A despedida da Borgonha: a simplicidade deliciosa dos oeufs en meurette

Chegar em casa é sempre bom, ainda mais em um domingo chuvoso, que emenda em uma segunda-feira idem, estimulando a preguiça e o relaxamento. Voltemos à França, rapidinho.
Quando eu disse que viajaria para a Borgonha, o meu amigo petropolitano e francófilo, Igor Olszowski, logo se manifestou, assim mesmo, eu caixa alta, para reforçar sua indicação: “NAO DEIXE DE COMER LES OEUFS EN MEURETTE”.
Ele é mais que um amigo, mas uma fonte a quem sempre recorro quando preciso de informações de Paris. Foi ele, por exemplo, quem me indicou a Rue Sainte-Anne como reduto de ótimos restaurantes japoneses, ponto de encontro da colônia nipônica, bem como foi quem me recomendou o restaurante L’Afghani, em Montmarte, isso para citar apenas duas dicas usadas há pouco tempo.
Por obra do destino, acabei comendo um oeufs en meurette apenas no meu último dia, pouco antes de pegar o trem rumo a Paris, para voltar ao Brasil.

Oeufs en Meurette - com Chablis
Na verdade, eu até tinha provado o oeufs en meurette antes, mas era uma versão menos usual, feita com vinho branco (mas, sim, estava delicioso). A receita clássica é uma combinação entre ovo e vinho tinto, com bacon e cogumelos, num desses exemplos calorosos de que à mesa a simplicidade muitas vezes é tudo. A gema mole derretendo-se sobre o caldo vínico e untuoso, a colher que leva à boca essa bagunça de sabores úmidos, o salgadinho do bacon, a textura macia dos cogumelos e das cebolas… Foi no aconchegante Le Bistrot du Bord de l’Eau, na Hostellerie de Levernois; logo na chegada à Borgonha, embalados pela lareira e por um menu fincado na tradição local.

Borgonha 2 Jean-Michel Lorain
Mas a versão original mesmo ficou para o último dia. Depois de um café da manhã leve com uma salada cheia daquelas frutinhas vermelhas que adoramos, tive o prazer de ir visitar, guiado pelo chef Jean-Michel Lorain (do la Côte Saint Jacques), o mercado que acontece nas manhãs de sábado, na cidade de Joigny, em uma bela construção de ferro, bem característica.

Borgonha 1

Fiquei de boca aberta com os produtos locais, incluindo uma charcuterie só de carne de coelho, e com os queijos locais, em seus diversos pontos de maturação, dos frescais que vão sendo curados em vários estágios até o époisses, um dos mais fedorentes, deliciosos e cultuados queijos do mundo, produzido na Borgonha mesmo. As famílias de pequenos agricultores que vão vender os seus produtos, os artesãos da queijaria e da charcuterie…
De Joigny fomos almoçar na graciosa Auxerre. Um passeio pelo centro antigo, com construções com mais de 300 anos e cheias de charme, abriu o apetite. E o local do almoço não poderia ser mais apropriado para uma refeição de despedida.

Borgonha 3 - La Petite Beursaude

O restaurante La P’tite Beursaude é um pequeno bistrô com com administração familiar e cardápio caseiro, com os sabores locais.

Borgonha 4 - Thomas Becket

Provei uma cerveja local, a Thomas Becket Ambrée de Bourgogne, uma amber ale refermentada com mel, depois um copo de Chablis, e no final um tinto, cuja denominação (da Borgonha, claro) eu não me lembro. Não foi fácil escolher o prato principal.

Borgonha 5

A entrada foi uma saladinha de fígado de galinha com boudin de pato. Que prazer!
Para o principal, fiquei na dúvida. Havia uma carne com molho cremoso de époisses. Mas havia também os oeufs en meurette, em sua versão original, com vinho tinto. Isso soava como uma ordem.

Borgonha 5 - La Petite Beursaude

E lá veio a tijela crepitante com os ovos. E suas gemas moles. E aquele caldo quente e reconfortante. E o pão torrado em cubinhos que não se cansava de enxugar o líquido nem ralo nem espesso, sopa de vinho com ervas, e seus nacos de toucinho defumado, e a cebola que quase caramelizou.
Disse até breve á Borgonha assim, com os pés fincados em suas raízes, com vontade de me entranhar ainda mais nelas.

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4 Respostas to “A despedida da Borgonha: a simplicidade deliciosa dos oeufs en meurette”

  1. Stephany Grey Says:

    Muito bom ler esses textos de novo! Que bom que o blog voltou Bruno! Bjs!

  2. Lena Says:

    Ótimo post,

  3. Lena Says:

    Continuando: Já vi que vou adorar o blog. “Oeufs en Meurette” pedi no restô do Hotel Perrache, em Lyon, histórico e citado no livro “Expresso Oriente”, de Agatha Christie. Excelente cozinha e um dos melhores pratos que degustei na vida…

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