Archive for junho \09\UTC 2016

Um dia, quatro restaurantes, entre eles o novíssimo Ró, inaugurado ontem, o primeiro crudívoro do Brasil

09/06/2016

Ontem fiz uma loucura, uma deliciosa e insana jornada gastronômica, em parte fruto do meu apetite por novidades, em parte resultado de feliz desenrolar de acontecimentos.

Já acordei com uma agenda cheia. Trabalho como escritor de manhã cedo, reunião às 11h, almoço ao meio-dia e meia no Puro, degustação de vinhos no Encontro Mistral, no Sofitel de Copacabana, às 17h, e jantar no Bagatelle, às 20h30.

Até aí, tudo bem.

Mas a loucura começo a se desenhar quando, logo ao chegar ao Puro, para o almoço, li na página do Facebook do novíssimo restaurante Ró a seguinte mensagem: “Chegou o dia! Abriremos hoje para almoço de 12:30 às 16:30 horas (sem reserva) e o jantar com reservas pelo telefone 3559-0102 ou e-mail contato@ro-raw.com Almoço com menu “a la carte” e jantar “Experiência Ró de 5 ou 8 pratos. Sejam todos muito bem-vindos !”

Pensei… Se o almoço acabar antes das 16h, acho que vou me sentar no balcão do Ró pra beber um drinque (tinha ouvido falar que este será um dos pontos fortes da casa) e provar uns dois pratos.

Enquanto apreciava um menu degustação de imenso deleite preparado pelo chef Pedro Siqueira, do Puro, que pra mim já se colocou na minha galeria de preferidos, toca o telefone.

– Oi, Bruno. Queria te convidar pra jantar esta semana no Sushi Leblon, o cardápio comemorativo dos 30 anos da casa, em carta até sexta, com o chef espanhol Ricardo Sanz, do premiado restaurante Kabuki, com quatro unidades em Madri, Tenerife e Málaga, todas elas estreladas pelo Guia Michellin. Você pode? – perguntou a assessora da casa.

– Caramba, que pena. Não vai dar. Tenho um jantar hoje, e amanhã eu subo a serra. Estou sofrendo desde já – respondi com o coração guloso tomado de imensa tristeza.

– Ah, não acredito. Queríamos tanto a sua presença.

– Olha, também quero ir. Mas só temos uma chance. Meu jantar está marcado para 20h30. Vou tentar passar pra 21h. Se der, eu poderia chegar às 19h, mas preciso sair 20h45 (sou metódico com horários, e tenho orgulho de raramente me atrasar para compromissos).

– Ok, vou ver se consigo.

Logo ela retorna.

– Consegui um lugar no balcão, 19h. Mas não atrasa, senão não dá tempo de provar o menu inteiro.

Pois então, neste hercúleo esforço de reportagem, eu consegui encaixar tudo o que queria.

Encerrei o almoço no Puro, que me deixou eufórico, com uma sequência de pratos arrebatadora (farei um post à parte), com destaque para os dois exemplares mar-e-montanha, o sashimi de vermelho em caldo de porco, e o polvo com barriga de porco, além de um lagostim no mais preciso ponto de cozimento possível, selado só de um lado, mostrando toda a delicadeza e sabor delicioso do crustáceo, sem falar na moela de pato, que me comoveu, e um acém de wagyu grelhado que eu vou te contar…

Como a novidade é fresquíssima, vou dedicar este post de hoje ao Ró, que – como já disse – abriu as portas para o público ontem.

Fica a poucos passos do Puro, ali no final (ou começo), da Pacheco Leão, quase na rua Jardim Botânico.

Subi as escadinhas que levam ao salão, muito bonito por sinal. As paredes de tijolo aparente, as mesas de madeira, uma escultura arborista no centro, a cozinha envidraçada ao fundo, e o bar com balcão de poucas cadeiras logo à esquerda, na entrada.

