Só não quero que me falte a danada da cachaça

Não se engane: caipirinha, é de cachaça; se não é de cachaça, não é caipirinha

Não se engane: caipirinha, é de cachaça; se não é de cachaça, não é caipirinha

Faz um bom tempo uma coisa me intriga. Na verdade, hoje o verbo é irritar. Fico bem irritado quando vou a um bar – algo bem comum – e peço uma caipirinha – algo bem raro. Em cálculos ligeiros de memória, mas com índices altamente confiáveis, eu diria que em cerca de 80% dos casos a resposta do garçom me faz ter vontade imediata de ir embora, e em alguns casos eu vou mesmo, caso haja algo aceitável nas redondezas.
– O senhor prefere que tipo de vodca, premium ou comum? – agridem uns.
– Vodca nacional ou importada? – debocham outros.
Coisa irritante.
Coisa vergonhosa.
Porque se eu peço caipirinha, isso significa que se trata de um drinque feito com limão macerado com um pouco de açúcar, com cachaça e gelo. E até pode haver variações. Sempre questões quantitativas: com ou sem açúcar?, com pouco ou muito gelo? Ou, então, são questões cromáticas: prata ou ouro?, branca ou dourada?, com ou sem madeira? (De uma maneira geral, as branquinhas, sem passagem em barris, são mais adequadas, pela sua maior neutralidade, mas há exceções). Aceito até o uso de melado, ou açúcar mascavo. Até xarope de água com açúcar.
Ou seja, caipirinha é cachaça e limão. Qualquer coisa diferente disso, não é caiprinha. Se eu peço caipirinha, sequer preciso dizer que é de limão. Porque caipirinha é de limão. Se é de morango, de caju, de uva, ou de qualquer outra coisa, temos que chamá-la de caipirinha de morango, caipirinha de caju, caipirinha de uva, ou caipirinha de qualquer outra coisa. Sendo de limão, basta chamá-la caipirinha.
Se é de vodca, sequer pode ser chamada de caipirinha. Existe uma palavra (muito da chata) para isso: caipirosca (às vezes abreviado como rosca, caso da Bahia, o que torna pior o que é muito ruim). Ou caipivodca, que acho melhor, porque o nome já traz em si a sua subversão escrota; Caipirosca já dá margem a dúvidas.
Quando chegará o dia em que o Brasil vai entender que, quando pedimos caipirinha,a queremos um drinque de limão e pinga. Com (ou sem)
Pior é que se eu pedir um Cuba libre, não haverá garçom que me questione o tipo de destilado usado.
Pior é que se eu pedir um pisco sour, ninguém vai me perguntar se quero com que tipo de vodca.
Isso vale para todos os drinques clássicos. Caipirinha é um drinque clássico. Sua receita, com ingredientes imutáveis, seja lá onde se faça uma caipirinha, é limão e cachaça, tendo gelo e açúcar como acessórios.
E, evidentemente, se alguém pedir uma caipirosca, certamente jamais a resposta será: “Com qual marca de cachaça você prefere?”

 

ATUALIZAÇÃO: Ontem, publiquei o link deste post no Facebook. E foram muitos comentários em seguida. Um deles, merece destaque aqui, feito por Rafael De Almeida Sampaio, sócio do Barthodomeu, e um grande apreciador da cachaça: “Tem uma questão que separa os dois produtos. A Vodca é o único destilado que é mais elegante quanto menos gosto tem, então destilam um monte de vezes. Na cachaça, o gosto interessa!”

Deu pra entender que caipirinha é de cachaça com limão, açúcar e gelo, ou precisamos desenhar?

 

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

Uma resposta to “Só não quero que me falte a danada da cachaça”

  1. Leandro Says:

    Proposição aprovada por eloquente aclamação!

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