Bodega del Fin del Mundo, a gigante da enologia da Patagônia

Depois da visita à Família Schroeder seguimos para a Bodega del Fin del Mundo, a uns 15 minutos de carro, a grande gigante da enologia da Patagônia. A vinícola é impressionante. Muito grande, com quatro módulos que foram sendo agregados aos poucos, e espaço para outros tantos.

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Tem o seu próprio reservatório de água, para poder garantir a rega em caso de algum desabastecimento prolongado, procedimento comum na Argentina vitivinícola, de paisagens marcadas pela aridez, e de vinhedos dependentes da irrigação. Um oásis no meio da paisagem desértica. Ter uma barragem é um luxo.

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A linha da Bodega del Fin del Mundo (acho o nome ótimo, e vendedor) é bem grande, principalmente se for somada à produção da NQN – que assim como a Schroeder, foi uma dessas bodegas que compraram um terreno ali. E, alguns anos depois, a própria Bodega del Fin del Mundo, que fez esse trâmite imobiliário, recomprou a propriedade. São duas operações separadas, mas a nossa visita foi como se fosse tudo uma coisa só. Primeiro, estivemos na Bodegas del Fin del Mundo, que tem como enólogo chefe o já citado Marcelo Midas, ops… Marcelos Miras.

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É uma bodega gigante, com alta capacidade produtiva, e possibilidade de expansão. Tenho, como quase todo mundo, implicância com colheitadeiras mecânicas de uva. Sei de cada história… Cobras e outros pequenos animais mortos em tanques de fermentação, pedaços de madeira, sacos plásticos… Enfim. As colheitadeiras mais usuais fazem uma rapa na videira, levando vários elementos indesejados. Por isso, foi com o orgulho que, logo que chegamos à bodega, eles nos mostraram essa máquina aí, lançamento fresquinho (vi o veículo depois, em propagandas que apareciam em grandes outdoors nas estradas que saem de Mendoza, anunciando a novidade). O sistema funciona assim: um montão de hastes de um material meio duro, mas maleável, balança os cachos, fazendo cair as uvas maduras, que vão direto para uma grande caixa de armazenamento. Pelo que pude ver, funciona direitinho, ainda que haja certos danos maiores às cascas, uma chanche maior de oxidação, e fermentação espontânea. Nada se compara à colheita manual, e em pequenas caixas. Mas a tecnologia vem ajudando muito quem tem muita pressa e quer baratear os custos.

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A Fin del Mundo é uma bodega muito grande.

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E se não fosse uma boa coleção de obras de arte trabalhadas em barricas, a visita seria frustrante.

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Quando vi essa barrica aí, confesso que pensei: “Uma espécie de boneca inflável de madeira, para enófilos”.
Ideia pouco original, ao que parece. Logo o anfitrião da tarde comentou.
– Essa aí está boa para ser vendida para um sexy shop.

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Os motivos eram os mais diversos. Havia barricas-conceito.

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E outras que serviam de suporte para uma pintura, como se fosse uma tela de madeira e arredondada, com história para contar, um suporte conceitual para estampar a paisagem da Cordilheira dos Andes, que acompanha a trajetória do vinho na Argentina.

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A não ser, também, pelo fato de que pegamos um remuage acontecendo.

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E também pudemos cumprimentar o Marcelo Miras, saindo de seu escritório.

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E, também, porque uma sala de barricas sempre tem o seu charme, aquele perfume de uva e madeira…

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… a bebida viva, ainda em construção, e o mistério do que virá.

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Mas, com tanto espaço, está sendo criada uma área de acolhimento de turistas, com uma imensa varanda debruçada sobre os vinhedos, restaurante, pequena pousada de luxo, lojinha etc etc etc.

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De lá seguimos até a NQN, onde encontramos uma bodega de linhas modernas, bem integrada à paisagem, praticamente encravada numa elevação, coberta de terra.

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Estavam chegando uvas. Pinot Noir, para vinho base de espumante.

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Numa cantina fresca, cercados de barricas, provamos alguns vinhos das duas casas, de diferentes estilos, uvas e gamas de preço.
Falando em borbulhas… Foi justamente com elas, e com um vinho que tinha Pinot Noir em sua composição, que abrimos a degustação, e novamente vimos que espumantes são uma vocação natural da enologia patagônica, como já falamos -e mais de uma vez – nessa série de posts sobre a região argentina.

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O NQN Malma Extra Brut Cuvée Reserve chamou a minha atenção, e tinha a própria Pinot Noir como estrela, ao lado de sua fiel escudeira, amiga de fé, Chardonnay, criando em conjunto um espumante bem harmonioso, com final agradavelmente amarguinho, um espumante com certa delicadeza e elegância, com boa acidez, muita fruta (maçã verde, morango) e umas notas florais, com frescor cítrico e a presença da levedura em boa dosagem.

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O Sauvignon Blanc Malma, límpido e fresco, foi dos que mais gostei entre os vinhos feitos com essa casta na Patagônia, com o sabor direto e cítrico de limão siciliano, com um verde de linhagem nobre, herbal, que também lembrava aspargos frescos, era um vinho ligeiro na boca, um tanto nervosinho, com a acidez picante.

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A Pinot desfilou estilosa, em padrões interessantes, condimentada, e com algum frescor e caráter.

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Mas o vinho que mais se chamou a atenção, apesar de seu comportamento nervoso, foi o Fin del Mundo Single Vineyard Tannat 2010. Um vinho com muito corpo e estrutura, mas com uma textura agradável, bela combinação de taninos firmes e maduros com uma acidez bem marcante, num resultado longo e harmonioso, com sabores de frutas, defumados, minerais e profundos. Tipo um grande vinho uruguaio, tal o grandioso Amat. Gostaria de ver este vinho chegando aí pelos seus 10, 12 anos.

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O Special Blend 2009 seguia a mesma linhagem, um vinho bem feito de perfil internacional, poderia ser chileno ou mendocino, californiano ou australiano, bordalês… Tem uma carga forte de madeira, com muitos aromas de coco, tabaco e baunilha, além de especiarias secas, tipo canela e anis. Havia uma fruta madura quase escondida, e uma acidez correta. Um desses tintos que têm muitos adeptos, e que para mim pede por um belo pedaço de carne. Com certa gordura. Uma churrasqueira. E bons amigos à mesa. Aí, ele brilha.
Quem importa a Bodegas del Fin del Mundo é a Mr Man; e a NQN é a Vinhos do Mundo.

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