A chegada em Paris, e um inesperado almoço três-estrelas no Le Cinq

Durante minhas viagens de trabalho é relativamente comum que eu coma duas vezes em uma refeição. Já cheguei ao cúmulo, num gordo exercício de reportagem que jamais repetirei, a visitar seis restaurantes em um mesmo dia, e comendo em todos eles (fazendo, inclusive, dois longos menus degustação, um no almoço, outro no jantar), durante uma viagem para Buenos Aires, para uma matéria sobre os melhores restaurantes da cidade (e para ler as matérias sobre os melhores lugares para se comer na capital argentina, clique aqui ou aqui).
Geralmente eu me planejo, de modo que controle os horários e também o que vou pedir em cada lugar, para que não haja exageros. Ontem, porém, almocei duas vezes, sem ter me programado para isso.
Começando do começo… Cheguei ao meu hotel em Paris, Le Bristol, dos meus preferidos. Subi ao quarto, tomei um banho e fui pedir indicações ao concierge. Queria um bistrô não muito longe dali, que fosse tradicional, e frequentado pelos moradores de Paris. Ele acabou me indicando três, e escolhi o Chez Savy, brasserie inaugurada em 1923, numa pequena rua transversal à Avenue de Montaigne.

Paris 1

Cheguei, gostei do lugar, e pedi um pichet de Borgonha genérico, para ir entrando no clima.

Paris 2

O couvert tinha tudo o que eu precisava: um patê sensacional, e um pão idem.

Paris 3
Para o prato, escolhi um pato confit com batatas, lamentando ainda não ser quarta-feira (ou seja, amanhã),…

Paris 4

… quando terá início da temporada de carnes de caça, com javali, veado, lebre e outros simpáticos bichinhos que estão começando a ilustrar os cardápios europeus.
Terminei de comer, e pedi a conta, junto com a senha do wifi para dar uma espiada nas mensagens, e ver se tinha algo urgente. E tinha, sim. Era uma mensagem da relações públicas da rede Four Seasons no Brasil. O relógio marcava 13h50, e o texto dizia o seguinte. “Bruno, você poderia almoçar no Le Cinq? Tenho uma reserva para vocês âs 14h, me confirma?”.
Confirmei, claro, pedindo para chegar às 14h15. E lá fui eu…
Em menos de dez minutos de caminhada, e  lá estava eu na porta do hotel George V. Pego de surpresa, não tinha paletó, que foi providenciado por eles.

Paris 5
Salão lotado, mesmo no almoço. Vi um casal de japoneses comendo com admiração e tranquilidade, e outro casal, festejando algo importante, muitos executivos também. Eu mal me acomodei na mesa, e chegou o garçom oferecendo uma taça de champanhe. Vai perguntar se macaco quer banana? Aceitei, e era um rótulo que eu ainda não conhecia, um rosé topo de gama da Lanson, o Noble Cuvée. Muito bom, fino e delicado.

Paris 6
Foi com ele em mãos que recebi contente o amuse bouche: um trio de delicadezas. Uma bola de textura macia, com sabor de gengibre e campari; um crocante de cebola com raiz forte e o melhor de tudo, uma combinação de foie gras com maracujá, algo muito usual, mas neste caso com um troque de café, que fez toda a diferença, causando surpresa e entusiasmo.

Paris 7

Mais amuse bouche. Um  jus de cèpe com ecrevisses e foi gras, e uma pétala de rosa com uma gota de mel ao lado.

Logo chegaram os pães, e as manteigas, com ou sem sal. Até lamentei ter comida o (delicioso) confit de canard… Queria ficar ali, revezando-me entre a baguete crocante e um pão escuro, meio integral. Mas achei por bem cessar esta irresistível degustação, para poder chegar com alegria ao final da refeição, que pelo o seu começo prometia ser incrível, como de fato foi (ninguém tem três estrelas Michelin à toa).
Já cheguei ao restaurante sem fome, de modo que para mim ficou mais evidente a qualidade da comida. Porque eu não tinha o melhor tempero, como se diz, que é justamente a fome.
Acatei todas as quatro sugestões do garçom, que me mostrou o menu indicando os pratos mais emblemáticos do chef Christian Le Squer.

Paris 8
O primeiro prato foi um assombro, em forma de “hommard bleu”, a deliciosa lagosta azul, servida com um toque de pimenta, uma espécie de geleia rala de grapefruit, endívias e um molho cremoso de manteiga. E se o prato já estava lindo com o champanhe, imagine quando chegou o sommelier da casa, Eric Beumard, um dos melhores do mundo, trazendo o vinho sugerido para ele.

Paris 9

Um Risling alsaciano, de produtor que eu não conhecia, com ligeiro açúcar residual, difícil de se notar devido à acidez pontiaguda. Aí, sim!!!
– Eu não sei se o senhor vai se lembrar, mas nós almoçamos juntos, lado a lado, em 2006, no restaurante D.O.M., em São Paulo, quando visitou a cidade. Naquela época eu trabalhava na revista Viagem e Turismo, e vivia em São Paulo. Hoje moro no Rio – eu comentei.
– Ah, sim, eu me lembro. Bem que notei que seu rosto não me era estranho – respondeu ele, saindo da minha mesa e ainda fazendo um gestual relativo à passagem do tempo – 2006… Bah, muito tempo…

Paris 10
Logo chegou o segundo prato. Um pedaço alto, com sete centímetros de altura, como havia informado o tal garçom que fez a sugestão, de turbot selvagem. Era um dado de carne branca e delicada, com textura firme, que estava colocado sobre uma cama de batatas, em molho leve, mesmo que feito com creme de leite, aerado. Sobre tudo, um pedacinho de trufa negra em formato quadrado, montando o prato minimalista em preto e branco, lindo de se ver, e ainda mais de comer.

