Archive for dezembro \10\-02:00 2013

Até o brasileiríssimo Aconchego Carioca se rende à onda do hambúrguer (e, finalmente, chega ao Rio o bolinho de virado à paulista)

10/12/2013

O hambúrguer, definitivamente, está em alta no Rio de Janeiro – e no Brasil, já que o mesmo fenômeno é verificado também em São Paulo, e em outras cidades do paí (e eu já escrevi sobre o assunto aqui até mais de uma vez: para ler, clique aqui, aqui e aqui).

Neste final de semana passado eu pude provar mais duas versões do sanduíche: no Aconchego Carioca, sim, no Aconchego Carioca, o delicioso e brasileiríssimo restaurante da Praça da Bandeira; e no Gonzalo, a querida parrilla uruguaia, no Leblon, mostrando que essa onda não faz distinções de país, e muito menos tem limitações geográficas na cidade.

Na noite de sábado, saindo do jornal, resolvi voltar ao Aconchego Carioca, coisa que eu não fazia há algum tempo. É aquela delícia de sempre. Um serviço que eu acho simpático, uma linda carta de cervejas, algo muito alto na minha estima, já que foi ali que eu voltei a me atrair por cervejas, e o cardápio que me faz feliz, com a sua equilibrada combinação de receitas autorais, como a seleção de bolinhos, ícone da gastronomia brasileira, e pratos clássicos, como o camarão na moranga.

Aconchego Carioca - bolinho de virado à paulista

Pois bem. Nem vou me alongar muito, resumindo a história. Logo que abri o cardápio eu dei de cara com um velho objeto de desejo, nem tão velho assim, é verdade, mas era uma vontade intensa, e imensa. Finalmente chegaram ao Rio de Janeiro os bolinhos de virado à paulista, criados para a abertura da filial paulistana, digna e deliciosa homenagem da Káia Barbosa aos meus amigos paulistanos, receita com massa de feijão carioquinha com recheio de couve, linguiça e ovo. Para acompanhar, pedi uma Red Ale, da Baden Baden, isso para ficarmos em termos de comes e bebes em terras paulistas.

Que maravilha, que beleza, ainda mais porque eu reguei os bolinhos com a boa pimenta da casa, e fiquei numa felicidade gigante, até porque, foi uma surpresa, e eu não esperava encontrar os bolinhos ali.

Aconchego Carioca 1

Depois, vendo o cardápio novamente, dois nomes me chamaram a atenção. Tapa na Cara e Buraco Quente. Perguntei ao garçom do que se tratavam. Tapa na cara é um harburguinho, desses de linhagem simples, só carne e pão, com mostarda e ketchup para acompanhar. Buraco Quente, em louvor à famosa localidade da Mangueira, é um pão com carne moída apimentada. O burguinho da Kátia estava bom, em toda a sua simplicidade, com carne bem saborosa, e um pão muito bom, que realmente chama a atenção.

Aconchego Carioca 2

Mas quem roubou a cena foi mesmo o buraco quente, que estava divinamente bom, com a carne bem puxada nos temperos, destacando-se o cominho, e a pimenta, e eu ainda lasquei umas gotas de malagueta da casa, e foi um momento de pura felicidade, até porque no copo estava brilhando a cerveja Velhas Virgens, da Invicta, a melhor dessas cervejas roqueiras que andam surgindo aos montes, acobreada, bem lupulada, refrescante e encorpada, na medida para acompanhar os sandubinhas, em especial o tal do delicioso Buraco Quente.

Foi uma noite de pura alegria, entre outras razões porque eu estava postando algumas fotos ao vivo no Instagram (meu nome ali é @brunoagostinifoto, eu ficarei feliz se você me seguir).

Não que postar fotos em redes sociais seja algo que, por si só, me faça feliz. O que aconteceu foi que o simpático casal Shalimar Diniz e Romulo Nascimento também estava lá, e somos amigos no Facebook e no Instagram, e então o garçom veio me trazer o recado.

– Acho que tem um pessoal aí que conhece você.

Logo, então, surge o Romulo Nascimento com um sorriso feliz, dizendo que sempre liam das matérias do Boa Viagem, e que já tinha feito alguns roteiros seguindo as minhas matérias, e que tinham sido muito felizes com isso. Feliz fiquei eu, e a gente engatou em um papo agradável, falando de vinhos, viagens, cervejas e restaurantes até o Aconchego Carioca fechar. Realmente foi uma noite deliciosa, com belas surpresas, que fechamos com chave de ouro saboreando uma garrafa grande de Duvel.

E fiquei feliz, ainda, por ter leitores muito legais, cuja confiança que depositam em mim me enche de orgulho. Obrigado mesmo, de coração, pela simpatia, e pela leitura e confiança. E como este post já está longo demais, deixamos as novidade do uruguaio Gonzalo para amanhã, ou para quarta, ok? Porque tô escrevendo no carro, a caminho de Bento Gonçalves, e a agenda lá está intensa. Até mais!!!

