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Um coelho na Teresópolis-Friburgo e a língua grelhada do Ten Kai: histórias gastronômicas de Maria

02/08/2013
ten Kai - língua

A língua grelhada do Ten Kai: delícia

Essa história começa há pouco menos de dois anos, nas montanhas. Passeava com a Maria, prestes a completar seis anos, e com a sobrinha, com quase sete, pela Teresópolis-Friburgo, quando paramos para almoçar na Birosca Romana di Sandro, um restaurante italiano que funciona dentro de um posto de gasolina, no Vale Feliz. Adoro este lugar em toda a sua simplicidade. Faz uma cozinha caseira, com cardápio sedutor, do tipo bom, bonito e barato, e já escrevi sobre ele aqui (para ler, clique aqui e aqui). Massas, polentas, pizzas, enriquecidas por molhos gostosos, e carnes de longo cozimento, compõem um receituário que muito aprecio. Não me lembro o que pedimos de entrada naquela tarde. Acho que foi polenta com ragu de carne. Mas jamais esquecerei do prato principal. Não por ele em si, que estava muito bom, mas sim pelo que se seguiu depois. Bem, foi a primeira vez que a Maria comeu coelho, e a sobrinha também. Adoraram. 

Depois do repasto, que estava delicioso, fomos para a casa de amigos, Raul e Karina, e suas filhotas praticamente na mesma faixa etária da Maricota, Luana e Bebel. Num dado momento, passei pelo corredor, e escutei a conversa das meninas, que falavam alto, e gargalhavam. Diante de assunto tão atraente, não pude resistir à cafajestagem de escutar o papo por detrás da porta. A filha se vangloriava de ter experimentado o coelho, para espanto das amiguinhas, chocadas provavelmente com o ato maldoso de comer bichinho tão simpático. Foi quando a Maria jogou mais pimenta na brincadeira.
– Ah, mas vocês não sabem. Meu pai come língua, língua de boi. Que nojo!!!
– Eca, que nojo. Eca! – bradaram as irmãs, em uníssono.
Eu ri muito por dentro, mas achei que era hora de intervir. E me meti na conversa.
– Ah, gente, mas língua é muito bom, uma delícia. É um dos pratos que mais gosto.
– Ah, não, papai, é muito nojento.
– Maria, é muito bom. Um dia, vou te dar um pedaço de língua, dizer que é carne comum, você vai provar e, garanto, vai adorar.
Ela colocou as mãos na cintura, e disse com toda a convicção do mundo.
– Você não vai fazer isso, pai, você sempre me diz o que está me dando para comer.
Ela sabia o que estava dizendo. Jamais daria algo para ela comer sem dizer o que é. Nunca fiz, nunca farei. Ao menos enquanto ela for criança, porque pregar peça do gênero em adultos não é tão grave assim.
– Maria, é claro que eu nunca vou fazer isso. Tô só implicando. Um dia, Maria, vou te levar em um dos meus dois restaurantes japoneses preferidos no Rio, o Azumi ou o Ten kai. Eles fazem uma língua grelhada, fininha. Tenho certeza de que você vai adorar. Vamos?
– Ah, papai, não sei.
O assunto não morreu ali. Gostei tanto da história, que sempre contava aos amigos, e Maria ficava cheia de vergonha ao escutar a narrativa. Depois disso, continuamos indo a restaurantes, e a mocinha nunca deixou de provar as coisas. Adora polvo, vieiras, mas também miojo, pipoca e hambúguer. Odeia trufas. Atum cru acha uma delícia, e adorou provar cavala, em Búzios, até por causa do nome do peixe. Enfim, de lá para cá foram muitos e muitos momentos gostosos à mesa, comendo em casa ou em restaurantes finos, em botequins e em hotéis, no Rio, em Teresópolis, em Petrópolis, em Friburgo, em Búzios…
Provamos muita coisa, mas a língua era uma carta na manga, e eu fazia questão que ela provasse pela primeira vez no Azumi ou no Ten Kai, por ter a absoluta certeza de que ela adoraria, e que assim perderia o preconceito com a deliciosa iguaria.
Não deu outra. Na noite de sábado, depois de muita farra no Parque dos Patins, fomos jantar no Ten Kai. Tivemos um longo e lindo menu, com detalhes que vou deixar para detalhar no final de semana, senão este post ficará demasiadamente longo.
O que importa é que no meio de uma degustação memorável, temperada por saquês deliciosos e o interesse da pequena pelas iguarias japonesas, pedimos uma porção de língua. Com aquele pauzinho para crianças, com armação de plástico que facilita o manuseio, ela provou a língua. Levou a boca o primeiro hashi com uma engraçada cara de nojo, quase pavor, que logo se desfez.
– Hummmm… É  bom, papai. Muito bom mesmo. Parece churrasco. Quero mais um.
E ela foi comendo. Eu, provei dois ou três. Deixei para ela a porção, comeu tudo, não sobrou nem um pedacinho. Provou com o molho, de soja, gengibre e óleo de gergelim, segundo creio. Achou bom, mas preferiu sem. Também adorou a borboletinha de cenoura.

