais batata baroa. Mais pimenta.
Como dá para ver lá embaixo, custa R$ 89. Você ainda acha mesmo que o Antiquarius é caro? Ah ah ah ah. Faça-me rir.
Não sei bem como, mas resisti bravamente às sobremesas. Também sequer pedi café, e os biscoitinhos amanteigados que me lembram a infância. Enquanto isso, o Flamengo perdia para o Fluminense. Ainda bem que troquei o futebol pelo almoço. Fiz muito bem. Botinelli batendo pênalti é indigestão na certa. Almoço no Antiquarius é felicidade na certa.

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Agora, o cardápio (para ver as fotos em tamanho maior, para facilitar a leitura, especialmente as “Sugestões do chefe” basta clicar nelas).

A primeira página.

A segunda página.

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