Vinhos da Patagônia, parte 1: Humberto Canale, o mais tradicional produtor da região

Visitar a Patagônia era um desejo antigo, nascido bem antes do que a paixão pelo vinho, o que também só reforçou aquela vontade. A paisagem da região, em seus diferentes matizes e formas, e temperaturas, e altitudes, causa em mim um imenso fascínio, os desafios diante da natureza extrema, os esportes radicais, as florestas, as geleiras, os lagos, os desertos, e os rios que os cortam, formando oásis verdejantes em meio à aridez, as histórias dos desbravadores, os índios… Um conjunto incrível.
Demorou, mas cheguei. E já meu fui embora. Foi curto, mas intenso, um aperitivo para uma viagem mais tranquila, com mais tempo, com itinerário que não seja apenas focado na vinho, mas no contato com a Natureza também, e que costure os lados argentino e chileno. Espero que seja breve, porque voltei de lá doido para retornar logo.

O mapa dos vinhos da Patagônia na sede da Humberto Canale

O mapa dos vinhos da Patagônia na sede da Humberto Canale

Parte dessa vontade tem a ver com o vinho. Visitei cinco vinícolas, das 25 que hoje existem na região (contra cerca de 1.400 em Mendoza), de perfis bem diferentes. Pela ordem, Humberto Canale e Marcelo Miras; em Río Negro; Família Schroeder, Bodegas del Fin del Mundo e NQN, essas três em Neuquén.
Seguindo a ordem cronológica dos fatos, começamos com a Humberto Canale.

Equipamentos antigos junto aos vinhedos da Humberto Canale, em Río Negro

Equipamentos antigos junto aos vinhedos da Humberto Canale, em Río Negro

Fundada em 1909 esta bodega é uma das pioneiras, e entre as primeiras, a única que se mantém em atividade até hoje, ainda administrada pela família. São dez décadas, e quatro gerações. Em meio a plantações de maçã e pêra, a vinícola tem história para contar. Fui recebido por Guillermo Barzi, na quinta geração da família, que primeiramente nos levou até um mirante, para termos uma panorâmica da região, quando foi fácil perceber a influência do Rio, que cria uma franja verde em sua extensão, em contraste com o cenário agreste, desértico, dramático.

Humberto Canale 4
Os vinhos são muito bem acabados, mostram personalidade, e ali encontramos lindas surpresas. Caso do Humberto Canale Old Vineyard Riesling La Morita 2014, feito com uvas de um vinhedo plantado em 1937. De perfil um tanto diferente do que estamos acostumados, este Riesling tem leveza e frescor, com um toque só lá bem no fundo do esperado petróleo. É mais cítrico e floral que mineral, com corpo delicado, mesmo tendo passado dez dias em contato com as cascas, depois de ter sido colhido apenas no finalzinho de março. Tem admirável frescor, e foi um dos meus preferidos. Por R$ 78, acho que está bem atraente em termos de qualidade em relação ao preço.

Humberto Canale 5
A Pinot Noir vai muito bem na Patagônia, e na Humberto Canale eu provei dois: o Pinot Noir 2013, pura fruta (cereja, framboesa) e floral (rosas). Custa R$ 59. Delícia para beber fresquinho. Outro foi o Humberto Canale Gran Reserva Pinot Noir 2013, fermentado em barrica. Praticamente uma vitamina de tutti-frutti, com a madeira bem integrada, sem tapar a fruta, e um agradável toque calcário, mineral. No momento, está indisponível no Brasil.
Também encontramos por lá vinhos de perfil mais encorpado, em rótulos como o Íntimo 2013, um belo vinho para os R$ 50 que custa. Os aromas vão de um toque vegetal, herbáceo, até notas achocolatadas, com um toque de violeta, e um monte cereja fresca, e uma pimentinha, uma canela, um anis. Tem taninos secos, macios, redondinhos.

Humberto Canale 6
No final, degustamos um dos topos de gama, o Humberto Canale Estate Merlot Grand Reserva 2012 (já conheço bem, e gosto muito, do Humberto Canale, desta mesma linha). Terroso, cheio de ervas frescas, com algo de chocolate e café, defumado, com frutas maduras. Os taninos, macios e sedosos são o seu principal trunfo, um vinho agradável de beber, e vívido, com acidez marcante, e um final de boca largo, agradável, e relativamente longo. Foi o vinho que me fez prestar muita atenção na Merlot da Patagônia, e ser seduzido por ela. Custa R$ 143. Já briga em patamar superior, mas é um belíssimo de um vinho.

Humberto Canale 7
Não poderia faltar um Malbec, não é? E não é um Malbec qualquer, mas o Humberto Canale Old Vineyard Malbec 2013, produzido com uvas de um vinhedo antigo, de perfil bem diferente dos exemplares que geralmente encontramos em Mendoza. Tem aromas finos, fugindo do dulçor, com notas de rosas e frutas frescas (amoras, cerejas), bem condimentado, com acidez bem marcada, e taninos macios, macios. Tipo asim, do meu número, que cabe perfeitamente em mim, um sujeito que andou brigado com a Malbec, mas que vem encontrando exemplares admiráveis como este. Fizemos as pazes. Ainda bem, porque foi esta uva que me iniciou na enofilia, e guardo imenso carinho por ela. Custa R$ 124.
Quem importa é a Grand Cru. E é uma vinícola a se observar com atenção.

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