Lo de Joaquín Alberdi: a minha loja de vinhos preferida em Buenos Aires (e em todo o mundo)

O que não falta em Buenos Aires são lojas de vinho. Há muitas, algumas cadeias, como a Winery, onde até encontramos alguns rótulos interessantes, a preços justos. Mas não recomendo nenhuma dessas.

A fachada amarela da loja, em Palermo, perto da Plaza Cortázar (ex-Plaza Serrano)

A fachada amarela da loja de vinhos Lo de Joaquín Alberdi, em Palermo, perto da Plaza Cortázar (ex-Plaza Serrano)

Sempre que um amigo me pede dicas de onde comprar vinhos na capital argentina eu indico Lo de Joaquín Alberdi, em Palermo. A começar pela localização, a poucos passos da Plaza Serrano, hoje chamada Cortázar, mas que ainda é mais conhecida pelo seu nome antigo, epicentro do burburinho boêmio de Buenos Aires. Sem falar que fica na rua Jorge Luis Borges, número 1772. Adoro Jorge Luis Borges 1772.
Se não falha a minha memória, conheci a loja em 2006 (impressionante como o tempo passa), e desde então passei a frequentá-la e indicá-la, e a resposta que tenho dos amigos é sempre muito positiva.

Joaquín Alberdi, o próprio

Joaquín Alberdi, o próprio

Eis então que escrevi algumas matérias sobre Buenos Aires, e cheguei a citar a loja mais de uma vez, tanto na revista Viagem e Turismo, quanto em O Globo. Acho que até em alguns frilas que não me lembro bem. Fiz ainda um post no blog Enoteca também. E então, em 2009 (se a memória não me trai), visitei a loja mais uma vez (acho que em todas as últimas cinco vezes que estive em Buenos Aires estive em Lo de Joaquín Alberdi). Fui recebido por um sujeito simpático, empolgado, e determinado a sugerir vinhos raros, de pequenos produtores. Papo vai, papo vem, descobri que ele era o próprio Joaquín Alberdi, um ex-chef de cozinha que fez fama na capital Argentina, dono também do restaurante Cabernet, do outro lado da rua, bem em frente à loja. Apresentei-me a ele, como um “periodista” brasileiro, que escreve sobre vinhos, viagens, restaurantes e afins.
– Mucho gusto. Me chamo Bruno Agostini.
– Bruno Agostini???
– Sim.
Desculpe o momento vaidoso, mas ele faz parte indissociável desta história. Ele não hesitou em me dar um forte abraço, agradecendo pelas reportagens, e pela quantidade de gente que mandei pra lá, direta (os amigos) ou indiretamente (os leitores). Engatamos em um papo agradável, comprei uma vez mais vinhos interessantes e fora dos padrões e do mainstrean, degustamos outros rótulos, e nos tornamos amigos em mídias sociais, tipo Facebook e Instagram. Eu diria que hoje a nossa amizade extrapola o ambiente digital, embora os encontros sejam raros.

 

Os vinhos degustados enfileirados: um post à parte sobre esta prova

Os vinhos degustados enfileirados: um post à parte sobre esta prova

São raros os encontros, mas muito bons (a degustação que fizemos com ele no sábado passado, ao lado de outros turistas brasileiros, foi antológica, memorável, emocionante, e ele é assim: abre mesmo vinhos para os potenciais compradores. E abre vinhos bons. E essa história em acho que merece um post à parte (já pronto, para ler, clique aqui), pelas mudanças que a loja sofreu, e pelos vinhos que provamos naquela tarde ensolarada e “inolvidable”).

A seleção criteriosa de vinhos tem raridades, como os rótulos da Viña 1924 De Angeles

A seleção criteriosa de vinhos tem raridades, de pequenas bodegas, como os rótulos da Viña 1924 De Angeles

Então, em uma outra visita que fiz à cidade, em 2012 (esta não tem erro, porque a reportagem que publiquei em seguida não me permite errar a data), eu estava com um roteiro superapertado, tendo que visitar muitos e muitos restaurantes (já contei aqui que cheguei a ir a seis em um único dia). Mas ele viu que eu estava em Buenos Aires. E me mandou uma mensagem, exigindo uma visita, ainda que ligeira. Lá fui, feliz com a exigência, aproveitando que precisava comer em um restaurante em Palermo, não muito longe dali.

