Chablis: quase 21 anos de história na minha vida (uma emoção pisar ali)

Chablis 1

Tenho uma relação afetiva com Chablis. E não é só porque acho que este vinho se combina perfeitamente com ostras, uma paixão, e com outros pescados, num dos mais harmoniosos e perfeitos encontros que se tem notícia entre comida e bebida. Chablis tem patente alta em minha estima, lugar cativo em meu coração, porque foi a primeira denominação que eu descobri, numa historinha familiar deliciosa, que aconteceu há quase 21 anos, exatamente em janeiro de 1994, logo após o meu aniversário de 18 anos. Faz tempo. E nunca escrevi sobre isso.
Foi assim. Meu pai tem um grande amigo, sujeito espirituoso, de bom coração e divertido. Um aventureiro, que tem como hobby pilotar pequenos aviões. O João, naquele ano distante do século passado, nos convidou a fazer uma curta viagem até Paraty em seu pequeno bimotor de dois lugares, onde cabiam três pessoas, com mais um passageiro espremido atrás da dupla de bancos. Fomos decolar no Santos Dumont, o que por si só já é algo arrebatador. Era uma linda manhã. Acordamos cedo, e antes de irmos até o avião caminhando pela pista, paramos numa lojinha de bebidas, no saguão do aeroporto. Lembro-me perfeitamente disso até hoje.

Chablis 2
– Vamos levar um Chablis para bebermos no almoço, com lulas e camarões? – sugeriu meu pai ao João. Comparam duas garrafas. E fizemos uma viagem linda, guiados pelo GPS que então era uma novidade. Um voo espetacular, com cerca de uma hora de duração, um pouco menos que isso, acho. Sobrevoamos a orla do Rio: Ipanema, Leblon, Barra, Restinga de Marambaia, em altura que permitia uma apreciação especial da paisagem. Passamos sobre a Ilha Grande, onde eu havia acabado de curtir o réveillon com amigos, identificando as praias, e logo estávamos aterissando no então muito acanhando aeroporto paratiense, com direito a um susto: um maluco cruzou a pista de bicicleta, quando já estávamos tocando o chão.

Chablis 3
Chegamos, e nos hospedamos na Pousada Pardieiro, quando esta era uma das mais charmosas do Brasil, ainda nos tempos em que era propriedade do ator Paulo Autran, quando o hotel também pertencia, aliás, à associação Relais & Châteaux (por coincidência, a entidade que me trouxe para a França para este roteiro delicioso pela Borgonha). Deixamos as malas e fomos almoçar.
Lembro-me bem do restaurante, que até a minha última visita à cidade ainda existia (ao lado da igreja de Santa Rita), e cujo nome, no momento, eu não me lembro (mas sei que a parede tem uma coleção de relógios antigos). Lembro-me, ainda, muito bem, do cardápio: lulas recheadas com uma farofa de camarões. Bebemos o Chablis (como eu gostaria de lembrar o nome do produtor). E ali, naquele momento, meu pai plantou em mim a sementinha da enofilia. Havia naquela combinação entre vinho e comida algo divino. Deus Baco. Lembro-me das lulas macias, a farofinha úmida com muito camarão, e o vinho transformando o que já era ótimo em algo espetacular. O frescor que arredondava a comida, e sublinhava o prazer da boa mesa, apresentando-me novos componentes. Comemos e brindamos. Foi algo marcante, e a partir dali o vinho – ainda que timidamente – passou a fazer parte de minha vida (até que no ano de 2000 conheci uma linda argentina na Ilha Grande, namoramos, ela me visitou, e eu fui visitá-la em Buenos Aires, e o que era um simples apreço pelo vinho virou em terras portenhas uma paixão que cultivo até hoje, um caso que já contei no finado blog Enoteca: não vou me alongar; para ler, clique aqui).
No dia seguinte, fomos mergulhar. Foi o meu batismo, e a paixão pelo fundo do mar também atingiu o meu coração, e depois resolvi fazer cursos. Ganhei certificados de mergulador. Mas isso não importa e nem vem ao caso. Pelo menos hoje.

Chablis 4
Este post que me fez resgatar tantas histórias antigas e emocionantes acontece para explicar porque eu gosto tanto de Chablis, e porque fiquei tão feliz e contente ontem – entre um almoço sublime no restaurante Marc Meneau e um jantar igualmente espetacular no Jean-Michel Lorain – quando pude visitar os vinhedos desta denominação.
Era uma emoção multiplicada. Emoção por lembrar dessa história vivida em um final de semana do verão de 1994, quando havia a ingenuidade das descobertas juvenis, e Chablis foi a minha primeira incursão neste universo fascinante. História gravada com tanta vivacidade em minha memória. Emoção por todo o meu apreço que veio posteriormente pela combinação deste vinho com mariscos, principalmente, e pescados, de uma maneira geral (mas um Chablis Grand Cru, veja só, vai bem até com um bom prato de trufas brancas, e é também uma das melhores combinações com lagostas, sapateiras, vieiras, lagostins e outros nobres frutos do mar…).

Chablis 5

Emoção, ainda, por pisar naquele lugar tão querido e importante em minha vida. Emoção por tocar aquele solo branco, rochoso, formado há 150 milhões de anos, quando sobre aquele terreno havia o mar. Emoção de pegar aquelas pedras, e encontrar nelas pedaços fossilizados de ostras, facilmente identificáveis, aliás, mesmo para um leigo em geologia (olha só este fóssil de um grande caramujo marinho). Emoção de ver aquela paisagem em pleno outono, com a folhagem amarelada, já se esparramando pelo chão (repara nas quatro primeiras fotos que ilustram este post). Emoção de lembrar do dia em que conheci o Danio Braga, há mais de dez anos, cheio de perguntas naturais de um jornalista iniciante. Não me lembro bem porque falamos de Chablis, mas me recordo perfeitamente do que ele disse.
– O vinho tem muitos mistérios e encantos. Porque você acha que Chablis vai tão bem com ostras? – perguntou-me Danio Braga, na Locanda della Mimosa, em minha primeira visita a este mítico restaurante e pousada na Região Serrana do Rio – Porque o solo de Chablis é composto por restos de ostras. Não tem como dar errado. Tem um pouco de ostra no vinho – respondeu ele, sem esperar a minha resposta, que provavelmente seria “Não sei”.
Fato é que, entre aquele janeiro de 1994 e esta viagem à Borgonha de 2014, que termina hoje, passaram-se quase 21 anos. E em todo este período aquele almoço regado a Chablis me acompanha e me inspira. Por tudo isso, visitar Chablis, ver aquele cenário e tocar aquele chão, foi um momento muito especial para mim.
Merci beaucoup, pai. Nunca na vida bebi um Chablis sem lembrar de você.

 

Mais informações sobre Chablis? Clique aqui.

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