Archive for fevereiro \28\UTC 2015

Mendoza, segundo dia, parte 3: uma visita à Escorihuela Gascón e algumas novidades da enologia argentina

28/02/2015

Escorihuela 1
Visitei a bodega Escorihuela Gascón em novembro de 2008. Poucos dias depois, em dezembro, parte da antiga construção pegou fogo. Só fui saber dessa história agora, quando voltei à vinícola, localizada em Godoy Cruz, provavelmente a mais próxima do centro de Mendoza, onde funciona o restaurante mais famoso do pedaço, 1884 (homenagem ao ano de fundação da bodega), do chef-celebridade Francis Mallmann.

Escorihuela 9
Quando estive na propriedade pela primeira vez eu fui apenas para jantar, e comi uma empanada memorável, e uma bisteca, o prato mais conhecido do restaurante, que até hoje deixa saudades, uma das melhores carnes de toda a vida. Desta vez o passeio era bem mais completo, e começamos justamente ao lado do prédio que pegou fogo, hoje um gramado onde acontecem partidas de polo sobre duas rodas, que devem ser engraçadas (a vinícola, que hoje pertence ao grupo Catena Zapata, tem ligação com este esporte, mas em sua versão convencional, a cavalo, paixão de um dos filhos de Ernesto Catena).

Escorihuela 3

Na simpática lojinha, o esporte equestre é destaque na decoração, em fotos, e através de roupas e acessórios.

Escorihuela 7
A arquitetura lembra grandes galpões portuários, estruturas bem altas, de tijolinho, que funcionavam como cantina, e como armazéns.

Escorihuela 14
Num desses galpões ainda podemos ver a estrutura original, grandes tanques de fermentação de cimento, e um tonel de madeira, com belo acabamento artístico.

Escorihuela 15
Ao lado, uma coleção de barricas rotuladas, lembrando como era enviado o vinho para Buenos Aires.

Escorihuela 16

Havia uma estação de trem dentro da própria bodega, onde eram feitos os carregamentos para a capital.

Escorihuela 4
Provamos uma amostra dos vinhos da casa, começando com Escorihuela Gascón Malbec 2014, vinho de R$ 38, bem maduro, tânico e defumado, com um leve floral e notas de cinzas e grafite. O 2013 se mostrou melhor, mais redondo e amplo, carnoso, com cacau, café, amaixa seca e taninos bem marcados. A coisa começa a ficar mais séria com El Conquistador Red Blend 2011 é mais fresco e picante, com chocolate, café, violeta e licor de cassis. Ele abriu caminho para o Pequeñas Produciones Malbec 2011, um desses vinhos que me faz lembrar por quais razões esta foi a primeira uva tinta a fisgar o meu coração. Aromas elegantes e delicados, com muita concentração, e uma acidez elevada que não deixa o vinho cair na monotonia, equilibrando os taninos bem marcados. Um vinho estruturado, puro e intenso, que traz notas de violetas típicas da Malbec. Com dois anos a mais, o Miguel Escorihuela 2009, dizem, era o vinho preferido de Perón, o que deu grande fama à bodega. Se era, seguramente era algo muito diferente do que encontramos hoje. Concentrado e profundo, o vinho combina sabores de chocolate amargo e amora, violeta e ameixa, pimenta e grafite.

Escorihuela 6

Encerramos com o Miguel Escorihuela Brut Nature, feito com 50% de Chardonnay e 50% de Pinot Noir, me fazendo crer, ainda mais, que os espumantes mais básicos da Argentina pouco me seduzem, mas que aqueles mais desafiadores, caso de todos os “Nature”, alcançam resultados bem interessantes, como é o caso desse.

Escorihuela 21

Ainda provei, depois, três vinhos da linha Pequeñas Produciones. O Chardonnay era untuoso e gordo, com pêssego e abacaxi. O Cabernet Sauvignon 2010 estava bem bom. Mas encantador, mesmo, foi o Cabernet Franc 2010. Hoje em dia, falando de Argentina, eu seria capaz de ficar bebendo só Cabernet Franc, e cortes feitos com essa uva, pelos próximos anos.

Vistalba
Despois, nos encontramos com outros produtores, para conversar e provar mais vinhos. Revisitei alguns velhos conhecidos, como a Vistalba, e o seu Tomero malbec 2012, redondinho, vendido a R$ 50 (pelo Domno, da Casa Valduga), e dois de seus vinhos de alta gama, com destaque para o Corte A 2012, ainda uma criança.

Kaiken
Na Kaiken, que pertence à chilena Montes, encontrei um Sauvignon Blanc 2014 Terroir Series que muito me lembrou os exemplares chilenos, muito aromático, com notas vegetais, de ervas, e maracujá. O corte de Malbec, Bonarda e Petit Verdot, que vi em outros rótulos argentinos recentemente, me parece uma tendência, mesclando o caráter amável e doce da primeira, com o comportamento um tanto selvagem da segunda, e a potência da terceira.

Casarena
Até aí, só produtores (e vinhos) conhecidos, bem conhecidos. Foi quando cheguei à mesa da Casarena, uma bodega que – de cara – já me ganhou pelos rótulos, que destacam os diversos vinhedos da propriedade, mostrando a parcela de onde vem o vinho em questão. Belos rótulos para lindos vinhos, que acabaram reconhecidos pelo júri do Wines of Argentina, que dois dias depois premiou o Casarena Single Vineyard Jamilla’s Vineyard Perdrie Mabec 2012, como vencedor na categoria “De US$ 30 a US$ 49,99” (para ler um post sobre o prêmio, clique aqui). Pelo conjunto da obra, ganhou lugar de destaque na minha galeria de bodegas argentinas mais queridas, ao lado de nomes como Altocedro, Monteviejo, De Angeles, Passionate Wines, Carmelo Patti, Ricardo Santos, Marcelo Miras e Chacra, entre outras poucas, e boas.

Ao lado, encontrei outra bela novidade, a Mascota Vineyards. Novidade, em termos. A marca opertence ao grupo Peñaflor, dono, por exemplo, da Trapiche. A história é bem interessante. A família que era dono da cervejaria Quilmes ganhou uma boa bolada da Ambev, quando esta comprou a marca argentina. Depois de algum tempo, eles compraram o grupo Peñaflor, o maior do país. E, dentro do processo de renovação da empresa, um dos projetos mais interessantes é justamente o “Mascota”, praticamente um bichinho de estimação da família, uma bodega pequena, com linha consistente de produtos. Provei três vinhos deles, tendo um bom panorama da filosofia da casa. O Cabernet Sauvignon 2013; o Grand Mascota 2011 e o Unanime 2011.
Problema é que eu sou um desgustador pouco veloz, por assim dizer. E acabei me esquecendo de fotografar os vinhos, porque o povo já reclamava de minha demora, e todos já se encaminhavam para o jantar, no mesmo 1884.