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Da horta para a (boa) mesa no Parador Lumiar: o trabalho delicado, criativo e autêntico do chef Isaias Neries

06/12/2013
O chef orgulhoso no meio de sua horta, junto à plantação de uma prima da sálvia, conhecida por nomes como peixinho de horta ou lambarizinho, porque tem textura e sabor que remetem a peixes

O chef orgulhoso no meio de sua horta, junto à plantação de uma prima da sálvia, conhecida por nomes como peixinho de horta ou lambarizinho, porque tem textura e sabor que remetem a peixes

Uma horta com mais de 100 variedades de plantas, entre verduras, legumes, ervas, flores comestíveis e frutas, é o sonho de qualquer chef de cozinha. Pois Isaias Neries, do Parador Lumiar, neste distrito de Nova Friburgo, tem essa riqueza ao alcance das mãos, o que contribui para que o restaurante da pousada seja um dos mais atraentes do interior do estado do Rio, um dos poucos que seguem a filosofia, muito comum na Europa, de ser um hotel de campo aonde as pessoas vão para comer bem e relaxar em meio à natureza.

O risoto de raízes com cogumelo eryngui

O risoto de raízes com cogumelo eryngui

Todos os anos, entre outubro e novembro, ele muda o cardápio, que também sempre ganha novas receitas ocasionalmente, de acordo com a sazonalidade dos produtos, com a oferta da horta. O novo menu, imperdível, entrou em cartaz no dia 16 de novembro, apresentando receitas temperadas por boas doses de criatividade, como o crostini de açaí com queijo de cabra, surubim e tomatinhos marinados ao azeite de vique (esta é uma plantinha que é a base do Vick Vaporub e que dá um toque refrescante aos pratos) e o risoto de raízes com cogumelo eryngui, entre outras boas novas (no final do post eu coloco todos os pratos do novo cardápio).
— O Isaias é um dos chefs mais queridos do Rio de Janeiro, e não há quem o conheça e não goste dele. É uma referência em profissionalismo, carisma e competência. Admiro demais a trajetória dele, a humildade, as convicções e a maneira como ele enxerga a cozinha e o nosso ofício. Ainda não tive a chance de visitá-lo no hotel, mas sei que tem uma horta todinha pra ele, o que me deixa com mais vontade de realizar esse desejo rápido — conta a chef Roberta Sudbrack, uma das tantas fãs da cozinha do chef.

O delicioso risoto de chuchu com capim-limão e lâminas de amêndoas

O delicioso risoto de chuchu com capim-limão e lâminas de amêndoas

No Parador há oito anos, Isaias — que foi sous-chef de Flavia Quaresma, no Carême — combina técnica apurada na cozinha com muita intuição, montando pratos com base clássica mas sempre com uma pitada autoral, levando a sua assinatura. Nesse novo menu encontramos pratos surpreendentes como o nhoque de batata-doce com um toque de canela ao molho cremoso de Parmigiano Reggiano. Para a sobremesa, duas receitas tradicionalmente salgadas brilham no novo cardápio: o risoto de chuchu com capim-limão e lâminas de amêndoas (delicioso) e o ravióli de avelã com banana ao molho cremoso de tomilho (idem).
— Uma das coisas mais difíceis no trabalho de um cozinheiro é encontrar os ingredientes. Aqui eu estou feliz porque tenha uma ótima matéria-prima à disposição. Além de tudo o que eu planto, tenho fornecedores locais para carne de porco, cogumelos, queijos. Assim fica realmente fácil cozinhar — conta o chef, nascido na cidade de Santo Amaro da Purificação, terra de Dona Canô e seus filhos, Caetano Veloso e Maria Bethânia.

Adultos e crianças às margens do lago: hotel nasceu com foco em casais, mas hoje recebe muitas famílias, que muitas vezes vão até lá apenas para visitar o restaurante, aberto a não hóspedes

Adultos e crianças às margens do lago: hotel nasceu com foco em casais, mas hoje recebe muitas famílias, que muitas vezes vão até lá apenas para visitar o restaurante, aberto a não hóspedes

Aos sábados é servida a feijoada, que já fez fama na região, atraindo muita gente que não está hospedada ali. Além de uma admirável seleção de saladas (nada como uma boa horta, de onde saem quase todos os ingredientes, colhidos momentos antes de serem servidos), há o bufê servido sobre o fogão a lenha que domina o salão. Um dos segredos é a variedade de carnes.
— Uso porco fresco, salgado e defumado, e tiro a gordura, buscando uma feijoada que tenha muito sabor, mas seja mais leve — revela o chef, que serve, ainda, no almoço de sábado, uma seleção de doces e compotas caseiras, como a combinação de carambola com rapadura.
Em um imenso terreno junto à entrada do hotel ele planta desde ingredientes mais comuns, como alface, alecrim, tomilho e pimenta dedo-de-moça até outros bem raros por aqui, como ruibarbo, além de ter a possibilidade de colher brotos variados. Entre as mais de 100 hortaliças na plantação orgânica, encontramos brócolis, ervilha torta, rúcula, tomate-cereja, cebola, capim-limão, endro, taioba, couve-flor, nirá, alho poró, mostarda, beterraba, rabanete e gengibre, entre outras variedades.

