O grandioso Carmín de Peumo, expressão máxima da Carménère, e a renovação que ocorre no vinho chileno

 

Carmín de Peumo 2009

Apesar de abrigar algumas bodegas centenárias, o Chile só passou a chamara a atenção no mundo do vinho a partir do final dos anos 1980, quando a uva Cabernet Sauvignon passou a despontar na enologia local, agradando ao público e à crítica especializada. O lançamento do Don Melchor, da safra 1987, pela Concha y Toro é um emblema disso.

Outro capítulo importante desse novo momento dos vinhos chilenos aconteceu em meados da década seguinte. Em 1994, na Viña Carmen, um especialista francês descobriu a Carménère plantada em meio à Merlot, e por isso confundida com ela. Então, apesar de na média serem melhores os resultados de outras cepas francesas, como Cabernet Sauvignon, Syrah e Carignan, o Chile abraçou a Carménère como uva ícone do país, como estavam fazendo a Argentina com a Malbec e o Uruguai com a Tannat.

Curioso é que, entre os neófitos, a Carménère é uma casta que agrada em cheio, com seus taninos sedosos e corpo médio, macio, seus aromas de ervas, especiarias, frutas maduras e com tons achocolatados o tornam fácil de beber e de gostar. Porém, entre os enófilos mas experimentados geralmente ela não encontra muitos admiradores. Sabemos que um vinho que custa mais de R$ 500 tem a obrigação de ser muito, mas muito bom. E esse é o caso do emblemático Carmín de Peumo, um dos grandes vinhos da América do Sul, e expressão máxima desta variedade. Obra-prima do tarimbado enólogo Ignacio Recabarren encanta pela fineza, complexidade e pelo seu perfil original, intenso, terroso, vívido. As proporções variam safra a safra, mas cerca de 90% do vinho é feito com uvas provenientes de Peumo, no Vale de Cachapoal, uma das mais antigas e tradicionais zonas vinícolas do Chile. Para compor o corte são usadas aproximadamente 10% de outras variedades, do Vale do Maipo, em especial Cabernet Sauvignon. Lançado em 2006 (a safra 2003), o Carmín de Peumo chega agora ao Brasil em sua nova edição, a safra 2009, provavelmente a melhor da história ainda curta deste rótulo, um equilibrado resultado de um vinhedo especial, com dias quentes e noites frias, solo argiloso com um pouco de areia e material de rocha aluvial, drenando o excesso de água e mantendo a hidratação ideal. Com acidez precisa para equilibrar os taninos firmes e sedosos, sublinhando o frescor e as notas de especiarias e ervas. É um vinho de aroma delicado e intenso, com grafite, incenso, cogumelos, frutas negras maduras, com algo de tabaco, indo a sous bois. Nos animais já começam a surgir, mais evidentes quando tem um tempo de taça, e no final de boca, longo e agradável. É um vinho macio, cheio de nuances, muito fácil de beber e de gostar.

Realmente foi um vinho que me encantou ontem durante uma prova dos vinhos ícones da Concha y Toro, abafando o emblema maior da marca, o Don Melchor.

Na prova, provamos ainda outro vinho da companhia que marca uma nova etapa na enologia chilena. Trata-se do Marquês de Casa Concha. Mas esse movimento está em pleno andamento, e envolve um monte de gente bacana, incluindo o genial Marcelo Retamal, da De Martino; Gonzalo Guzman, da bodega El Principal, a Tarapacá, a Santa Carolina, a Santa Rita  e  outras grandes e tradicionais vinícolas do país, e toda a turma da Vigno (Vignadores de Carignan)  e do MOVI (Movimento dos Vinhateiros Independentes), o plantio de novas variedades (como a espanhola Verdejo) e a a valorização da uva País. Pode não parecer, mas tudo isso está conectado. E o fio-condutor disso tudo é a busca pela originalidade, e pelo frescor, com vinhos menos maduros e mais frescos, com mais acidez e de perfil mais gastronômico, incluindo vários produtores naturais, orgânicos e biodinâmicos, com uso moderado e até mesmo a abolição da madeira, o resgate de técnicas e equipamentos enológicos ancestrais.

Enfim, tem um monte de coisa muito interessante acontecendo por lá. E vale a pena conferir, especialmente aqueles que desenvolveram certo pavor dos vinhos chilenos. Muita coisa mudou nos últimos cinco anos. E muita coisa continua mudando.

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