Escorihuela 23
A tarde caía feito um viaduto, e o movimento no restaurante começava a ficar forte.

Escorihuela 26

A parrilla fica num canto do terraço, e praticamente podemos preparar as nossas carnes junto ao parrillero. Mallmann circulava por lá.

Escorihuela 24
Minha empanada estava maravilhosa, das melhores da viagem, como da outra vez. Mas o ojo de bife – que estava macio e suculento – não fez a minha cabeça, como a bisteca tinha feito da outra vez.
Melhor dormir logo. Porque no dia seguinte a saída, com destino a San Juan, estava programada para às 7h. E esse é o tema do próximo post da série “Argentina”, já se encaminhando para o seu final.

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Portugal de Norte a Sul: um passeio pelos vinhos do país, na Cavist

27/02/2015

Este ano começo a dar aulas e palestras de vinho regularmente, e de temas afins, como turismo e gastronomia, e cervejas. Em paralelo, vamos organizar, com diversos parceiros, eventos, almoços e jantares. E até viagens. Vou, por assim dizer, começar a diversificar os negócios, fazendo consultorias, montando cartas de bebidas e dando treinamentos.
Dizem que a propaganda é a alma do negócio. Então, vamos a ela. O trabalho começa no dia 9 de março, com uma aula sobre vinhos portugueses na Cavist de Ipanema. No dia 16, a aula se repete, na filial da Barra da Cavist. Os vinhos servidos serão representantes de cinco zonas vinícolas das mais importantes do país, mostrando a sua diversidade enológica em termos de uvas e estilos.
Serão eles:
– Vinhos Verdes – Quinta do Ameal
– Douro – Flor do Crasto Branco
– Dão – Vinhas Paz Colheita
– Alentejo – Anas Tinto – Herdade do Sobroso
– Porto – Taylor’s Selection
Custa R$ 170. E começa às 20h. Mais informações e reservas nos telefones 2123-7900 (Ipanema) e 2493-6161 (Barra)
Haverá outros, que já estou acertando, que irei divulgar aqui oportunamente (de certo, nos dias 4 e 5 de maio, na mesma Cavist, haverá degustação de Champanhe).

Para ampliar a imagem abaixo, para ver mais detalhes, basta clicar em cima.

image (1)

Mendoza, segundo dia, parte 2 – O Vale de Uco: passeio imperdível

27/02/2015

Vale de Uco 1

Em termos de paisagem, mesmo com a forte concorrência (Patagônia, Luján, Pedernal), a viagem de aproximadamente uma hora e meia de Mendoza ao Vale de Uco foi a mais bela. Seguimos rumo ao Sul, acompanhando a Cordilheira dos Andes, à nossa direita. Quando viramos em direção às montanhas, deixando a estrada principal, já vamos subindo um pouco de altitude, nos embrenhando nas raízes dos Andes, que vão se tornando cada vez mais imponentes quanto mais próximos estamos deles. O vulcão Tupungato é uma rocha sólida e nevada, branca, com sombreados, de contornos preciosos, tipo obra de arte, um desenho de precisa beleza acidentada.
O clima campestre, as parrillas de beira de estrada e os vinhedos que vão surgindo dão contornos bucólicos ao passeio. Passamos por pequenos vilarejos pacatos, onde podemos comer maravilhosos pescados, garante-me o meu motorista, e eu acredito nele.
– Que pescados? Trutas da região? Salmão? – pergunto.
– Sim, claro. Também. Mas eles fazem de tudo. Camarões, lulas, peixes marinhos. Muito recomendável.

O Vale de Uco anda se sofisticando, no ritmo da fama de seus vinhos. Algumas das mais lindas e modernas bodegas da Argentina estão por lá, como a Salentein, que era o nosso destino naquela manhã ensolarada, depois de um raro dia nublado em Mendoza. O movimento enófilo atraiu vários hotéis e pousadas, e consequentemente, bons restaurantes e um interessante comércio local, com umas lojinhas de artesanato, butiques, coisa e tal.
O cenário é desértico, com plantações alimentadas pela água do degelo dos Andes. Entramos na vinícola, passamos por uma capelinha e logo estamos de frente para o prédios de linhas retas, em tons ocres, combinando com a paisagem, bem integrado a ela.
Na verdade, são duas edificações, distantes cerca de 100 metros uma da outra.

Salentein 2

Na primeira, uma espécie de centro de visitantes, com recepção, loja etc.

Salentein 24

Há um restaurante com vista para os vinhedos.

Salentein 26

 

As empanadas que provei estavam bem boas.
Salentein 29

E o lugar tem até uma galeria de arte.

Salentein 25

Gostei dessa obra, um emaranhado de lentes, que distorce os quadros.

Vale de Uco 5 - Salentein 2
E há várias peças espalhadas por diversas partes, externas e…

Salentein 1
… internas.

Salentein 3
Do outro lado está a bodega propriamente dita, onde é produzido o vinho. Vamos caminhado pela alameda que atravessa o vinhedo,…

Salentein 6

… tirando aquelas fotografias clássicas.

Salentein 5

As roseiras, com os vinhedos, e neste caso, com uma bossa especial, os Andes ao fundo.

Salentein 7
Comemos algumas uvinhas, porque ninguém resiste a verificar os graus de açúcar e acidez, delicioso exercício de imaginação. A fruta suculenta, a secura dos taninos, o caldo agridoce. A tinta que colore os nossos dedos ao esfregarmos as cascas. O sabor amargo da semente, que mordemos para testar os taninos.
Soube que tinha nevado na noite anterior.

Salentein 9
– Essas montanhas ontem não estavam assim. Caiu muita neve – informa-me um local.

Salentein 10
Do lado de fora podemos dizer que o prédio é discreto, quase camuflado na paisagem, com a vegetação andina, tambpem em tons desbotados, ocres. Não se imagina que lá dentro o cenário é imponente, com ares de catedral, um templo do vinho. As barricas estão como em altares. Dedicados a Baco. Dionísio.

Salentein 11

Dele temos um bom panorama do edifício que recebe os visitantes.

 

Salentein 12
Quando chegamos ao salão principal, um imenso buraco redondo no chão revela uma sala de barricas que é como uma grande caverna.

Salentein 13
Tem acústica de sala de concertos, e um piano de cauda está sempre ali, esperando o próximos maestro (são pelo menos duas apresentações por ano, uma de tango, outra de música clássica). Uma rosa-dos-ventos no chão é sinal de orientação.

Salentein 16
Descemos até o chão. A energia no local é boa. Flui. As barricas. Redondas. O salão. Arredondado. Os grandes tonéis. Circulares. Tudo fluido.
O buraco que era no piso, agora está no teto. E dele vem uma luz bonita, apoteótica, quase divina, daquela que vemos em igrejas antigas, invadindo a nave através do mosaico meticulosamente pensado.

