A matemática é simples: Krug + Lasai = Prazeres infinitos

Champanhe sempre vai bem. E existem alguns vinhos que tornam tudo muito especial. Basta abrir uma dessas garrafas para um dia banal virar um acontecimento memorável. Os rótulos da maison Krug, todos eles, estão nesta lista. Por fim, o Lasai, do chef Rafa Costa e Silva, é um dos grandes restaurantes que eu já visitei na vida, e eu aposto com segurança que ele vai abiscoitar pelo menos uma estrela Michelin, quando este guia for lançado, ainda no primeiro semestre deste ano.
Juntando isso tudo, foi com grande alegria que há cerca de 15 dias bateu na minha caixa postal um e-mail com uma convite da LVMH, conglomerado de luxo que é dono da Krug, para um jantar no Lasai, regado com essas finas borbulhas.

Lasai 1 - Cristo
Cheguei com o dia ainda claro, e fui conduzido ao simpático lounge do segundo andar, onde muita gente começa o seu jantar, experiência que ainda não tinha experimentado, já que nas duas noites em que estive lá eu comi no balcão da cozinha, o melhor lugar da casa, com certeza. O Redentor abençoava a noite.

Cristo Redentor

Logo ele foi cercado por nuvens amedrontadoras, que logo despejaram uma chuvarada na cidade.
Foi lá mesmo  no lounge que começamos a nossa longa, divertida e saborosíssima refeição. De guardar na memória.
– Realmente esse Rafa Costa e Silva é um gênio – resumiu a noite o meu amigo de fé, irmão camarada, companheiro de mesa e de copo, e guru gastronômico Pedro Mello e Souza.
Mas vamos começar… do começo.

Krug Magnum
A primeira garrafa foi uma Grande Cuvée em formato magnum. Magnífica. Que vinho. Pura intensidade, profundidade. Complexo, delicioso, ia aos poucos se revelando. Uma acidez eletrizante dava frescor e vivacidade ao vinho, que por outro lado apresentava notas bem características de um grande champanhe, com avelãs e amêndoas, e toda aquela família de notas de padaria, com brioche, torradas, algo amanteigado, de leve. Se eu pudesse, seria o vinho do meu dia a dia. Um dia, quem sabe…
Empunhando o copo de vinho branco (servir um bom espumante na flûte, convenhamos, é um pecado), começamos a petiscagem, com comidinhas que são o abre-alas do jantar no Lasai.
Foi divertido perceber uma certa irreverência do chef, que nos serviu, nesta primeira etapa da refeição, Doritos, Baconzitos, Fritopan e pão de queijo. Sim, sim. Acredite: estavam incríveis.

Lasai 2 - batata-doce
O primeiro ato de nossa jornada confirmou o que eu já percebera nas minhas duas visitas anteriores. Essa primeira etapa do jantar é marcada por petiscos de base crocante, usando mais uns dois ou três ingredientes. Este início foi ao sabor de um crocante de batata-doce roxa, com uns pedacinhos de legumes, brotos e umas gotinhas de um creme cheio de sabor.

Lasai 3 - tapioca
Depois, uma base de tapioca, tipo um Fritopan maior, coberta com beterraba e uma ricota cremosa de ovelha. A sublimação da simplicidade. Um estrondo. Aquele prato que toca os nossos corações. Tipo uma bênção.

Lasai 4 - pão de queijo
O terceiro petisco foi um pão de queijo. Simples assim. Pero no mucho. Porque o nome mais correto seria pão de queijos. Porque são dois os utilizados na receita. Um, de ovelha, tipo Serra da Estrela, outro, de vaca, o tommy. O primeiro é usado na massa. E o segundo, no recheio, um aligot louvável. Agora, o melhor pão de queijo do mundo não é feito em Minas Gerais, como era de se esperar, mas no Rio de Janeiro. Quem não crê que vá provar. Não pode haver nada nem parecido. Pode imaginar o que é isso. Pão de queijo da Serra da Estrela recheado de aligot. Para tudo!!!! Meu amigo… Quase chorei provando isso. Até porque, era só um por pessoa. Só um… Queria 10. Queria hoje, queria amanhã, queria sempre.

