Um panorama dos vinhos argentinos através de 12 rótulos

Depois de um almoço sempre bom no La Cabrera, com molleja inteira e asado de tira, fomos visitar Joaquín Alberdi. Tínhamos um horário livre, e tudo o que não se deve fazer em viagens do tipo, é descansar nas horas vagas. Nessas horas, muitas vezes, acontecem algumas das melhores coisas.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - terraço
Chegamos e fomos conferir as boas novas. Subimos as escadas até o terraço, área nova, onde acontecem degustações de vinho, ao lado de uma baita parrilla, vizinha de um belo forno.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - pia

Mas o melhor da nova parte alta da loja são as pias, feitas em cima de barricas. Curti.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - queijos
Outra novidade, esta no térreo, é o balcão refrigerado que abriga uma admirável seleção de queijos de cabra, da Cabañas Piedras Blancas, incluindo variedades como reblouchon e um negro, pintado com tinta de lula. Pois, assim, é possível provar uns vinhos e “picar”, que é petiscar para os argentinos.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - porão
A prova ocorreu no porão, área reservada, ideal para pequenos grupos. Além de nós quatro havia outros quatro brasileiros (duas amigas, de Cuiabá; e um casal de São Paulo), Joaquín Alberdi, e alguns de seus funcionários e amigos.
O homem então se animou, e enfileirou uma baita bateria de vinhos, com uma boa amostra da produção argentina, reunindo clássicos como o Achaval Ferrer Finca Mirador e experimentações, como o Cara Sur, que é “100% Criolla de Parral de más de 80 años”, ou seja, um vinho fino de uva Criolla.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - Gran Medalla
Abrimos com um vinho top de uma bodega gigante. Era o Trapiche Chardonnay 2012, com pêssego e limão, uma madeira bem integrada, e uma boa persistência.Bem feito, mas sem ser encantador (custa 398 pesos). Mais para a frente falamos sobre a Trapiche, que está com projetos bem  interessantes depois que foi comprada pela família que era dona da cervejaria Quilmes, antes dessa ser comprada pela brasileira Ambev.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - Lágrima Canela
Depois, o Lágrima Canela 2011, com madeira surgindo em aromas de canela e baunilha, acidez na medida certa, com notas cítricas refrescantes, e um final de boca amplo e gordo. Custa 308 pesos.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - Desierto Pinot Noir
Desierto 25 Pinot Noir 2013 é um vinho com muitos méritos. Para começar, tem bom preço: 100 pesos. Ou seja, uns R$ 25 (a cotação do Real, em lojas, hoje está na casa dos 4 para 1). Por esta pechincha levamos um vinho puro, leve, com boa expressão da fruta, com sabor de cereja em conserva e framboesa, fácil de gostar e de beber, com boa acidez e taninos sutis.Vinho leve, para ser bebido mais fresco. Muito bom para embalar a conversa, ou um prato de comida, com a sua assumida humildade.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - Cara Sur
O já citado Cara Sur, “100% Criolla de Parral de más de 80 años”, foi uma bela surpresa. Resultado de fermentação natural, com leveduras indígenas, este vinho leva a assintura de Sebastian Zuccardi & Francisco Bugallo. As uvas estão plantadas em Barreal, Valle de Calingasta, em San Juan, a 1.500 metros acima do nível do mar. Não parece ter os seus 14% de álcool. Um vinho que afaga o ego da uva Criolla, nada valorizada. Custa 155 pesos.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - Finca Mirador
O vinho seguinte foi igualmente outro usado como exemplo da diversidade desta prova: o Finca Mirador 2011. Um dos grandes da Argentina, sempre muito bom, quando não excepcional, como é o caso desta safra, que ainda se mostra com certa timidez, porque este é um rótulo que precisa de algum tempo para se apresentar melhor, por inteiro. O que se pode fazer é usar um decanter, deixando o vinho respirar. No meu copo, ele mudou intensamente durante o tempo que eu pude prová-lo. Resumindo, um vinho delicado no nariz, com buquês de flores, as rosas, as violetas… Na boca, é potente e firme, mas com certa ternura, os taninos marcantes, mas macios, e a acidez que deixa a textura sedosa, e agradável. A madeira traz notas de especiarias, que se entendem bem com a fruta, sem mascarar, mas apenas temperando, aquele conhecido pomar que a Malbec apresenta, a ameixa seca, os mirtilos e amoras, aqui ainda frescas, mas que devem evoluir para algo em compota. Vale ficar atento a este vinhos nos próximos anos. Aqui o preço já é sério: 1.012 pesos.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - Special Blend