Salentein 18
Há várias enotecas, salas não muito grandes que guardam os vinhos já engarrafados, em armários com portas de metal. São também salas de degustação, para que os grupos de visitantes em cada prova não sejam muito grandes. E há de vários tipos.
A mesa é belíssima. Um tipo de mármore, em pedra bruta, que lembra uma rolha.

Salentein 23
Nem sempre se tem a sorte de degustar os vinhos com o seu autor. Quando isso acontece, é sempre melhor.Quem nos recebeu para a prova foi o enólogo da casa, Pepe Galante.

Salentein 19

E começamos a prova.

O Salentein Reserve Sauvignon Blanc 2014 era muito aromático, com pimenta branca, mentolado, e vegetal, com notas de capim-limão e grama cortada, com uma mineralidade, e um toque salino. É uma especialidade da casa. São 1,2 milhão de garrafas ao ano.

– Somos a única vinícola da Argentina que produz mais Sauvignon Blanc do que outros brancos, como Chardonnay e Torrontés. E fazemos isso porque aqui em Uco o clima é mais fresco, e adequado a esta variedade – explica Pepe Galante.

O Salentein Reserve Chardonnay 2013 é fermentado em  barraica, ganhando untuosidade, com textura gorda. Tem notas florais, e de frutas, como melão, e cítricos, como limão. Tem volume de boca, deixando um rastro adocicado, de baunilha, mas com isso tudo, sem perder o frescor.

Salentein 20

Partimos para os tintos. O Salentein Reserve Pinot Noir 2013 puxou a fileira, com muita fruta, e uma pimentinha. Um vinho claro, com bonita cor, límpido e puro, com notas de rosas e cerejas, e algo de ervas, com um tomilho fresco muito nítido, e um final longo e agradável.

Salentein 21

O Salentein Reserve Malbec 2013 trazia as típicas notas florais de violeta, e tília, com muita fruta fresca, notas de chá, e taninos macios, com textura agradável. Uma seda. Muito delicado.

Salentein 22

Foi a vez do Numina Cabernet Franc 2013. Bastou um giro na taça, e uma respirada na borda dela para sentir o perfume do vinho, terroso, floral, cheio de fruta, cheio graça. Já ali tinha a certeza que estava diante de um dos vinhos preferidos da viagem. O que comprovei em seguida, ao sentir a textura firme e sedosa, o sabor rico, com tudo aquilo que os aromas revelavam, e algo mais. Cogumelos. Trufas. Especiarias. Ervas. Fruta, muita fruta. Amoras e mirtilos. Jaboticaba. Um Cabernet “Franco”, direto e puro, sincero eu diria. Elegante.

Depois, ainda provamos o Numina Malbec 2012 (aroma delicadamente doce, com taninos firmes e textura fina: “delícia”, como escrevi); e o Numina Gran Corte (coisa séria, meio misterioso, com muito frescor; complexo, floral, com notas de frutas em compota, floral, bem longevo, com acidez marcante e taninos  redondos: acho que chega ao auge em uns 10, 15 anos).

Eu, que acredito nas energias, e na influência delas em todas as coisas, tenho a certeza de que aquela bodega bonita, com jeito de basílica, em suas formas fluidas, arredondadas, ajudam o vinho a ter esse estilo redondo, macio e sedoso. Ele descansa em barricas muito bem acomodadas, e que por vezes são brindados com belos concertos. Dizem que a música faz bem ao vinho. E eu acredito. Ainda mais depois desta visita à Salentein.

 

Bazzar e Lorenzo Bistrô: olhando de longe, não parece, mas são dois restaurante com espíritos semelhantes

26/02/2015

Existem dois restaurantes que não se parecem em nada. Mas, que se observarmos bem os seus detalhes, perceberemos que são muito próximos, eu diria complementares. O Bazzar e o Lorenço Bistrô fogem da corrente atual dos restaurantes, cujos chefs são os atores principais. Cristiana Beltrão, escoltada pelo extraordinário Claudio de Freitas na cozinha, é a maestra do restaurante de Ipanema, e dos cafés, e do Lado B, que funcionam em unidades da Livraria da Travessa. João Luiz Garcia, o Janjão, personagem lendário da gastronomia carioca, fundador do Garcia & Rodrigues, difusor do vinho e – assim como a Cristiana Beltrão – um profundo conhecedor da História e dos prazeres da gastronomia, é quem rege a orquestra das duas casas do Jardim Botânico, o Lorenzo Bistrô, matriz, e a Casa Carandaí, filhote mais novo, um empório, enoteca e café dos mais simpáticos do Rio.
Isso já seria o bastante para se poder juntar os restaurantes no mesmo grupo (sem contar o fato que são casas que deram filhotes). Neles, como em poucos lugares, percebemos o espírito de seus proprietários, donos também do salão, dos conceitos, dos fundamentos de cada casa. A própria decoração revela um pouco da personalidade de cada lugar, que reflete os seus mentores.

O bubble bar do Bazzar: borbulhas, Jerez, cervejas especiais

O bubble bar do Bazzar: borbulhas, Jerez, cervejas especiais

 

No Bazzar temos uma arquitetura moderna, arejada, com opções de escolhas: podemos nos sentar na varanda, nas poltronas de couro, no balcão do bubble bar, ou mesmo nas mesas, digamos, regulares (adoro a redonda, ao fundo, junto à adega).

 

Garrafas de grandes vinhos decoram as paredes do Lorenzo Bistrô

Garrafas de grandes vinhos decoram as paredes do Lorenzo Bistrô

No Lorenzo Bistrô, eu encontro deliciosas referências pelas paredes: quadros com fotos de vinhos e comidas, páginas de revistas gastronômicas, garrafas de vinhos de sonho, num aconchegante painel de devoção à boa mesa. Tem mesmo um clima de bistrô, e cozinha idem. Podemos, também, ficar na varanda, na discrição do segundo andar, e até no terraço… Ou nas mesas regulares. Em comum aos dois, em termos de decoração, além da assinatura da Cris e do Janjão, está o aconchego. Me sinto muito bem nesses dois ambientes.
Fico com a impressão que a Cristiana Beltrão escreve a História do Bazzar olhando para o futuro, sem deixar de buscar as referências do passado, estudá-lo a fundo. Já o Janjão, observa o passado, a cozinha clássica do mundo inteiro, e colhe desse imenso e delicioso manancial os pratos que vai servir, podendo interferir levemente aqui ou ali, dando um tempero pessoal, familiar.