Cheguei, e dei de cara com uma mesa reunindo os criadores da casa. Os Alexandres Lalas e Schiavo, os sócios, e a chef Inês Braconnot, que foi enviada aos EUA pela dupla para estudar na mais prestigiosa escola de gastronomia crudívora, ou seja, não só vegetariana, mas também restrita a alimentos crus (na verdade, cujo processo de cozimento não pode passar os 42 graus Celsius.

Bebi um delicioso rosé da Vinhética, em edição não-filtrada, especialmente para a casa, acertado pedido do Lalas. E pude me encantar com esse menu criativo, com pratos lindos, com já andei acompanhando nas duas últimas semanas, quando as minhas redes sociais foram enfeitadas por fotos dos pratos. Provei alguns.

Ró - ravióli de nabo

O surpreendente ravióli de nabo

Comecei logo com o que foi o meu preferido, chamado adequadamente de transparência, um ravióli com “massa” de nabo, finíssima, recheado com kinchi e o PhilaRó, nome irreverente para o cremoso falso queijo, feito com leite de amêndoas.

Ró - sopa de cenoura

A aveludada sopa fria de cenoura

Depois, uma delicada sopa fria de cenoura, com gengibre, refrescante e bem temperada, aveludada pelo uso de castanhas e com o bom sabor do gergelim negro.

– Como você sabe, o gergelim negro é tostado. Ou seja, não é cru. Não sou radical, não gosto de radicalismo. Como é só um tempero, faço uma concessão. Mas 99% do que usamos é absolutamente cru – conta a chef Inês Braconnot.

Ró - salada de algas

A salada de algas, com gomos de laranja e rabanete

Logo em seguida, a salada de algas, que tem textura cheia de nuances, e que traz coroando a montagem dois gomos de laranja, ao fundo, pra no final o prato ganhe contornos cítricos e mais suculência.

Ró - panna non cotta

A irreverente panna non cotta

Pra fechar, o também irreverente no nome panna non cotta. Delírio na arquibancada. Que lugar legal, original, pioneiro, sem igual não no Rio, mas no Brasil, talvez na América Latina. Muita criatividade, louças belas, que dão lindos contornos à apresentação dos pratos, com flores, brotos e especiarias aparentes. Inteligência no uso dos temperos, e técnica apurada, nos cortes e nos preparos. Fiquei encantado. Só plantas. Uma leveza, uma delicadeza.

Enfim, quero voltar, com calma, com mais gente, pra provar todo o menu, todo. Porque tudo me apeteceu. Uma grande novidade para o Rio.

De lá, fui para o Encontro Mistral, rapidamente, e em seguida pro Sushi Leblon. O menu fica em cartaz até sexta, e é o seguinte. Tem primeiro uma versão do dry martini de boas-vindas feito com a vodca Belvedere. Em seguida, vieiras com shichimi fresco, usuzukuri de peixe branco com flor elétrica 9nosso jambu), usuzukuri de peixe branco com azeite do seu fígado, tudo escoltado pelo brilhante champanhe Ruinart Blanc de Blancs. Depois, ovos fritos com batatas e atum picante ou ouriço, sushi de peixe branco com toucinho e sushi de tutano com caviar (estão tendo dificuldades de encontrar o tutano, e talvez precisem adaptar), com o igualmente delicioso champanhe Ruinart Brut Rosé. A sequência seguinte tem tataki de atum com ovas, guisado clássico com sashimi e sushi de atum com açúcar moreno queimado, abrilhantadas pela refrescância do neo-zelandês  Cloudy Bay Sauvignon Blanc 2014. Custa R$ 410, e te digo: está valendo, e muito. Tanto que talvez nem tenha mais vagas. A quem quiser chegar, o telefone é 2512-7830. Quer ver umas fotos do jantar? Vai lá no Instagram @brunoagostinifoto

De lá, corri para o Bagatelle, e consegui ser pontual. E curti a casa. Lugar bonito, com público jovem e festeiro, e uma equipe também jovem e festeira, com ótima carta de drinques, bem executados, e um cardápio pra lá de aconchegante, que tem base francesa, mas passeia pela Itália, e traz referências brasileiras, como as coxinhas de galinha, que agora fazem frente ás já famosas servidas no Bar da Gema. Depois de certa hora, o lugar vira uma quase boate, com música em tom mais alto, gente dançando, e um clima de festa. Também merece post a parte, assim como o Puro, e em breve público aqui. Foi um dia longo, cansativo, e calórico. Mas delicioso. Por essas e outras, eu adoro o meu trabalho, e a liberdade que a vida de frila me proporciona.

