Um roteiro pelas melhores feijoadas do Rio de Janeiro (lembrando que o prato nada tem que ver com escravos, e menos ainda com a África)

Na Casa da Feijoada o prato é servido em sistema de rodízio, a R$ 62,70 por pessoa (vale a pena pedir em casa, a porção serve tr~es ou quatro)

Na Casa da Feijoada o prato é servido em sistema de rodízio, a R$ 62,70 por pessoa (vale a pena pedir em casa, a porção serve três ou quatro)

Na rotina sofrida das senzalas, os escravos ao menos comiam bem. Naqueles ambientes escuros e insalubres eles conseguiram criar o prato mais emblemático do Brasil, a feijoada. Usavam, para isso, os restos de carnes de porco salgada, dispensadas pelos senhores, cozidas com feijão preto. A história é bonita, talvez por isso tenho sido propagada por tanto tempo. Porém, por mais triste que seja dizer isso, não, a feijoada não nasceu assim. Os senhores, mesmo eles, não tinham carnes de porco sobrando. E, lamentavelmente, essa é apenas uma lenda histórica, já há muito consertada pelos estudiosos do tema. É inacreditável que, em pleno século 21, no ano de 2015, ainda exista gente que conte essa história como se fosse verdade. Pior ainda, se for um jornalista especializado no assunto. Porque ainda tem leitor que acredita, e assim essa linda mentira continua sendo perpetuada. Lamentável.

Pior ainda é dizer que a feijoada tem origem africana… Aí, meu amigo… Não, a feijoada não tem origem africana, mas europeia. É uma receita derivada de tantos ensopados preparados com feijões ou seus primos, de cores, tamanhos e formatos variados. Ao contrário do que se diz, com ingenuidade e ignorância, a feijoada não tem origem humilde, mas muito nobre. Nasceu sob a inspiração do cassoulet francês, da fabada asturiana, dos caldos ricos italianos, e, principalmente, de tantas variações de pratos afins que existem por Portugal.

Sem querer cortar o barato de ninguém, jornalista deve ser fiel aos fatos. E os fatos são esses.

É tão ridículo quanto outra teoria de um ícone brasileiro, a cachaça. Sim, há quem diga que o nome aguardente vem da dor que sentiam os escravos ao ter um pouco de pinga caindo sobre as suas costas machucadas pelo açoite. Francamente…

Os melhores lugares do Rio pra beber cachaça a gente pode deixar pra outro dia. Já das feijoadas podemos falar hoje.

As mais divertidas da cidade acontecem nas quadras das escolas de samba, que já estão fervilhando no clima pré-carnavalesco. A Portela, com as suas quituteiras de mão cheia, e seus sambistas de fino trato e grandes composições, sem dúvida é a mais emblemática no quesito (inclusive já até lançaram um livro de receitas, “Batuque na cozinha – As receitas e as histórias das tias da Portela”). Mas, tradicionalista que sou, indico ainda a Mangueira, o Império Serrano e o Salgueiro. Como as escolas fazem as feijoadas em fins de semana alternados, sempre tem alguma rolando. Na Feira das Yabás, que acontece todo o segundo domingo do mês, na Praça Paulo da Portela, em Oswaldo Cruz, as tias da Portela, incluindo Dona Neném, do alto de seus 87 anos, servem várias comidas em suas barracas, que servem refeições bacanudas por cerca de R$ 15. Marlene é famosa pela sua feijoada.

Seguramente, em nenhum restaurante ou hotel a feijoada será tão animada quanto esses da turma do samba. Nos hotéis, muitas vezes o bufê de feijoada dos sábados é servido com um conjunto, que anima o ambiente com clássicos. Já fui no Caesar Park (antes de virar Sofitel), em Ipanema, e no Sofitel, no Posto 6, em Copacabana. Achei a comida boa, e música contribuiu para a minha felicidade (raramente gosto de música ao vivo em restaurantes, como aqueles de Paraty, onde somos obrigados a jantar com um banquinho e violão tocando, mas ás vezes curto a ambiência sonora, caso dos pianos da Brasserie Lapeyre, no Centro, e da Churrascaria Palace, em Copacabana).

Servida como reza a tradição aos sábados, a feijoada do Rubaiyat Rio, no Jockey Club, tem várias bossas extras, a começar pelas corridas de cavalo, que acontecem ao longo da tarde (vale tentar uma mesa na varanda, mas evite isso nos dias muito quentes), passando pelas batidas, servidas livremente, e pelo bufê de sobremesas, tudo incluído no preço. No belo balcão de madeira que recebe os panelões com as carnes também abriga um belo leitão, além de tudo aquilo que nos habituamos a ver nos serviços de feijoada. Um caldeirão com o feijão, e vários outros com as carnes separadas, a farofa, o arroz, a couve, o torresmo e a laranja, além de complementos suínos, como linguiça, bisteca, pernil e costelinha, sem falar na banana frita.  Pelo conjunto a obra, eu diria que todo o carioca deveria fazer esse programa ao menos uma vez na vida. Como ir até o Corcovado e subir o Pão de Açúcar. Custa R$ 109, e incluindo isso tudo, está de bom tamanho.

– O que é legal é que as partes suínas são todas de baby pork da Fazenda Rubaiyat. O feijão também é supernovo, igualmente da fazenda. A feijoada tem todos os pertences separados: carne seca de Brangus, costela fresca, costela defumada, paio, língua, rabinho, pé, orelha. O Claude só vai lá por conta desses três últimos– conta um dos sócios da casa, David Zylbersztajn.

Já se vão lá mais de 20 anos que a Casa da Feijoada (na foto), em Ipanema, se converteu em um dos poucos restaurantes que também são ponto turístico da cidade. Fazendo um trabalho junto a hotéis e guias de viagem, a  Casa da Feijoada recebe muitos turistas, e não tantos cariocas assim. Besteira. Seguramente é um dos melhores lugares do Rio para se dedicar a esse prato, servido em sistema de rodízio, na mesa, com preço por pessoa (R$ 62,70).  Pra começar,  caldinho de feijão e linguiça mineira, além de batidas de limão e maracujá (também incluídas no preço). Com o feijão, são 11 opções de carnes, que podem ser encomendadas pelos clientes: bacon defumado, orelha de porco, lombo salgado, carne seca, linguiça fresca, rabo, costela salgada, língua defumada, chispe, carne de boi e paio. Os acomapanhamentos de sempre. E a sobremesa são as compotas caseiras de abóbora com coco, banana e o doce de leite. Vale pedir para a viagem. São muitas quentinhas, que servem umas três ou quatro pessoa, sendo assim de preço praticamente imbatível. Confira.

Pra minha surpresa, porém, descobri que os dois restaurantes portugueses mais tradicionais do Rio também servem admiráveis feijoadas. No Antiquarius e no Adegão Português eu como feijoadas não menos que sublimes, com toda aquela fartura que nos habituamos a ver na culinária portuguesa.

Essas são as minhas feijoadas preferidas em terras cariocas (muito aprecio a do Tempero com Arte, em Teresópolis, e do Parador Lumiar, em Nova Friburgo, ambas também aos sábados). Falam-me, ainda, maravilhas de duas feijoadas tijucanas. Do Bar do Momo e do Bar do Pavão. Nunca fui, mas diante das observações de bambas como Guilherme Studart e Gabriel Cavalcante (o da Muda), eu confio cegamente nas dicas.

Sem que a gente possa se esquecer do antológico e inigualável bolinho de feijoada do Aconchego Carioca, servido na matriz, na Praça da Bandeira, e também na filial do Leblon.

Feijoada é uma delícia, o mais brasileiro dos pratos. Mas nada tem que ver com escravos, e menos ainda com a África. Ok?

2 Respostas to “Um roteiro pelas melhores feijoadas do Rio de Janeiro (lembrando que o prato nada tem que ver com escravos, e menos ainda com a África)”

  1. Fernando Cianci Says:

    Gosto muito também a do Adonis em Benfica. Que ainda é acompanhada daquele chopp maravilhoso. A da Portela é muito boa também.

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