Archive for dezembro \28\UTC 2013

Boni e Amaral lançam “O guia dos guias”, reunindo as suas indicações dos melhores restaurantes do mundo (e algumas histórias de bastidores)

28/12/2013

 

A dupla de autores do livro, lançado este mês pela Casa da Palavra, e que teve o autor deste blog como um dos colaboradores, orgulhosamente

A dupla de autores do livro, lançado este mês pela Casa da Palavra, e que teve o autor deste blog como um dos colaboradores, orgulhosamente

Era final de maio e eu estava às vésperas de uma viagem à Côte d’Azur quando me chamaram para uma reunião com o Ricardo Amaral, que planejava lançar um guia de restaurantes em parceria com Boni, amigo de longa data. Ao saber do próximo destino deste repórter, o assunto logo — e naturalmente — descambou para os melhores lugares para uma refeição naquela região do Sul da França, passando por Saint-Tropez, Nice, Èze e Menton, as principais cidades do roteiro.

— Bruno, se a sua ideia é fazer uma matéria de verão em Saint-Tropez, você precisa visitar o Club 55, uma barraca de praia onde todos se encontram. Um lugar para ver e ser visto, que serve uma boa comida, regada a muito vinho rosé e champanhe, com muita gente bonita. É o lugar. — aconselhou-me Ricardo Amaral.

Dar dicas de restaurantes para amigos faz parte da rotina da dupla de autores, que passou as últimas décadas viajando o mundo atrás da boa mesa. O livro “Boni e Amaral — Guia dos guias” (R$ 49,90), lançado recentemente pela editora Casa da Palavra, em parceria com a Quitanda Cultural, é a compilação, organizada e ilustrada, dessa longa experiência gastronômica, trazendo histórias curiosas de cada restaurante e seus pratos mais emblemáticos. Além de reunir notas e avaliações de outras publicações conhecidas, como os guias Michelin, Repsol e Gambero Rosso, o livro traz informações úteis como endereço, telefone, site e preço médio.

Os restaurantes são divididos em três categorias. “Os 100 + do Mundo” lista a elite da gastronomia mundial segundo os autores, cozinhas de excelência que valem uma viagem.

— Não basta servir uma ótima comida, tem que ser um lugar especial, único e que tenha importância no cenário gastronômico mundial — ressalta Boni.

Já “Os recomendados” são uma espécie de segunda divisão, com grandes apostas da dupla.

— São lugares que podem, um dia, estar na lista dos 100 melhores — diz Ricardo Amaral.

Por fim, é a seleção “Para ver e ser visto”, endereços que — além da boa comida —, também são famosos pelos seus clientes e pela badalação ao redor de suas mesas.

Entre os cem melhores restaurantes listados pelo guia, que no próximo ano ganha uma versão digital e interativa, apenas 11 ganharam a nota máxima, de 20 pontos. Entre eles, o Akelare, em San Sebastián, no País Basco, na Espanha. De todos os cozinheiros do mundo, Pedro Subijana parece ser o preferido de Boni, que diz ser “bruxaria” o que ele é capaz de fazer diante dos fogões.

— O Akelare é espetacular, não tem nada igual. É comida de verdade, com sabor, sem invencionices. Tudo é muito bom. Ele faz um gâteau de rabada com batatas e pimentões que é das melhores coisas que já comi na vida. E ainda tem a vista magnífica — conta Boni, que gosta de preparar em casa suas receitas preferidas, com sucesso, aliás, dizem os amigos.

San Sebastián merece destaque especial no guia, com uma seleção dos seus melhores bares de tapas, concentrados na parte antiga da cidade, como Astelehena, Casa Urola, La Cuchara de San Telmo e Txepetxa.

— É o melhor lugar do mundo para se comer. São dezenas de bares de tapas, um melhor que o outro, e a graça é visitar vários em um mesmo dia — indica Amaral.

Boni, por sua vez, destaca o Japão como um destino essencial para o viajante gourmand.

— É impressionante o que eles fazem lá, em restaurantes pequenos, das mais diversas especialidades, servindo os melhores ingredientes que você possa imaginar, com técnica apurada e uma apresentação impecável. Muitas vezes, especialmente nos restaurantes de cozinha japonesa, reservar é complicado, e é preciso alguém para traduzir os pratos. Mas a comida é fora de série — comenta Boni, ressaltando, ainda, a Dinamarca, país da moda entre os amantes da boa mesa. — Muito se fala do Noma, que é de fato muito bom. Mas a gente foi até lá só para comer, e o melhor de todos os restaurantes de Copenhage foi o Geranium, espetacular.

No total, são 371 restaurantes, nas três categorias. O Brasil está presente com 52 indicações, apenas quatro na lista dos 100 melhores: Olympe e Roberta Sudbrack, no Rio; D.O.M. e Maní, em São Paulo.

Esta reportagem foi escrita para a edição do dia 21/12 do Ela, do jornal O Globo.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Complex Esquina 111, em Ipanema: novidade com cardápio de Fabio Battistella e espaço para pequenos shows

27/12/2013

 

 

Assim, sem fazer muito alarde, abriu as portas há uns dez dias o Complex Esquina 111, em Ipanema, na Redentor com a Maria Quitéria. Como fica ao lado de casa, já estive na casa duas vezes, em ambas para continuar a minha deliciosa pesquisa de campo a respeito dos hambúrgueres cariocas.
O cardápio, criado pelo Fabio Battistella, ex-Meza, e atualmente no Barzinho, de quem sou fã, é um bom sinal. O foco é o mesmo dos cardápios que ele desenvolveu para as suas empreitadas anteriores (Meza, Doiz e Barzinho), comidinhas bem boladas, porções para serem divididas, sanduíches.
São pelo menos três espaços distintos. As mesinhas espalhadas pela calçada, agradáveis para uma noite quente, ou uma tarde fresca de outono; o salão inferior, ao lado do bar, e o salão superior, que não cheguei a visitar, mas desconfio ser menos animado e atraente (menos quando forem acontecer ali pequenos shows intimistas, ou noitadas embaladas a DJs).

Complex Esquina 111 - Instagram
Provei dois hambúrgueres. Recomendo muito este aí de cima, de picanha, a simples e saborosa combinação de pão, carne e queijo, irrigada por boas doses de ketchup Heinz. A foto, como se pode perceber pela baixa qualidade e escuridão, foi roubada do meu próprio Instagram (que, aliás, é @brunoagostinifoto).

Complex Esquina 111
Outro dia, fui provar a porção de minihambúrgueres, com tomate seco, para comer no palitinho. Vale para uma mesa, entre amigos. Mas, inegavelmente, o outro é bem mais interessante.
Como o cardápio ainda vai mudar bastante, como me informou o garçom, acho que nem vale mostrar aqui.
O fato é que o lugar tem ficado bem cheio à noite, com fila e gente em pé do lado de fora. Foi bom, para mim, porque deu um novo ar à área, e movimenta o lugar.
Enfim, não que eu tenha caído de amores pelo lugar, mas me parece mais uma boa novidade para o público jovem que gosta de comer, beber, bater papo e ver gente bonita e interessante. Mas é sempre bom poder apresentar em primeira mão algum lugar novo neste blog. No caso do Complex Esquina 111, a missão está cumprida. Para quem gosta de novidades, uma boa pedida. Vou continuar frequentando a casa e, se for o caso, dou mais detalhes em outro post. Mas só em 2014, claro.