O salmão selvagem do Alasca com caldo de cajuína, dill e açafrão, um dos destaques do menu da primavera passada

O salmão selvagem do Alasca com caldo de cajuína, dill e açafrão, um dos destaques do menu da primavera passada: cardápios sazonais a cada nova estação

Olhando com atenção os menus é que temos essa certeza, de que são casas com espírito parecido. Em conjunto com o chef Claudio de Freitas, dos mais admiráveis que conheço, em todos os sentidos, Cristiana Beltrão instiga, provoca, conforta e acolhe a sua clientela, montando um cardápio autoral, que é criado a quatro mãos. Ela lança as ideias, eles debatem, Claudio vai testando, testando, e vão todos por lá provando, provando… E nesse processo o cardápio muda com a regularidade das estações. E toma carta de vinhos sazonal, e de cervejas, e de cachaças. Uma inquietude deliciosa. E assim nasceram pratos como salmão selvagem do Alasca com caldo de cajuína, dill e açafrão, um dos destaques do menu da primavera passada; e “O primeiro ato do menu invernal propriamente dito foi um consomée servido com torradinha de pão de champagne coroada com nacos de tutano de vitela e uns brotinhos, para dar um sabor verde e fresco”, como defini este prato em um post na época do lançamento, em julho do ano passado. E sem falar nos clássicos da casa. O  já adolescente carpaccio de pato com queijo de cabra e tomilho; o poético “aviús, ovas e ovos” e os indescritíveis lombos de cavaquinha com purê de aipim, crisp de alho poró e molho de amêndoas e avelãs.

O vitello alla milanese do Lorenzo, com saladinha de rúcula e tomate, e um purê de batata bem cremoso, na panelinha

O vitello alla milanese do Lorenzo, com saladinha de rúcula e tomate, e um purê de batata bem cremoso, na panelinha

Janjão faz um caminho que não deixa de ser parecido. Mas olhando mais para trás, e isso é muito atual, é deliciosamente contemporâneo. Depois de anos de viagens e viagens e mais viagens, montou com a saudosa Nick um cardápio sedoso, cheio de referências, e dos mais confortáveis do Rio. Traz pratos consagrados da Itália e da França, países melhor representados no menu: tanto assim que sábado tem “Le cassoulet de Toulouse” e, no domingo, “arrosto di capretto”. O cardápio traz receitas consagradas desses dois países, e da gastronomia universal: steak tartare, vitello alla milanese, bolinhos de bacalhau, cheeseburguer, confit de canard, frutos do mar à moda tailandesa, Cornwall scallops (aquela receita inglesa, de veiras com Parma). A França predomina nas entradas. E a Itália, nos principais, com respeitável repertório de massas e risotos. Para quem ama esses dois países, em grande parte por suas cozinhas, é um paraíso.

Queijos artesanais brasileiros no Lorenzo Bistrô

Queijos artesanais brasileiros no Lorenzo Bistrô

Existem ainda as virtudes revolucionárias encrustadas em cada um dos dois. O Janjão teve coragem de peitar a lei ignorante (que ainda temos, um pouco mais branda) e vender em sua Casa Carandaí queijos mineiros feitos com leite cru, que amadureciam numa cave moderna, talvez a primeira do Rio para maturação de queijos.

O cação pescado em Búzios, fisgado pelo olhar atento e local de Cristiana Beltrão

O cação pescado em Búzios, fisgado pelo olhar atento e local de Cristiana Beltrão

E a Cris, muito antes de qualquer outra pessoa, abraça as mais novas vanguardas da gastronomia. Faz isso como poucos. Antes de qualquer um, estava trazendo a mesa do carioca ingredientes do Rio de Janeiro. O cação de Búzios, o pato de Sapucaia, os queijos de cabra da Região Serrana. E os orgânicos, a celebração atual ao tutano etc etc etc. E os fermentados.
Existem clássicos no Bazzar: uma tarte tatin de enternecer, o hambúrguer mais sensível de Ipanema, carne, pão e queijo, fritas das boas, e os molhos com assinatura da casa (produtos que hoje são exportados, e encontrados em Paris, Londres e Nova York, ilustrando vitrines de lugares com a Harrods e o Bon Marché. Está bom pra você?).
Assim como no Lorenzo encontramos criações autênticas da casa. Tipo o “confit de Canard a Nick”, com purê de maçã e damasco, e figos braisé. Ou a “mini cocotte a Lulu”, graciosa panelinha de lula, camarões salteados no azeite, alho e tomate cereja. Ou, ainda, outra assinatura da casa, “a memorável torta de chocolate e gengibre do Lulu” (Lulu era o antigo nome do restaurante), uma torta brownie de chocolate meio amargo e gengibre.

E, tanto no Bazzar, quanto no Lorenzo, podemos pedir com alegria um belo prato de queijos brasileiros, dos melhores. Um orgulho.

O couvert do Lorenzo, e seu famoso grissini

O couvert do Lorenzo, e seu famoso grissini

O couvert é certeiro, nos dois lugares. Tão certeiro tanto quanto simples, baseados em pães feitos na casa (adoro a torradinha de foccacia do Bazzar, e o grissini do Lorenzo), azeites e uma bossa aqui, outra ali. Nas duas casas há belos cheeseburgers. Desses cheios de ternura e simplicidade. Em ambas, comemos lindas tarte tatins.

A Cris e o Janjão adoram os produtos brasileiros. E, por fim, a linha própria de produtos da Casa Carandaí, lançada muito recentemente novamente entrelaça esses duas marcas: o Bazzar e, no caso, a Casa Carandaí. Apresentamos a novidade aqui em primeira mão (para ler, clique aqui). E foi justamento o que inspirou este post, quando comecei a pensar nas semelhanças e diferenças das duas casas. Assim como a Cris, Janjão agora também tem a sua linha de produtos.
Além disso, são amantes do vinho. E pessoas com quem eu tenho o prazer de dividir a mesa regularmente.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

Mendoza, segundo dia, parte 1 – O Vale de Uco

26/02/2015
A estrada a caminho do Vale de Uco: viramos a direita e temos os Andes à nossa frente, e vamos nos entranhando nele, em busca de alguns dos melhores vinhedos da Argentina, e de  algumas das bodegas mais lindas, e dos hotéis mais charmosos

A estrada a caminho do Vale de Uco: viramos a direita e temos os Andes à nossa frente, e vamos nos entranhando nele, em busca de alguns dos melhores vinhedos da Argentina, e de algumas das bodegas mais lindas, e dos hotéis mais charmosos

Num país como a Argentina, com produção de vinhos gigantesca, encontramos a um só tempo muitas tendências. Hoje, por exemplo, podemos dizer sem medo de errar que uvas como Cabernet Franc, Petit Verdot e Semillon andam em alta, bem como o surgimento de single vineyards. Em termos de geografia, em se tratando de Mendoza, a região que está mais badalada no momento é o Valle de Uco, a cerca de uma hora e meia de carro, por uma estrada reta, que primeiro vai acompanhando paralelamente o traçado dos Andes, aquele cenário de picos lindos e imponentes, até que viramos à direita, e vamos nos entranhando nas montanhas, seguindo um circuito agora sinuoso, com paisagem que vai se tornando cada vez mais bela.

