Eça: um restaurante quase francês, com tempero belga e matéria-prima brasileira

A viagem à França foi mais cansativa, intensa e, felizmente, mais produtiva do que eu poderia imaginar, e não deu tempo para preparar nenhum postzinho para este blog, como eu previa inicialmente, e nem nos dias seguintes ao retorno, como eu não poderia imaginar. Porém, agora sob a inspiração francófila do roteiro pela Côte d’Azur, com paradinha estratégica em Paris, na volta, retomamos o assunto, e nos próximos dias o tema aqui vão ser restaurantes franceses, ou quase isso (e seguindo o mesmo raciocínio, depois da série gaulesa eu quero fazer uma sequência de posts sobre as casas italianas do Rio: no sábado que vem embarco em direção ao norte do país, passando por Milão, Verona e outras cidades por lá).

Eça

Quase isso, porque hoje o Eça entra na pauta deste blog novamente. Porque o chef Fredéric de Meyer seguramente está entre os melhores do Rio, transitando com desenvoltura entre a cozinha clássica com raízes europeias, fincada na tradição francesa, e os pratos de perfil mais autoral, usando essa técnica adquirida em sua Bélgica natal para criar pratos impecáveis explorando ingredientes brasileiros, parte deles usando matéria-prima orgânica, muitas vezes de origem carioca, ou fluminense, sejam os pescados sempre frescos, sejam as verduras e legumes de origem serrana.

Mas, como eu ia dizendo, o Eça é quase um restaurante francês. Quase porque é assim classificado por guias e afins. Mas, tecnicamente, me parece, sim, um restaurante belga. O chef, nascido, criado e formado na Bélgica, mostra porque o seu país tem uma das maiores concentrações per capita de estrelas Michelin, se não for a maior entre todas.

Tenho a sorte de almoçar ali com feliz regularidade. Entre outras razões porque o Eça está entre os restaurantes mais concorridos do Rio para encontros de negócios, devido à sua localização central, ambiente fino, além da cozinha impecável e variada, e o serviço infalível, comandado pela Nina.

Eça 1 - canapé

Recentemente estive ali três vezes, em dois almoços de trabalho, e numa outra ocasião, a convite da assessoria de imprensa da casa. Assim, pude percorrer o menu com alegria e distinção, alternando receitas novas, com clássicas da casa. No Eça, tudo sempre começa com delicados canapés, que divertem minha boca, com massas leves e saborosas que variam regularmente: pastinhas de azeitona, de atum, de queijo de cabra, tartares de peixes, ervinhas, vegetais se alternam  ali em cima.

Eça 2 - azeite etc

Depois, há bons pães sempre quentinhos, e que passeiam pelo salão regularmente, além de ótimo azeite Punta Lobos, manteiga de qualidade, flor de sal. Das últimas vezes que lá estive, uma novidade: castanhas caramelizadas com mel e gergelim. Feitas ali, como tudo na casa. Delícia.

Eça 3 - sopinha

Há sempre uma sopinha, mimo do chef, a nos confortar. Esta era de baroa, mas já vi, e provei, de cenoura, de batata com alho poró, entre tantas outras.

Eça 4 - terrine de queijo de cabra

No almoço que fui conhecer as novidades, só olhei o menu para cumprir o protocolo. Deixei a escolha dos pratos a cargo do chef. Primeiro, terrine de queijo de cabra com legumes orgânicos, preparados de diversas maneiras. Os tomatinhos vinham crus, as cenouras laminadas, e havia conservinhas tipo picles de vegetais tipo baby. Uma delícia, uma delicadeza.

Eça 5 - Château Les Tuileries

Para acompanhar adequadamente, o Château Les Tuileries, de Entre-Deux-Mers, Bordeaux, um refrescante e aromático corte de Sauvignon Blanc e Sémillon.

Eça 6 - mini Prosecco

Depois, abrimos um divertido prosecco, servido em garrafinha de 187 ml…

Eça 7 - ceviche

…para poder encarar a acidez do ceviche, com peixe fresco (não me lembro mais qual, mas era de carne branca, magra e delicada) alegremente temperado com arroz crocante, brotinho e, ulalá, uma geminha de ovo de codorna, deliciosamente indecorosa.

Eça 8 - Tierra Andina Sauvignon Blanc 2011

Depois, a Sauvignon Blanc retornou à mesa, desta vez sozinha na garrafa, e de origem chilena, em versão vegetal e cítrica, para…

Eça 9 polvo com mousseline de inhame com coco tomatinhos confitados

… escoltar um primoroso polvo com mousseline de inhame com coco tomatinhos confitados. Um desses pratos aconchegantes, que nos instigam a repeti-lo quantas vezes formos capazes.

Eça 10 - Tomero Torrontés 2010

Embora já fosse outono, quase frio, a tarde ensolarada inspirava os brancos, e a escolha do Tomero Torrontés por parte da Nina foi precisa.

Eça 11 - cavaquinha com molho de moqueca e mousseline de baroa defumada

O aromático vinho argentino acompanhou com brilhantismo a cavaquinha com molho de moqueca e mousseline de baroa defumada. Preciso dizer alguma coisa?

Eça 12 - Casa Rivas Carmenère 2010

Em seguida, continuamos pelo Mercosul, cruzando a Cordilheira novamente, em direção ao Chile, pátria do Casa Rivas Carmenere.