Depois, mais Achaval Ferrer, agora um vinho que eu ainda não havia provado: o Special Blend 2011. Corte de Malbec e Carménère, é um vinho interessante, que apresenta da primeira as notas de violeta, e da segunda os aromas herbáceos, de tomilho e alecrim. Algo de alcaçuz, que eu entendo mais como rapadura, também me remetia a alguns outros exemplares de Malbec que já provei. Mas vale uma observação: não consegui confirmar o corte das uvas, já li que é Cabernet Franc e Petit Verdot, mas na degustação disseram se trata de Malbec e Carménère, e no site da vinícola eu não encontro as informações. Se alguém as tiver, agradeço o compartilhamento. Custa 500 pesos.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - Gran Enemigo
Seguimos com o Gran Enemigo 2010 Cabernet Franc, com muita fruta, um vinho concentrado, de textura agradável, firme, escuro, e um tanto misterioso. Tem aromas de cafá, chocolate, grafite, alcaçuz… Vinhaço, para resumir. Belo trabalho de Alejandro Vigil. Foi o vinho que primeiro despertou a minha atenção para Gualtallary (se pronuncia “Gualtajarí”), subregião do Vale de Uco, perto de Tupungato, em Mendoza, e que eu ainda provaria muitos vinhos interessantes de lá, uma zona que é queridinha dos enólogos. Custa 875 pesos.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - De Angeles
O próximo era um vinho de uma bodega preciosa, que o próprio Joaquín Alberdi tratou de me apresentar, através de Pablo Rivero, do restaurante Don Julio, para mim a melhor parrilla de Buenos Aires, e com uma carta de vinhos à altura das carnes, cuidada pelo próprio Pablo, da família proprietária da casa. Era o De Angeles Grand Cabernet S 2012, fresco, intenso e profundo. Custa 480 pesos.
Tá pensando que terminou? Pois ainda veio o Yacuil (Yacochuya-Tacuil, parceria entre essas duas bodegas), um vinho produzido em Salta, exuberante e ensolarado, cheio de fruta madura, equilibrado, com notas de violetas e também algo animal, de salame, pele de salame, estruturado, e bem elegante, um tanto diferente do perfil dos vinhos de Salta. Gostaria de provar este vinho com um belo curry de cordeiro. Custa 900 pesos.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - El Esteco
E o Joaquín se animou. Sacou o El Esteco Chañar Punco, um canhão. Mas ainda está bem sisudo, fechadão. Mas, quando se abrir, daqui a uns cinco anos, promete dar o que falar. Custa 965 pesos.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - Témporis
E depois, mais Achaval Ferrer, mostrando a grandeza da casa. Era o Témporis 2011. Confesso que não tomei notas desse vinho, já distraído com o clima de confraternização que tomava conta da sala, os outros brasileiros se despedindo. Mas lembro que gostei, e também me marcou a textura, um vinho amplo, com taninos firmes, cheio de vitalidade e elegância. Custa 1.350 pesos.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - Montesco Agua de Roca
– Agora, para limpar a boca, vamos abrir esse Montesco Agua de Roca 2014, da Pasionate Wines. Uma beleza, pura refrescância, cítrico, acidez pontiaguda, uns 10% de álcool, um vinho inimaginável para a Argentina. Uma delícia – anunciou Joaquín, para a minha alegria de quem já tinha sido apresentado a este vinho dois dias antes, em jantar no restaurante Uco, no Fierro Hotel (para ler o post, clique aqui). Custa 170 pesos, de pura alegria, juventude e frescor.
E assim, com a boca limpa para a próxima prova, voltamos ao hotel para nos arrumarmos para o show de tango. Mas isso é assunto pro próximo post.

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3 Respostas to “Um panorama dos vinhos argentinos através de 12 rótulos”

  1. Yuri Silva Says:

    Bruno, sou fã do seu blog a muito tempo! Há uns 2 anos visito semanalmente atrás de “dicas” suas que nunca me deixaram na mão. Aprecio o jeito como gostas de vinhos e um dia queria aprender, assim como você, a degustar um vinho e exemplificar os mínimos detalhes de uma degustação.
    Teria alguma dica para um iniciante? Algum curso, algumas escolhas de vinhos para iniciantes.
    Obrigado e meus parabéns.

    • brunoagostini Says:

      Olá, Yuri. Vou tentar responder as suas questões, mas em forma de post, ok? No mais, muito obrigado pelas visitas. Um prazer tê-lo aqui comigo. Um abraço

  2. Gustavo Lalla Says:

    es interesante la opinión de otros paises (no tradicionales en tomar vino) y verdaderamente el pinot noir de desierto 25 es genial , con una relacion precio calidad exelente

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