O vulcão extinto Tupungato, e sua neve eterna

O vulcão extinto Tupungato, e sua neve eterna

Até surgir imponente o vulcão Tupungato, ícone da paisagem linda, com picos de neve eterna. É o pedaço mais quente e “cool”, de Mendoza. Quente, entenda por badalado, porque esta é das zonas mais frias, e alta, o que é grande parte de suas credenciais de distinção e qualidade. Áreas como La Consulta e Gualtallary estão na moda, e o Valle de Uco, como um todo. Quem visita Mendoza hoje em dia não pode deixar a preguiça tomar conta, restringindo o programa apenas às bodegas mais próximas da área central, e como Maipú, Godoy Cruz, Agrelo e até Luján de Cuyo. Uco é necessário.
E quem quiser pode até se hospedar por lá, em hotéis como The Vines Resort & Spa, entre tantas possibilidades de hospedagem, desde pousadas de charmes a resorts temáticos (sobre vinho, claro).

A Salentein tem uma arquitetura integrada à paisagem

A Salentein tem uma arquitetura integrada à paisagem

Entre as bodegas de visita obrigatória está a Salentein, pela combinação da arquitetura meticulosamente linda e original, bem integrada à paisagem, e com raro perfil, passando pela própria qualidade dos vinhos em si, …

Obras de arte estão espalhadas pela Salentein

Obras de arte estão espalhadas pela Salentein

… e até chegar à coleção de arte que se espalha pela propriedade, e pela loja bem montada, e o restaurante de paredes envidraçadas, com vista para as montanhas, que era o nosso destino naquela manhã. Acordamos e saímos cedo, e a esticada até lá já começa a valer a pena só pela paisagem que podemos apreciar pela janela (escolha um lugar no lado direito).
E este é o tema do próximo post da série (para ler, clique aqui).

Só não quero que me falte a danada da cachaça

25/02/2015
Não se engane: caipirinha, é de cachaça; se não é de cachaça, não é caipirinha

Não se engane: caipirinha, é de cachaça; se não é de cachaça, não é caipirinha

Faz um bom tempo uma coisa me intriga. Na verdade, hoje o verbo é irritar. Fico bem irritado quando vou a um bar – algo bem comum – e peço uma caipirinha – algo bem raro. Em cálculos ligeiros de memória, mas com índices altamente confiáveis, eu diria que em cerca de 80% dos casos a resposta do garçom me faz ter vontade imediata de ir embora, e em alguns casos eu vou mesmo, caso haja algo aceitável nas redondezas.
– O senhor prefere que tipo de vodca, premium ou comum? – agridem uns.
– Vodca nacional ou importada? – debocham outros.
Coisa irritante.
Coisa vergonhosa.
Porque se eu peço caipirinha, isso significa que se trata de um drinque feito com limão macerado com um pouco de açúcar, com cachaça e gelo. E até pode haver variações. Sempre questões quantitativas: com ou sem açúcar?, com pouco ou muito gelo? Ou, então, são questões cromáticas: prata ou ouro?, branca ou dourada?, com ou sem madeira? (De uma maneira geral, as branquinhas, sem passagem em barris, são mais adequadas, pela sua maior neutralidade, mas há exceções). Aceito até o uso de melado, ou açúcar mascavo. Até xarope de água com açúcar.
Ou seja, caipirinha é cachaça e limão. Qualquer coisa diferente disso, não é caiprinha. Se eu peço caipirinha, sequer preciso dizer que é de limão. Porque caipirinha é de limão. Se é de morango, de caju, de uva, ou de qualquer outra coisa, temos que chamá-la de caipirinha de morango, caipirinha de caju, caipirinha de uva, ou caipirinha de qualquer outra coisa. Sendo de limão, basta chamá-la caipirinha.
Se é de vodca, sequer pode ser chamada de caipirinha. Existe uma palavra (muito da chata) para isso: caipirosca (às vezes abreviado como rosca, caso da Bahia, o que torna pior o que é muito ruim). Ou caipivodca, que acho melhor, porque o nome já traz em si a sua subversão escrota; Caipirosca já dá margem a dúvidas.
Quando chegará o dia em que o Brasil vai entender que, quando pedimos caipirinha,a queremos um drinque de limão e pinga. Com (ou sem)
Pior é que se eu pedir um Cuba libre, não haverá garçom que me questione o tipo de destilado usado.
Pior é que se eu pedir um pisco sour, ninguém vai me perguntar se quero com que tipo de vodca.
Isso vale para todos os drinques clássicos. Caipirinha é um drinque clássico. Sua receita, com ingredientes imutáveis, seja lá onde se faça uma caipirinha, é limão e cachaça, tendo gelo e açúcar como acessórios.
E, evidentemente, se alguém pedir uma caipirosca, certamente jamais a resposta será: “Com qual marca de cachaça você prefere?”

 

ATUALIZAÇÃO: Ontem, publiquei o link deste post no Facebook. E foram muitos comentários em seguida. Um deles, merece destaque aqui, feito por Rafael De Almeida Sampaio, sócio do Barthodomeu, e um grande apreciador da cachaça: “Tem uma questão que separa os dois produtos. A Vodca é o único destilado que é mais elegante quanto menos gosto tem, então destilam um monte de vezes. Na cachaça, o gosto interessa!”

Deu pra entender que caipirinha é de cachaça com limão, açúcar e gelo, ou precisamos desenhar?

 

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

Mendoza, primeiro dia, parte 3 – Seis bodegas e um jantar

25/02/2015

Feira - Finca Agostino

 

De todas as bodegas que encontraria naquela noite, que ainda estava clara por volta das 21h, eu apenas não conhecia a Finca Agostino, que pertence a uma família de raízes italianas, como tantas em Mendoza, mas que imigrou para o Canadá, e anos mais tarde voltou à capital do vinho argentino para começar a produzir a bebida, numa trajetória muito particular. Comecei por ela. Provei um corte de Chardonnay e Viognier que é untuoso e amendoado, cremoso.

Maria e as lhamas
Pulei para a mesinha da Tapiz, bodega que conheço com certa intimidade, onde já havia me hospedado, em 2008 (para ler um post da época, clique aqui), numa pousada campestre, em meio aos vinhedos, com piscina frequentada por lhamas (acredite), e quartos instalados em um casarão antigo, de modo que a gente se sente em casa. A foto acima é “de arquivo”, roubada do post de 2008, lá no blog Enoteca.

Feira 2- Tapiz
Ali nos esperavam três vinhos da linha Alta Collection: Chardonnay, Cabernet Sauvignon e Malbec. O primeiro segue a estirpe amadeirada, untuoso e rico, cítricos, com notas de peras suculentas, com bom frescor e final agradável. O Cabernet tem muita fruta madura, e aromas refrescantes, que remetem a ervas como menta e hortelã, com taninos persistentes. O Malbec também era potente, bem típico da uva, com ameixa e violeta, com notas adocicadas.