Para o prato principal, comeu arroz com ovo e camarão. Adorou.

Ten Kai - Maria e o brownie

E encerrou com um indecente brownie com sorvete, para que nem tudo naquela noite fosse tão exótico assim para a menina, que curtiu muito sentar na esteira, com a mesa na altura do chão, e achou o máximo a salinha privativa com tatame, ocupada por um grupo de amigos.
– Papai, esse foi um dos melhores restaurantes que eu já fui na vida. Quero um dia comer na salinha.
Fiquei contente com o comentário. Adoro o Ten Kai. Fiquei orgulhoso por ela ter provado a língua, e tantas outras gostosuras.
Fomos embora felizes. Acho que eu ainda mais do que ela.

Para ler mais: Um jantar em família no Ten Kai, parte 2: saquês, pescados e alegrias

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

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Mira, na Casa Daros: programa gostoso para se fazer em família

01/08/2013

No jornalismo, o lide clássico é um período direto, escrito com clareza, que deixa o leitor a par da notícia: quem?, quando?, como?, onde? e por que?.

Porém, há espaço para aberturas de reportagens feitas com o chamado nariz de cera, quando o texto desvia do assunto principal (muitas vezes pra encher linguiça mesmo) ou faz uma pensata reflexiva, sobre temas afins, ou não.
Assim, peço licença para começar a escrever sobre o meu lindo almoço de sábado no Mira tergiversando.

Mira - Maria e o suco

Meu nariz de cera é afetivo, e meu causou certo espanto. Almoçava eu alegremente com a filha, que bebia um gostoso suco de melancia. Quando chegou o meu prato, pedi uma taça de vinho, para escoltar o kebab de cordeiro, compondo também melhor a fotografia.

Mira - kebab 2

Fiz uns cliques sem a taça, e comecei a esperar a chegada do garçom com a garrafa. Para puxar assunto com a menina, e pra valorizar meu trabalhoso ofício, que muita gente encara como diversão, mas que faço com cuidado e responsabilidade, e que não é menos desgastante que outras profissões, ao contrário até, eu falei.
– Viu só, filha, como meu trabalho não é moleza. Tenho que ficar fotografando, escrevendo, montando cenário para ter uma imagem mais bonita – disse, convicto.
A resposta estava na ponta da língua.
– Ah, pai, mas você vai para a Disney…

Para uma menina de sete anos, viajar pelo menos uma vez por ano para os parques da Flórida a trabalho parece ser um emprego dos sonhos.  Aleguei que prefiro ir à França e à Itália, que sonho visitar Hong Kong e Cingapura, que gostaria imensamente de voltar ao Japão, e que há tantos outros lugares que acho mais interessantes, de modo que, pra mim, ir para a Disney (sem ela, que fique claro, porque com ela é uma delícia) não é tão legal assim. Desconfio que meu discurso, sincero, não convenceu a moça… Mas vamos em frente, um dia ela entente.
Agora, vamos ao lide. Quem? O Mira é o novo restaurante da chef Roberta Ciasca e de Danni Camilo, do Miam Miam e do Oui Oui, dois lugares que gosto muito, também em Botafogo.
Quando? Foi inaugurado há cerca de quatro meses.
Como? O lugar é simpático, com meses bem espaçadas, boa luminosidade, e uma decoração moderna e simples, agradável, confortável. O cardápio busca conciliar pratos leves, muitas saladas, com algumas receitas carinhosas, afagos ao paladar, característica que virou a marca registrada da chef Roberta Ciasca. Confort food mesmo, como é mais conhecido o estilo que é uma mistura da comidinha caseira da vovó e da mamãe com boas sacadas, alguma criatividade (o cardápio completo, e as cartas de bebidas, estão lá no final desse post).

Mira - Casa Daros 2

Onde? Está graciosamente instalado na Casa Daros, em Botafogo, centro cultural que foi uma das melhores novidades do ano no Rio, inclusive por trazer, a reboque, o restaurante, e o café anexo, e uma simpática lojinha.

Mira - palmeiras

Porque? É um lugar bacana para em família, nos fins de semana, para curtir o espaço, apreciar as palmeiras altas, e o prédio, em si, além da imperdível lojinha.
Nariz de cera afetivo e lide prontos, vamos ao que interessa.
Chegamos à Casa Daros, e logo nos instalamos na nossa mesa, no restaurante, que fica no térreo.

