Mendoza, segundo dia, parte 2 – O Vale de Uco: passeio imperdível

Vale de Uco 1

Em termos de paisagem, mesmo com a forte concorrência (Patagônia, Luján, Pedernal), a viagem de aproximadamente uma hora e meia de Mendoza ao Vale de Uco foi a mais bela. Seguimos rumo ao Sul, acompanhando a Cordilheira dos Andes, à nossa direita. Quando viramos em direção às montanhas, deixando a estrada principal, já vamos subindo um pouco de altitude, nos embrenhando nas raízes dos Andes, que vão se tornando cada vez mais imponentes quanto mais próximos estamos deles. O vulcão Tupungato é uma rocha sólida e nevada, branca, com sombreados, de contornos preciosos, tipo obra de arte, um desenho de precisa beleza acidentada.
O clima campestre, as parrillas de beira de estrada e os vinhedos que vão surgindo dão contornos bucólicos ao passeio. Passamos por pequenos vilarejos pacatos, onde podemos comer maravilhosos pescados, garante-me o meu motorista, e eu acredito nele.
– Que pescados? Trutas da região? Salmão? – pergunto.
– Sim, claro. Também. Mas eles fazem de tudo. Camarões, lulas, peixes marinhos. Muito recomendável.

O Vale de Uco anda se sofisticando, no ritmo da fama de seus vinhos. Algumas das mais lindas e modernas bodegas da Argentina estão por lá, como a Salentein, que era o nosso destino naquela manhã ensolarada, depois de um raro dia nublado em Mendoza. O movimento enófilo atraiu vários hotéis e pousadas, e consequentemente, bons restaurantes e um interessante comércio local, com umas lojinhas de artesanato, butiques, coisa e tal.
O cenário é desértico, com plantações alimentadas pela água do degelo dos Andes. Entramos na vinícola, passamos por uma capelinha e logo estamos de frente para o prédios de linhas retas, em tons ocres, combinando com a paisagem, bem integrado a ela.
Na verdade, são duas edificações, distantes cerca de 100 metros uma da outra.

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Na primeira, uma espécie de centro de visitantes, com recepção, loja etc.

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Há um restaurante com vista para os vinhedos.

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As empanadas que provei estavam bem boas.
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E o lugar tem até uma galeria de arte.

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Gostei dessa obra, um emaranhado de lentes, que distorce os quadros.

Vale de Uco 5 - Salentein 2
E há várias peças espalhadas por diversas partes, externas e…

Salentein 1
… internas.

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Do outro lado está a bodega propriamente dita, onde é produzido o vinho. Vamos caminhado pela alameda que atravessa o vinhedo,…

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… tirando aquelas fotografias clássicas.

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As roseiras, com os vinhedos, e neste caso, com uma bossa especial, os Andes ao fundo.

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Comemos algumas uvinhas, porque ninguém resiste a verificar os graus de açúcar e acidez, delicioso exercício de imaginação. A fruta suculenta, a secura dos taninos, o caldo agridoce. A tinta que colore os nossos dedos ao esfregarmos as cascas. O sabor amargo da semente, que mordemos para testar os taninos.
Soube que tinha nevado na noite anterior.

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– Essas montanhas ontem não estavam assim. Caiu muita neve – informa-me um local.

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Do lado de fora podemos dizer que o prédio é discreto, quase camuflado na paisagem, com a vegetação andina, tambpem em tons desbotados, ocres. Não se imagina que lá dentro o cenário é imponente, com ares de catedral, um templo do vinho. As barricas estão como em altares. Dedicados a Baco. Dionísio.

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Dele temos um bom panorama do edifício que recebe os visitantes.

 

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Quando chegamos ao salão principal, um imenso buraco redondo no chão revela uma sala de barricas que é como uma grande caverna.

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Tem acústica de sala de concertos, e um piano de cauda está sempre ali, esperando o próximos maestro (são pelo menos duas apresentações por ano, uma de tango, outra de música clássica). Uma rosa-dos-ventos no chão é sinal de orientação.

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Descemos até o chão. A energia no local é boa. Flui. As barricas. Redondas. O salão. Arredondado. Os grandes tonéis. Circulares. Tudo fluido.
O buraco que era no piso, agora está no teto. E dele vem uma luz bonita, apoteótica, quase divina, daquela que vemos em igrejas antigas, invadindo a nave através do mosaico meticulosamente pensado.

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Há várias enotecas, salas não muito grandes que guardam os vinhos já engarrafados, em armários com portas de metal. São também salas de degustação, para que os grupos de visitantes em cada prova não sejam muito grandes. E há de vários tipos.
A mesa é belíssima. Um tipo de mármore, em pedra bruta, que lembra uma rolha.

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Nem sempre se tem a sorte de degustar os vinhos com o seu autor. Quando isso acontece, é sempre melhor.Quem nos recebeu para a prova foi o enólogo da casa, Pepe Galante.

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E começamos a prova.

O Salentein Reserve Sauvignon Blanc 2014 era muito aromático, com pimenta branca, mentolado, e vegetal, com notas de capim-limão e grama cortada, com uma mineralidade, e um toque salino. É uma especialidade da casa. São 1,2 milhão de garrafas ao ano.

– Somos a única vinícola da Argentina que produz mais Sauvignon Blanc do que outros brancos, como Chardonnay e Torrontés. E fazemos isso porque aqui em Uco o clima é mais fresco, e adequado a esta variedade – explica Pepe Galante.

O Salentein Reserve Chardonnay 2013 é fermentado em  barraica, ganhando untuosidade, com textura gorda. Tem notas florais, e de frutas, como melão, e cítricos, como limão. Tem volume de boca, deixando um rastro adocicado, de baunilha, mas com isso tudo, sem perder o frescor.

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Partimos para os tintos. O Salentein Reserve Pinot Noir 2013 puxou a fileira, com muita fruta, e uma pimentinha. Um vinho claro, com bonita cor, límpido e puro, com notas de rosas e cerejas, e algo de ervas, com um tomilho fresco muito nítido, e um final longo e agradável.

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O Salentein Reserve Malbec 2013 trazia as típicas notas florais de violeta, e tília, com muita fruta fresca, notas de chá, e taninos macios, com textura agradável. Uma seda. Muito delicado.

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Foi a vez do Numina Cabernet Franc 2013. Bastou um giro na taça, e uma respirada na borda dela para sentir o perfume do vinho, terroso, floral, cheio de fruta, cheio graça. Já ali tinha a certeza que estava diante de um dos vinhos preferidos da viagem. O que comprovei em seguida, ao sentir a textura firme e sedosa, o sabor rico, com tudo aquilo que os aromas revelavam, e algo mais. Cogumelos. Trufas. Especiarias. Ervas. Fruta, muita fruta. Amoras e mirtilos. Jaboticaba. Um Cabernet “Franco”, direto e puro, sincero eu diria. Elegante.

Depois, ainda provamos o Numina Malbec 2012 (aroma delicadamente doce, com taninos firmes e textura fina: “delícia”, como escrevi); e o Numina Gran Corte (coisa séria, meio misterioso, com muito frescor; complexo, floral, com notas de frutas em compota, floral, bem longevo, com acidez marcante e taninos  redondos: acho que chega ao auge em uns 10, 15 anos).

Eu, que acredito nas energias, e na influência delas em todas as coisas, tenho a certeza de que aquela bodega bonita, com jeito de basílica, em suas formas fluidas, arredondadas, ajudam o vinho a ter esse estilo redondo, macio e sedoso. Ele descansa em barricas muito bem acomodadas, e que por vezes são brindados com belos concertos. Dizem que a música faz bem ao vinho. E eu acredito. Ainda mais depois desta visita à Salentein.

 

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Uma resposta to “Mendoza, segundo dia, parte 2 – O Vale de Uco: passeio imperdível”

  1. Roby Riedel Says:

    Em Mendoza, é possível provar assemblages (misturas) inesperados e opções varietais elaboradas com uvas pouco conhecidas, como a Bonarda e Torrontés. A região tem cerca de 1.200 vinícolas, onde é possível degustar bons rótulos e até mesmo fazer uma visita guiada aos vinhedos, percorrendo os chamados “Caminhos do Vinho”. Apresentamos aqui as principais vinícolas escolhidas pelos visitantes brasileiros: http://www.mendozaholidays.com/Mendoza_Ranking_Vinicolas_po.asp

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