Feira 3 Finca El Origem
Na mesa da Finca El Origen, mais um Viognier ensolarado, floral, como se espera, o Reserva 2013. A vinícola opta por um estilo musculoso, com madeira marcante.

Feira 4 - Trivento
Na Trivento, um trio de Malbec, para investigar seus estilos. De uma maneira geral, entre os vinhos argentinos, os mais leves e frutados me dão mais prazer, e são bem mais baratos. Assim, achei sagaz e alegre o Malbec Reserva 2012, floral, frutado. O Golden Reserve 2012 é apimentado, com notas de violetas, as mais vinhedos de Luján de Cuyo, de onde saem as uvas deste vinho. Chegamos, então, ao Eolo, ícone deste bodega que faz parte da Chandon, e por consequência, do grupo LVMH, um vendaval, concentrado, espesso. Aí, neste exemplar da safra 2011, ainda encontramos tudo muito misterioso e concentrado. Há baunilha, chocoleta amargo, café. Há ameixas e uvas passas. Há geleias de amoras e mirtillos. Há flores. E ervas. Pode ser um tempero para pratos fortes.

Feira 5- Argento

A Argento levou um trio de perfil bem variado. O Pinot Gris mostra que esta casta anda mesmo em alta em várias áreas do novo mundo, dos EUA e Austrália, até a Argentina, já contaminando o resto da América do Sul.
Hoje a vinícola tem a sua própria bodega e vinhedo. E a Bonarda tem aquele perfil de que falávamos, de fruta, leveza, um vinho correto para o dia a dia, de preço justo, acessível.
O Malbec-Malbec Reserva 2012 é um corte de vinhos da mesma uva, que tem a virtude do equilíbrio.

Altocedro 1- Restaurante
O jantar foi bem agradável. O restaurante é uma unidade mendocina de uma casa porteña, que segue a linhagem “confort food”, buscando produtos orgânicos para resultar numa cozinha aconchegante. Levamos para a mesa os vinhos das provas. E outros foram abertos. O Altocedro Año Cero Rosé de Malbec é uma tchutchuca, delicado, refrescante e fresco, com sabor de maçã, com casca, daquelas suculentas, ácidas, e com alguma doçura. Lindeza.

Altocedro 2 - Restaurante
Foi com ele na taça que eu fui dando bicadinhas nessa xícara esmaltada, que trazia uma piperrada, sopinha fria, prima do gaspacho.

Altocedro 3 - Restaurante
Depois, eu fiquei namorando por muito tempo o Altocedro Pinot Noir. E pedi mais uma taça. Coloquei um pouco de Eolo. E nem estava pensando em harmonizar, porque a etapa seguinte era uma torradinha fina de focaccia, com provoleta de cabra, assada no forno, com casquinha crocante, ressaltando a sua salinidade e gordura, com uma espécie de ratatouille, e saladinha da horta, com folhas orgânicas, tomatinhos. Puro conforto. Maridaje? O Pinot ficou um tesão com esse prato.

Altocedro 4 - Restaurante
O prato principal era um matambre de porco, com recheio tipo “pascualino”, com queijo, espinafre, em base de ovo, com um purê verde (talvez de batatata com favas) e vagens francesas, em dois tons de cor, com molho de… Pimentão, se não me valha a memória (não tomei nota deste prato).

Altocedro 5 - Restaurante
O “postre” foi um pudim. Chamado por lá de flan. E, neste caso, preparado de modo que eu jamais havia visto, em tabuleiro, para ser cortado em quadradinhos, retângulos, ou como se queira. Ao lado, uma generosa colherada de doce de leite reforçava a doçura.

E amanhã vamos pegar uma estradinha, rumo ao cada vez mais badalado Vale de Uco.

 

Mendoza, primeiro dia, parte 2 – Proemio, novidade no Brasil, e Altocedro, que está de volta: bom ficar de olho neles

24/02/2015

 

Depois do almoço no Bistro M, do Park Hyatt, começamos a jornada vinícola mendocina com uma novidade para o mercado brasileiro: fomos conhecer a Proemio, que a partir de março começa a ser vendida por aqui, uma bodega que eu resumiria como pragmática: querem fazer bons vinhos, usando madeira e uva de qualidade. E conseguem. O que vi foi uma linha de perfil conservador, que usa madeira de alta qualidade, fazendo uma classificação básica, com vinhos sem barrica, e outros com, e os rótulos de alta gama.

A sala de barricas da Proemio, que comprou uma bodega de 1930

A sala de barricas da Proemio, que comprou uma bodega de 1930

Na sua linha mais simples, enxergamos a fruta, e encontramos alguma leveza e frescor, como deve ser.

O Proemio Cabernet Sauvignon Reserve, ao lado de outros vinhos de alta gama da Proemio

O Proemio Cabernet Sauvignon Reserve, ao lado de outros vinhos de alta gama da Proemio

O seu Proemio Cabernet Sauvignon Reserve, com passagem em madeira, foi um dos vencedores do Argentina Wine Awards. “Condimentado, defumado, com taninos bem marcados e uma acidez nervosa, que vai lhe dar condições de muito melhorar nos próximos cinco anos, acho eu. Seco, com uma piracina interessante, que me lembrou ají amarelo, e boa expressão da fruta, com a madeira de qualidade bem integrada”, foi o que escrevi no post sobre os vinhos premiados.
Os vinhos apresentam uma boa relação qualidade-preço, mas como não são baratos, vão atingir mais o consumidor que busca mais qualidade do que preço.Gostei da purereza e do frescor do Chardonnay, sem barrica, um vinho limpo e fácil de beber, com acidez agradável.

Proemio Cabernet Sauvignon 2014: a pureza da fruta, a partir do mês que vem no Brasil, a R$ 49

Proemio Cabernet Sauvignon 2014: a pureza da fruta, a partir do mês que vem no Brasil, a R$ 49

O seu Cabernet Sauvignon básico, que será vendido na casa dos R$ 49 (é o preço da linha sem mandeira), muito me agrada. Um ponto interessante da prova foi harmonizar os vinhos com doces.
A empresa tem um perfil de atuação amplo em termos de negócios envolvendo o mundo do vinho.
– Queremos nos tornar um conglomerado de viticultura. Tudo começou com a importação de barricas francesas Vicard para a Argentina. Depois, veio a vontade de fazer vinho. Começamos comprando uvas, e hoje já temos os nossos vinhedos. E compramos essa bodega, que é de 1930, há 12 anos. O projeto inclui vários outros produtos, como polifenóis de semente de uva para cosméticos, e mesmo para a adição em vinhos – diz Julián Iñarra Iraegui, gerente de exportações da Proemio, que hoje produz 12 mil caixas por anos, e pretende vender mil delas para o mercado brasileiro, através da importadora Wine & Co.