 

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Roberta Sudbrack, uma chef em revista: “Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu” apresenta receitas e histórias dos bastidores e do processo de criação dos pratos

26/12/2013
A capa do novo livro da chef Roberta Sudbrack "Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu" - Reprodução

A capa do novo livro da chef Roberta Sudbrack “Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu” – Reprodução

O nome tem uma carga simbólica, o tempero cheio de molejo, remetendo ao passado, à tropicalidade, à iconografia nacional. Além de destacar um ingrediente que virou símbolo de suas criações culinárias, e acabou se transformando em uma de suas receitas de maior destaque. “Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu”, terceiro livro de Roberta Sudbrack, com lançamento previsto para este mês, reforça a filosofia culinária da chef: a originalidade, o bom gosto e a identidade brasileira. São mais de 150 páginas, apresentando receitas emblemáticas, muitas imagens (algumas de fotógrafos profissionais, como Nana Moraes, e outras tiradas pela própria chef, com o celular, e publicadas no Instagram) e textos de nomes como Ignácio de Loyola Brandão, Carlos Alberto Dória, Cora Rónai e Bia Lessa.

Até o nome da editora tem um sabor verde e amarelo: Edições Tapioca.

— Não quis fazer um compêndio de receitas, o que até posso vir a fazer um dia. Quis o contrário, um livro que mostrasse o processo de criação, o dia a dia na cozinha, a inquietação, a liberdade e a rigidez. Queria que fosse uma leitura divertida e leve, com fotos bonitas, que reunisse prazer e utilidade para atender a vários públicos, desde a dona de casa e os amantes da boa mesa até o estudante de Gastronomia, e aquelas cozinheiras de forno e fogão, uma expressão que eu adoro. Queria até que fosse um livro que não se parecesse com um livro, com linguagem visual de revista, um projeto gráfico moderno, com papel diferente, algo que tivesse relação com o que fazemos — conta a chef.

No total, são 25 receitas, incluindo clássicos como o pato no cuscuz de tucupi; o ravióli de chantilly de batatas e botarga; o aspargo branco em caramelo picante e o camarão com chuchu.

Ao apresentar o modo de preparo de cada prato, Roberta revela alguns segredinhos, dando dicas de maneira didática e informal, como no cozimento da famosa costelinha de porco assada em “baixa temperatura caseira”.

— Os fogões domésticos não têm controle de temperatura, não adianta mandar o sujeito cozinhar a carne por seis horas a 60 °C. Tem que ir lá, abrir, ver como está e, se preciso for, colocar mais azeite e manteiga, para não ressecar. Cozinhar é isso. É amor, é artesanato. É um trabalho de alfaiate, que fazemos sob medida para cada ingrediente, para cada refeição — diz Roberta.

Outra dica que não está no livro, Roberta revelou para os cozinheiros amadores do ELA.

— Mais do que buscar bons fornecedores, crie uma relação com eles. Amizade e confiança. Assim, eles vão te apresentar os melhores produtos, vão guardar aquelas iguarias raras para quando você chegar. Ingredientes de qualidade são determinantes no resultado final — diz.

A versão do camarão com chuchu, prato emblemático que batiza o livro - Foto de divulgação

A versão do camarão com chuchu, prato emblemático que batiza o livro – Foto de divulgação

 

Como cantou Carmen Miranda em uma de suas interpretações mais conhecidas, “Enquanto houver Brasil/ Na hora das comidas/ Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu”. O ingrediente, tão barato e desprezado, é um dos ícones do trabalho de Roberta Sudbrack, que já criou vários pratos usando o legume. Na receita apresentada no livro, a chef recriou este clássico da cozinha carioca numa apresentação delicada, com chuchu e camarão laminados e servidos frios, para contrastar com o molho quente, feito com vinho branco, cascas de camarões, alho-poró e cebola, e um toque de pele de tomate frita.

— No livro, busco a simplicidade e a reflexão, a emoção e a beleza, e vou embutindo nisso a técnica, que é importantíssima, mas não mais do que o próprio ingrediente, que é a base da cozinha. É ela, a matéria-prima, que conduz o meu trabalho, é ela que me leva, e não o contrário, é ela que me inspira — conta Roberta, que dedica o livro “para a Vó Iracema e o Vô Fontoura”.

Mas a cozinha da chef não é feita apenas de ingredientes pouco valorizados, tampouco ela se prende a nacionalismos radicais. Há receitas com iguarias caras, de sotaque estrangeiro, como caviar, foie gras e cardoncello, além de lagosta.

— Não fico focada em nada disso. Quero usar os melhores ingredientes sempre. Isso inclui alguns pouco valorizados, o que não quer dizer que sejam piores. Minha avó me ensinou que não devemos tentar ser o melhor, mas sim fazer o melhor, e essa é uma fonte de inspiração. Preciso dos melhores ingredientes para fazer uma comida de qualidade, não se pode baixar o nível. Mas é preciso respeitar o ingrediente, entendê-lo — comenta.

Como ela escreveu em um dos textos do livro. “Penso sempre que os ingredientes, todos eles, possuem outras possibilidades que muitas vezes não estão óbvias, então reflito sobre isso para chegar a um resultado que seja interessante, sem mascará-lo ou transformá-lo em algo que ele não pediu para ser!”.

A apresentação do quiabo, um dos primeiros ingredientes a serem explorados exaustivamente por Roberta Sudbrack - Foto de divulgação

A apresentação do quiabo, um dos primeiros ingredientes a serem explorados exaustivamente por Roberta Sudbrack – Foto de divulgação

 

O primeiro ingrediente investigado profundamente pela chef, e que acabou se transformando em um símbolo de sua cozinha, foi o quiabo, originando diversas receitas que entram e saem de seus cardápios. As sementes explodem na boca, e são chamadas de “caviar vegetal”. Às vezes, são servidas em potinhos de vidro imersos em gelo picado, como se faz com as cobiçadas ovas de esturjão.

— Tenho um grande prazer ao apresentar esses ingredientes a pessoas que jamais tiveram coragem ou interesse de prová-los — conta. — Sempre vou à mesa cumprimentar os clientes, e muitas vezes, percebo a emoção que eles sentem ao experimentar algo novo. Eles agradecem. Mas o mérito é deles, não meu. O chuchu sempre foi o chuchu, não fui eu que inventei, e então eu digo: “Você gostou, mas não foi por minha causa, foi por sua causa, foi você que se permitiu provar”. É uma alegria para todos na cozinha — lembra a chef, que não se cansa de celebrar o trabalho em equipe.

No livro, os textos vão revelando esse espanto, esse contentamento com a descoberta do novo em um velho (e desprezado) conhecido, muitas vezes jamais provado. Cora Rónai, por exemplo, lembra de quando “enfrentou” pela primeira vez o temido quiabo. A colunista do GLOBO escreveu, encerrando o livro: “… quando o quiabo chegou, encarei o sacrifício. E… estava ótimo! Não parecia quiabo, não tinha consistência de quiabo. Era um vegetalzinho amável e crocante, que eu comeria quantas vezes fosse preciso”.

Já o escritor Ignácio de Loyola Brandão, que fez contato com a chef para escrever a biografia de Ruth Cardoso, se empolgou tanto que acabou escrevendo um texto grande, editado separadamente, como um outro livro encartado. “Comer com Roberta é envolver-se em magia, artimanhas e sonhos”, sentenciou. Ele, que diz ler livros de cozinha “como se fossem romances”, deixa um bilhetinho escrito à mão ao final de seu texto, logo depois de ter provado pela primeira vez a comida da chef: “Roberta, acabei de pensar que valeria até ter vindo a pé”. Ele mora em São Paulo.