Lasai 5 - nachos
A etapa seguinte eu entendi como uma homenagem à Malena, a mulher do chef, uma americana de origem mexicana, que é quem cuida, com graça, simpatia e eficiência o salão, falando em português (com sotaque), inglês e espanhol. Era a vez do Doritos… Um nacho, melhor dizendo, coroado com tomatinhos-cereja de raro grau de amadurecimento, docinho, docinho, docinho, e um pouco de abacate e uns brotinhos, para dar um certo frescor.

Lasai 6 - língua
Aí, outro prato que me deixou extasiado. Uma massinha de tempurá com ervas, sequinha e crocante, servia de apoio para um círculo de língua bovina, num ponto de cozimento mais que perfeito, e uns brotinhos de agrião. Era o croc croc da parte de baixo contrastando com a maciez da parte de cima, era o sabor quase neutro da base se opondo ao caráter marcante da carne bucal. E assim vou tendo cada vez mais certeza de que a língua bovina está entre as minhas iguarias preferidas, de modo que tenho pena das pessoas que nunca provaram tal maravilha, porque têm nojo. Pelo menos, isso tem um lado bom. Sobra mais para quem gosta, e o preço é bem em conta. Mas fico com pena. Porque acredito que uma de minhas missões aqui neste planeta um tanto esquisito é ajudar as pessoas a comer e beber melhor. Comer língua faz parte disso. Com a minha filha, eu consegui (para ler o post contando essa história, clique aqui).

Lasai 7 - brandade
Então, mais uma releitura. Desta vez, era uma brandade. Mas brandade de pargo. Já imaginou? Pargo, sim, pargo. E umas batatinhas crocantes, para cumprir a função de talher, e também trabalhar um pouco o contraste de texturas. Show.

Lasai 8 - orelha de porco
Tá reparando na beleza dos pratos, na delicadeza das louças?
Pois então veja esta, um quadrado de pedra que acomoda tão lindamente essas comidinhas, feitas para serem levadas à boca com as mãos. Era o o Baconzitos… ops… Na verdade, era um crocante de orelha de porco, com picles de cebola. Simples, delicioso, resultado de uma técnica culinária muito apurada, lapidada na cozinha do Mugaritz, onde o chef Rafa Costa e Silva trabalhou por alguns anos, até chegar ao posto de sous chef.


Krug 750ml
À certa altura, foi servida outra garrafa do Grande Cuvée, mas desta vez em 750 ml. Impressionante como o formato magnum fez bem ao Krug. Este estava, somo sempre, delicioso, mas bem menos complexo, profundo e evoluído, como o primeiro. De certo modo, a evolução seria mais lenta numa magnum, mas… o mundo do vinho é cheio de nuances e surpresas, e pensar em verdades absolutas não costuma a funcionar.

Lasai 9 - Nicolay e bun no vapor
Seguimos com um “bun” no vapor, com recheio de rabada, outra iguaria que, assim como a língua, enfrenta a resistência de muita gente. Azar o deles. A rabada é das partes mais saborosas do boi, junto com a língua. E também custa pouco, porque muita gente tem aversão. Pena, muita pena. Mas, pelo menos… sobra mais pra gente. O meu amigo Paulo Nicolay curtiu a novidade, e fotografou para mídias sociais, e a foto fez sucesso.