A nova sede da Altocedro, em uma antiga bodega, em Coquimbito, na área de Maipú: "La Consulta é muito longe", diz Karim Mussi, o enólogo da casa

A nova sede da Altocedro, em uma antiga bodega, em Coquimbito, na área de Maipú: “La Consulta é muito longe”, diz Karim Mussi, o enólogo da casa

De lá fomos até Coquimbito, na área de Maipú, onde está uma espécie de novo posto avançado da bodega Altocedro, que assumiu uma antiga vinícola, estando agora também um pouco mais perto da cidade de Mendoza.
– La Consulta, onde estamos, é muito longe – resume Karim Mussi, o enólogo da Altocedro, que ainda dá consultorias, e fas projetos paralelos.
Foi ótimo reencontrá-lo (para ler uma reportagem sobre essa degustação, clique aqui). Karim Mussi é um dos expoentes da nova geração de enólogos argentinos, um cara com perfil empreendedor, e que faz os seus vinhos com a mesma personalidade que mostra ao falar deles. Tem ideias originais. E, o mais importante, sabe fazer vinhos. Durante esse encontro, algumas frases dele me chamaram a atenção.
“Tem muita gente fazendo Cabernet Franc varietal na Argentina. Ótimos vinhos, mas não vou fazer um vinho assim, porque não gosto de modismos”.
“Na hora de fazer vinhos, eu gosto de ter opções sobre a mesa. Não gosto de vinhos sobremaduros, porque quero preservar a boa acidez, e o frescor, e não quero um resultado muito alcoólico. Porém, na hora de montar um corte, é bom podemos misturar um vinho mais jovem, fresco, com um mais potente, encorpado. Este trabalho é um dos mais difíceis para um enólogo, e dos mais prazerosos”.

O Altocedro Gran Reserva Icone Malbec 2012: "Muito fino e elegante. Profundo e complexo.  Bom agora, melhor em dez anos"

O Altocedro Gran Reserva Icone Malbec 2012: “Muito fino e elegante. Profundo e complexo. Bom agora, melhor em dez anos”

“O nosso Gran Reserva não é um macho forte, um vinho potente, musculoso. Pensamos nele como uma dama elegante. Queremos mudar este paradigma. Fazemos uma cofermentação, com cerca de 2 ou 3% de Sémillon”.
Resumi assim o vinho – feito com uvas de um vinhedos de mais de 100 anos, em La Consulta – no meu bloquinho: ” SENSACIONAL. Muito fino e elegante. Profundo e complexo. Bom agora, melhor em dez anos.

Abras Malbec e Abras Torrontés: produzidos em Salta

Abras Malbec e Abras Torrontés: produzidos em Salta

Começamos a nossa degustação com um Torrontés de Salta, o Abras 2014. No meu bloquinho de notas, escrevi em letras garrafais (homenagem ao amigo Pedro Mello e Souza): “Gosto disso”. Ao lado, outros comentários: “Bem + elegante mas com a mesma exuberância no aroma do que outros Torrontés. Muita flor, sim, mas com lichia, e outras notas que o aproximam de um Sauvignon Blanc, cítrico, algo vegetal, e acidez lá em cima”. Está dito.
– Colhemos a Torrontés em três etapas, mais verde, mais madura, e bem madura, para jorgar com a acidez, e o frescor, e a madurez, a estrutura, o álcool – explica Karim.

Año Cero Pinot Noir 2013,  um vinho raro em termos de enologia argentina: "Foi um dos melhores, entre os quase 300 provados durante a viagem".

Año Cero Pinot Noir 2013, um vinho raro em termos de enologia argentina: “Foi um dos melhores, entre os quase 300 provados durante a viagem”.

E os vinhos de Karin se encaixam no meu perfil. O seu Año Cero Pinot Noir 2013 é um vinho raro em termos de enologia argentina. Um vinho altamente sedutor, muito agradável de beber, com pimentas, especiarias, um tostadinho aqui, um defumado ali, tudo isso sem esconder a fruta fresca, que brilha em forma de notas de cerejinhas, amorinhas… Tudo isso com muita elegância, um vinho equilibrado, com acidez e frescor, e com volume de boca, untuoso.
Outro destaque foi o Cabernet Sauvignon Año Cero 2013, com aromas de morrones (pimentões vermelhos) assados, pimenta preta, amora frescor, e umas fumacinhas, com taninos marcantes.
E, antes que eu me esqueça… Os vinhos, que já foram importados para o Brasil pela Terramatter, estão voltando, por coincidência, assim como a Proemio, chegando ao Brasil agora em março, pelas mãos de uma nova importadora (que tem os dedos do Marcio Moualla, da Terramatter) chamada Ares dos Andes. Se eu fosse você, ficava de olho.
Além dos vinhos da Altocedro, ainda provamos rótulos de mais quatro bodegas (três de cada: Finca El Origen, Argento, Finca Agostino, Trivento e Tapiz). E, no lugar, também funciona um bom restaurante, e foi lá que jantamos. Mas isso é assunto para o post de amanhã, né? Este já está bem longo. E, nos próximos dias, vamos fazer assim. Vou continuar falando de Mendoza, e de San Juan, encerrando a jornada argentina, enquanto ao mesmo tempo também volto a falar do Rio de Janeiro, e de cerveja, e de vinhos de outras partes, e de cachaça. Ok?

Mendoza, primeiro dia, parte um: um almoço regado a Inéditos Torrontés Brutal 2012

23/02/2015

 

Bistrô M - Park Hyatt Mendoza 1

Adoro a cozinha aberta do Bistrô M, no hotel Park Hyatt, de Mendoza.  E foi ali, com um belo café da manhã (depois de dez horas de viagem madrugada adentro, desde Neuquén, de ônibus), que começou o primeiro dos nossos cinco dias na cidade ,- a capital do vinho argentino (são cerca de 1.400 vinícolas!!!) -, com direito a uma escapada até San Juan, onde visitamos três bodegas.

Bistrô M - Park Hyatt Mendoza 2

Ao centro, um grande forno, a gás, que parece a lenha, pela forma, e pelo resultado do que é assado ali dentro.

Inéditos Torrontés Brutal 2012
A chegada a Mendoza foi triunfal. Pelo que bebemos. No almoço, abrimos uma garrafa do Inéditos Torrontés Brutal 2012, um desses vinhos desconcertantes, não filtrado, com aromas que fogem do usual, um branco com estrutura, vinificado como se fosse um tinto, com maceração com as cascas. Sim, um vinho laranja, uma das obras-primas de Matias Michellini. O vinho tem aromas de mel, uvas passas (brancas), tâmaras e casca de laranja cristalizada. Um vinho denso, com volume de boca, e uma alta acidez – direta, picante, pontiaguda.