Esta reportagem foi escrita para o dia 7/12/2013 para o caderno Ela, do jornal O Globo.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

O divino polvo grelhado com fritas do Le Vin: dica de pai e mãe

23/12/2013
Os tentáculos de polvo, temperados com alho, pimenta dedo-de-moça e cebolinha francesa, com tomate assado, fritas e saladinha: simplesmente perfeito

Os tentáculos de polvo, temperados com alho, pimenta dedo-de-moça e cebolinha francesa, com tomate assado, fritas e saladinha: simplesmente perfeito

Meu pai cansou de me dizer. O polvo grelhado do Le Vin é maravilhoso. Frequentador assíduo do restaurante francês de Ipanema, meu pai praticamente só pedia este prato, composto de alguns tentáculos de polvo, tenros e saborosos, grelhados no azeite, no tempero de pimenta dedo-de-moça, servido com um grande tomate assado, recheado com uma espécie de vinagrete, com cebola e cubinhos de tomate, junto a uma travessa de salada verde e outra de batatas fritas.
Constava do cardápio, mas nem sempre estava disponível, porque dependia do fornecimento. Por conta disso, saiu do manu fixo, e entrou para o time das sugestões.
Mesmo com as enfáticas indicações paternas, mesmo sendo vizinho do Le Vin, e mesmo visitando a simpática casinha da rua Barão da Torre com certa frequência, eu nunca havia pedido o polvo, preferindo me dedicas sempre às receitas de maior acento francófilo. Terrine de campagne, cassoulet, fricassée de champignons à la crème de foie gras, navarin de d’agneau, boeuf bourguignon, soupe à l’oignon, steak tartare, magret de canard, lapin à la moutarde… Realmente, o polvo, mesmo com a dica do pai, não era das minhas preferência quando sentado nas mesinhas de toalha quadriculada azul do Le Vin.
Pois na sexta passada, pela manhã, minha mãe contava da decepção que teve comendo o “pulpo alla gallega” do igualmente vizinho Venga!
– Bom mesmo é o polvo do Le Vin, ai, mas é divino. Peço com a sua tia, e dividimos. Não é bom, Helô?
– Muito bom, sim – confirmou a tia.
Pois aí eu não tinha mais como deixar de pedir o polvo do Le Vin. Tendo que chegar cedo no trabalho na segunda, acabei tendo que descer de Teresópolis para o Rio no domingo, para evitar o trânsito insuportável da manhã de segunda.
Vim animado, porque quando decidi descer a serra ainda no domingo, resolvi também que almoçaria no Le Vin. O pedido já era certo. O polvo.
Cheguei com alta expectativa. Pedi um branco português, para refrescar as papilas gustativas, e prepará-las para o tão esperado prato.
E logo ele chegou. Tentáculos tenros, bem temperados, com pimenta, cebolinha francesa e alho, grelhados no azeite, só a ponto de criar aquela casquinha de sabores intensos do lado de fora, o fundo de panela, os tostadinhos, o tempero bem dosado.
Pedi um pouco de azeite e, mesmo achando que a casa não teria, um pote de pimenta malagueta também, porque acho que um bom polvo sempre pede mais azeite e pimenta.
O prato trazia, ainda, um tomate assado, recheado com uma espécie de vinagrete, com cebola e mais cubinhos de tomate. Bela companhia. Mas, melhor ainda, era a travessa, com fritas de verdade, em formato meia-lua, deliciosamente crocantes, e uma saladinha verde, para jogar sabores levemente amargos e frescor ao conjunto.
No final das contas, batendo um papo com a simpática atendente, ela me deu a boa notícia.
– Resolvemos o nosso problema com o fornecedor, e voltamos a conseguir um bom de qualidade regularmente. Temos tido sempre, e vai até voltar para o cardápio – informou a moça, para a minha alegria e contentamento.
Se é o melhor do Rio, como garante o meu pai, não posso garantir, porque há outros sublimes, especialmente nas cozinhas ibéricas, nos restaurantes tradicionais administrados por espanhóis e portugueses, como a dupla Málaga e Fim de Tarde, que servem o “pulpo alla feria”, simplesmente impecável, o Rio Minho, e sua versão com arroz de brócolis, e o Antiquarius, e sua vistosa cataplana de polvo. Mas, seguramente, o polvo grelhado do Le Vin não apenas é um dos melhores pedidos da casa, mas também um dos melhores pratos do Rio preparados com esse delicioso molusco cefalópode que eu tanto adoro. Tão bom, mas tão bom, que estou até considerando ir lá jantar hoje, para novamente apreciá-lo. Espero não sair tarde do trabalho…

Pois a verdade é essa: devemos sempre prestar atenção aos conselhos de pai e mãe.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Balanço de 2013, perspectivas para 2014: a movimentada e deliciosa cena gastronômica carioca

19/12/2013

Tenho andado contente e impressionado com o que vem acontecendo nas cozinhas do Brasil nos últimos anos. Certo de que ainda falta muita coisa a se desenvolver, o fato é que jamais estivemos tão bem servidos em todos os aspectos e níveis. Vemos o surgimento de uma nova geração de chefs, e agricultores orgânicos plantando ingredientes melhores, diferentes e mais puros. Vemos burocracias medonhas, como a proibição de queijos feitos com leite cru, serem derrubadas. Degustamos vinhos, cachaças e cervejas nacionais de qualidade cada vez melhor, com uma produção consistente espalhada por todo o país. Também acompanhamos a melhora do nível de restaurantes nos quatro cantos desse do Brasil. Jovens se reúnem para cozinhar, comer, beber e celebrar a vida. Sim, falta muita coisa, mas estamos em bom caminho.
E um importante reflexo disso é o mercado de restaurantes. Falando no Rio de Janeiro, este ano de 2013 viu o nascimento de muita coisa interessante. E vem muito mais em 2014, além da Copa do Mundo, e a Olimpíada, dois anos depois, com as comemorações dos 450 anos da cidade chegando, entre os dois eventos, em 2015. É muita badalação. Ao longo deste post, fui colocando os links, para diversas matérias feitas neste blog sobre as casas em questão.

Marco Espinoza - Lima

O chef peruano Marco Espinoza: personalidade do ano

Este ano o Rio de Janeiro ganhou o Lima, casa peruana que logo caiu nas graças da galera, com uma comida muito boa, mas descomplicada, em ambiente descontraído, animado por grupos de amigos e uma ótima carta de drinques (para ler outro post sobre a casa, clique aqui).

Os "chalaquitos de pulpo" do El Chalaco, no Leblon

Os “chalaquitos de pulpo” do El Chalaco, no Leblon

A chegada do chef Marco Espinoza ao Rio foi um grande acontecimento, que já deu filhote, El Chalaco, simpática casa de sanduíches no Leblon. No começo de 2014 ele abre a sua terceira casa no Rio de Janeiro, uma cozinha mais contemporânea e universal, mas certamente com a sua pegada jovial e latina. Para recrutou muita gente na Argentina. O lugar se chamará Tupac, e vai estar na rua Aníbal de Mendonça, em Ipanema, onde era a Fiammetta. A meu ver, Marco Espinoza é a personalidade do ano na gastronomia carioca.

