A enologia de risco de Marcelo Miras: vinhos puros, naturais, frescos e deliciosos

A Argentina é um país criativo, com pesonagens de destaque em várias áreas, intelectuais, artistas e atletas, até militares, que eu muito admiro. Papa Francisco, Roberto Goyeneche, Antonio Berni, Augustín Valido, Jorge Luis Borges, Diego Armando Maradona, Ricardo Darín, Aldo Sessa, Narciso Doval, Gabriela Sabatini, General San Martin, Mercedes Sosa, Juan Manuel Fangio, Quino, Mariana Gainza, Charlie Garcia, Benito Quinquela Martín, Allfredo Di Stephano, Quirino Cristiani, Francis Mallmann, Che Guevara, Xul Solar, Daniel Barenboim, Juan José Campanella, Valeria Mazza, Manu Ginóbili, Julio Cortázar, Carlos Gardel (sei que é uruguaio, ou francês… mas não argentino), Astor Piazzolla, Lionel Messi, Julio Boca… são tantos. Até o fictício Martín Fierro, herói gaúcho do poema clássico de José Hernández; e o lendário Gauchito Gil, e outra santidade negada pelo Vaticano e adorada pelos argentinos, a Defunta Correa. E o Gothan Project; e toda a tradição do tango, e as músicas andinas, de raízes indígenas.
Parece que finalmente o vinho foi contaminado por isso. Hoje, depois de anos de certa monotonia, de um marasmo enológico um tanto preguiçoso, embalado pela ditadura da Malbec, a Argentina transfere para as suas bodegas essa verve criativa, inquieta e questionadora que é natural do país. E uma das pessoas que encarna esse espírito libertador é Marcelo Miras, enólogo de muitas faces, que consegue ser tradicionalista e irreverente ao mesmo tempo. Trabalhando na Bodega del Fin del Mundo, gigante da vitivinicultura da Patagônia, ele faz vinhos corretos, em vários estilos, com uma respeitável linha comercial, com certos rótulos de alta gama. Neste caso, atua dentro dos padrões. Mas é quando colhe as suas uvas em vinhedos muito bem escolhidos ao lado da família, em seu projeto pessoal e paralelo, é que ele dá vazão à sua alma transgressora, que trata os cachos com tanto carinho que o resultado são garrafas memoráveis: seus vinhos são sedosos e frescos, mostrando a ternura do suco da uva, o frescor da terra, e todos os mais francos sentimentos que um vinho pode ter.

Nesta viagem, de tantos momentos marcantes, um dos encontros mais memoráveis foi com Marcelo Miras. Como quase sempre acontece nesses casos fortuitos e afortunados, foi um golpe de sorte.

Havia três horas livres no nosso programa. Mas quem quer descansar? Nós é que não. Então, através de uma rede de conexões entre amigos, conseguimos organizar uma visita à bodega de Marcelos Miras, que arrendou uma vinícola inativa, chamada Estepa, tipo bodega de aluguel, usando as suas instalações, ponto de referência geográfico na beira da estrada.

Ele bem que poderia se chamar Marcelos Midas, pois tudo o que toca vira ouro. Um desses enólogos fora da curva, que eu classificaria como gênio. Um gênio generoso e audaz, que foge dos padrões. Provei 14 de seus vinhos. Gostei de todos. Preciso falar algo mais sobre este cara? Sim, chorei ao provar o seu Trousseau Nouveau. É bonito ouvir o seu discurso, ver a família trabalhando junto, sua mulher e um dos filhos nos acolhendo com simpatia, mostrando um trabalho enológico extraordinário, que busca a pureza e o frescor, a expressão da uva em sua essência.

Hotel Fierro 23 - Miras
Havia provado um dos seus vinhos em duas oportunidades, no Fierro Hotel, em Buenos Aires (para ler o post, clique aqui). Era um Pinot Noir, meu primeiro encontro com Marcelo Miras. Jamais imaginava que dois dias depois estaria sendo apresentado a ele pessoalmente.
Chegamos até a bodega, às margens da rodovia ladeada por plantações de pera e maçã, na volta da visita à vinícola Humberto Canale, em Río Negro (para ler o post, clique aqui). Paramos o carro, entramos na sala de degustação, e prova fluiu natural como os vinhos, e o papo costurou toda a filosofia sobre as plantas, a terra, a enologia, a tradição, o respeito às uvas.
– Dos enólogos mais novos, eu sou o mais velho – trata logo de se apresentar, justamente se posicionando muito bem no exato ponto onde ele está: entre a tradição e a juventude.
Marcelo Miras transfere aos seus vinho um frescor juvenil, e para isso lança mão dos conhecimentos técnicos que adquiriu como enólogo de grande prestígio, e grandes bodegas.
– Cheguei à Patagônia em 1990 para trabalhar na Humberto Canale, e fiquei lá por 12 anos – lembra.
Depois, transferiu-se para a Bodega del Fin del Mundo, e como quem não quer nada, e não queria mesmo, iniciou uma produção pessoal, e familiar. Fazia vinhos com a mulher e os filhos, para beber com esses, e com os amigos.
– Em 2005 eu fiz 6 mil garrafas. Foi o primeiro vinho que vendi nesse projeto. Era o Ócio, lançado em 2006. Mas não posso usar o nome Ócio internacionalmente, a Cono Sur registrou o nome – diz.
Hoje são 30 mil garrafas por ano que levam a assinatura Miras na etiqueta. Tem a linha jovem (com um barquinho no rótulo), sem madeira, e outra reserva (um desenho modernista com dois olhos desafiadores), com passagem em barrica.