Bistrô M - Park Hyatt Mendoza 4
Foi o destaque do almoço, mostrando grande versatilidade à mesa. No meu caso, se entendeu muito bem com a entrada, uma espécie de pizza (fugazetta, para eles), com rúcula, azeitonas pretas e um toque de queijo azul.
Ok, isso era de se esperar. Mas, ando cada vez mais convencido de que certos brancos vão bem com carnes, e esse é o caso dos vinhos laranjas. Pra mim, os vinhos de Josko Gravner (que não são laranja, e não são mesmo, mas sim, âmbar) são altamente gastronômicos, e pratos com cordeiro e vitela ficam divinos com eles (para ler mais sobre os vinhos de Gravner, clique aqui).

Bistrô M - Park Hyatt Mendoza 5

De modo que deixei um pouco do vinho, não só para prolongar o prazer de degustar o Inéditos Torrontés Brutal 2012, mas também porque imaginei que ele se entenderia bem com o prato principal, uma carne (esqueci qual, mas acho que vacío) fatiada, servida com acompanhamentos generosos: queijo, cebola, pimentão vermelho, e um molho roti.

Cabernet Franc

Tínhamos na mesa um Cabernet Franc, mais um belo Cabernet Franc argentino. Essa, uma escolha segura e certeira para um prato assim. E, de fato, ficou muito bom. Mas o Torrontés também brilhou. E eu fiquei ali, com momentos de grande prazer, fazendo algo que tenho gostado muito. Provar dois vinhos com um mesmo prato, e melhor ainda se for um branco e um tinto. Dou um gole no branco. E então uma garfada na comida. Sinto o entendimento da dupla. E então bebo um gole de água, ou vou mesmo direto ao tinto. E dou outra garfada. E sinto como se comportam juntos. E vou ao branco novamente. Que limpa e boca. E, nesse motocontínuo, amigo, só tenho algo a lhe dizer: o vinho nasceu para dar prazer, e não trazer preocupações.

Bistrô M - Park Hyatt Mendoza 6
Encerrei com um sorvete caseiro de pistache, bem bom gostosinho.

Melodía Malbec Rosé Dulce

 

Foi servido com um alegre espumante rosado, e docinho. Ficaria melhor com um doce com frutas vermelhas, tipo tartelete de framboesas, cheseecake com calda de morango e outras variedades do gênero, bem como no preparo de coquetéis.

E de lá começamos uma intensa agenda de visitas e degustações (só em Mendoza, provamos cerca de 200 vinhos, em cinco dias). Mas isso é assunto para outro post, certo?

Dicas de Buenos Aires: as melhores casas de tango

22/02/2015

O show de tango era correto. Bons músicos e bailarinos, e um repertório de clássicos, bem apresentados. Dava para ver bem o palco, porque El Viejo Almacén, um dos endereços mais tradicionais do ritmo portenho, é uma casa intimista, pode-se dizer. Eis que de repente surge um grupo de supostos índios, com trajes andinos, tambores e flautas, tocando canções aparentemente folclóricas. Mas eu queria tango. Paguei para escutar tango, para ver casais dançando tango. Com todo o respeito à tradição cultural indígena, não era o que eu procurava. Queria tango. São muitas as casas de tango na capital argentina.

A estátua de Carlos Gardel, em frente à casa que leva o seu nome, em Abasto

A estátua de Carlos Gardel, em frente à casa que leva o seu nome, no bairro  portenho de Abasto

Eu recomendo poucas. Apenas três, além de clubes, para dança, como Confitería Ideal: El Boliche de Roberto; Esquina Carlos Gardel e Rojo Tango. Cada qual em seu estilo. Com o fim do pequeno, aconchegante e muito intimista Bar Sur, em San Telmo, resta esse trio.
Assim como as parrillas, as empanadas e as lojas de vinho, as casas de tango mais recomendáveis estão entre as dicas mais pedidas pelos viajantes brasileiros que visitam Buenos Aires. Há muitas, mas poucas eu acho que valem mesmo a pena. Mesmo endereços tradicionais, como El Viejo Almacén, dão umas escorregadas, como a sessão dedicada aos ritmos andinos.
Depois da prova de vinhos na loja Lo de Joaquín Alberdi, terminamos o dia no ritmo do tango. Fomos na Esquina Carlos Gardel, em Abasto, em frente ao grande shopping center. Eu havia estado na casa há 12 anos, logo após a inauguração. Vi um ótimo show, com comida ok, e vinho ruim.

O cantor que representa Gardel com um duo de violões

O cantor que representa Gardel com um duo de violões

O show continua muito bom, pena que desfalcado de sua estrela maior naquela ocasião, um chileno que interpretava Carlos Gardel com impressionante precisão. Os tons, os timbres, a voz absolutamente igual. Hoje um bom cantor o substitui, e canta com precisão…

O cantor se parece com Gardel

O cantor se parece com Gardel

… com a vantagem de se parecer fisicamente com o cantor.

O show dura aproximadamente uma hora e meia, tempo suficiente para deixar um gostinho de quero mais.

O banda tem piano, violinos, dois bandonions e violoncelos

O banda tem piano, violinos, dois bandonions e violoncelos

Um bom conjunto, com piano, violino e dois bandonionistas, como manda o figurino do tango, executa bem um repertório de clássicos de Carlos Gardel.

Uma das cenas do show da Esquina Carlos Gardel

Uma das cenas do show da Esquina Carlos Gardel

Os bailarinhos cumprem um repertório que vai de passos clássicos, na cadência elegante do ritmo, até malabarismos exagerados, que arrancam aplausos.

Esquina Carlos Gardel - show 2

É bonito o show.

Esquina Carlos Gardel - show 4

É bonito o figurino, com trajes femininos muitas vezes ousados, que fazem parte da própria coreografia, altamente sensual em muitos casos.

Esquina Carlos Gardel - Porco
Comi empanadas e matambre de porco (na foto), ok, e um trio de sobremesas. Mas o vinho incluído no preço, o San Felipe… Tivemos que pedir uma garrafa por fora.
O Boliche de Roberto, em Almagro, é um caso à parte. Um boteco onde se encontram cantores e músicos, profissionais e amadores, jovens e senhores de idade bem avançada, para levar horas e horas de um tango informal, e delicioso, quase clandestino, regado por cerveja de garrafa, para deleite de portenhos e turistas, muita gente cabeluda e tatuada, ao lado de senhores de terno elegante. Um lugar que pode-se chamar de democrático, e sobre o qual eu já escrevi para este blog (para ler mais sobre El Boliche de Roberto, clique aqui).
Outro show que recomendo, e que conheci logo que começou, é o Rojo Tango, no hotel Faena. Estive lá em duas ocasiões, logo que o hotel foi inaugurado, em 2005. Um show moderno e elegante, como o próprio hotel, minimalista, intimista e sensual. Chique, com música de primeira, e bailarinos idem.