Serviço completo no Fierro Hotel, em Palermo: café da manhã, almoço, jantar e hospedagem

Na minha última visita a Buenos Aires, em maio de 2012, eu tinha a missão de fazer uma nova versão de uma matéria que foi um dos maiores sucessos no site do Boa Viagem nesses últimos cinco anos. Era uma lista com os dez melhores restaurantes da capital argentina, resultado de umas 15 viagens que fiz a cidade, entre 2000 e 2009, ano da publicação (reportagem que, mesmo cinco anos depois de ter sido publicada, ainda tem muitos acessos via ferramentas de busca na internet: para ler, clique aqui). Um fenômeno. Na atualização da pauta, para não repetir o número de lugares, e fazendo uma brincadeira com o conceito de “Seleção Argentina”, eu decidi indicar 11 lugares (para ler a matéria, clique aqui) Era uma viagem de três noites apenas, e fiz uma maratona pelos restaurantes da cidade, visitando uns 15 lugares, para fazer a minha segunda “escalação”, que incluía novidades (teve um dia que cometi a insanidade de comer em seis lugares, três no almoço, e três no jantar, história que foi parar na página 2 do jornal, dentro da seção “Por Dentro do Globo”: para ler um texto sobre isso, clique aqui). Um desses restaurantes novos, e que me encantaram se chamava Hernán Gipponi, e estava localizado no térreo do hotel Fierro, em Palermo Hollywood. Foi um almoço delicioso, um menu degustação muito interessante, que fazia uma releitura contemporânea e autoral da culinária tradicional da Argentina.
Quando recebi a programação desta minha viagem, vi que eu não apenas me hospedaria no Fierro, um charmoso e pequeno hotel butique, como também faria duas refeições ali (fora os cafés da manhã): um jantar, na noite de chegada, sozinho; e um almoço no dia seguinte, já com o meu grupo inteiro (somos apenas quatro pessoas, o Deco Rossi, relações públicas do Wines of Argentina no Brasil; o Marcelo Miwa; colunista de vinhos do Paladar, do Estadão; e a Érika Mesquita, multiprofissional, nutricionista que escreve sobre vinhos para o jornal Correio de Uberlândia, empresária que tem uma loja de vinhos, na mesma cidade, e ainda é produtora de eventos gastronômicos, sommelier e representante da Casa Valduga, um trio que tem sido ótima companhia de viagem, que se diga).
Fiquei feliz ao perceber que poderia provar novamente a cozinha criativa e moderna do talentoso chef Hernán Gipponi. Mas, ao chegar ao Fierro, vi que o nome do restaurante tinha mudado, e também o chef, a decoração e todo o conceito da casa. Na hora, bateu uma tristeza. Mas, depois que dei uma espiada no ambiente, e cheguei lá para o jantar, vi o menu, conversei com o chef e o sommelier, logo me animei.

Hotel Fierro 17 - Uco mesa
A decoração é mais rústica, com muita madeira (antes, era algo moderno, de cimento, se é que me lembro bem). Tem até um certo clima rural, com fotos de uvas e vinhedos, e a cozinha tem uma filosofia que se cruza com a anterior, na medida em que também se busca uma reinterpretação da culinária tradicional da Argentina, mas com menos arroubos tecnológicos, e mais foco em produtos orgânicos, na elaboração caseira de pães, na produção própria de carnes curadas e embutidos, e de sorvetes, e de iogurte (no café da manhã, foi o melhor iogurte que já provei, com uma baita de uma granola).

Hotel Fierro 1 - quarto

O quarto é espaçoso, com uma cama bem confortável, onde dormi muito bem por três noites. Decoração sem excessos, água de cortesia (1,5 litro), uma seleção caprichada de vinhos…

Desci para o jantar solitário. Fui no menu degustação, e pedi a harmonização livre, por assim dizer, com carta branca para o sommelier escolher os rótulos. E, no quesito vinhos, isso, sim, o conceito se manteve o mesmo: buscar bodegas de pequena produção, e outras menos conhecidas, e com rótulos que fujam um pouco da obviedade, da mesmice, mas sem deixar de selecionar alguns grandes vinhos das maiores vinícolas (o sommelier chef do hotel, Andrés Rosberg – presidente da Associação de Sommeliers da Argentina – ainda é o mesmo).

