Gastronomia paulista em terras cariocas e vice-versa

 
 
Perguntados sobre novos projetos, Alex Atala, do D.O.M., e Helena Rizzo, do Maní, não se cansam de repetir que sonham em ter restaurantes no Rio de Janeiro. A futura – e provável – chegada à Guanabara de dois dos mais badalados chefs de São Paulo, e do Brasil, seria o ápice de um movimento que começou timidamente, há mais de 20 anos, e que ganhou força há pouco mais de uma década, para se consolidar definitivamente nos últimos meses: o intercâmbio de grifes gastronômicas entre as duas maiores cidades do Brasil é uma deliciosa realidade.
 
Os camarões à Zico, um clássico do Antiquarius

Os camarões à Zico, um clássico do Antiquarius

 
Em 1990, quando o Antiquarius cruzou a Via Dutra para se instalar nos Jardins, São Paulo ganhou não apenas um grande restaurante português, mas também a casa pioneira neste saboroso troca-troca. O restaurante fechou as portas no ano passado, mas no início de 2014 a marca volta à capital paulista, dessa vez como Antiquarius Grill, com cardápio que combina o DNA lusitano com uma bela lista de carnes, em ambiente um pouco mais informal.
 
Picanha fatiada do Esplanada Grill: casa nascida em São Paulo, que hoje existe apenas no Rio de Janeiro

Picanha fatiada do Esplanada Grill: casa nascida em São Paulo, que hoje existe apenas no Rio de Janeiro

 
Poucos anos antes, o Esplanada Grill fez o caminho inverso. Nasceu em São Paulo, e migrou para o Rio. Hoje a casa matriz não existe mais, mas a churrascaria chique adorada por nomes como Boni (e família) continua firme e forte,  na esquina da Aníbal de Mendonça com a Barão da Torre, coração de Ipanema.
 
A sensacional costeleta de vitelo á milanesa, do Gero, que causou uma pequena revolução ao chegar ao Rio, em 2002

A sensacional costeleta de vitelo á milanesa, do Gero, que causou uma pequena revolução ao chegar ao Rio, em 2002

 
Foi a partir de 2002, com a inauguração do Gero, vizinho ao Esplanada Grill – na esquina da mesma Aníbal de Mendonça, com a Redentor – que esse trânsito de restaurantes foi ganhar corpo. O Garo de Ipanema marcou a chegada ao Rio de Janeiro do clã Fasano, sinônimo de elegância e da melhor cozinha italiana que se pode imaginar. Mesmo nas cidades mais ricas da Itália não é muito fácil encontrar um “ristorante” deste nível. A chegada do Gero ao Rio foi um desses lances que fazem bem a todos. Para o grupo Fasano, trouxe algumas doses da informalidade carioca (é possível até almoçar de bermudas, algo impensável nas casas paulistas do grupo). Para o Rio de Janeiro, estabeleceu um novo padrão de qualidade na cozinha e – ainda mais – no serviço.
 
Nicola Giorgio e Dionísio Chaves: saídos do grupo Fasano para abrir boas casas italianas

Nicola Giorgio e Dionísio Chaves: saídos do grupo Fasano para abrir boas casas italianas no Rio de Janeiro, na Barra, no Leblon e no Centro

 
Não à toa, muita gente que passou pelas casas do grupo em terras cariocas, como também acontece em São Paulo, saiu para montar os seus próprios negócios, como a dupla Dionisio Chaves e Nicola Giorgio, hoje sócios de três endereços italianos no Rio: o Duo, na Barra; a Bottega del Vino, no Leblon; e o Uniko, no Centro, trio que mantém o alto nível, da comida e do atendimento, estabelecido pela “famiglia” Fasano.
 
Atum com stracciatella, figos e croûtons, uma das estrelas dos cardápios do novo chef do Fasano al Mare, o italiano Paolo Lavezzini

Atum com stracciatella, figos e croûtons, uma das estrelas dos cardápios do novo chef do Fasano al Mare, o italiano Paolo Lavezzini

 
O negócio em terras cariocas deu tão certo que foram chegando, aos poucos, outras grifes com a assinatura Fasano ao Rio de Janeiro. Primeiro, a Forneria São Sebastião, que hoje já não tem mais o grupo como sócio, mas se mantém firme e forte – e cheio – na mesma Aníbal de Mendonça, a uma quadra de distância do Gero. Depois, em 2007, foi a vez de abrir as portas o hotel Fasano, na avenida Vieira Souto, na mesma Ipanema, trazendo acoplado, no térreo, um restaurante que carrega o nome da família. No Fasano al Mare, o cardápio faz jus à localização junto à praia, apresentando receitas que exploram com mais ênfase os peixes e os frutos do mar – e hoje a cozinha anda vivendo uma grande fase, com a chegada há cerca de um ano do chef italiano Paolo Lavezzini, pescado da mesma Enoteca Pinchiorri, o famoso três-estrelas Michelin de Florença, de onde já tinha vindo o seu compatriota Luca Gozzani, agora trabalhando no Fasano de São Paulo – e que, aliás, foi quem o indicou para assumir a cozinha do restaurante carioca. Depois, em 2011, abriu as portas o Gero da Barra da Tijuca, mostrando que não falta apetite para os Fasano continuarem expandindo os seus negócios em solo carioca.
 