Lasai 10 - vieiras e drinque
Então, era hora de descer. E o barman que é fera e sabe fazer drinques gastronômicos para acompanhar a comida, e que sempre entram nos menus harmonizados da casa, nos deu as boas-vindas ao salão principal servindo um drinque de pomelo com tomatinhos orgânicos e vodca Belvedere ()a combinação me lembrava o sabor de goiaba fresca, bem interessante), que chegou logo antes de um prato de vieiras quase inexplicável. A fórmula era bem simples. Vieiras muito frescas e fatiadas com delicadeza foram chamuscadas pelo maçarico, ganhando a companhia de rabanete e tutano, numa textura jamais vista por mim, quase amanteigada. Curioso, perguntei como fazem aquilo.
– O chef coloca o osso inteiro no freezer. Depois retira, quebra o osso, e tira de dentro dele o tutano – explicou o eficiente e competente sommelier venezuelano Oliver.

Lasai 12 - ovo
Era a vez do único prato da casa que provei nas três visitas: o ovo, que é uma espécie de ícone do Lasai, receita que estampou várias reportagens sobre o restaurante. A coisa é tão simples quanto genial. Uma gema de ovo caipira, de galinhas criadas na propriedade que o chef tem em Petrópolis (para quem não sabe, Rafa Costa e Silva tem duas hortas para cultivar vários produtos usados no restaurante, uma menor, no Itanhangá, e outra, bem grande, na serra) se acomoda em um creme de inhame e coco que faz as vezes da clara. Claro que amei provar novamente o prato, e amarei sempre que voltar ali.

Krug Vintage 2000 - tratada
E também era hora de degustar o Krug Vintage 2000. Ele acabou confirmando a grandeza do Grande Cuvée. Porque posso dizer sem medo de errar que ele não era melhor que o Grande Cuvée magnum.

Lasai 13 - lulas
Depois foi a vez de uma espécie de risoto de lulas em sua tinta, tudo escondido sob essa espuma de mariscos, com os brotinhos dando aquele toque verde, de frescor, de vida.

Lasai 14 - garoupa
Outro destaque da noite foi esta garoupa, fresquinha da Silva, servida com milho verde, e mais brotinhos. Dos melhores peixes que comi na vida inteira. Carne supersaborosa, com boa carga de gordura, e a pele tostadinha. Um espetáculo.

Lasai 15 - wagyu
Quando chegou a carne de wagyu com minibatatas eu já sabia que o espetáculo ia chegando ao seu final. Essas batatinhas aí, meu amigo, que absorvem o molho, ficam divinas. Houve na mesa quem não tivesse curtido muito esse caldo de tutano, uma redução espessa, que até grudava os lábios, de leve, e com sabor intenso. E um lindo agriãozinho foi colocado sobre a carne, dando aquele sabor verdinho, com leve amargor.
O final foi apoteótico, com as duas sobremesas.

Lasai 16 - drinque de tangerina
Na verdade, posso dizer que eram três as sobremesas. Porque este drinque aí, de tangerina com Grand Marnier, é uma espécie de doce servido no copo. Em cima, uma preparação cremosa, e quente. Abaixo, os mesmos sabores praticamente, mas de forma fluida e fria.

Lasai 17 - sorbets
Primeiro, sorbets feitos na casa, de morango e limão, com uns toques de amêndoas.

Lasai 18 - bolo de fubá
Boca limpa, estávamos preparados para um bolo de fubá com sorvete de erva-doce. O bolo, molhadinho e saboroso, estava sensacional. Agora o bolo de chocolate maravilhoso do Pedro de Artagão tem um rival á altura, e na mesma rua!

Lasai 19 - chá de poejo
Fechei com um chá de poejo fresco, que foi um achado, e que repetirei em casa, porque tenho um lindo pé desta erva, com sabor parecido com a família da menta. Até isso eu levei para casa: a receita de um novo e delicioso chá. E, aliás: você reparou na louça do chá?

 

P.S. – Para ler o outro post que fiz do jantar, com o título de “A orquestra, o quarteto de cordas e o solista: os diferentes rótulos do champanhe Krug se traduzem através da música”, clique aqui.

 

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

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