Eça 13 - Paleta de cordeiro em crosta de ervas com salada de feijão e iogurte

Cumpriu bem o seu papel de dar ainda mais moral à carne, uma paleta de cordeiro em crosta de ervas com salada de feijão e iogurte, prato de impecável execução, com essa leve pegada árabe, e uma leveza sedutora.

Eça 14 - maçã nectarina abóbora e crumble

Hora das sobremesas, uma das especialidades do chef. E não pense que a doçaria do Eça, um dos pontos altos da casa, fica só nos chocolates, ingrediente no qual o chef Frederic de Mayer reforça a sua origem belga: provei um trio que mostra que o chef sabe jogar com outras matérias-primas tão bem quanto com o cacau. Primeiro, uma delicada combinação, leve e refrescante, de  maçã, pêra, nectarina, abóbora (em forma de sorbet, acredite) e um crumble, pra dar um cro croc.

Eça 15 - Tom sobre tom coco etc

Depois, outra sobremesa pouco doce, leve e delicada, uma composição tom sobre tom, à base de coco.

Eça 16 banana doce de leite algodão doce

Parti para o abraço, com alegria infantil, no encerramento de gala, mais fruta, delicadeza e charme, brincadeira de criança, quermese, afago comestível em forma de bananinhas grelhadas com doce de leite, lâmina de chocolate (belga, claro), financier de avelã e algodão doce, rememorando circo, Daniel Azulay, e cinema de domingo com filme dos Trapalhões. Tão bom e divertido que até lembrei da filha: Maria precisa provar isso!

Eça 17 - café

Nem era ainda o encerramento. Porque se tem um lugar que eu jamais recuso o café, este lugar é o Eça. Porque além de servir espressos ótimos, eles vêm sempre acompanhados das melhores telhas de amêndoas da cidade, do Brasil. Indispensável pedir, ainda, uns chocolates do chef, que faz bombons perfeitos, porque ninguém nasce na Bélgica por acaso.

Fato é que sempre saio do Eça feliz.

E tenho a sorte de voltar frequentemente. Depois deste almoço de gala, nem passaram-se dez dias, e já estava lá eu de volta ao Eça, desta vez para um almoço de trabalho, com diretores de um grupo hoteleiro inglês, gente que soube escolher muito bem o lugar do encontro, obrigado.

Mais preocupado em conversar do que em fotografar, cumpri novamente todo o ritual do início, saboreando canapés, pães quentinhos mergulhados em bom azeite, ou derretendo a boa manteiga, ligeiramente salpicados com flor de sal, bebi a sopinha, brindei.

Eça 18 - polvo

Para começar, repeti o polvo, porque este é “Um desses pratos aconchegantes, que nos instigam a repeti-lo quantas vezes formos capazes”. E vou repetir sempre.

Eça 19 - cordeiro

Depois, já que o clima era de rever pratos queridos, fiz isso em dobro, pedindo o lombo de cordeiro em crosta de ervas acompanhado pela explosiva frigideira de palmito, abobrinha e batata, algo magistral e sublime em toda a sua simplicidade. No Eça temos uma possibilidade interessante: a de escolher algumas carnes e peixes, e acompanhamentos variados para eles. O lombo de cordeiro é velho conhecido, e acho que provei pela primeira vez há exatos dez anos, em 2003, quando trabalhava ali ao lado, e ia almoçar no Eça ao menos uma vez por mês, um presente que eu me dava assim que o salário éntrava na conta (sem falar em outros tantos almoços de trabalho). Já a frigideira com os três vegetais eu descobri há cerca de três ou quatro anos, e é outra combinação que não me canso de repetir. Ponto preciso dos ingredientes, al dente, crocantes, com sabor tostado, boa dosagem de sal. Novamente, a simplicidade em uma de suas melhores expressões.

Depois, o de sempre: um doce, naquela tarde de chocolate, o café e seus acompanhantes. Mas não fiz fotos.

Nesses pouco mais de dez anos de frequência assídua, tenho uma certeza: o Éça é infalível, e reflete muito bem a personalidade do chef. Fréderic é um sujeito delicado e simpático, honesto, inteligente, irreverente também, enfim, um cara querido e gente boa, que tem atividades sociais, busca ingredientes locais e é muito trabalhador (chega cedo ao restaurante, e quase todas as noites vai cozinhar na casa de alguém, em eventos privados, porque é um dos mais requisitados no Rio para esses serviços, e não é difícil entender porque).

Gosto tanto do Eça, e do Fréderic, que termino este post com vontade de almoçar lá. Pena que hoje é sábado, e o restaurante no subsolo da H Stern da Avenida Rio Branco só abre de segunda a sexta, para almoço, além disso, escrevo de Teresópolis.

Mas semana que vem eu tô lá.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

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2 Respostas to “Eça: um restaurante quase francês, com tempero belga e matéria-prima brasileira”

  1. feraprumar Says:

    O melhor jornalista gourmet da cidade visitando esse restaurante que é um verdadeiro oásis no Centro do Rio de Janeiro só poderia produzir um texto assim: emocionante, vibrante, pungente e rico de detalhes, sabores e saberes.
    Sempre consideramos voltar ao Eça, pena que seu horário de funcionamento nos limite a desfrutá-lo como merece…sem pessa, sem hora para voltar ao trabalho…daí vamos muito menos quanto gostaríamos.
    Parabéns pelo post… que alimentou nossa alma enquanto esperamos pela oportunidade de voltar.

  2. Simon Moskal Says:

    aonde fica e o telefone
    schimele@imagelink.com.br

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