Marcelo Miras 2 - brancos
Fomos provando os vinhos de três em três. Comparando-os. Adorando-os.

Marcelo Miras 1 - brancos
A primeira garrafa da degustação foi um Semillón 2014 da linha jovem (à esquerda), sem madeira, com impressionantes 14,5% de álcool, resultado da longa e ensolarada maturação, com o privilégio das noites frescas que se fazem notar no sabor amplo, gordo, com notas de lavanda, e todas as refrescâncias cítricas, algo profundo, pedregoso.
– Mais importante que a parte aromática é a boca. Porque você bebe. Ninguém usa o vinho para se perfumar, por isso eu me preocupo com a boca, a acidez e o equilíbrio – ensina ele, que, além de sim, fazer vinhos perfumados, é apreciador da casta, assim como eu. – Gosto muito da Semillón. É fina, delicada, envelhece bem – descreve.
O seu Chardonnay jovem 2014, também sem barrica, tem sabor de pêra, pêssego e limão, um coquetel de frutas harmonioso, com aquela notável acidez, e o mesmo frescor de sempre.

Até um toque salino encontramos no Chardonnay. Neste, e no seguinte, o Miras 2012 (ambos na foto mais acima), já com um toque de madeira, dando contornos mais untuosos, ligeiramente.
O seu Rosé de Malbec 2014 era como comer framboesas e amoras frescas, com uvas de acidez envolventes, pouca extração de cor, e uma leveza marcante. Alguns argentinos aprenderam a fazer rosados (e espumantes).

Marcelo Miras 2 - Trousseau Nouveau
Então, chega o Trousseau Nouveau 2014, e seu caráter “gevrey-chambertânico”, a mais pura sedução em forma de vinho, a limpidez desta uva, que em Portugal é conhecida como Bastardo, e pelo nome pode-se imaginar a sua personalidade indomável, a sua rebeldia, jeito selvagem, a maturação complexa e complicada, a acidez ríspida e os taninos nervosos. Toda esta bravura encontramos no vinho, que tem aromas pontiagudos: encontrei notas de Negroni, licor de ginginha, cerejas ácidas, especiarias, flores, rosas… Os taninos eram bem mais fortes do que a coloração clara nos poderia fazer supor. Um vinhaço que me fez lacrimejar de emoção, para resumir.
O Pinot 2014 veio em seguida. É vendido por cerca de R$ 70 no restaurante Martín Fierro, em São Paulo (acredite!), e se eu pudesse compraria todo o estoque restante.
– Eu não pratico a enologia que eu chamo de Tunning, de interferência, de maquiagem. Pratico aqui a enologia de risco, deixando o vinho o mais natural possível, aposto na maturação perfeita das uvas. Nosso conceito é a uva mais o homem é igual a vinho. Procure produtores como Angel Mendoza, do Domaine St. Diego. Ele faz coisas ótimas – sugere.
É uma enologia prática, sensível e sensitiva, muita intuitiva, a praticada por Marcelo Miras em casa.
– Trabalho na bodega maior da Patagônia. Cruzo o rio, venho a Río Negro, e faço os vinhos com a minha família. Não tenho empregados, somos todos donos e operários.
Minha emoção por aquele encontro aumentava.
Destampamos o Malbec jovem 2013, com delicadeza, e sabor de licor de jaboticaba, como aquele que teria feito a minha bisavó mineira, dona Clara. Clarismunda. Clara, como esses vinhos.

Marcelo Miras 4 - tintos
O Cabernet Franc Miras mostra o potencial desta casta na Argentina. Selvagem, mas com alguma ternura, em forma de uma acidez eletrizante e taninos presentes, mas muito amáveis, num resultado harmônico, terroso, pedregoso, cheio de fruta e pimenta.
O Blend 2014 é um vinho, simplesmente, sensacional. Tem notas de café e chocolate, bem integrados ao sabor da fruta fresca, com nítido caráter da Cabernet Sauvignon, e depois chegam aromas de salame, de charcuterie, notas carnudas, ferrosas, sanguineas.
Posso dizer o que achei do Merlot Miras 2011? Tirem as crianças da sala. Achei um vinho foda. Muito foda.

O Malbec 2013 tinha coco, tinha flor, tinha fruta madura, bem madura, e taninos que eram pura seda. Seda e veludo, ligeireza e profundidade.

Patagônia - nuvens 1
Saímos de lá felizes. Encantados. Havia esse céu lindo.

Patagônia - nuvens 2

E logo o sol caiu, lançando lindas cores nas nuvens.

Levamos o Trousseau Nouveau 2014 aberto para a degustação para o jantar no bom restaurante La Toscana, já em Neuquén. E, para o que era bom ficar melhor, regamos a noite com uma garrafa de Carmelo Patti Cabernet Sauvignon.

Ojo de bife - restaurante La Toscana - Neuquén

Inundaram a minha boca, sedosos, amaciando o ojo de bife, com os defumados da parrilla, e a maciez da carne “jugosa”, o sabor marcante do chimichurri apimentado. Ao final, havia ainda uns três dedos de cada um dos dois vinhos na garrafa. Pedi licença, e levei as duas para finalizá-las no quarto, temperando minhas escritas.
Não conta pra ninguém: quem importa é a La Charbonnade, do Rio Grande do Sul. E o Carmelo Patti é a Nave Wines, de Santa Catarina.

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