O  lindo, delicioso e original medalhão de lagosta envolto ao jamón Pata Negra com molho rôti trufado e arroz negro do Sá

O lindo, delicioso e original medalhão de lagosta envolto ao jamón Pata Negra com molho rôti trufado e arroz negro do Sá

A abertura do no renovado Miramar, em Copacabana, não só reforçou a atuação do grupo hoteleiro Windsor, do italiano Alloro, na gastronomia e trouxe à luz o trabalho do jovem Paulo Góes, que – pode apostar – vai longe, porque tem talento, visão e gosta de trabalhar.

O pici alla Norcia, do Uniko, no Centro: "um pulinho na Toscana", segundo Nicola Giorgio, um dos sócios

O pici alla Norcia, do Uniko, no Centro: “um pulinho na Toscana”, segundo Nicola Giorgio, um dos sócios

A dupla Dionisio Chaves inaugurou a sua terceira casa, depois do Duo, na Barra, e da Bottega del Vino, no Leblon. Depois de duas visitas ao Uniko, no Centro, fiquei com a impressão que é o lugar, além de ser o mais belo, tem a melhor cozinha entre os três endereços. Um restaurante realmente formidável esse Uniko.

A lagosta grelhada com risotinho de moqueca, um dos melhores pratos do ano, preparado pelo novo chef do Térèze, Philippe Moulin, que chegou este ano ao restaurante do hotel Santa Teresa

A lagosta grelhada com risotinho de moqueca, um dos melhores pratos do ano, preparado pelo novo chef do Térèze, Philippe Moulin, que chegou este ano ao restaurante do hotel Santa Teresa

Lugares já bem estabelecidos, como o Térèze, no Hotel Santa Teresa, ganharam novos chefs, que deram nova cara às suas cozinhas. No caso, o francês Philippe Moulin, que vem fazendo um belo trabalho ali.
Também começou a se destacar, com talento e competência, outro jovem, Thiago Flores, que me proporcionou recentemente a melhor experiência gastronômica que eu já tive na Casa Julieta de Serpa em quase dez anos frequentando o lugar.

O novato Brewteco, no Leblon, manteve o jeitão de botequim, mas com uma carta de cervejas caprichada e bons preços

O novato Brewteco, no Leblon, manteve o jeitão de botequim, mas com uma carta de cervejas caprichada e bons preços

Assim, na encolha, foi inaugurado, no Leblon, o Brewteco, discreta e deliciosa novidade, um botequim com jeito e preço de botequim, servindo comida de botequim, mas apresentando uma lista de cervejas de alta classe.

O Botto Bar, na Praça da Bandeira: 20 torneiras jorrando uma ótima, e variável, seleção de chopes

O Botto Bar, na Praça da Bandeira: 20 torneiras jorrando uma ótima, e variável, seleção de chopes

Ainda no universo dos bares cervejeiros, tivemos a abertura do Botto Bar, com suas muitas torneiras jorrando ótimos rótulos, num ambiente bacana, com comidinhas adequadas, boa música, confirmando a vocação da área da Praça da Bandeira para a gastro-etílico-boemia carioca.

Falando em boteco, o Kadu Thomé, do Bracarense, assumiu as rédeas do Aurora, em Botafogo, dando novo fôlego a este reduto tão tradicional da boemia carioca, e que andava moribundo, ameaçando fechar.

O kebab do Mira: Dois discos de carne de cordeiro  moída e bem temperada, com batata assada e batida ao murru, saladinha de vagem e de tomates, fios de cenoura e iogurte

O kebab do Mira: Dois discos de carne de cordeiro moída e bem temperada, com batata assada e batida ao murro, saladinha de vagem e de tomates, fios de cenoura e iogurte

A cidade ganhou, ainda, alguns lugares de perfil alegre e jovial, falando da comida, da frequência e do ambiente, como os agradáveis Mira, na Casa Daros, das meninas do Miam Miam e do Oui Oui, também em Botafogo, como os dois, e o Boteco DOC, pura simpatia, em Laranjeiras.

Escondido, CA, em Copacabana: cheddarburguer, com o próprio queijo que lhe dá o nome, além de bacon, cebola caramelada no shoyo, alface e tomate caqui grelhado, acompanhado por picles de pepino, onion rings, que eu geralmente gosto mais do que batata frita, e um molho de maionese de leite caseira

Escondido, CA, em Copacabana: cheddarburguer, com o próprio queijo que lhe dá o nome, além de bacon, cebola caramelada no shoyo, alface e tomate caqui grelhado, acompanhado por picles de pepino, onion rings, que eu geralmente gosto mais do que batata frita, e um molho de maionese de leite caseira

Ah, que bom, tivemos outro marco na cultura cervejeira, o bar Escondido, CA, recém-inaugurado em Copacabana, trazendo a reboque uma louvável seleção de hambúrgueres, mostrando que a bebida e a cerveja juntas dão uma liga danada.

O TT Burguer, parceria de Thomas Troisgros com Roni Meisler, da grife Reserva: inaugurado em 2013, na Galeria River, Arpoador, e já com três filiais previstas para 2014

O TT Burguer, parceria de Thomas Troisgros com Roni Meisler, da grife Reserva: inaugurado em 2013, na Galeria River, Arpoador, e já com três filiais previstas para 2014

Falando em hambúrguer, a Galeria River, no Arpoador, ganhou a primeira unidade do carioquíssimo TT Burguer, parceria de Thomas Troisgros com Roni Meisler, da grife Reserva. Thomas, aliás, que este ano consolidou a sua posição de destaque à frente da cozinha do Olympe.

Os canapés do Volta, casa com ambiente e cozinha retrô, da turma do Venga, no Jardim Botânico

Os canapés do Volta, casa com ambiente e cozinha retrô, da turma do Venga, no Jardim Botânico

E como não lembrar do alegre Volta, cozinha e ambiente retrô, simpatia em forma de restaurante, no Jardim Botânico, da mesma turma do espanhol Venga.

O sanduíche ostrix, do Pipo, nova casa de Felipe Bronze, no Leblon:  pão de milho (delicioso) com ostras crocantes empanadas em farinha panko, com maionese de ostras, limão siciliano confit e cebola roxa

O sanduíche ostrix, do Pipo, nova casa de Felipe Bronze, no Leblon: pão de milho (delicioso) com ostras crocantes empanadas em farinha panko, com maionese de ostras, limão siciliano confit e cebola roxa

Felipe Bronze, do Oro, abriu o seu Pipo, no Leblon, e agora prepara mais dois restaurantes, para funcionarem no Jockey Club, a partir de 2014.

Amuse bouche da Enoteca Uno, agora sob o comando de Joachim Koerper: o tartare de atum com caviar de wasabi e o a cocote de ovo com bacalhau e arenque

Amuse bouche da Enoteca Uno, agora sob o comando de Joachim Koerper: o tartare de atum com caviar de wasabi e o a cocote de ovo com bacalhau e arenque

Joachim Koerper, que apareceu por aqui fazendo um belo trabalho no Enotria,  chegou ao Centro do Rio, agora no comando da Enoteca Uno, ali na Praça Mauá que ganhou o MAR e – a reboque – o restaurante  Mauá, do grupo Pax.

O cheeseburguer de picanha do Lado B, o renovado Bazzar Café da Livraria da Travessa, em Ipanema

O cheeseburguer de picanha do Lado B, o renovado Bazzar Café da Livraria da Travessa, em Ipanema

O Bazzar reformulou um dos seus três cafés. Agora, a unidade instalada no mezanino da Livraria da Travessa, em Ipanema, se chama Lado B, com cardápio para lá de simpático, com café da manhã, almoço, lanche-chá-café à tarde e jantar.