Hotel Fierro 2 - pátio
O restaurante tem um agradável pátio externo, nos fundos, perfeito para as noites de verão, ou para as tardes de sol do frio inverno portenho (a foto foi feita da minha sacada, no quarto andar, ainda com alguma luz do dia).
O menu custa 470 pesos (cerca de R$ 115, no câmbio informal das ruas de Buenos Aires, no oficial é um pouco menos favorável para nós), com outros 230 pesos para a “maridage” de vinhos com a comida.
– Gosto de fazer uma cozinha com perfil caseiro, com a produção própria de tudo quanto for possível. Fazemos nossos pães, o iogurte, e os fiambres. Gosto de servir pratos que possam ser divididos pelas pessoas à mesa – conta o chef irlandês .

Hotel Fierro 3 - couvert
O pães são feitos na casa, e eles acompanharam o primeiro prato com competência.

Hotel Fierro 5 - fiambres

Era um prato de “fiambres” caseiros. Foi um início e tanto. O trio de charcuterie Fierro tinha língua com chimichurri picante, bondiola (carne de porco) com compota de maçã e patê de coelho com amêndoas. Bela entrada.

Hotel Fierro 4 - Alta Vista Torrontés
Estava neste momento sorvendo com sede um Alta Vista Premium Estate Torrontés 2013, um belo exemplar desta casta, muito menos exuberante no nariz, e muito mais elegante que o habitual.

Hotel Fierro 6 = pescados fritos
Depois, uma clara referência à Itália (Roma, mais especificamente), um cone de papel recheado de pescados empanados em farinha e ovo e fritos, servido com aioli de alho assado. Tinha chipirones (aquelas lulinhas gordas e carnudas, com seus tentáculos miúdos), lagostins, cornalitos (uma espécie de manjubinha, mas ainda menor) e lisa (parece um mero, segundo o garçom). Crocantes, com a massa delicada, sequinhos. Adorei os dois peixes que não conhecia, em especial os cornalitos, miudinhos, miudinhos, miudinhos, e cheios de sabor.

Hotel Fierro 7 - Montesco Agua de Roca
Aí, neste momento, fui apresentado a um dos melhores vinhos brancos da América do Sul, em minha opinião, o Montesco Agua de Roca, da incrível Passionate Wines, um Sauvignon Blanc com apenas 10% de álcool, “refrescante como uma limonada”, segundo a ótima definição do amigo Alexandre Lalas, que colocou este vinho na ótima carta do restaurante Casa Vieira Souto.

Hotel Fierro 8 - Carpaccio
Para ele, foi servido o carpaccio de salmão branco “acevichado”, ou seja, preparado como um ceviche. Algo tão simples como bem bolado, juntando o prato italiano ao tempero peruano, e servido com um plátano (tipo de banana) coberto de tartare de manga.

Hotel Fierro 9 - Carpaccio 2

Merece até um close.

Hotel Fierro 10 - Vicentin

O sommelier que me servia, Marco Castellacci, então sacou este curioso Vicentin Blanc de Malbec. Um Malbec feito como vinho branco, sem qualquer contato com as cascas depois de uma uva ser prensada, mas ainda assim o resultado é praticamente um rosé, com leve tingimento. O vinho tem notas típicas da variedade, como o floral que lembra violeta, e algo de frutas vermelhas frescas. Um vinho gostoso de se beber, e bem diferente.

Hotel Fierro 11 - Pesca del día

Aí, mostrou-se acertada a escolha do sommelier. Porque a etapa seguinte foi a “pesca del día”, no caso novamente o tal de lisa, servido com purê de batata ao açafrão e salada morna de vegetais mediterrâneos. Pele crocante, prato equilibrado, mas nada emocionante.

Hotel Fierro 12 - mollejas
Ao contrário do quinto prato da noite, a acelga recheada com mollejas e cogumelos portobello, simples, mas delicioso.

Hotel Fierro 13 - Miras
Ainda mais delicioso ficou ao ser combinado com o Miras Pinot Noir, produzido por Marcelo Miras, da Bodega del Fin de Mundo, que tem este projeto paralelo, com pequenas edições de vinhos simplesmente fantásticos (ontem encontrei com ele, e provei 14 de seus vinhos, e gostei de todos, e passei a ter certeza de que esta é das grandes bodegas da Argentina, mas isso é assunto para outro post. De qualquer maneira, se você encontrar uma garrafa desse cara por aí, pode comprar sem medo de errar). Que Pinot, amigo. Fresco, delicado, puro, cheio de fruta, condimentado, suculento. Uma belezura.

Hotel Fierro 14 -  cordeiro
A paleta de cordeiro patagônico cozida por 18 horas chegou acompanhado de um purê de grão-de-bico esverdeado pela adição de ervas, com “suco” de pimentões vermelhos assados, e os próprios por cima da carne, que veio escoltada pelo vinho  Zuccardi Zeta,  clássico corte de Malbec com um toque de Cabernet Sauvignon, que é sempre bom ter na taça, ainda mais diante de um cordeiro. Ainda tinha um pouco de Miras na taça, e vi a sua versatilidade à mesa.