Os tentáculos de polvo, temperados com alho, pimenta dedo-de-moça e cebolinha francesa, com tomate assado, fritas e saladinha: simplesmente perfeito

Os tentáculos de polvo do Le Vin, temperados com alho, pimenta dedo-de-moça e cebolinha francesa, com tomate assado, fritas e saladinha: simplesmente perfeito

 
O Gero foi um sucesso imediato, e continua assim até hoje, o que acabou inspirando a chegada de outras grifes da boa mesa paulistana ao Rio de Janeiro. Foi também Ipanema o endereço escolhido por outra marca de sucesso em São Paulo para se apresentar aos cariocas. Mas, desta vez, com sotaque francês. Com a inauguração do Le Vin, também em 2007, na Rua Barão da Torre, não muito longe dos demais restaurantes ipanemenses já citados, o Rio de Janeiro ganhou uma casa dedicada à cozinha francesa clássica, executando com perfeição um receituário tradicional que logo foi um sucesso imediato e que, assim como aconteceu com a grife Fasano, logo gerou filhotes: hoje o grupo Le Vin  tem três endereços no Rio de Janeiro, incluindo uma loja que vende vários produtos de produção própria, como pães, bolos e macarons, no Barrashoping, e um quiosque no Village Mall, também na Barra.
 
As magníficas alheiras do Astor, exclusividade da filial carioca

As magníficas alheiras do Astor, exclusividade da filial carioca

 
O ano de 2007 marcou a invasão paulista. Foi em abril deste ano que o Rio de Janeiro ganhou a primeira filial da mais famosa pizzaria paulistana. A abertura da grande e linda Bráz no Jardim Botânico,  com direito a um terraço agradável com vista para o Cristo Redentor, foi também outro marco, que trouxe a reboque outros investimentos posteriores da Cia. Tradicional de Comércio, grupo que tem várias outras casas em São Paulo (Original, Pirajá, Astor e Lanchonete da Cidade). Assim, algum tempo depois, Ipanema viu novamente a estreia em terras cariocas de uma marca da gastronomia paulistana, desta vez o bar Astor, que ocupou lindamente o antigo – e histórico – Barril 1800, que andava bem caidinho nos últimos anos. Novamente, os cariocas agradeceram, e o cardápio da casa incorporou alguns pratos típicos do Rio, e assumiu a influência lusitana que é uma característica do gastronomia carioca, lançando um prato que muito bem simboliza isso, as alheiras com fritas e ovos estalados, uma das melhores pedidas no endereço da Vieira Souto, esquina com Rainha Elizabeth. Hoje, a Cia Tradicional de Comércio busca um lugar para inaugurar uma Lanchonete da Cidade no Rio.
O sucesso de todas essas grifes paulistanas acabou trazendo outras, inclusive aquelas de perfil mais trivial, como a rede de hamburguerias The Fifities e o Ráscal, que consegue ser um excelente rodízio gourmet, de inclinações italianas, com especial atenção à cozinha mediterrânea. E, seguindo a mesma filosofia das casas paulistas, funcionando em shoppings, como o Leblon e o Rio Sul.
 
As veiras com sal vermelho, uma das melhores pedidas do Naga, no Village Mall, inaugurado no ano passado

As veiras com sal vermelho, uma das melhores pedidas do Naga, no Village Mall, inaugurado no ano passado

 
 Com potencial de ser um marco para a cozinha japonesa no Rio de Janeiro, a chegada do Naga, no Village Mall, trouxe vários cozinheiros importados de São Paulo para a cidade, além de ótimos fornecedores de pescados e um extremo cuidado na elaboração das cartas de saquê.
 
O salão da primeira unidade do Pobre Juan, no Village Mall

O salão da primeira unidade do Pobre Juan, no Village Mall

 
Mostrando que essa tendência veio para ficar, o Rio ganhou, ainda no ano passado, logo duas unidades da casa de carnes platenses Pobre Juan, primeiro no Village Mall, na Barra, e depois no Fashion Mall, em São Conrado. E, assim como acontece em São Paulo, onde restaurantes dedicadas às parrillas argentinas e uruguaias já são um sucesso faz algum tempo, a disputa vai ficar ainda mais acirrada: para o início de 2014 está prevista a abertura da primeira filial da rede Corrientes 348 Parrilla Porteña.
 
