Mendoza, terceiro dia: um bate-e-volta até San Juan

Quando se fala em vinhos da Argentina, há três regiões bem definidas, que fazem um recorte vertical do país, com fortes variações de latitude, e de altitude. Salta, ao norte, com vinhedos que chegam a 3 mil metros acima do nível do mar, os mais altos do mundo. Mendoza, em área mais central, com vinhas entre 800 e 1.300 metros. E a Patagônia, bem ao sul, com plantações de uva que ficam ao redor de 300 metros. Nesse contexto geográfico, muita gente se esquece de San Juan, um pouco ao norte de Mendoza, e mais baixa. Existem bodegas famosas por lá, com produção consistente, em termos de volume e qualidade, com preço sempre mais atraente, na média, como Finca Las Moras. Mas muita gente acha que esses são vinhos de Mendoza. Pena. Parece-me que está mais do que na hora de se falar dos vinhos de lá, região onde a Syrah é a estrela, ao lado da Tannat, mas sem deixar de dar espaço à onipresente Malbec, e a outras variedades, como as brancas Viognier e a sempre plantada Chardonnay.

San Juan 1 - Pedernal - Las Moras

San Juan é a segunda maior região vinícola da Argentina, atrás apenas de Mendoza, claro. Assim como acontece em Mendoza (Vale de Uco, Luján de Cuyo), em San Juan o filé mignon está localizado mais perto da Cordilheira dos Andes, em altitudes um pouco mais altas, subindo as montanhas, e encontrando condições climáticas mais interessantes para a produção de vinhos de qualidade. Neste contexto, Pedernal está para San Juan assim como o Vale de Uco está para Mendoza. Além de Pedernal, são duas outras áreas de cultivo de vinhas em San Juan: Sonda e Tulun.

San Juan 5 - Pedernal - Las Moras

Para se ter uma ideia da variação climática por lá, a uva Malbec é colhida na primeira quinzena de janeiro em Sonda, área mais quente, onde a uva amadurece mais cedo. Em Sonda, a colheita da mais emblemática casta da Argentina acontece em março. Já em Pedernal, zona mais fresca, os cachos são cortados apenas em abril (na foto acima, uma parcela de Malbec, sem enxerto, plantado em pé franco). Difícil observar algo assim em outra região do mundo.

San Juan 2 - Pedernal - Las Moras
– Mas aqui em Pedernal a colheita também começa no começo de janeiro, com a Chardonnay. Já houve anos em que começamos a colheita no final de dezembro – lembra Claudio Rodriguez, gerente de viticultura da Las Moras.

San Juan 3 - Pedernal - Las Moras
Para ver de perto esta nova realidade, fizemos um bate-e-volta a partir de Mendoza. E a primeira parada foi justamente em Pedernal, onde visitamos a Las Moras. O solo é compostos de pedra planas e negras, de origem glaciar, que esquentam durante o dia, refletindo o seu calor nas uvas, e esfriam rapidamente quando o sol cai, criando uma amplitude térmica ainda mais extrema, o que é ótimo para se ter uvas de qualidade.

San Juan 7 -  Las Moras

Foi uma bateria e tanto.

San Juan 8 -  Las Moras

Começamos a prova com o Alma Mora Blanc 2014, corte de Sauvignon Blanc e Semillón, leve e com frescor, e bom volume de boca. Já o Chardonnay 2014 da mesma linha mostra notas de madeira e frutos tropicais, tipo abacaxi. Numa gama mais alta, o Black Label Sauvignon Blanc 2013 tem notas de arruda e aspargos, com aroma intenso.

San Juan 9 -  Las Moras
A linha Dadá nasceu inspirada no Dadaísmo, e foi pensada para atrair novos consumidores. O Moscato tem apenas 50 gramas de açúcar por litro, e carece de um pouco de acidez, mas promete se dar bem com sobremesas pouco doces feitas com frutas como pêssego e abacaxi.
Começamos a bateria de tintos com o Alma Mora 2014 Malbec, bem típico, com notas de ameixa, e final de boca mentolado, com aromas de eucalipto, e leve amargor.

Já o Cabernet Sauvignon 2014, como sempre acontece na Argentina, está em um patamar acima da Malbec, com mais corpo e estrutura, e elegância.
Mescladas as duas uvas, com uma parte de Petit Verdot, dão origem ao Alma Mora Blend 2014, mais concentrado, complexo e equilibrado, com boa fruta e mais intensidade.
Chegamos, então, aos três tintos da linha Dadá. O número 1 é corte de Bonarda e Malbec, com 14 gramas de açúcar residual por litro, com aromas de baunilha e notas florais. O Dadá 2 é um Merlot, com diferentes tipos de madeira, com sabor marcante de café, fácil de beber e de agradar o público inciante. Já o Dadá 3, Cabernet Sauvignon e Syrah, tem notas de cravo e canela, com um pouco de caramelo. O povo que me acompanhava não curtiu muito o estilo empastelado, que também não é a minha praia. Mas entendi bem a proposta, e o público que eles querem alcançar.
O Malbec Reserva 2013 é feito com uvas de Sonda, e já está elevando o nível da brincadeira. O mesmo acontece novamente com o Cabernet Sauvignon Reserva 2013, Cabernet Sauvignon e Syrah, com frutas negras, algo de caramelo e um bom corpo.

