Um coelho na Teresópolis-Friburgo e a língua grelhada do Ten Kai: histórias gastronômicas de Maria

ten Kai - língua

A língua grelhada do Ten Kai: delícia

Essa história começa há pouco menos de dois anos, nas montanhas. Passeava com a Maria, prestes a completar seis anos, e com a sobrinha, com quase sete, pela Teresópolis-Friburgo, quando paramos para almoçar na Birosca Romana di Sandro, um restaurante italiano que funciona dentro de um posto de gasolina, no Vale Feliz. Adoro este lugar em toda a sua simplicidade. Faz uma cozinha caseira, com cardápio sedutor, do tipo bom, bonito e barato, e já escrevi sobre ele aqui (para ler, clique aqui e aqui). Massas, polentas, pizzas, enriquecidas por molhos gostosos, e carnes de longo cozimento, compõem um receituário que muito aprecio. Não me lembro o que pedimos de entrada naquela tarde. Acho que foi polenta com ragu de carne. Mas jamais esquecerei do prato principal. Não por ele em si, que estava muito bom, mas sim pelo que se seguiu depois. Bem, foi a primeira vez que a Maria comeu coelho, e a sobrinha também. Adoraram. 

Depois do repasto, que estava delicioso, fomos para a casa de amigos, Raul e Karina, e suas filhotas praticamente na mesma faixa etária da Maricota, Luana e Bebel. Num dado momento, passei pelo corredor, e escutei a conversa das meninas, que falavam alto, e gargalhavam. Diante de assunto tão atraente, não pude resistir à cafajestagem de escutar o papo por detrás da porta. A filha se vangloriava de ter experimentado o coelho, para espanto das amiguinhas, chocadas provavelmente com o ato maldoso de comer bichinho tão simpático. Foi quando a Maria jogou mais pimenta na brincadeira.
– Ah, mas vocês não sabem. Meu pai come língua, língua de boi. Que nojo!!!
– Eca, que nojo. Eca! – bradaram as irmãs, em uníssono.
Eu ri muito por dentro, mas achei que era hora de intervir. E me meti na conversa.
– Ah, gente, mas língua é muito bom, uma delícia. É um dos pratos que mais gosto.
– Ah, não, papai, é muito nojento.
– Maria, é muito bom. Um dia, vou te dar um pedaço de língua, dizer que é carne comum, você vai provar e, garanto, vai adorar.
Ela colocou as mãos na cintura, e disse com toda a convicção do mundo.
– Você não vai fazer isso, pai, você sempre me diz o que está me dando para comer.
Ela sabia o que estava dizendo. Jamais daria algo para ela comer sem dizer o que é. Nunca fiz, nunca farei. Ao menos enquanto ela for criança, porque pregar peça do gênero em adultos não é tão grave assim.
– Maria, é claro que eu nunca vou fazer isso. Tô só implicando. Um dia, Maria, vou te levar em um dos meus dois restaurantes japoneses preferidos no Rio, o Azumi ou o Ten kai. Eles fazem uma língua grelhada, fininha. Tenho certeza de que você vai adorar. Vamos?
– Ah, papai, não sei.
O assunto não morreu ali. Gostei tanto da história, que sempre contava aos amigos, e Maria ficava cheia de vergonha ao escutar a narrativa. Depois disso, continuamos indo a restaurantes, e a mocinha nunca deixou de provar as coisas. Adora polvo, vieiras, mas também miojo, pipoca e hambúguer. Odeia trufas. Atum cru acha uma delícia, e adorou provar cavala, em Búzios, até por causa do nome do peixe. Enfim, de lá para cá foram muitos e muitos momentos gostosos à mesa, comendo em casa ou em restaurantes finos, em botequins e em hotéis, no Rio, em Teresópolis, em Petrópolis, em Friburgo, em Búzios…
Provamos muita coisa, mas a língua era uma carta na manga, e eu fazia questão que ela provasse pela primeira vez no Azumi ou no Ten Kai, por ter a absoluta certeza de que ela adoraria, e que assim perderia o preconceito com a deliciosa iguaria.
Não deu outra. Na noite de sábado, depois de muita farra no Parque dos Patins, fomos jantar no Ten Kai. Tivemos um longo e lindo menu, com detalhes que vou deixar para detalhar no final de semana, senão este post ficará demasiadamente longo.
O que importa é que no meio de uma degustação memorável, temperada por saquês deliciosos e o interesse da pequena pelas iguarias japonesas, pedimos uma porção de língua. Com aquele pauzinho para crianças, com armação de plástico que facilita o manuseio, ela provou a língua. Levou a boca o primeiro hashi com uma engraçada cara de nojo, quase pavor, que logo se desfez.
– Hummmm… É  bom, papai. Muito bom mesmo. Parece churrasco. Quero mais um.
E ela foi comendo. Eu, provei dois ou três. Deixei para ela a porção, comeu tudo, não sobrou nem um pedacinho. Provou com o molho, de soja, gengibre e óleo de gergelim, segundo creio. Achou bom, mas preferiu sem. Também adorou a borboletinha de cenoura.

Para o prato principal, comeu arroz com ovo e camarão. Adorou.

Ten Kai - Maria e o brownie

E encerrou com um indecente brownie com sorvete, para que nem tudo naquela noite fosse tão exótico assim para a menina, que curtiu muito sentar na esteira, com a mesa na altura do chão, e achou o máximo a salinha privativa com tatame, ocupada por um grupo de amigos.
– Papai, esse foi um dos melhores restaurantes que eu já fui na vida. Quero um dia comer na salinha.
Fiquei contente com o comentário. Adoro o Ten Kai. Fiquei orgulhoso por ela ter provado a língua, e tantas outras gostosuras.
Fomos embora felizes. Acho que eu ainda mais do que ela.

Para ler mais: Um jantar em família no Ten Kai, parte 2: saquês, pescados e alegrias

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

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