O "sashimi" de wagyu, um dos destaques do paulistano Pobre Juan, que chegou este abo ao Rio, e já tem duas unidades na cidade

O “sashimi” de wagyu, um dos destaques do paulistano Pobre Juan, que chegou este abo ao Rio, e já tem duas unidades na cidade

Pensa que acabou. Não, não e não. Recebemos, com alegria, mais grifes paulistanas. Em janeiro abriu as portas o Pobre Juan, no Village Mall, na Barra, acirrando a deliciosa batalha das parrillas, que tem mais capítulos programados para o próximo ano, com a chegada de outro grupo, Corrientes 348, que será inaugurado no Rio no próximo ano. Mal chegou, e o Pobre Juan já tem duas filiais na cidade: no meio do ano foi inaugurada a segunda unidade carioca, no Fashion Mall, em São Conrado.

Saquê no Naga

O japonês Naga: a novidade do ano

E, culminando um ano bom nesta seara, acompanhamos com interesse, curiosidade e imensa alegria a inauguração do japonês Naga, que – acredito eu – vai ter um papel tão importante em relação à melhora futura da culinária nipônica na cidade como a chegada do Gero, em 2002, teve na qualidade do serviço e da “cucina” italiana no Rio de Janeiro. O Naga é, para mim, a novidade do ano no Rio de Janeiro (para ler um post no blog Enoteca, sobre a lista de saquês, clique aqui).
Tivemos, certamente, mais novidades neste ano que vai terminando, mas que me fogem à memória.
Para 2014 teremos, ainda, a inauguração do Ibérico, a segunda casa do pessoal do Entretapas, no Jardim Botânico, um lugar que – desde já – eu tenho absoluta certeza de que vou gostar.
A querida Manu Zappa também programa voos mais altos, e inaugura no Jardim Botânico um café, com cardápio cheio de bossa, como são as aulas dela, no projeto Prosa na Cozinha, que também vão acontecer no espaço.
E, entre tudo que vem por aí, a casa mais aguardada é a estreia carioca do chef Rafa Costa e Silva, depois de alguns aperitivos deliciosos em outros restaurantes, e eventos, como o Gastronômade e o Blue Sessions – Fechado para Jantar, além de ter criado um menu para o Venga. Com passagem pelo Mugaritz, na Espanha, ele já criou duas hortas, uma no Rio, outra na serra, na região de Petrópolis, para abastecer a sua cozinha. O Lasai, como se chamará o restaurante, promete ser a novidade do ano em 2014, e olha que tem muita coisa boa vindo por aí.
Amém.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Palace e Carretão: em tempos de churrascarias compradas por fundos de investimento, sou mais as familiares

16/12/2013

Eu me lembro bem da primeira vez que eu fui ao Porcão, na Barão da Torre, em Ipanema. Tinhas uns oito anos, a mesa era grande, reunindo toda a família. Fiquei espantado com a quantidade de comida, e acabei me encantando com a cebola frita. Neste dia, fui apresentado à picanha. De lá para cá, passaram-se uns 30 anos, e neste longo período fui frequentador da casa, que há algum tempo foi vendida pela família Mocellin para o grupo BFG. Pois bem. Hoje já não me considero frequentador do Porcão. Já faz tempo que gosto muito mais de ir a lugares como o Esplanada Grill, o Giuseppe Grill ou a Majórica, preferindo comer com a moderação do “à la carte” em vez do rodízio, que acaba praticamente nos obrigando ao excesso.
Mas, quando quero enfiar o pé na jaca, já não penso mais no Porcão. Na minha última visita, vários cortes foram “descontinuados”, como prime rib. Muita coisa faltando, serviço capenga, carta de vinhos ruim. Restaurante não é negócio para grupo de investidores, e as coisas também não vão bem no Garcia & Rodrigues, comprado pela mesma BFG.
A Fogo de Chão também foi comprada por um fundo de investimento, e não pertence mais à família Coser, que agora começa a tocar uma nova marca de churrascaria. Faz tempo que não vou… Mas, hoje, quando penso em um rodízio de churrasco, prefiro investir meu tempo e dinheiro na Carretão, em Ipanema, ou na Palace, em Copacabana, ambas de administração familiar, que cobram praticamente a metade das duas já citadas, e estão no mesmo nível, até melhores (vamos considerar que os vinhos também são mais baratos). Na Palace, frequentada por amigos bons de garfo, como Nano Ribeiro, Gabriel Cavalcante e Moacyr Luz, o rodízio custa R$ 69 para quem participa do Club Palace, um programa de relacionamento (o preço normal é R$ 93).

Churrascaria Palace 1 - salão com painel
Foi assim que jantei na Palace, durante um festival de peixes amazônicos, com grande contentamento. Gosto deste painel, com grandes nome da MPB, mais especificamente, da Bossa Nova.

Churrascaria Palace 2 - bufê de frios
Comemos umas saladinhas, do bufê, com presunto cru, carpaccio, aspargos, palmito e outros petiscos frios…

Churrascaria Palace 3 - camarão ao alho e óleo
Depois, camarões ao alho e óleo, que precederam…

Churrascaria Palace 5 - ostras
… um prato de ostras frescas.

Churrascaria Palace 6 - Ìndio e o tambaqui

O Índio, o garçom boa-praça que anda ganhando (merecidamente) prêmios de melhor do Rio (e da Zona Sul) comandava o serviço, incluindo deliciosas costeletas de tambaqui e também…

Churrascaria Palace 4 - Marcel Deiss Riesling
… este lindo Riesling alsaciano, já com quase dez anos de vida, do jeito que eu gosto.

Churrascaria Palace 7 - pacu assado
Depois, o folclórico Hipoglos, apelido gaiato do pacu assado, iguaria mais pantaneira que amazônica, por sinal.

Churrascaria Palace 8 - Índio e o pirarucu
Por fim, antes das carnes, nos entregamos aos prazeres do pirarucu. Ou este seria um tucunaré? Ou seria o pintado?Hummmm. Não me lembro, mas me recordo que estava bom, macio, suculento, saboroso e bem temperado e assado. Beleza.

Churrascaria Palace 9 - Ìndio e a picanha

Depois, foi um desfile de cortes, no ponto certo, com carnes de boa procedência. Teve costeletas de cordeiros, e costela de boi assada longamente, teve picanha no espeto e também na chapa, como esta foto aí de cima.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Bar da Gema: um clássico dessa nova e deliciosa geração de botequins cariocas, um lugar absolutamente imperdível