Hotel Fierro 15 - Granité de iogurte
Para limpar a boca, um granité de soro de iogurte, que não só cumpriu o seu papel, como também me deu um bocado de prazer.

Hotel Fierro 15 - parfait de iogurte
A sobremesa dialogava com o granité: era um parfait de iogurte com frutas vermelhas, pêssegos caramelizados, amendoim e um toque de chocolate branco.

Hotel Fierro 16 - Solería
E foi então que fui apresentado ao Malamado Solería, também da Família Zuccardi,  um vinho doce generoso, um Torrontés criado em barricas expostas ao sol, que antes haviam abrigado Chardonnay, um gran finale marcante.
Foi só pegar o elevador, subir quatro andares, e dormir como um anjo.

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No dia seguinte, tive uma dose dupla do restaurante Uco, em intervalo de menos de três horas.

Hotel Fierro 19 - truta com ovo

Primeiro, no café da manhã, quando pedi a truta defumada, que coroava um ovo “4 minutos”, com espinafres salteado e tomate assado.

Hotel Fierro - Iogurte
Também pedi o iogurte caseiro, com granola idem. Como escrevi lá em cima, o melhor iogurte que me lembro de ter provado, com textura cremosa e um sabor delicado(a foto é do Instagram: @brunoagostinifoto).

Hotel Fierro 28 - salão
Subi pro quarto para escrever uma reportagem que estava devendo, para uma revista, e logo estava de volta, desta vez acompanhado dos companheiros de viagem(a foto não é deles, mas da mesa ao lado).

Hotel Fierro 18 - couvert
O serviço de pães é simpático.

Hotel Fierro 20 - granité
E ele foi seguido por uma espécie de granité de… Hummm… Não me lembro bem. Talvez de maçã verde, com uns brotinhos.

Hotel Fierro 22 - ovo 4 minutos
Minha entrada foi a junção do gosto do chef pela preparção do ovo “4 minutos”, coisa que eu adoro, com outro elemento que tem lugar cativo em minha estima gastronômica, a morcela. Era um ovo com aquela gema mole, envolto em presunto, empanado e frito, colocado sobre uma saladinha salpicada de pedacinhos de morcilla.

Hotel Fierro 21  - burrata
Outra boa pedida era uma espécie de carpaccio de tomate com uma burrata das boas, com berinjela assada e brotos de alfavaca.

Hotel Fierro 23 - Miras
Novamente eu fui brindado pelo Miras Pinot Noir, e não fiquei nada chateado em repetir o vinho da noite anterior. Ao contrário.

Hotel Fierro 24 - arañita
Para o prato principal, “arañita”, ou seja, aranhazinha, um pedaço especial de carne, conhecido na Argentina como “el corte de carnicero” (o corte do açogueiro), que pelo que pude notar anda na moda por lá.

Hotel Fierro 25 - Kaiken
Para ele, o Kaiken Terroir Series 2012, curioso corte de Malbec, Bonarda e Petit Verdot.

Hotel Fierro 26 - creme de pêssego
Para encerrar, uma preparação cremosa com pêssego e uns crocantezinhos, tipo crumble.

Hotel Fierro 27 - Salentein
Sobremesa pouco doce, como eu gosto, que se entendeu bem com o Salentein Single Vineyard 2012, um colheita tardia que tem um pouco de uvas botritizadas, algo muito raro de se acontecer na Argentina.
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Hotel Fierro 29 - Irish breakfast
Na manhã de sábado, outro “desayuno” no restaurante Uco. Deste vez, com acento irlandês, já que a Irlanda é a pátria do chef da casa, Edward Holloway. Pedi o “irish breakfast”, com linguiça, feijão, tomates assados, morcela e ovo. Era uma versão pequena, que eu realmente adorei. Achei um conjunto melhor dos que encontrei em Londres, mesmo em hotéis chiques nos quais já me hospedei, como The Langhan. Muito bom.
E, claro, não deixei de pedir também o iogurte.
No dia seguinte, com um voo saindo às 7h40 do Aeroparque em direção a Neuquén, não tivemos tempo para o café. Mas deixaram no quarto uma “marmita” na noite anterior. Tinha iogurte, pães, sucos. Mas na correria da manhã, fechando as malas e fazendo malabarismos para que a bagagem despachada não ultrapassasse os 15 quilos, o limite máximo permitido pela Aerolíneas Argentinas, acabei nem

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