O pulpo alla gallega, um dos destaques do bar de tapaz Venga, que chegou a São Paulo depois de ser criado no Rio de Janeiro

O pulpo alla gallega, um dos destaques do bar de tapaz Venga, que chegou a São Paulo depois de ser criado no Rio de Janeiro

 
Ainda que com menos intensidade, também acontece um movimento em direção contrária, e algumas casas criadas no Rio de Janeiro estão migrando para São Paulo, geralmente lugares de perfil mais informal, como é o caso do bar de tapas Venga, que chegou À Vila Madalena, o mais carioca dos bairros paulistanos, em 2011 através de uma sociedade com a Cia Tradicional de Comércio.
 
O bolinho de feijoada do Aconchego Carioca, receita que se espalhou pelo Brasil

O bolinho de feijoada do Aconchego Carioca, receita que se espalhou pelo Brasil

 
No ano seguinte, em 2012, foi a vez do Aconchego Carioca, que reproduz nos Jardins o sucesso da casa original, na Praça da Bandeira.  Para o endereço paulistano, Katia Barbosa, a criadora do famoso bolinho de feijoada, hoje reproduzido por todo o país, reservou para o novo bar uma deliciosa novidade, rendendo homenagem aos locais: o bolinho de viradinho à paulista, um verdadeiro símbolo dessa deliciosa aliança entre o Rio de Janeiro e São Paulo através da boa mesa.
 
                                                                                                                                                                                                                          INTERCÂMBIO TAMBÉM DE COZINHEIROS
 
                                                                                                                                                                                                                                          Esse vaivém de grifes gastronômicas entre o Rio de Janeiro e São Paulo também acontece com os chefs, que andam trocando de cidade com frequência. Depois de construir uma carreira de sucesso no Rio de Janeiro, o francês Laurent Suaudeau foi morar na capital paulista, onde dá consultorias e aulas de gastronomia.
Já o italiano Luciano Boseggia fez o contrário. Chegou ao Brasil via São Paulo, “importado” pelos Fasano para trabalhar no grupo, onde ficou por 15 anos. Mestre nos risotos, ele ainda ficou por mais tempo na capital paulista, onde abriu um restaurante, antes de ir morar no Rio de Janeiro, assumindo a cozinha do Alloro, no Windsor Atlântica, que logo se colocou entre os melhores restaurantes italianos do Rio, e é visível a alegria do chef com a nova fase.
O boliviano Checho Gonzales, por sua vez, é um bom exemplo dessa situação. Trabalhou com Alex Atala nos primórdios do D.O.M., foi para o Rio de Janeiro, onde passou por várias casas, como o Zazá Bistrô e o Pecado, voltou para São Paulo e hoje se divide entre as duas cidades, cuidando do cardápio de várias casas, como o novato Escobar, no Leblon, um bar pan-americano, com receitas de vários países da América Latina.
Criador do Meza Bar, do finado Doiz, ambos em Botafogo, e do Barzinho, na Lapa, empreendimento em que ainda está à frente, em sociedade com o DJ e ator Rodrigo Pena, Fabio Battistella nasceu em São Paulo, mas escolheu o Rio para empreender, e já está envolvido em novo projeto, o Complex 111, em Ipanema.  

 O italiano Luca Gozzani chegou ao Brasil para inaugurar o Fasano al Mare e hoje dá expediente no ristorante matriz, em São Paulo


O italiano Luca Gozzani chegou ao Brasil para inaugurar o Fasano al Mare e hoje dá expediente no ristorante matriz, em São Paulo

 
Um dos capítulos mais recentes foi a ida para São Paulo do chef Luca Gozzani, que chegou ao Fasano para substituir Salvatore Loi no comando da cozinha, renovando o cardápio e dando ares um pouco mais joviais às receitas, incluindo a apresentação dos pratos.

 
                                                                                                                                                                                                                                          Esta reportagem foi escrita para a revista Conceito A.
 
                                                                                                                                                                                                                                      Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.
 
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3 Respostas to “Gastronomia paulista em terras cariocas e vice-versa”

  1. Dri Says:

    Agora acho que tudo está fazendo muito mais sentido! Acho que meu DNA é incompatível com a “famiglia” Fasano. A Forneria São Sebastião eu achei um lixo. Ruim, ruim, ruim de dar dó. Desde o cardápio aos pratos, passando pelo serviço, achei tudo fraco. Não sou a única: finais de semana, mesmo com todos os bares/restaurantes do entorno cheios, é sempre fácil encontrar lugar pra sentar lá. E também não gostei do Bottega Del Vino…

    • brunoagostini Says:

      Eu também não gosto da Forneria São Sebastião, mas já gostei, justamente quando a famiglia era sócia ainda. Depois acho que caiu muito. A Bottega não me enche os olhos, nem me desagrada, acho só mais um. Mas se o seu DNA não bate com o da famiglia, acho que quem perde mais é você mesma.

  2. ronaldo Says:

    Onde estão os endereços desses restaurantes? As informações são boas mas como encontrar onde ficam os restaurantes

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