14/12/2013

A vida segue e, no cenário dos botecos cariocas, enquanto lamentamos perdas irreparáveis, como o Penafiel, e tememos pelo futuro de casas tradicionais. Por outro lado, saudamos a chegada de novas cozinhas que revigoram a essa instituição da gastronomia e da boemia do Rio de Janeiro. Nos últimos dez anos, e ainda mais especificamente nos últimos cinco, a cidade ganhou mais de dez endereços admiráveis, que dão novo fôlego à cultura botequeira do Rio. Assim, acompanhamos, como gosto, o nascimento de um time de bares de primeira linha na última década, espalhado por vários cantos da cidade. O Aconchego Carioca, e sua revolução culinária em forma de bolinhos; o Cachambeer, um boteco-boteco, sem frescuras, e delicioso; o Chico & Alaíde, dissidência que ampliou a oferta de bons bares do Leblon, entre tantos outros. Bar da Gema Um desses endereços imperdíveis é o Bar da Gema, ali mais ou menos na fronteira da Tijuca com o Andaraí. Se você nunca foi, planeje para amanhã uma visita, e eu vou tentar de explicar porque (mas, imagine que o que escreverei, e as fotos que postarei, não serão capazes de dizer o quanto esse boteco é incrível, isso para quem curte botecos de verdade, claro). Com as bênçãos de São Jorge. “Okê-okê, Oxossi/ Faz nossa gente sambar/ Okê-okê, Natal Portela é canto no ar”. Bar da Gema 2 - salão Estive lá já faz algum tempo, numa linda tarde primaveril, com clima de inverno e um sol macio, daqueles que tanto gostamos. Cheguei, e me acomodei em uma mesinha de canto. Bar da Gema - Gentileza Pedi uma cerveja, e enquanto dava uma espiada no cardápio (cuja foto está lá no final do post), levantei-me para fotografar o ambiente, com paredes de cor atijolada, pintadas com palavras gentis do Profeta Gentileza… Bar da Gema - Cristo … e com este Cristo Redentor bem simpático. Um lugar carioca por natureza. Bar da Gema 1 - salão Nesta imagem, ali no canto direito, sem que eu tivesse percebi, aparece um amigo, querido e admirado, o grande Gabriel Cavalcante, que até algum tempo atrás era mais conhecido como gabriel da Muda, um dos melhores sambistas da nova geração, parceiro de Moacyr Luz, outro querido e admirado, em vários projetos. Além do samba, o que nos une é também a paixão pela boa mesa, e pelos botequins cariocas. Eu sigo ele nas redes sociais, e vice-versa. Assim, ele logo me identificou, câmera em punho, clicando a casa. Algumas coisas eu já tinha decidido pedir. Para outras, levei o seu conhecimento de causa em consideração, e me dei bem. Bar da Gema 4 - pastéis Vamos lá, pela ordem. Comecei pedindo uma dupla de pastéis: de mortadela com cebola e de feijão gordo, servidos com pimenta da boa e cerveja gelada na escolta, montando um ciclo virtuoso, cheio de sabor, cheio de intensidade. Entre um pastel e outro, se tivesse que decidir, ficaria com o de feijão, mas a escolha é difícil, porque a versão de mortadela, vou te contar… Acontece que um bom feijão é algo que eu amo, eu adoro, eu venero. Bar da Gema 6 - Caldo de jiló Pronto. Depois, parti para dentro do caldinho de jiló, versão líquida e bem temperada deste ingrediente clássico dos botequins carioca, temperado com alho frito, com textura admiravelmente cremosa. Uma loucura, uma delícia. Uma boa introdução para quem não curte um jiló. Bar da Gema 7 - lasanha de jiló Mas este não é o meu caso, de modo que o meu terceiro pedido (tecnicamente o quarto, já os os pastéis são vendidos individualmente, ainda que tenham sido servidos juntos) foi um clássico da casa, a lasanha de jiló. Jesus-Meu-Deus-do-Céu-Nossa-Senhora-Ave-Maria… Que coisa boa. A montagem vertical, com camadas do jiló entremeadas por queijo, e uns pedacinhos de linguiça, com um bom e encorpado molho de tomate. Uma loucura. Outro prato perfeito para acompanhar uma boa cerveja, e um papo entre amigos. Bar da Gema 8 - polentinha com rabada Depois, as “polentinhas fritas com rabada”. Acho que a foto dispensa apresentação formal do prato, e qualquer análise crítica. Só de ver a foto o meu coração palpita, minha boca saliva e o estômago ronca. Que coisa deliciosa. Escrevo com água na boca, e uma linda memória. Lembro da textura, do sabor. Uma reivenção brilhante desta combinação clássica. Bar da Gema 9 - cerveja Foi neste instante que eu pulei de mesa, me juntando aos bons que estavam com o meu amigo Gabriel, entre eles o Leandro e Luiza, dois dos quatrro sócios, que abriram a casa (acho que em 2009) depois de cursarem Gastronomia. A fome já não havia, mas quem resiste a um pratinho de torresmo? Eu é que não sou… Bar da Gema 10 - torresmo Afinal, torresmo, cerveja e pimenta formam um triângulo amoroso, ménage à trois gastronômico, uma indecência gustativa, pura pornografia à mesa. Aí, o Gabriel mandou a deixa. – Tens que provar o péla égua. E eu sou lá homem de negar uma indacação dessas? Não mesmo… Bar da Gema 11 - péla água Daí, encerrei a deliciosa jornada com esta receita que (se não me falha a memória) traz uma trouxinha de folha de couve recheada com…. Não me lembro. Desculpe. Mas o molho era de tomate com pedacinhos de linguiça. Esqueci o recheio, é verdade, mas eu me lembro bem de que estava delicioso, como todo o resto. A conta foi bem razoável, algo ali entre R$ 70 e R$ 80. Fui embora feliz, encantado com a casa, e prometendo voltar, de preferência numa terça, quando é servida a famosa coxinha de galinha, ou numa quarta, quando a cozinha prepara um hambúrguer que tem entre os seus fiéis adoradores o… Gabriel Cavalcante, que – assim como eu – é um incansável apaixonado por esse sanduíche, e anda por aí, no Brasil e no mundo, a apreciar a receita. E não sou eu que vou duvidar dele… Sei que você ficou com vontade de ir agora ao bar da Gema, não ficou? Escrever este post me causou o mesmo efeito.

P.S. – Depois de ter o post publicado, escrevi para o Leandro Amaral, um dos sócios, que me explicou o prato acima. Chama-se Péla égua, e ele o descreve com a simplicidade que tanto aguça as nossas papilas: ” É uma trouxinha de couve recheada com canjiquinha e queijo. E coberta por um molho de linguiça”.

—————————-

Agora, o cardápio, enxuto como eu aprecio (clique na imagem para ampliar).

Bar da Gema - cardápio Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Escobar e Restaurante, no Leblon: um boteco pan-americano que só poderia existir no Rio de Janeiro

13/12/2013

Escobar 1 - salão
Escobar e Restaurante. Este é um lugar que só poderia mesmo existir no Rio de Janeiro. O trocadilho do nome é só um aperitivo das ironias e irreverências que a casa sustenta. Bom humor é sempre bom.
O delírio do batismo é inacreditável até. Acredite se quiser, mas a casa presta uma homenagem, por assim dizer, a dois personagens famosos de sobrenome Escobar, colombianos contemporâneos com histórias que não deixam de estar entrelaçadas: o jogador de futebol Andrés Escobar, que fez um gol contra que ajudou a eliminar a seleção de seu país da Copa de 1994, nos EUA, o que teria motivado o seu assassinato por um traficante, em Medellín; e Pablo Escobar, o megabandido, o “senhor das drogas”, líder do cartel de Medellín, morto um ano antes. Inacreditável.

Escobar 2 - Pablo Escobar
No andar de cima, onde o clima é mais de bar do que de restaurante, com sofás e um clima festivo bem carioca, encontramos uma figurinha do álbum da Copa de 1994, como a foto de Andrés, emoldurada em um quadro, e outras referências à dupla, irreverência beirando o surreal, como um grafite de Pablo Escobar tocando maracas. Como dizia, este lugar só poderia mesmo existir no Rio de Janeiro.
Mas a verdade é que ninguém vai a algum lugar pelo nome ou pela decoração. Eu sei que vai, mas ainda prefiro acreditar que não.
Assim, vamos nós ao que mais interessa. O Escobar e Restaurante tem como chef consultor o boliviano Checho Gonzales, um desses caras que já está aí batalhando nas cozinhas vanguardistas (e projetos gastronômicos) do eixo Rio e São Paulo há mais de dez anos. Como vanguardista não entenda pratos moleculares, mas especialmente o conjunto da obra. O Checho é um cara de visão, sempre envolvido em projetos bacanas. Trabalhou com Alex Atala, em São Paulo, passou pelo Zazá Bistrô, no Rio, e foi aos poucos apresentando aos brasileiros a culinária andina, servindo ceviches antes de quase todo mundo (exceção, talvez, ao peruano pioneiro Intihuasi, no Flamengo), o que faz muita gente pensar, até hoje, que ele é peruano, e não boliviano. O chef acabou voltando para a capital paulista, onde acabei o conhecendo pessoalmente (fui frequentador de seus restaurantes cariocas, como o Pecado, mas não o conhecia). É um cara que admiro. Que faz coisas originais. Que não fica babando ovos alheios, de jornalistas, blogueiros, fotógrafos, editores e produtores. Que faz uma cozinha de caráter, que se lança a projetos legais. Assim, ele criou em São Paulo sucessos como a feirinha gastronômica O Mercado, que já teve edição carioca (maior sucesso, no Circo Voador), além de outros eventos bacanas, que acompanho por aqui, de longe, torcendo para que algum dia cheguem ao Rio com força.
O Checho era, então, o sujeito ideal para criar um cardápio pan-americano, que juntasse na mesma cozinha receitas e ingredientes de vários países latinos, com direito a cervejas uruguaias, pratos peruanos e receitas mexicanas e venezuelanas.

Escobar 4 - pisco
Para beber, hay pisco, por supuesto. Bem feito, por sinal.

Escobar 7 - bloody mary revisitado
E carta enxuta lista outros drinques clássicos (na receita tradicional, ou “revisitados”), como o bloody mary, de apresentação original.

Escobar 3 - bar

O bar se destaca na decoração do primeiro andar. Além de outros drinques de perfil mais criativo, receitas elaboradas por Gustavo Stemler, barman com passagem pelo Meza, entre outras casas que se dedicam aos drinques,

Escobar 5 - mojito de morango com manjericão

Entre elas estão o mojito de morango com manjericão, delicada e deliciosamente feminino e refrescante.

EScobar 13 - Tropicália
E também há uma boa seleção de cervejas artesanais. Além daqueles drinques que parecem chope. No caso, o Tropicália, feito com vodca, Cointreau, maracujá e “espuma” de mojito, leve e refrescante.

Escobar 16 - Pachamama

E também o Pachamama, com písco, hibiscus, limão siciliano e colarinho de negroni, também leve e refrescante, e ainda mais gostoso.
A carta de bebidas, e também o cardápio da cozinha, estão reproduzidos lá no final deste post.
Mas vamos à comida, que é o que importa de verdade. O cardápio é dividido em seis partes: “Ceviche, tiradito ou escaveche”; “Causa ou fricassé”; “Anticuchos, assados ou fritos”; “Arepas, tacos ou no pão”; “O que vai pro tacho”; e “O que adoça a vida”.

Escobar 6 - crocantes de batatas
Aproveitando o clima festeiro do lugar, herança do antigo bar que funciona ali, o Gente Fina, animadinhos nas noitadas, o Escobar e Restaurante foi feito na medida para mesas grandes, de seis ou oito pessoas, como foi o meu caso, para que os pratos sejam divididos, e os drinques também, quem sabe?
Nós fomos justamente seguindo a ordem que aparece no cardápio. Primeiro, fomos no “crocantes de batatas”, esse aí de cima, um guacamole ladeado por chips de batata e aipim.

Depois, vamos aos ceviches. Escobar 8 - ceviche de camarões

Primeiro, o de camarões com vieiras ao leite de coco, e eu esperava que os mariscos fossem um pouco mais delicados.

EScobar 9 - ceviche de bonito

Depois, de bonito  – aquele primo próximo do atum – em vinagrete oriental, com gergelim, shoyo e cubinhos de manga.

EScobar 10 - escaveche de polvo

Ainda no primeiro setor do menu, pedimos o escaveche de polvo, com cubinhos de tomate e abacate, além de uns brotinhos.

Escobar 11 - Tiradito de bonito

Depois, “los tiraditos”. Pedimos o de bonito, com guacamole e tortillas, o melhor entre essas entradinhas de origem peruana, e…

Escobar 12 - tiradito de namorado

… e o de  namorado, com tirinhas de limão, pimenta boquinho e palha de pão árabe.

Escobar 14 - causa de cogumelos

Então, partimos para para dentro da causa de cogumelos com aspargos e purê picante de baroa.

Escobar 15 - Croquetas
Depois, as croquetas de carne com maionese picante e …

Escobar 18 - majao

… e o majao, um arroz tropeiro com carne seca, linguiças, chips de banana e mandioca e um ovo frito por cima, e tudo melhora com um ovo por cima.

Escobar 17 - Wäls Saison de Caipira

Os “platos fuertes” foram escoltados pela brasileiríssima Wäls Saison de Caipira, feita com caldo de cana-de-açúcar, uma deliciosa, leve e refrescante surpresa, boa cerveja para a comida.

Escobar 19 - chicharrones

E o derradeiro passo, com esta linda cerveja no copo, foi bem adequado a ela: os chicharrones, pedaços de pernil de porco bem temperados em muitas especiarias, feitos à passarinho, com tempero de alho, além de milho cozido.

Escobar 20 - suspiro limeño

Para a sobremesa, não poderia faltar o suspiro limeño, em versão muito bem executada, e…

IMG_4923

… uma mousse de gianduia.

Escobar 22 - Le Freak

Devidamente escoltados pela cerveja Le Freak, uma Ale californiana, rica e encorpada, quebrando a doçura das sobremesas com sua acidez, intenso amargor e caráter frutado, cítrico.

Mais uma boa novidade na área. E, por incrível que pareça, gostei mais dos pratos quentes que dos frios.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Brewteco, no Leblon: como o nome já diz, um legítimo pé-sujo com ótima lista de cervejas a bons preços