Ao longo do dia várias garrafas são abertas para os clientes degustarem

Ao longo do dia várias garrafas são abertas para os clientes degustarem

Até hoje eu sou grato a ele por ter praticamente me obrigado a ir, no dia seguinte, mesmo com um almoço já marcado (no Hernán Gipponi, que funcionava no Fierro Hotel), conhecer o restaurante Don Julio. Ali fui apresentado ao Pablo Rivero, o jovem dono da casa, sommelier competente, hoje à frente do negócio da família, quem por sua vez me apresentou a entraña, um corte raro e que anda na moda na Argentina, de extrema maciez e sabor, e também os vinhos da bodega De Angeles Viña 1924. Ali eu vi o parrillero pegar um quarto traseiro de um boi, inteiro, com todos os ossos e músculos, e gorduras e nervos, e ir destrinchando a peça, separando com precisão cada corte. O cara não é só um parrillero, mas um carnicero (açogueiro) completo. Até hoje me arrependo de não ter filmado a cena, que aconteceu em rapidez impressionante.
– Olha. Aqui temos o bife de chorizo. Essa é a parte mais saborosa dele. O ojo de bife ancho. Aqui o entrecôte. Entre costelas, entende? Daí o seu nome, derivado do francês. E o asado de tira eu saco daqui. Tá vendo esta parte? É o lomo. Aqui seria o T-bone, juntando com o bife de chorizo, mantendo o osso. E, com cuidado, junto ao osso, pegamos a entraña, com a mão mesmo – e ele foi listando as partes do boi, enquanto acendia o fogo, com rara habilidade, e ia separando os cortes na bandeja. Foi uma aula.
Dizer que as carnes servidas depois do show açogueiro estavam impecáveis é pouco. Cada corte com o seu caráter evidente, no ponto exato de cozimento e de salga, e um repertório de achuras, que abriram o almoço, de ser aplaudido de pé. Desde então, quando amigos me perguntam qual a melhor parrilla de Buenos Aires, eu tenho a resposta na ponta da língua: Don Julio, com todo o respeito que eu nutro por outros endereços respeitáveis, como La Cabrera (o único lugar da vida que eu já vi uma molleja servida inteira), Cabaña las Lilas (caro, mas bom, e em lindo lugar) e El Pobre Luis (hoje desfalcado com a morte precoce de seu dono, o uruguaio boa-praça Luis Acuña), além, de outros endereços clássicos e que “a mi me gusta”, como El Desnível (simpático boteco carnívoro de San Telmo, digno de entrar em guias como Rio Botequim), La Brigada (muito bom, mas muito cheio, muito tumultuado), Las Nazarenas (é meio turístico na aparência, mas só vejo argentino por lá) e Arturito (herói da resistência tradicionalista na Corrientes, ao lado de lugares como a pizzaria Guerrín, e sua redondas, suas empanadas e seus fainás; e El Gato Negro, linda e deliciosa casa de chás e especiarias). Sim, o Palácio de las Papas Fritas, e outros do gênero, eu dispenso. É seguro que estou me esquecendo de boas parrillas. Falo de minhas preferidas, e as que já visitei. E que recomendaria, depois da Don Julio, claro.
E, assim, quando alguém me perguntar qual é a melhor loja de vinhos de Buenos Aires, e a melhor parrilla, duas questões muito corriqueiras em minha vida, eu nem vou responder. Vou mandar o link deste post.
Post este em que, de quebra, e como cereja do bolo, eu deixo outra dica que considero preciosa: a melhor empanada de Buenos Aires está na Ña Serapia, em Palermo, na parte de baixo do Parque Las Heras, uma preciosa dica do meu amigo Alexandre Bronzatto, que compatilho com vocês. Ou seja: quando me perguntarem qual a melhor empanada de Buenos Aires (algo muito menos comum que pedidos de indicações de parrillas e lojas de vinho), eu também vou compartilhar este link. Com todo o respeito a El Sanjuanino (famoso pacas, merecidamente), La Americana (muito bom, mas frequentada só por porteños) e a já citada Guerrín. De modo que este post vai virar algo como, “compre um, leve três”.

A loja fica na rua Jorge Luis Borges 1772

A loja fica na rua Jorge Luis Borges 1772

Para mim, Lo de Joaquín Alberdi é a melhor loja de vinhos; Don Julio, a melhor parrilla; e Ña Serapia, a melhor empanada. Um trio de ouro para se sentir a alma porteña, para tatear a gastronomia e a enologia hermana. Três lugares, enfim, para ser feliz em Buenos Aires.

——————————-

Para encerrar, deixo esta foto, de um painel que está na vitrine da loja, para orientar o cliente na escolha do vinho para comprar.

Lo de Joaquín Alberdi - painel - grande

 

É divertido. Clique na imagem para ampliar.

Lo de Joaquín Alberdi – Jorge Luis Borges 1772, Palermo,Buenos Aires. Tel. 54 11 4832-5329.

http://www.lodejoaquinalberdi.com

 

Anúncios

5 Respostas to “Lo de Joaquín Alberdi: a minha loja de vinhos preferida em Buenos Aires (e em todo o mundo)”

  1. Marcelo Crivelli Says:

    Oi Bruno, meu nome é Marcelo Crivelli, sou o creador e administrador de Buena Morfa Social Club, um grupo de facebook dedicado a vinhos e gastronomia, com quase 10.000 integrantes. Caso ainda esteja em BA, contate-me e a gente bebe uns vinhos e bate um papo. Abc!

  2. Jose Liborio Says:

    O “Lo de Joaquin Alberti” é roteiro obrigatório nas visitas à Buenos Aires. Vc conhece o “El Mirasol” na Recova da Recoleta? Se sim o que me diz dele?
    Abraços e amei seu blog. Virei fã.

    • brunoagostini Says:

      Oi, Jose. Muito obrigado pela leitura. Conheço, sim, El Mirasol. Já me recomendaram uma visita. Já passei na porta. Mas nunca fui. Se for, me escreve contando? Um abraço!

  3. Junior Says:

    Acabei de chegar de Buenos Aires, e fui conhecer o “Lo de Joaquin Alberti”e acabei comprando alguns vinhos de qualidade e outros sugestão da pessoa que me atendeu.
    Achei estranho como foram embalados os vinhos, e tive o azar de achegar em São Paulo tinha um vinho quebrado, infelizmente acreditei que aquela forma de embalar era o que sempre faziam nunca tiveram problema.
    Depois pesquisei em outras lojas de vinhos e vi que o preço que deles era bem superior.
    Um exemplo; Paguei 2180 pesos pelo Zuccardi Finca Canal Uco Malbec, na ESPACIOVINO está por 1536 pesos, é uma diferença muito considerável.
    Sugiro pesquisar antes, como tinha pouco tempo acabei acreditando na dica do lugar e me dei mal.
    Obrigado

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: