La Mole: tudo igual, nós é que mudamos

Maria está com sete anos, quase oito. Quando eu tinha essa idade, e até o início da adolescência, ali ao longo dos anos 1980, o La Mole era um dos restaurantes mais famosos e desejados da cidade. Lembro-me bem do alvoroço que era quando os meus pais diziam que iríamos jantar lá, o mesmo acontecia nas famílias dos amigos de prédio. Era uma alegria, uma felicidade, comer no La Mole.
Esse histórico afetivo foi uma das razões que escolhi o La Mole para almoçar com a filha na segunda-feira, na minha semana de folga. Quando chegamos, contei à Maria que o La Mole era um dos restaurantes mais incríveis de minha infância. Ela olhou bem, mas acho que não acreditou. O La Mole não tem pinta de grande restaurante, e de fato não é. Mas cumpre o que promete: ser o que é, e isso significa um cardápio italiano mesclado a pratos característicos de antigamente, como estrogonofe, e eventualmente alguns criados por eles mesmos, como o filé ao molho madeira com champignons e arroz à piemontese, clássico dos clássicos.
Um dos trunfos do La Mole para alguém da minha geração, nascida nos anos 1970, é ser o que sempre foi, o que permite que a gente revisite sabores infanto-juvenis com incrível manutenção do perfil original.

La Mole - couvert 2

Parte do encantamento que o La Mole exercia na criança gulosa que eu fui era o couvert, que hoje me parece pesado, gorduroso e banal, mas em um tempo em que esta etapa da refeição geralmente significava um copinho com bastões de cenoura e aipo imersos em gelo, um pratinho com bolinhas de manteiga e umas azeitonas, quem sabe um patê, além de uma cestinha de pães muitas vezes dormidos, a seleção do La Mole era um espetáculo. Não que fosse tão diferente assim, mas era mais simpático, e até hoje o couvert do La Mole tem devotos fervorosos. Trazia, e ainda traz, para início de conversa, um pratinho com linguiça calabresa frita, e outro com salame e muçarela, além de uma cestinhas de pães com grissini, pastinhas (patê, molho rosé e de queijo), além de ovinhos de codorna, azeitonas verdes e manteiga. Hoje enxergo este conjunto com certo desdém, ainda mais porque os ingredientes não são lá grandes coisas, mas essa combinação já fez me muito feliz outrora.
Maria até curtiu… Comeu aquele pãozinho redondinho, que sonhava em ser um brioche, e também a torradinha inspirada na chamada Petrópolis, com queijo ralado e manteiga, além da pizza bianca. A linguicinha fez certo sucesso com ela, que comeu até a muçarela absolutamente sem graça (depois que descobri a mozzarella, a imaculada, branquinha, qualquer muçarela, amarelada, gordurosa e grosseira, é algo sem graça).

La Mole - filé ao molho Madeira
O prato principal não poderia ser outro naquela ocasião mnemônica. Filé ao molho madeira com cogumelos e arroz à piemontese, que é servido com batatinhas portuguesas (acho que no meu tempo não tinha batata, não).
Estava bom, exatamente como eu imaginava, a mesma ciranda de sabores, aquele molho denso e escuro, de sabor forte e inconfundível, que me faz crer que é o mesmo cozinheiro preparando o prato até hoje, com umas fatiazinhas de champignon em conserva, combinação que seria uma versão carioca do filé ao Marsala, prato típico italiano, feito com este vinho siciliano. Neste caso, a compilação italiana junta norte e sul do país, porque a carne é servida com um arroz à piemontese, cremoso, com queijo, que seria inspirado nos risotos do norte da Itália, na falta de arroz carnaroli e outros ingredientes fundamentais para o preparo desta receita.
Estava realmente bom, dentro dos meus parâmetros. Em termos técnicos, o filé enrolado em fatia de bacon foi bem grelhado, estava no ponto certo, macio, rosadinho por dentro, e o molho trazia o sabor que se espera dele. O arroz estava cremoso, bem dosado no sal, melhor que muito risoto metido a besta que já comi, de arbório, no ponto errado de cozimento, e as batatinhas, crocantes, bem secas, sem gordura excessiva.
Foi, sim, um almoço interessante. Maria curtiu, nem de longe o prazer que eu tinha na idade dela, mas visivelmente gostou. Eu, por consequência, e saudades da infância, também.
Postei uma foto no Instagram, e me perguntaram:
– E aí, o La Mole continua igual? – escreveram algo assim no post da foto.
O La Mole continua o mesmo há anos, há décadas. Nós é que mudamos.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

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2 Respostas to “La Mole: tudo igual, nós é que mudamos”

  1. Maysa Alexandrino Says:

    Hehehe, fato… Não sou carioca mas quando me mudei para o Rio, há uns 6 anos atrás, o La Mole foi uma das primeiras experiências gastrônomicas por aqui. O couvert, inclusive. Hoje, depois de, digamos, aprimorar minhas frequências gastronômicas, não consigo mais ir ao La Mole. Acho as coisas muito pesadas e gordurosas. Algumas coisas conseguimos fazer melhor em casa… Para outros casos, sou muito mais o Lamas, no Flamengo.
    Mas o saudosismo é algo inerente ao ser humano e revisitar faz parte do ato saudosista.
    Uma delícia momentos em família assim… 🙂

  2. Nathasha Says:

    Amei o post!!O La Mole fez parte da minha infância, e na década de 80 era o máximo jantar la. Não consigo contar as inúmeras alegrias que tive em família na unidade da Tijuca! Aposto no aperfeiçoamento, gosto de mudanças e o La Mole não pode ser tao ruim assim se continua resistindo por todos esses anos!!

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