Escobar e Restaurante, no Leblon: um boteco pan-americano que só poderia existir no Rio de Janeiro

Escobar 1 - salão
Escobar e Restaurante. Este é um lugar que só poderia mesmo existir no Rio de Janeiro. O trocadilho do nome é só um aperitivo das ironias e irreverências que a casa sustenta. Bom humor é sempre bom.
O delírio do batismo é inacreditável até. Acredite se quiser, mas a casa presta uma homenagem, por assim dizer, a dois personagens famosos de sobrenome Escobar, colombianos contemporâneos com histórias que não deixam de estar entrelaçadas: o jogador de futebol Andrés Escobar, que fez um gol contra que ajudou a eliminar a seleção de seu país da Copa de 1994, nos EUA, o que teria motivado o seu assassinato por um traficante, em Medellín; e Pablo Escobar, o megabandido, o “senhor das drogas”, líder do cartel de Medellín, morto um ano antes. Inacreditável.

Escobar 2 - Pablo Escobar
No andar de cima, onde o clima é mais de bar do que de restaurante, com sofás e um clima festivo bem carioca, encontramos uma figurinha do álbum da Copa de 1994, como a foto de Andrés, emoldurada em um quadro, e outras referências à dupla, irreverência beirando o surreal, como um grafite de Pablo Escobar tocando maracas. Como dizia, este lugar só poderia mesmo existir no Rio de Janeiro.
Mas a verdade é que ninguém vai a algum lugar pelo nome ou pela decoração. Eu sei que vai, mas ainda prefiro acreditar que não.
Assim, vamos nós ao que mais interessa. O Escobar e Restaurante tem como chef consultor o boliviano Checho Gonzales, um desses caras que já está aí batalhando nas cozinhas vanguardistas (e projetos gastronômicos) do eixo Rio e São Paulo há mais de dez anos. Como vanguardista não entenda pratos moleculares, mas especialmente o conjunto da obra. O Checho é um cara de visão, sempre envolvido em projetos bacanas. Trabalhou com Alex Atala, em São Paulo, passou pelo Zazá Bistrô, no Rio, e foi aos poucos apresentando aos brasileiros a culinária andina, servindo ceviches antes de quase todo mundo (exceção, talvez, ao peruano pioneiro Intihuasi, no Flamengo), o que faz muita gente pensar, até hoje, que ele é peruano, e não boliviano. O chef acabou voltando para a capital paulista, onde acabei o conhecendo pessoalmente (fui frequentador de seus restaurantes cariocas, como o Pecado, mas não o conhecia). É um cara que admiro. Que faz coisas originais. Que não fica babando ovos alheios, de jornalistas, blogueiros, fotógrafos, editores e produtores. Que faz uma cozinha de caráter, que se lança a projetos legais. Assim, ele criou em São Paulo sucessos como a feirinha gastronômica O Mercado, que já teve edição carioca (maior sucesso, no Circo Voador), além de outros eventos bacanas, que acompanho por aqui, de longe, torcendo para que algum dia cheguem ao Rio com força.
O Checho era, então, o sujeito ideal para criar um cardápio pan-americano, que juntasse na mesma cozinha receitas e ingredientes de vários países latinos, com direito a cervejas uruguaias, pratos peruanos e receitas mexicanas e venezuelanas.

Escobar 4 - pisco
Para beber, hay pisco, por supuesto. Bem feito, por sinal.

Escobar 7 - bloody mary revisitado
E carta enxuta lista outros drinques clássicos (na receita tradicional, ou “revisitados”), como o bloody mary, de apresentação original.

Escobar 3 - bar

O bar se destaca na decoração do primeiro andar. Além de outros drinques de perfil mais criativo, receitas elaboradas por Gustavo Stemler, barman com passagem pelo Meza, entre outras casas que se dedicam aos drinques,

Escobar 5 - mojito de morango com manjericão

Entre elas estão o mojito de morango com manjericão, delicada e deliciosamente feminino e refrescante.

EScobar 13 - Tropicália
E também há uma boa seleção de cervejas artesanais. Além daqueles drinques que parecem chope. No caso, o Tropicália, feito com vodca, Cointreau, maracujá e “espuma” de mojito, leve e refrescante.

