O croquete e a crônica

Croquetes da Casa do Alemão

Um croquete, por incrível que pareça, tem a receita da crônica: redimir as sobras. Mais do que apenas a primeira sílaba, a crônica e o croquete compartilham a transformação dos restos. A carne assada, moída, vira croquete no dia seguinte. A vida passada, triturada, espremida, vira crônica nos anos depois. A relação entre a crônica e o croquete me parece tão óbvia e clara que tenho  a certeza de que alguém já escreveu sobre o assunto. Uma crônica, claro, e não um poema ou romance. Porque o croquete é a crônica comestível. E a crônica é o croquete gramatical.
À crônica pode até faltar assunto, não podem faltar as palavras, as letras. Do mesmo modo, o croquete não pode ser servido frio. Deve estar quente e crocante. A crônica fica melhor quando fria, cromada pelo relógio, que marca o espaço em que passa o tempo. Mas a crônica não tem tempo, nem pretérito, nem gerúndio, nem futuro. A crônica não tem receita, o croquete tem várias.
O croquete alimenta, mata a fome do corpo. A crônica arrebenta, dilacera as entranhas. Da alma. Ou conforta, alegra e faz rir. Depende da crônica, e principalmente, do leitor. Pra fazer croquete escolhemos a carne, os temperos, o óleo para fritar. A crônica acontece. Não escolhemos os ingredientes. É o assunto que escolhe o autor.
O gênero do croquete é masculino, acepipe de ascendência germânica, massa de carne e temperos. O gênero da crônica é feminino, categoria literária que se encontra entre o nada e coisa nenhuma, o que por sua vez pode ser tudo. Croquetes podem ser pequenos, tipo coquetel, médios ou grandes. A crônica não tem tamanho. Se for pequena, é uma croniqueta, croquetinho de vida, coquetel de pensamento, miúdos, mas que podem ser imensos. Porque ideias podem ser mais que grandes, infinitas. Assim como a boa crônica, que é imortal. O croquete estraga, azeda, mesmo se congelado, com o passar do tempo. A crônica apura. Não que ela melhore com o tempo. Nós é que melhoramos com o tempo, e se nós melhoramos, melhora a crônica. Porque quem lê não apenas engole a literatura. Mas deglute. Rumina. Vomita. E volta a comer, de garfo e faca, e se quiser jogando mais mostarda, na crônica. Porque o texto é de quem lê. O croquete é de quem come. Só um pode comer cada croquete. A crônica alimenta muitas pessoas. Mas só as que querem ler.
A crônica é o croquete de vida, moída, empanada e frita, exposta na vitrine, com o tempero do tempo.

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3 Respostas to “O croquete e a crônica”

  1. Ligia Ghizi Says:

    Gostei muito! “O gênero da crônica é feminino…conforta, alegra e faz rir…apura…alimenta…”
    Me deliciei com essa crônica, Bruno!
    Abração.

  2. Jorge Khauaja Says:

    Além de fera na enogastronomia, está surgindo um novo cronista! Parabéns Bruno!
    Abraços,
    Jorge

  3. Paulo José Says:

    Muito bom! Homenagem ao centenário de Rubem Braga?

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