Resumo da ópera: hoje, o restaurante do Parador Lumiar não é simplesmente um dos melhores do interior do estado, mas está entre os grandes do Rio, considerando os da capital. É uma dessas raras cozinhas que justificam uma viagem. É um dos pouquíssimos restaurantes de hotel (aí, sim, falando dos que estão no interior) que servem uma comida de alta classe aos seus hóspedes (e não hóspedes). Ninguém conquista a admiração da Roberta Sudbrack, e de tanta gente querida e importante no meio da gastronomia carioca, à toa. Fiz ali uma das refeições mais agradáveis e surpreendentes dos últimos meses. Duas, porque ainda teve uma feijoada memorável no sábado, com um louvável bufê de saladas e outro de doces caseiros, além de uma pinga da boa. Eu sei que já estou doido para voltar.

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Agora, o novo cardápio completo.

. Crostini de açaí com queijo de cabra, surubim, tomatinhos marinados ao azeite de vique
. Nhoque de canela com batata doce, parmigiano-reggiano ao molho mi-chèvre
. Albacora sobre pirão de farinha d’àgua do Maranhão com extrato de coco e frutos do mar
. Filé sete luas sobre baião de dois e crocante de chia com tapioca
. Cocainhame com calda de cumaru
. Risoto de raízes com cogumelo eryngui
. Risoto de chuchu com capim limão e lâminas de amêndoas
. Ravióli de avelã com banana ao molho cremoso de tomilho

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 P.S. – Esta reportagem foi escrita para a edição de 14/11 da revista Boa Viagem, do jornal O Globo.

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Gutessen: o saboroso e acessível café judaico de Botafogo

03/12/2013

Há algum tempo eu li que havia sido inaugurado em Botafogo, um dos meus recantos favoritos na cidade, gastronomicamente falando, um pequeno empório judaico, Gutessen, que nasceu como bufê para abastecer a comunidade hebraica do Rio, e suas muitas celebrações religiosas, sempre encontros familiares com cardápios específicos para as ocasiões, com uma série de iguarias típicas.
O negócio fazia tanto sucesso no boca-a-boca que os sócios resolveram abrir um pequeno café, ali na saborosa Rua Visconde de Caravelas, do querido Lima, e do renovado Aurora, no burburinho gastro-boêmio do bairro.
Lugar pequeno e simpático, boa pedida para uma refeição ligeira com preços acessíveis (entradas de R$ 4 a R$ 22; pratos de R$ 20 a R$ 28). Sem contar que é um dos poucos lugares do Rio onde podemos apreciar a culinária judaica (anos atrás, fazendo uma reportagem no plantão dominical, ainda nos tempos de JB, almocei no bufê do Clube Israelita Brasileiro, e curti – do mesmo modo, pretendo conhecer o restaurante ibérico da Casa de Espanha, no Humaitá, em muito breve, para fazer um post para cá).

Gutessen - borsch
O cardápio é enxuto, e pode ser visto neste link aqui (mas com preços levemente desatualizados, o borsch passou de R$ 3,50 para R$ 4, por exemplo). Para começar, um copinho de borsch, a sopa de beterraba que eu tanto adoro desde criança, quando fui apresentado a ela no restaurante russo Dona Irene, em Teresópolis (que, aliás, é uma cozinha, assim como a ucraniana, e outras do Leste Europeu, cheia de influências judaicas – também tem, por exemplo, o varenike: para ler um post sobre a casa, clique aqui ou aqui). Pedi a versão menor, a R$ 4 (a grande custa R$ 12).

Gutessen - salgados
Depois, fui nos salgadinhos. No menu de entradas, há os “beigueles” (de batata, queijo, cebola ou berinjela) e as “burrecas” (de queijo, berinjela ou ricota com cebola). Confesso que não me lembro bem, mas acho que pedi um beiguele de batata (à direita) e uma burreca de queijo (á esquerda), mas confesso que não tenha certeza dos sabores.

Gutessen - varenike
Depois, fui no varenike, aquela espécie de ravióli robusto, com recheio de batata e salteado na manteiga, servido com cebola frita por cima. Em português, podemos chamar de varênique.

Gutessen - varenike 2

Um close nele. Vendido a R$ 20, é uma ótima pedida, uma porção farta e saborosa, que me fez feliz.

Gutessen - sanduíche de língua
Já não tinha fome, mas “linguarudo” que sou como já admiti aqui mais de uma vez, não resisti à língua salitrada, uma espécie de conserva deste órgão bovino, prato típico do Pessach. Mas, em vez de ir no prato, pedi um sanduíche, com pepinos em conserva, uma preparação típica. Estava muito bom. Levei metade para casa.

Gutessen - strudel
Para encerrar, um bem-feito sdrudel de maçã, e um café. Com duas taças de vinho (R$ 12 cada), minha conta deu uns R$ 65, R$ 70. Uma pechincha neste Rio de Janeiro de preços esquizofrênicos.

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