Escobar 16 - Pachamama

E também o Pachamama, com písco, hibiscus, limão siciliano e colarinho de negroni, também leve e refrescante, e ainda mais gostoso.
A carta de bebidas, e também o cardápio da cozinha, estão reproduzidos lá no final deste post.
Mas vamos à comida, que é o que importa de verdade. O cardápio é dividido em seis partes: “Ceviche, tiradito ou escaveche”; “Causa ou fricassé”; “Anticuchos, assados ou fritos”; “Arepas, tacos ou no pão”; “O que vai pro tacho”; e “O que adoça a vida”.

Escobar 6 - crocantes de batatas
Aproveitando o clima festeiro do lugar, herança do antigo bar que funciona ali, o Gente Fina, animadinhos nas noitadas, o Escobar e Restaurante foi feito na medida para mesas grandes, de seis ou oito pessoas, como foi o meu caso, para que os pratos sejam divididos, e os drinques também, quem sabe?
Nós fomos justamente seguindo a ordem que aparece no cardápio. Primeiro, fomos no “crocantes de batatas”, esse aí de cima, um guacamole ladeado por chips de batata e aipim.

Depois, vamos aos ceviches. Escobar 8 - ceviche de camarões

Primeiro, o de camarões com vieiras ao leite de coco, e eu esperava que os mariscos fossem um pouco mais delicados.

EScobar 9 - ceviche de bonito

Depois, de bonito  – aquele primo próximo do atum – em vinagrete oriental, com gergelim, shoyo e cubinhos de manga.

EScobar 10 - escaveche de polvo

Ainda no primeiro setor do menu, pedimos o escaveche de polvo, com cubinhos de tomate e abacate, além de uns brotinhos.

Escobar 11 - Tiradito de bonito

Depois, “los tiraditos”. Pedimos o de bonito, com guacamole e tortillas, o melhor entre essas entradinhas de origem peruana, e…

Escobar 12 - tiradito de namorado

… e o de  namorado, com tirinhas de limão, pimenta boquinho e palha de pão árabe.

Escobar 14 - causa de cogumelos

Então, partimos para para dentro da causa de cogumelos com aspargos e purê picante de baroa.

Escobar 15 - Croquetas
Depois, as croquetas de carne com maionese picante e …

Escobar 18 - majao

… e o majao, um arroz tropeiro com carne seca, linguiças, chips de banana e mandioca e um ovo frito por cima, e tudo melhora com um ovo por cima.

Escobar 17 - Wäls Saison de Caipira

Os “platos fuertes” foram escoltados pela brasileiríssima Wäls Saison de Caipira, feita com caldo de cana-de-açúcar, uma deliciosa, leve e refrescante surpresa, boa cerveja para a comida.

Escobar 19 - chicharrones

E o derradeiro passo, com esta linda cerveja no copo, foi bem adequado a ela: os chicharrones, pedaços de pernil de porco bem temperados em muitas especiarias, feitos à passarinho, com tempero de alho, além de milho cozido.

Escobar 20 - suspiro limeño

Para a sobremesa, não poderia faltar o suspiro limeño, em versão muito bem executada, e…

IMG_4923

… uma mousse de gianduia.

Escobar 22 - Le Freak

Devidamente escoltados pela cerveja Le Freak, uma Ale californiana, rica e encorpada, quebrando a doçura das sobremesas com sua acidez, intenso amargor e caráter frutado, cítrico.

Mais uma boa novidade na área. E, por incrível que pareça, gostei mais dos pratos quentes que dos frios.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

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2 Respostas to “Escobar e Restaurante, no Leblon: um boteco pan-americano que só poderia existir no Rio de Janeiro”

  1. Dri Says:

    Sabe quando o “Santo” não bate? Já passei inúmeras vezes na porta, nunca senti vontade de entrar. E olhando o post, as fotos, nadica de nada (além do pisco…) me deu vontade de ir conhecer.

    Em compensação, ontem se eu pudesse, tinha me teletransportado pra Viena lendo o Boa Viagem… =)

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