 

Paris 11
Aí, então, veio o grandioso Chassagne-Montarachet Clos Saint-Jean 1er Cru, do Domaine Michel Niellon, vinhaço este que – por coincidência – eu havia provado na minha última visita a Paris, em abril passada, durante outra refeição de gala, um jantar no restaurante comendado pelo chef Alain Ducasse no hotel Le Meurice (para ler a reportagem, clique aqui).
Este é o caso típico de harmonização que trai a lógica, e desfaz os conceitos matemáticos. 1 + 1 = 3. O vinho melhora a comida, e comida melhora o vinho. E, assim, fui economizando cada gole, cada garfada (na verdade, o talher para este prato era quase uma combinação de colher, quase chata, com garfo, já que na ponta havia uns dentinhos, para podermos saborear o caldo e espetar a carne).

Paris 13
O prato prncipal, assim como o resto, entrou para uma espécie de galeria de honra que cultivo no meu peito: a de pratos preferidos de toda a vida. Sim, era um “ris de veau”, ou timo de vitelo, como se diz no Brasil, onde a iguaria (sabe-se lá por quais razões) é rara, ou sweetbread, em inglês, ou ainda molleja, como se diz na língua espanhola, mais familiar assim aos brasileiros que visitam a Argentina ou o Uruguai, dois povos loucos por este miúdo de sabor marcante, textura macia e muita untuosidade.
Eu, que sou apaixonado por “ris de veau” só havia comida uma vez a pela assim, inteira (tinha sido no La Cabrera, em Buenos Aires – aliás naquela mesma viagem das seis refeições que relatei no início do texto).
A carne vinha espetada por duas hastes de capim-limão, que lhe emprestavam um agradável sabor herbáceo, algo cítrico, além de uma inusitada beleza. Duas coisas me causaram ainda mais alegria (sem contar os nacos crocantes de alguma castanha que coroavam a carne).

Paris 12

A primeira: o vinho servido em cestinha de prata era um Gevrey-Charbertin desses de encanto, combinação de delicadeza e potência, elegância e profundidade, frutas e sabores terrosos. Era um exemplar ainda jovem, de 2009, mas delicioso de se beber, produzido pela pequena vinícola Sérafin Pére & Fils. A segunda: por debaixo do “ris de veau” havia cubinhos salteados de cogumelos, e um molho verde que quebrava qualquer resquício de monotonia.

Paris 14
Jamais recuso o carrinho de queijos. Pedi, como sempre faço, os mais intensos, de sabor marcante. Desculpem, mas não sou capaz de decorar os nomes dos queijos (o genial Charles de Gaulle, que entre outras frases brilhantes, como “O Brasil não é um país sério”, disse certa vez que é impossível governar um país que tem mais de 300 queijos diferentes, e ele se referia à França, claro – que, aliás, tem hoje mais de mil variedades distintas). Confesso que não estava animado a anotar, porque estava relaxado, curtindo o momento. Só me lembro que havia um camembert bem maduro e fedido, do jeito que a gente gosta.

Paris 15
Como se já fosse pouco isso, ainda veio o complemento perfeito à degustação dos queijos: um porto 1986…

Paris 16
POis, voilá, era hora da sobremesa. O pré-desert chegou em forma de um potinho de frutas cítricas com salsinha, para limpar a boca, além de pequenos bocados.

Paris 17

Em seguida, outro momento de antologia gastronômica, uma bem montada combinação de chocolate com caramelo e nougat. Ulalá!!!, como dizem os franceses, foi o que pensei quando, ao dar a primeira garfada, fui brindado ainda com o melhor Banylus que já bebi, de safra 1989.

Paris 18
Dispensei o café, mas numa ato de gentileza o garçom me trouxe uma bandeja com chocolatinhos, e também uma caixa com alguns petit fours. E essa massinha folheada, crocante que só ela, com amêndoas carameladas.
Agradeci, feliz, já imaginando a alegria da filha ao provar os docinhos, no próximo domingo, quando chego ao Brasil.
Caminhei muito ontem, como gosto de fazer em qualquer cidade, ainda mais em Paris, e para não dizer que foi tudo perfeito, ganhei uma baita bolha no calcanhar. Achei merecido. A felicidade, a alegria, para serem inteiras, precisam ter um bocadinho de tristeza.
Mas só um bocadinho mesmo. Porque no momento em que escrevo este texto estou no trem. A caminho da Borgonha, onde fico até sábado. Se não me perdi nas contas (se fosse bom em matemática não seria jornalista) vamos saborear nada menos que 12 estrelas Michelin, com direito a três restaurantes com o prêmio máximo da gastronomia mundial, as três estrelas do Guide Rouge. Caramba!!!

Mais informações sobres os restaurantes nos sites do Chez Savy e do Le Cinq.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: