O melhor da cozinha: o encontro de Minas Gerais com a Itália

Lasanha de cordeiro com cardoncello do Quadrifoglio, autoria do chef (mineiro, claro) Kiko Faria

A sublime lasanha de cordeiro com cardoncello do Quadrifoglio, autoria do chef (mineiro, claro) Kiko Faria

Com todo o respeito às delícias apimentadas da Bahia, à cozinha sertaneja de todo o Nordeste, aos peixes e às frutas amazônicas, ao caldo de piranha, ao arroz com pequi e às demais delícias da culinária do Centro-Oeste, ao churrasco gaúcho, às vertentes da nossa cultura culinária derivadas da colonização, como as receitas alemães do Sul do país, o galeto al primo canto, da Serra Gaúcha, e mesmo as raízes lusitanas da mesa carioca, os bolinhos de bacalhau e seus aparentados. Peço a devida vênia, com respeito e admiração a todos, para declarar que entre as tantas cozinhas regionais deste Brasilzão a minha preferida é a mineira. É a favorita porque é a mais aconchegante: a costelinha de porco assada lentamente, o tutu, o pão de queijo, e os queijos de leite cru das montanhas, as linguicinhas e tantas outras gostosuras compõem um cardápio caseiro, com jeito de casa de avó, com fortes aspectos fazendeiros, rurais. Comida mineira me acalenta, afaga.
Peço a mesma licença aos franceses, e sua rica “gastronomie”, aos queridos portugueses, e seu receituário farto e deliciosamente sedutor, aos espanhóis, tanto os da escola clássica quanto aos mais ousados alquimistas da cozinha moderna. Árabes, persas, toda a comunidade do norte da África, em especial aos marroquinos. Chineses, indianos, japoneses, vietnamitas, tailandeses, indonésios. Argentinos, peruanos, mexicanos. A todos, peço para que não se ofendam. Suas cozinhas são maravilhosas. Mas a Itália tem a culinária mais fantástica do mundo, entre os países. As massas, os queijos, as carnes assadas longamente, os pescados… Os tomates, as trufas brancas de Alba, tantas delícias estonteantes, a valorização dos ingredientes, as conservas, enfim, uma loucura, uma orgia culinária. Assim como a mineira, em relação ao Brasil, a cozinha da Itália é a melhor porque é acolhedora, confortável, saborosa, entre tantos outros predicados. A Itália é o máximo, e sua cozinha está entre as principais razões disso. Não à toa, pizzarias, trattorias, osterias e cantinas estão entre os restaurantes mais difundidos pelo mundo. Porque em toda a sua simplicidade, são divinos.
Enfim, questão de gosto pessoal.
Então, se Minas tem a melhor cozinha do Brasil, e a Itália a mais deslumbrante do mundo, isso explica porque Ivo Faria, do Vecchio Sogno, em Belo Horizonte, e Kiko Faria, do Quadrifoglio, no Rio, estejam entre os chefs de cozinha mais admiráveis do Brasil, e estão também entre os que mais me encantam (temos, ainda, o Jefferson Rueda, de São Paulo, que nasceu e cresceu em São José do Rio Pardo, interior do estado, num ambiente rural que tem muito a ver com Minas Gerais). Mas, como dizia, Kiko Faria e Ivo Faria, que não são parentes, estão entre os meus chefs preferidos. Em grande parte porque são mineiros, e se dedicam à gastronomia italiana, e esse cruzamento do DNA de Minas com a riqueza gastronômica da Itália faz bem à alma.
Jantei uma vez, há muitos anos, no Vecchio Sogno, em BH. E foi sublime. Estive, ainda, como o Ivo em alguns eventos gastronômicos Brasil afora. E, além de fera na cozinha, ele é uma grande figura, engraçado, alto astral. Escrevendo este texto, fiquei com vontade de pegar o primeiro avião para a capital mineira, e ir até lá para um jantar. Sem deixar de visitar, é claro, o Xapuri, e fazer uma lista de botecos a visitar.
Ao Quadrifoglio tenho ido com regular frequência. E a cada visita sou surpreendido por pratos novos, que seguem a linhagem italiana, mas sempre com um temperim mineiro muito evidente. As carnes assadas longamente, por exemplo. Como são boas.

Quadrifoglio - costelinha
A costelinha de porco alcança um grau de perfeição desconcertante.
Na minha última visita, provei uma lasanha de cordeiro (foto que ilustra o abre deste post) que chega a me emocionar só de lembrar.

Quadrifoglio - cabrito
E o cabrito assado, servido em redução de seu próprio molho, faz a gente dar piruetas de alegria internamente. Sabe aquele sujeito que diz que não gosta de cabrito, porque tem gosto forte, coisa e tal. Apresente para ele este cabrito. Se o caso for o gosto forte, e não aversão total ao filhote do bode, tenho certeza de que ele vai ficar espantado com a delicadeza, o sabor equilibrado, a grandeza deste prato.
Entre tantos ótimos restaurantes italianos que temos hoje no Rio (Terzetto, Gero, Pomodorini, Duo, Fasano al Mare, D’Amici, Cipriani, Da Brambini, La Fiducia, Margutta) declaro modestamente que, para mim, o Quadrifoglio é o melhor.
Resumo da ópera: chef mineiro fazendo cozinha italiana pode ser a comunhão entre as duas melhores cozinhas do mundo, a da roça e a italiana, que se confundem e entrelaçam.
Viva Minas Gerais, viva a Itália!!!

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

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6 Respostas to “O melhor da cozinha: o encontro de Minas Gerais com a Itália”

  1. Fernando Lucas Prudente Martins Says:

    Bruno, como sempre seus textos possuem muito mais que informação, tem emoção, entrega e alma… e esse seu jeito apaixonado de escrever consegue também o feito de ser equilibrado, ponderado e justo. Isso tudo sem ficar em cima do muro.. ..parabéns!!!

    • brunoagostini Says:

      Puxa, Fernando, obrigado. Fico imensamente feliz e me sentindo recompensado com comentários assim. Obrigado mesmo. Um abraço

  2. Renato Rangel Says:

    Maravilha de matéria, são as cozinhas que mais gosto. O trabalho da fusão destas citadas são realmente de emocionar. Parabéns aos chefes e a você Bruno, pela matéria. Abração

  3. Gianna Borges de Carvalho Reis Says:

    Bruno estou a procura de restaurantes na calabria e na sicilia, pois vou pra la em outubro, e acabei me deparando com sua matéria. Realmente palavras que nos fazem viajar junto com o gosto da comida delicadamente explicada em suas palavras. Pena que sou de SP e nao vou nem a BH nem no Rio. Mas se tiver alguma dica para o sul da Italia, agradeço.
    Parabéns.
    Gianna

    • brunoagostini Says:

      Olá. Obrigado pela leitura. Por ora, posso te recomendar fortemente uma visita ao Attimo. Um abraço

  4. Aline Cristina Says:

    Compactuo integralmente com a sua preferência culinária!!! Sou mineira, descendente de italianos e vivo no Rio, adoros os seus posts! Tenho experimentado várias dicas !

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