Mira - couvert

Com o couvert gostosinho, pedi uma taça de Portônica, drinque de nome autoexplicativo, que combina vinho do Porto branco e água tônica, para alegrar a tarde ensolarada do inverno carioca. Maria foi no suco de melancia.
Um pequeno parêntese: o folheto vermelho é sobre a exposição inaugural apresenta obras emblemáticas de 10 artistas contemporâneos colombianos.

Mira - Meantime IPA

Drinques e cervejas especiais são o forte da parte etílica do cardápio. Depois da flûte de Portônica, fui na Meantime, uma deliciosa IPA. O mais legal é que ainda havia o patê de fígado do couvert, com cebolas carameladas. E ele, servido sobre as torradinhas, finas e gostosas, que compõem o boas-vindas, ficou delicioso com a cerveja. Queria até pedir mais um potinho.

Mira - saladas

Mas resisti, e fui dar uma espiada no bufê de saladas. Resolvi fazer um pratinho. Estava bonito, e as receitas variam sempre. No meu dia, tínhamos uma simples e bem bolada combinação de tomates (secos e frescos) temperados com limão siciliano, e uma outra que tinha couve-flor, brócolis, pimenta dedo-de-moça e vagem, mais uma de penne com abobrinha, hortelã e mozzarella de búfala.

Mira - salada 2

Fiz uma pequeno pot-pourri com um bocadinho de tudo.  Só pra provar. Curti. Leve, fresco, saboroso, saudável.

Maria ficou feliz ao encontrar o menu infantil. E, agora que já sabe ler, tratou ela mesma de escolher o que pedir.

Mira - Maria e a milanesa

Bifinhos à milanesa com purê de batatas e saladinha de tomates.

Mira - milanesa

Um close. Merece.  Prato de criança capaz de agradar um pai, como eu, que acabei por limpar o prato da moça, depois que ela se deu por satisfeita.

Mira - kebab

Eu fui no já citado kebab, e foi a produção exatamente desta foto aí de cima que inspirou o bate-papo que inicia este post. Adorador da cozinha árabe, de uma maneira geral, e das receitas com cordeiro, em particular, curti a minha escolha. Dois discos de carne de cordeiro  moída e bem temperada, com batata assada e batida ao murro, saladinha de vagem e de tomates, fios de cenoura e iogurte.  Boa combinação: leve, equilibrada, gostosa.

Mira - Callia Alta Malbec

Foi bem com o vinho escolhido, Callia Alta Malbec, única opção em taça na carta de poucos rótulos.

Mira - tapioca com doce de leite (1)

Na hora da sobremesa, estava decidido a seguir a recomendação que me fizeram:  a tapioca com doce de leite e farofinha de coco é imperdível. E é mesmo. Maria ficou fitando a deliciosa verrine, enquanto eu trabalhava, clicando, clicando, clicando, para ela ver que isso é trabalho mesmo. Olha a cara de cobiça e admiração. Eu também cobicei e admirei. Pode imaginar o quanto é boa essa composição de a tapioca com doce de leite e farofinha de coco? Para adultos e crianças.

Mira - chocolate

Aí, o garçom trouxe uma simpática sugestão: um bolinho tipo brownie de chocolate bem amargo, fininho, praticamente cremoso, com carolinas. Bom, bem bom, mas ainda melhor com a cerveja Mort Subit, com cereja. Literalmente, a cereja do bolo. Bela combinação. Chocolate e cereja, como se sabe, se dão superbem.

Depois, quando ela viu que eu ia fotografar o cardápio temático, relativo à exposição em cartaz atualmente, ela quis trabalhar.

– Papai, deixa eu fotografar?

Mira - teto

E, então, começou a clicar, e clicar, e clicar. Clicou o ambiente, clicou o gente, clicou o teto…

Mira - eu pelas lentes da Maria

E clicou o pai, com o tal menu. Até que ela leva jeito pra coisa (isso quando não fotografa o teto).

Mira - café (1)

Depois do café com bolinho de fubá…

Mira - Pátio

… passeamos pelo pátio interno e, depois…

Mira - lojinha

… passamos pela lojinha, que é muito bacana, com área dedicada às crianças, cheia de jogos e brinquedos educativos.
Quase ficamos para a visita guiada em família, que acontece nos fins de semana. Mas Maria não quis, e eu acatei. Afinal, fomos ao museu para comer.

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Agora, deixo os cardápios.

Mira - cardápio - comidas

De comidas.

Mira - cardápio - bebidas

De bebidas e drinques.

Mira - carta de cervejas

A carta de cervejas criada por Cilene Saorin.

Mira - carta de vinhos

E, por fim, a carta de vinhos, pequena, mas eficiente.

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