Bazzar e Lorenzo Bistrô: olhando de longe, não parece, mas são dois restaurante com espíritos semelhantes

Existem dois restaurantes que não se parecem em nada. Mas, que se observarmos bem os seus detalhes, perceberemos que são muito próximos, eu diria complementares. O Bazzar e o Lorenço Bistrô fogem da corrente atual dos restaurantes, cujos chefs são os atores principais. Cristiana Beltrão, escoltada pelo extraordinário Claudio de Freitas na cozinha, é a maestra do restaurante de Ipanema, e dos cafés, e do Lado B, que funcionam em unidades da Livraria da Travessa. João Luiz Garcia, o Janjão, personagem lendário da gastronomia carioca, fundador do Garcia & Rodrigues, difusor do vinho e – assim como a Cristiana Beltrão – um profundo conhecedor da História e dos prazeres da gastronomia, é quem rege a orquestra das duas casas do Jardim Botânico, o Lorenzo Bistrô, matriz, e a Casa Carandaí, filhote mais novo, um empório, enoteca e café dos mais simpáticos do Rio.
Isso já seria o bastante para se poder juntar os restaurantes no mesmo grupo (sem contar o fato que são casas que deram filhotes). Neles, como em poucos lugares, percebemos o espírito de seus proprietários, donos também do salão, dos conceitos, dos fundamentos de cada casa. A própria decoração revela um pouco da personalidade de cada lugar, que reflete os seus mentores.

O bubble bar do Bazzar: borbulhas, Jerez, cervejas especiais

O bubble bar do Bazzar: borbulhas, Jerez, cervejas especiais

 

No Bazzar temos uma arquitetura moderna, arejada, com opções de escolhas: podemos nos sentar na varanda, nas poltronas de couro, no balcão do bubble bar, ou mesmo nas mesas, digamos, regulares (adoro a redonda, ao fundo, junto à adega).

 

Garrafas de grandes vinhos decoram as paredes do Lorenzo Bistrô

Garrafas de grandes vinhos decoram as paredes do Lorenzo Bistrô

No Lorenzo Bistrô, eu encontro deliciosas referências pelas paredes: quadros com fotos de vinhos e comidas, páginas de revistas gastronômicas, garrafas de vinhos de sonho, num aconchegante painel de devoção à boa mesa. Tem mesmo um clima de bistrô, e cozinha idem. Podemos, também, ficar na varanda, na discrição do segundo andar, e até no terraço… Ou nas mesas regulares. Em comum aos dois, em termos de decoração, além da assinatura da Cris e do Janjão, está o aconchego. Me sinto muito bem nesses dois ambientes.
Fico com a impressão que a Cristiana Beltrão escreve a História do Bazzar olhando para o futuro, sem deixar de buscar as referências do passado, estudá-lo a fundo. Já o Janjão, observa o passado, a cozinha clássica do mundo inteiro, e colhe desse imenso e delicioso manancial os pratos que vai servir, podendo interferir levemente aqui ou ali, dando um tempero pessoal, familiar.

O salmão selvagem do Alasca com caldo de cajuína, dill e açafrão, um dos destaques do menu da primavera passada

O salmão selvagem do Alasca com caldo de cajuína, dill e açafrão, um dos destaques do menu da primavera passada: cardápios sazonais a cada nova estação

Olhando com atenção os menus é que temos essa certeza, de que são casas com espírito parecido. Em conjunto com o chef Claudio de Freitas, dos mais admiráveis que conheço, em todos os sentidos, Cristiana Beltrão instiga, provoca, conforta e acolhe a sua clientela, montando um cardápio autoral, que é criado a quatro mãos. Ela lança as ideias, eles debatem, Claudio vai testando, testando, e vão todos por lá provando, provando… E nesse processo o cardápio muda com a regularidade das estações. E toma carta de vinhos sazonal, e de cervejas, e de cachaças. Uma inquietude deliciosa. E assim nasceram pratos como salmão selvagem do Alasca com caldo de cajuína, dill e açafrão, um dos destaques do menu da primavera passada; e “O primeiro ato do menu invernal propriamente dito foi um consomée servido com torradinha de pão de champagne coroada com nacos de tutano de vitela e uns brotinhos, para dar um sabor verde e fresco”, como defini este prato em um post na época do lançamento, em julho do ano passado. E sem falar nos clássicos da casa. O  já adolescente carpaccio de pato com queijo de cabra e tomilho; o poético “aviús, ovas e ovos” e os indescritíveis lombos de cavaquinha com purê de aipim, crisp de alho poró e molho de amêndoas e avelãs.

