Mendoza, segundo dia, parte 3: uma visita à Escorihuela Gascón e algumas novidades da enologia argentina

Escorihuela 1
Visitei a bodega Escorihuela Gascón em novembro de 2008. Poucos dias depois, em dezembro, parte da antiga construção pegou fogo. Só fui saber dessa história agora, quando voltei à vinícola, localizada em Godoy Cruz, provavelmente a mais próxima do centro de Mendoza, onde funciona o restaurante mais famoso do pedaço, 1884 (homenagem ao ano de fundação da bodega), do chef-celebridade Francis Mallmann.

Escorihuela 9
Quando estive na propriedade pela primeira vez eu fui apenas para jantar, e comi uma empanada memorável, e uma bisteca, o prato mais conhecido do restaurante, que até hoje deixa saudades, uma das melhores carnes de toda a vida. Desta vez o passeio era bem mais completo, e começamos justamente ao lado do prédio que pegou fogo, hoje um gramado onde acontecem partidas de polo sobre duas rodas, que devem ser engraçadas (a vinícola, que hoje pertence ao grupo Catena Zapata, tem ligação com este esporte, mas em sua versão convencional, a cavalo, paixão de um dos filhos de Ernesto Catena).

Escorihuela 3

Na simpática lojinha, o esporte equestre é destaque na decoração, em fotos, e através de roupas e acessórios.

Escorihuela 7
A arquitetura lembra grandes galpões portuários, estruturas bem altas, de tijolinho, que funcionavam como cantina, e como armazéns.

Escorihuela 14
Num desses galpões ainda podemos ver a estrutura original, grandes tanques de fermentação de cimento, e um tonel de madeira, com belo acabamento artístico.

Escorihuela 15
Ao lado, uma coleção de barricas rotuladas, lembrando como era enviado o vinho para Buenos Aires.

Escorihuela 16

Havia uma estação de trem dentro da própria bodega, onde eram feitos os carregamentos para a capital.

Escorihuela 4
Provamos uma amostra dos vinhos da casa, começando com Escorihuela Gascón Malbec 2014, vinho de R$ 38, bem maduro, tânico e defumado, com um leve floral e notas de cinzas e grafite. O 2013 se mostrou melhor, mais redondo e amplo, carnoso, com cacau, café, amaixa seca e taninos bem marcados. A coisa começa a ficar mais séria com El Conquistador Red Blend 2011 é mais fresco e picante, com chocolate, café, violeta e licor de cassis. Ele abriu caminho para o Pequeñas Produciones Malbec 2011, um desses vinhos que me faz lembrar por quais razões esta foi a primeira uva tinta a fisgar o meu coração. Aromas elegantes e delicados, com muita concentração, e uma acidez elevada que não deixa o vinho cair na monotonia, equilibrando os taninos bem marcados. Um vinho estruturado, puro e intenso, que traz notas de violetas típicas da Malbec. Com dois anos a mais, o Miguel Escorihuela 2009, dizem, era o vinho preferido de Perón, o que deu grande fama à bodega. Se era, seguramente era algo muito diferente do que encontramos hoje. Concentrado e profundo, o vinho combina sabores de chocolate amargo e amora, violeta e ameixa, pimenta e grafite.

Escorihuela 6

Encerramos com o Miguel Escorihuela Brut Nature, feito com 50% de Chardonnay e 50% de Pinot Noir, me fazendo crer, ainda mais, que os espumantes mais básicos da Argentina pouco me seduzem, mas que aqueles mais desafiadores, caso de todos os “Nature”, alcançam resultados bem interessantes, como é o caso desse.

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Ainda provei, depois, três vinhos da linha Pequeñas Produciones. O Chardonnay era untuoso e gordo, com pêssego e abacaxi. O Cabernet Sauvignon 2010 estava bem bom. Mas encantador, mesmo, foi o Cabernet Franc 2010. Hoje em dia, falando de Argentina, eu seria capaz de ficar bebendo só Cabernet Franc, e cortes feitos com essa uva, pelos próximos anos.

Vistalba
Despois, nos encontramos com outros produtores, para conversar e provar mais vinhos. Revisitei alguns velhos conhecidos, como a Vistalba, e o seu Tomero malbec 2012, redondinho, vendido a R$ 50 (pelo Domno, da Casa Valduga), e dois de seus vinhos de alta gama, com destaque para o Corte A 2012, ainda uma criança.

Kaiken
Na Kaiken, que pertence à chilena Montes, encontrei um Sauvignon Blanc 2014 Terroir Series que muito me lembrou os exemplares chilenos, muito aromático, com notas vegetais, de ervas, e maracujá. O corte de Malbec, Bonarda e Petit Verdot, que vi em outros rótulos argentinos recentemente, me parece uma tendência, mesclando o caráter amável e doce da primeira, com o comportamento um tanto selvagem da segunda, e a potência da terceira.

Casarena
Até aí, só produtores (e vinhos) conhecidos, bem conhecidos. Foi quando cheguei à mesa da Casarena, uma bodega que – de cara – já me ganhou pelos rótulos, que destacam os diversos vinhedos da propriedade, mostrando a parcela de onde vem o vinho em questão. Belos rótulos para lindos vinhos, que acabaram reconhecidos pelo júri do Wines of Argentina, que dois dias depois premiou o Casarena Single Vineyard Jamilla’s Vineyard Perdrie Mabec 2012, como vencedor na categoria “De US$ 30 a US$ 49,99” (para ler um post sobre o prêmio, clique aqui). Pelo conjunto da obra, ganhou lugar de destaque na minha galeria de bodegas argentinas mais queridas, ao lado de nomes como Altocedro, Monteviejo, De Angeles, Passionate Wines, Carmelo Patti, Ricardo Santos, Marcelo Miras e Chacra, entre outras poucas, e boas.

Ao lado, encontrei outra bela novidade, a Mascota Vineyards. Novidade, em termos. A marca opertence ao grupo Peñaflor, dono, por exemplo, da Trapiche. A história é bem interessante. A família que era dono da cervejaria Quilmes ganhou uma boa bolada da Ambev, quando esta comprou a marca argentina. Depois de algum tempo, eles compraram o grupo Peñaflor, o maior do país. E, dentro do processo de renovação da empresa, um dos projetos mais interessantes é justamente o “Mascota”, praticamente um bichinho de estimação da família, uma bodega pequena, com linha consistente de produtos. Provei três vinhos deles, tendo um bom panorama da filosofia da casa. O Cabernet Sauvignon 2013; o Grand Mascota 2011 e o Unanime 2011.
Problema é que eu sou um desgustador pouco veloz, por assim dizer. E acabei me esquecendo de fotografar os vinhos, porque o povo já reclamava de minha demora, e todos já se encaminhavam para o jantar, no mesmo 1884.

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A tarde caía feito um viaduto, e o movimento no restaurante começava a ficar forte.

Escorihuela 26

A parrilla fica num canto do terraço, e praticamente podemos preparar as nossas carnes junto ao parrillero. Mallmann circulava por lá.

Escorihuela 24
Minha empanada estava maravilhosa, das melhores da viagem, como da outra vez. Mas o ojo de bife – que estava macio e suculento – não fez a minha cabeça, como a bisteca tinha feito da outra vez.
Melhor dormir logo. Porque no dia seguinte a saída, com destino a San Juan, estava programada para às 7h. E esse é o tema do próximo post da série “Argentina”, já se encaminhando para o seu final.

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