O celestial cozido servido aos domingos no Antiquarius em uma palavra: amém

Resumo da ópera: três travessas repletas de delícias, o ambiente fino, uma refeição dominical gloriosa e que custa menos que churrascaria rodízio

O cozido do Antiquarius merecia tombamento como Patrimônio Imaterial do Rio de Janeiro. Do Brasil. Da Humanidade, pela Unesco. Rabada, joelho de porco, língua defumada, morcela, paio, farinheira, peito bovino, costelinha suína salgada… E arroz puxado no caldo. E grão-de-bico al dente. E pirão, glorioso pirão. E mais meio repolho, tiras de cenoura, batata baroa, folhinhas de hortelã. Pimenta malagueta. Vinho tinto. A glória. Amém.
Já sabia desde muito que o prato é servido no restaurante do Leblon aos domingos, como reza a liturgia semanal na tradição carioca. Sábado é dia de feijoada, domingo, de cozido. Mas foi numa visita recente, ao lado do amigo Pedro Mello e Souza, sentado no balcão do bar, petiscando, e saboreando a vida, algo tão bom de se fazer ali (noite que rendeu este post aqui) que a vontade de provar o cozido do Antiquarius bateu forte pela primeira vez. Sou fã desta receita de raízes portuguesas. Mas foi o meu camarada que fez cair a ficha, mostrando certa indignação.
– Mas como você nunca provou o cozido daqui? Tem morcela e farinheira, língua defumada. É um clássico – disse ele, certamente usando um discurso muito mais refinado, como sempre, do que essa sentença pobre que minha memória permitiu lembrar.
Ele falou com tamanho entusiasmo, isso eu me lembro bem, que logo decidi: no meu próximo domingo livre no Rio eu iria visitar o restaurante, e já sabia o que pedir. Acabei me rendendo a duas novidades, porque jornalista também não resiste a uma novidade (o bollito misto do Gero, e o bufê da Mamma do Stuzzi). Hoje, enfim, estive lá.

Claro que aceitei o couvert, porque jamais vou rejeitar aquele conjunto de petiscos, com rissóis de camarão impecáveis, bolinhos de bacalhau idem, para serem lambuzados em bom azeite da Fundação Eugênio de Almeida, o pratinho de queijo de ovelha cremoso aquecido, o queijinho frescal, o patê, e o pratinho de berinjela cujo nome não sei, além das torradinhas.


Depois, ainda chegou o pão de alho, e o garçom ofereceu uma cesta de pães.
Pedi um Paulo Laureano, em homenagem ao grande enólogo, com quem já estive ali no próprio Antiquarius, casa sempre visitada por ele, como fazem tantos português, quando visitam o Rio de Janeiro. Custou R$ 87. Diante do que se vê por aí, vinho de categoria como esse, por esse preço, aqui no Rio, é coisa rara de ver: em muitos lugares sequer existem garrafas a menos de R$ 100, e muitas vezes não há nada realmente digno por menos de R$ 150.
Embora já soubesse o que pedir, claro que dei uma olhada no cardápio: só de curiosidade (aproveitei e tirei fotos, que estão lá no fim do post).
Vi coisas apetitosas, como o pato à bigarrada, ou seja, com laranja, e não me pergunte o porquê, e o arroz de garoupa com lagostins e hortelã da horta. Bochecha de porco com favinhas é covardia. Quase pedi um camisa 10, ou seja, o camarão à Zico, com crustáceos grandes, afogados na tijelinha de barro fervente, com pimentões e alho frito: show de bola. Havia muitas tentações. Sabendo que a porção do cozido era farta, resisti a todas, e fui direto ao ponto.


O vinho descia redondo. O couvert dava o prazer de sempre. Pedi até uma porção extra de rissóis.


Eis que chega o cozido. Na verdade, chegava apenas a primeira travessa, com os vegetais: meio repolho, baroa, aipim, tirinha de cenoura, e algo que fui incapaz de identificar, mas que parecia abobrinha. Folhinhas de hortelã: toque de gênio, dando frescor, temperando o conjunto. Demais.

Depois, mais uma panela, desta vez contendo o filé, na minha opinião: morcela, farinheira, língua defumada, peito de boi, rabada. Acredite, ainda chegou um terceiro continente de comida.
– Aqui são as carnes brancas.


Meus Deus. Obrigado. Eram costelinhas de porco salgadas, joelho de porco, frango… Senti um frio na espinha, um prazer. É a travessa que aprece bem no meio da foto.
Nos três casos, aquele caldo perfumado e rico, que eu sempre usava para regar o prato, que dava sabor ao pirão.


Logo, então, o garçom voltou. Primeiro, ofertando o arroz, saboroso, sensacional, puxado aparentemente no próprio caldo do cozimento. Servido de maneira elegante e certeira, em caçarola de cobre. Depois, trouxe grão-de-bico, cozido bem al dente, como manda a regra. Enfim, em seguida, chegou o pirão. Perfeito.


Quando comecei a provar as carnes e vegetais, suas diferentes texturas, cores e sabores, fiquei pensando. Só falta uma boa pimenta. E logo veio o pote de malagueta.
Hummmm, mas bem que podia ter um ovo cozido picadinho (ou passado no espremedor de batatas, como na incrível pizza carbonara da Bráz, uma técnica simples, que abrilhanta uma receita: pode provar aí e me diz). Pensei isso como exercício de imaginação, de como aquelo que estava parecendo perfeito poderia melhorar. Bem, em se tratando de Antiquarius, caso eu queira, sei que basta pedir, que eles atenderão o pedido, e quando voltar lá, talvez, assim farei.
Depois do primeiro prato montado, continuei a me servir: mais língua, mais morcela, mais farinheira, mais peito, mais cenoura, mais batata baroa. Mais pimenta.
Como dá para ver lá embaixo, custa R$ 89. Você ainda acha mesmo que o Antiquarius é caro? Ah ah ah ah. Faça-me rir.
Não sei bem como, mas resisti bravamente às sobremesas. Também sequer pedi café, e os biscoitinhos amanteigados que me lembram a infância. Enquanto isso, o Flamengo perdia para o Fluminense. Ainda bem que troquei o futebol pelo almoço. Fiz muito bem. Botinelli batendo pênalti é indigestão na certa. Almoço no Antiquarius é felicidade na certa.

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Agora, o cardápio (para ver as fotos em tamanho maior, para facilitar a leitura, especialmente as “Sugestões do chefe” basta clicar nelas).

A primeira página.

A segunda página.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

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2 Respostas to “O celestial cozido servido aos domingos no Antiquarius em uma palavra: amém”

  1. Dri Says:

    Sério que diz no cardápio que esse cozido é INDIVIDUAL? Ainda mais depois do couvert, mesmo eu que sou uma grande gulosa seria capaz de dividir tranquilamente essa porção de comida!

    • brunoagostini Says:

      Dri, acho que eles cobram por pessoa, mas não estou certo. O que chegou à minha mesa daria para três, até quatro. Sobrou muita coisa.

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