12/12/2013
Algo muito triste que vem acontecendo no Rio de Janeiro nos últimos anos é o fechamento – ou a descaracterização – de muitos e muitos botecos e restaurantes tradicionais da cidade. Perdemos lugares clássicos da boemia e da gastronomia carioca, como o Penafiel, o Le Coin, A Lisboeta e o Nino’s, entre tantos outros, isso só para ficar nos exemplos que me são mais caros. Lamentável.
Aos poucos, acompanhamos um processo de higienização da identidade de casas da Zona Sul, que passam por reformas – que além de produzirem lugares feios e uniformizados, lhe tiram toda a identidade acumulada com o tempo. Está cada dia mais difícil beber uma cerveja ou chope na Zona Sul do Rio em algum lugar que valha a pena, para os que apreciam esse caráter dos bares tipicamente cariocas. Uma tristeza.
Brewteco - fachada
Foi com imenso entusiasmo, portanto, que eu fui apresentado no último domingo ao Brewteco, cujo o nome entrega muito da personalidade do lugar. O dono da casa, ali na Dias Ferreira, no Leblon, comprou a antiga Marisqueira do Leblon, botecão com fama de servir uma deliciosa batida de maracujá, e uma comida farta e barata, seguindo a linhagem clássica dos botecos do Rio: costela, rabada, feijoada e assim por diante.
Pois ele fez uma aposta ousada, andando de certo modo na contramão. Manteve a equipe que trabalhava ali. Fez apenas uma reforma pequena, sem assinatura de arquiteto badalado, apenas para dar uma ajeitada no ambiente, abrindo espaço para mesas lá dentro (antes, havia só um imenso balcão) e limpando a cozinha, os banheiros, mas sem descaracterizar o espírito do lugar.
Brewteco - Delirium Tremens
Antes mesmo de fazer as obras, ele já passou uns dois meses no comando do negócio, para entender melhor o esquema. Mas já começou a mudar um pouco – e para melhor – o bar, colocando cervejas especiais, o que acabou chamando a atenção do meu amigo Juarez Becosa, que fez até uma coluna sobre o lugar.
Pois há algumas semanas, depois de uma reforminha rápida, o bar reabriu, rebatizado de Brewteco (o letreiro ainda aguarda aprovação da Prefeitura). Num desses acasos da vida, acabei indo parar lá no final da tarde de domingo, para beber umas cervejas e acompanhar a rodada final do Brasileirão, que determinou a queda para a Segunda Divisão de fluminense e Vasco. Comemorei, brindando com bons rótulos.
Curioso foi que, logo ao chegar, reconheci na mesa o Rafael Thomas, dono da Mercado Futuro, distribuidora de alimentos e bebidas, a quem tinha conhecido no ano passado, para provar uma de suas marcas exclusivas no Rio, a cerveja catarinense Bierbaum, muito boa, por sinal. Foi uma noite agradável, com bom papo, lá no Gibeer, no Jardim Botânico. Falamos muito de cervejas, e de negócios, e realmente eu vi nele um talento para empreender, uma boa visão do mercado. E foram essas características, a meu ver, que o levaram a abrir o Brewteco.
– Queria abrir um boteco com bos cervejas, mas que mantivesse o estilo, os preços, a identidade de um boteco. Vendo Original a R$ 7, e mantive a famosa batida de maracujá. Mas o foco são as cervejas especiais. Quero vender barato, e às vezes consigo ter um rótulo mais em conta do que em lojas, trabalhando com margens baixas, e muito giro. Imprimo a carta de cervejas todos os dias. Não quero ter muitos rótulos, 100, 200, mas sim uma boa oferta, variada, com qualidade e bom preço, girando na faixa de 40 ou 50 rótulos disponíveis a cada dia. Mantive o cardápio, com pratos do dia, e também a equipe da cozinha. Agora, quero encontrar outro boteco, para fazer o mesmo, mas não quero ter que fazer uma outra reforma, pretendo pegar um lugar mais ajeitadinho, mas que seja um botecão mesmo – conta.
Brewteco - Way IPA
Enquanto isso não acontece, temos o Brewteco funcionando a pleno vapor. Para a minha alegria, e a do meu bolso.
Brewteco - carta de cervejas
Pois veja aí os preços se não estão bons (clique na imagem para ampliar, facilitando a leitura).

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Cerveja, asado de tira, hamburguesas e até farofa de ovos: as novidades no uruguaio Gonzalo

11/12/2013

Gonzalo 2 - Hija de Punta

Amanhã, o uruguaio Gonzalo lança, no Brewteco, a sua cerveja. Hija de Punta (o nome é genial) foi produzida pela Mistura Clássica, uma receita leve e refrescante, uma lager bem lupulada, com delicioso amargor, boa para se levar à mesa – e que também será servida em forma de chope. Além disso, será vendida ao público, em lojas, como o próprio empório uruguaio que o Gonzalo vai abrir em breve, ali mesmo ao lado, na Humberto de Campos, só com produtos uruguaios (incluindo morcilla, nham nham nham!!!)
E foi com ela no copo que eu almocei ali no último domingo, encerrando a tarde vendo a última rodada do Brasileirão diante da TV do Brewteco, ali mesmo, no Leblon, um bar que me encantou, na Dias Ferreira, e sobre o qual eu pretendo escrever aqui neste blog, amanhã ou sexta (em resumo, foi um boteco que manteve o seu astral, jeito, cardápio e preço de pé-sujo, mas está servindo cervejas de alta qualidade, sem deixar de vender as Originais da vida: genial).

Gonzalo 1 - morcilla
Pois, além da própria cerveja, o Gonzalo anda cheio de novidades no menu. A morcilla não é uma delas, mas sou incapaz de resistir a esse embutido de sangue, e sabendo dessa minha predileção, o chef Dudu Mesquita mandou servir uma frigideira fumegante assim que cheguei. Bravo!

Gonzalo 3 - Hija de Punta - contra-rótulo
No contra-rótulo da Hija de Punta encontramos a história que deu origem a ela. Uma “chica guapa” que fez o parrillero cair de amores por ela, em um certo verão passado em Punta del Este, muitos anos atrás (para ler, clique na imagem, para ampliar a foto).

Gonzalo 4 - hamburguesas
Pois, então, fomos mordiscar as outras novidades do cardápio. Primeiro, as “hamburguesas”, com duas receitas. Uma delas, com queijo e um hambúrguer que combina três cortes da casa, ojo de bife. É a chamada “hamburguesa gourmet”, com chorizo, picanha e, ancho moídos, com queijo provolone, cebola roxa, tomate , alface, e molho de mostrada Dijon A outra, feita inteiramente com a carne de asado de tira, é chamado de “hamburguesa Centenário”, com temperada só com sal e servida com cebolas assadas na parrilla, tomate, alface, e maionese. Bom demais da conta. Uma sugestão para os amantes da carne: peça o sanduba pelado, só com pão de carne. E, para ler mais sobre outros belos hambúrgures do Rio, clique aquiaqui, aqui e aqui)

Gonzalo 5 - Dudu Mesquita

Aí está o Dudu Mesquita, o chef boa-praça, autor da receitas, comandante da cozinha do Gonzalo, um cara que conquistou a minha admiração nesses pouco mais de ano ano de funcionamento da casa, que supriu a carência do carioca de carnes platenses.

Gonzalo 6 - asado de tira uruguaio
O asado de tira, aliás, é um capítulo à parte. Resultado do cruzamento das raças wagyu e hereford, numa proporção com muita mais carga genética do gado japonês do que do inglês, resultando em um corte macio, cheio de sabor, com gordura entremeada. Uma verdadeira loucura. São três “tiras” de costela, que devido á grande quantidade de gordura, me parecem perfeitas para serem divididas por três pessoas, acho muito para uma dupla, mas é bom demais, difícil resistir. Mas, repara na gordura espalhada embaixo da carne: haja fígado.
Não fotografei, mas a pedido dos clientes a casa começou a servir, também no próprio domingo, uma farofa de ovos. Reza a lenda que foi um pedido do Ghiggia, o carrasco da Copa de 1950, amigo de infância do “señor” Hector Estebán Gonzalo, que – aliás – visitou o restaurante recentemente, cujas paredes estão enfeitadas com uma camisa da Celeste com autógrafo seu.

Gonzalo 7 - dulce de leche
Para encerrar, mais novidades, uma composição simples e inteligente. Uma colher de doce de leite Lapataia espalhada de modo a formar uma pequena cavidade, preenchida com azeite Punta Lobos aromatizado com limão, com um toque de flor de sal. O sal quebrando o doce, o azeite dando untuosidade, o perfume de limão dando o toque cítrico. Uma delicioso loucura.
Curti mil vezes.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.