O vitello alla milanese do Lorenzo, com saladinha de rúcula e tomate, e um purê de batata bem cremoso, na panelinha

O vitello alla milanese do Lorenzo, com saladinha de rúcula e tomate, e um purê de batata bem cremoso, na panelinha

Janjão faz um caminho que não deixa de ser parecido. Mas olhando mais para trás, e isso é muito atual, é deliciosamente contemporâneo. Depois de anos de viagens e viagens e mais viagens, montou com a saudosa Nick um cardápio sedoso, cheio de referências, e dos mais confortáveis do Rio. Traz pratos consagrados da Itália e da França, países melhor representados no menu: tanto assim que sábado tem “Le cassoulet de Toulouse” e, no domingo, “arrosto di capretto”. O cardápio traz receitas consagradas desses dois países, e da gastronomia universal: steak tartare, vitello alla milanese, bolinhos de bacalhau, cheeseburguer, confit de canard, frutos do mar à moda tailandesa, Cornwall scallops (aquela receita inglesa, de veiras com Parma). A França predomina nas entradas. E a Itália, nos principais, com respeitável repertório de massas e risotos. Para quem ama esses dois países, em grande parte por suas cozinhas, é um paraíso.

Queijos artesanais brasileiros no Lorenzo Bistrô

Queijos artesanais brasileiros no Lorenzo Bistrô

Existem ainda as virtudes revolucionárias encrustadas em cada um dos dois. O Janjão teve coragem de peitar a lei ignorante (que ainda temos, um pouco mais branda) e vender em sua Casa Carandaí queijos mineiros feitos com leite cru, que amadureciam numa cave moderna, talvez a primeira do Rio para maturação de queijos.

O cação pescado em Búzios, fisgado pelo olhar atento e local de Cristiana Beltrão

O cação pescado em Búzios, fisgado pelo olhar atento e local de Cristiana Beltrão

E a Cris, muito antes de qualquer outra pessoa, abraça as mais novas vanguardas da gastronomia. Faz isso como poucos. Antes de qualquer um, estava trazendo a mesa do carioca ingredientes do Rio de Janeiro. O cação de Búzios, o pato de Sapucaia, os queijos de cabra da Região Serrana. E os orgânicos, a celebração atual ao tutano etc etc etc. E os fermentados.
Existem clássicos no Bazzar: uma tarte tatin de enternecer, o hambúrguer mais sensível de Ipanema, carne, pão e queijo, fritas das boas, e os molhos com assinatura da casa (produtos que hoje são exportados, e encontrados em Paris, Londres e Nova York, ilustrando vitrines de lugares com a Harrods e o Bon Marché. Está bom pra você?).
Assim como no Lorenzo encontramos criações autênticas da casa. Tipo o “confit de Canard a Nick”, com purê de maçã e damasco, e figos braisé. Ou a “mini cocotte a Lulu”, graciosa panelinha de lula, camarões salteados no azeite, alho e tomate cereja. Ou, ainda, outra assinatura da casa, “a memorável torta de chocolate e gengibre do Lulu” (Lulu era o antigo nome do restaurante), uma torta brownie de chocolate meio amargo e gengibre.

E, tanto no Bazzar, quanto no Lorenzo, podemos pedir com alegria um belo prato de queijos brasileiros, dos melhores. Um orgulho.

O couvert do Lorenzo, e seu famoso grissini

O couvert do Lorenzo, e seu famoso grissini

O couvert é certeiro, nos dois lugares. Tão certeiro tanto quanto simples, baseados em pães feitos na casa (adoro a torradinha de foccacia do Bazzar, e o grissini do Lorenzo), azeites e uma bossa aqui, outra ali. Nas duas casas há belos cheeseburgers. Desses cheios de ternura e simplicidade. Em ambas, comemos lindas tarte tatins.

A Cris e o Janjão adoram os produtos brasileiros. E, por fim, a linha própria de produtos da Casa Carandaí, lançada muito recentemente novamente entrelaça esses duas marcas: o Bazzar e, no caso, a Casa Carandaí. Apresentamos a novidade aqui em primeira mão (para ler, clique aqui). E foi justamento o que inspirou este post, quando comecei a pensar nas semelhanças e diferenças das duas casas. Assim como a Cris, Janjão agora também tem a sua linha de produtos.
Além disso, são amantes do vinho. E pessoas com quem eu tenho o prazer de dividir a mesa regularmente.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

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