San Juan 11 -  Las Moras
O Malbec Black Label 2013 é imponente e tânico, com boa textura, e notas de amora e groselha maduras. Gostei ainda mais, porém, o Black Label Bonarda 2012, bem aromático, com boa dose de especiarias, muita fruta vermelha e notas florais, com mais estrutura e concentração.
Mas foi mesmo a partir do Black Label Cabernet-Cabernet 2012 que a coisa ficou séria. Mais elegante e complexo, tem notas de alcaçuz e cereja, com aromas animais e um agradável frescor, que se replete na acidez que dá harmonia ao conjunto, com tons levemente amarguinhos no final de boca.
Em seguida, o Mora Negra 2011, corte de Malbec (70%) e Bonarda, tinha amora, outras frutinhas do bosque (lembrou muito a bala Halls’ de cereja) e muita flor (rosa, violeta), e algo caramelado, mantendo agradável frescor e equilíbrio. Achei um vinho muito argentino em sua essência.

San Juan 12 -  Las Moras
Chegamos, pois, ao Gran Syrah, colhido em Pedernal, dois meses depois, por exemplo, que o Vale de Sonda. Feito com uvas dos três vales (Tulun também entra), tem potência aromática e muita intensidade.

San Juan 13 -  Las Moras
O Finca Las Moras Malbec 2011, com uvas inteiramente de Pedernal, é um belo exemplar da casta, com violeta, cereja madura. É um vinho distinto de todos os demais, que fermenta em barrica, com os cachos inteiros, com leveduras indígenas.

San Juan 15 -  Las Moras
Foi um panorama bem interessante da bodega, e consequentemente da região.

San Juan 16 - Casa Montes
De lá, partimos para a Casa Montes, um vinícola que me deixou impressionado com a qualidade dos vinhos, em relação ao seus preços.

San Juan 19 - Casa Montes

Logo de cara, o Ampakama Viognier 2014 é um vinho limpo, clássico da casa, floral, com frutas tropicais, além de ter aromas de pêssego e pomelo, e uma boa acidez. É vendido por R$ 25 no Zona Sul. Não é fácil encontrar um branco com preço melhor no mercado brasileiro. A rede de supermercados carioca, que tem uma linha de vinhos bem atraente, importa o vinho diretamente. Hoje, a Casa Montes está buscando um importador no Brasil. Se eu fosse importador, pegava na hora, sem pestanejar. E fica a dica.
O Torrontés 2014 é floral, com bom frescor. Já o Chardonnay 2013, com 10% do vinho fermentado em barricas novas, chama a atenção, e é uma pechincha pelos cerca de R$ 30 que custa no mesmo Zona Sul.
Chegamos aos tintos através do Ampakama Malbec 2014, pura fruta, um Malbec muito do bem feito, e na mesma faixa de preço dos anteriores. Vale ir conferir.
Já o Ampakama Syrah-Tannat 2014, com 50% de cada uva, tem certo frescor e boa carga de taninos, novamente com preço tentador.
Numa linha superior, o Fuego Negro Malbec 2014 custa uns R$ 35-R$ 40. Uma beleza, com os seus taninos firmes, mas redondos, as notas de chocolate.
Uma das linhas se chama Ampakama Intenso. Provamos dois desses vinhos: o Malbec 2013 e o Cabernet Sauvignon 2013.
Outra linha superior se chama Don Balthazar, na faixa dos R$ 45. São três varietais: Malbec (muito tanino), Cabernet Franc (floral) e Petit Verdot (bem bom, meu preferido).

San Juan 17 - Casa Montes
A linha da bodega é bem extensa, e traz outra gama superior, Alzamora (cerca de R$ 65). O Malbec 2012 passa 15 meses em barrica. Mas gostei mais do Syrah, condimentado, macio, com notas de chocolate e frutas negras em compota.
Por fim, o Casa Montes 2012, floral, fino e macio, o topo de gama da Casa Montes, floral, fino e macio, uma edição limitada a 6 mil garrafas que ainda não foi lançado. Encerramos com o Ampakama Viognier Dulce (também a menos de R$ 30). Um achado com apenas 8,5 de álcool e cerca de 75 gramas de açúcar poor litro, com sabor de maçã verde, e dulçor equilibrado.

San Juan 20 - Finca del Enlace
Encerramos a nossa incursão a San Juan na relativamente nova Finda del Enlace, uma bodega que também me impressionou, …

San Juan 21 - Finca del Enlace

… pela estrutura e – a exemplo das anteriores – pela qualidade dos vinhos, e seus preços.

San Juan 24 - Finca del Enlace

O Tracia Chardonnay tem fruta fresca, como abacaxi.

San Juan 27 - Finca del Enlace

E o Malbec é simples e direto, com notas de violeta. Novamente, gostei mais do Cabernet Sauvignon, com boa fruta, lembrando goiabada e geleia de morango. Vão chegar ao Brasil por cerca de R$ 30.

San Juan 31 - Finca del Enlace
Numa patamar superior, o Tracia Honores Bonarda 2010 (faixa de R$ 40) é bem interessante.

San Juan 32 - Finca del Enlace
Encerramos com o Alados Blenc 2012, um vinho que vem sendo bem falado e premiado, com intensidade de cor e boa fruta, com inesperado frescor.

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