No mais, pensando bem, ontem foi moleza, se comparado com o dia em que fui a seis restaurantes, e mais um bar, em Buenos Aires, para preparar esta reportagem aqui. Vida de repórter de turismo, gastronomia, vinhos e afins é assim mesmo, um saboroso devaneio.

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Ró – Rua Pacheco Leão 102, Jardim Botânico. Tel. 3559-0102. www.ro-raw.com

 

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

 

 

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Entre estrelas Michelin e um sanduíche de tripas: o prazer da boa comida em terras italianas pode ser algo muito simples

08/06/2016
Lampredotto - Florença

A barraca de lampredotto do Pollini: democracia e excelência gastronômica

Certa vez fiz uma viagem de sonhos pela Itália. Passei uns dez dias no Piemonte, na temporada das trufas, e me esbaldei. Fui a pelo menos meia dúzias de restaurantes com estrelas Michelin, como La Ciau del Tornavento, em Treiso; Guido Ristorante (no hotel Villa Contessa Rosa Fontanafredda), em Serralunga d’Alba; Ristorante Christian & Manuel (no hotel Cinzia), em Vercelli Vintage 1997, em Turim; Villa Crespi, em Orta San Giulio (Lago d’Horta), entre outros, e mais um punhado de casas sem distinções estelares do guia rouge francês, mas também excelentes, como o Bovio e, principalmente, a Trattoria della Posta, onde fiz duas refeições não menos que memoráveis, regadas a Barolos antigos, e Barbarescos, idem.
O Piemonte é, para mim, o melhor lugar do mundo para se comer. As trufas, as massas caseiras (e viva o ravióli dal plin), os pães, os queijos e embutidos, as carnes curadas, o gado fassona, os risotos… E mais os vinhos locais, entre os meus preferidos.
De lá, estiquei até Florença, e a região de Chianti, para mais alguns dias de puro deleite nababesco. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas foi um investimento pesado. Uma refeição dessas não sai por menos de 100 euros, com vinhos, podendo chegar a 300. Não é moleza, não. (para ler uma reportagem sobre a região, clique aqui).
O que quero dizer com isso é que grandes restaurantes, premiados, com estrelas MIchelin e outros louros, são mesmo espetaculares, experiências que podemos levar pelo resto de nossas vidas. Verdade. Mas, muitas vezes, encontramos prazeres tão imensos em lugares simples, que nos ajudam a tatear melhor a alma de um lugar, através da comida de seus moradores. Passeei por diversos restaurantes fantásticos, lindos e elegantes, com serviço impecável, mas posso dizer com convicção que uma das melhores coisas que provei durante esses 20 dias de esbória italiana foi um singelo sanduíche, chamado de lampredotto, típico das ruas da cidade que foi berço do Renascimento. Há várias barraquinhas pelas ruas da cidade. Recebi a recomendação enfática de um amigo, o Alexandre Bronzatto, italianófilo de carteirinha, um dos grandes conhecimentos da gastronomia e dos vinhos do país (ele que me recomendou boa parte dos restaurantes citados acima). “Você que gosta de miúdos, tem que provar o lampredotto do Pollini”.
O sanduíche consiste em uma parte do estômago bovino, cozida lentamente, em molho bem temperado, com base de tomate. A carne fica macia, e com sabor deliciosamente untuoso. Antes de servir, o atendente pergunta se o comensal quer que ele lambuze o pão no tal molho onde cozinha a carne (TEM QUE DEIXAR ELE FAZER). Depois, o recheio é regado com molhos de ervas e de pimentas, um verde e outro vermelho. E sabe quanto custa? Uns dois ou três euros…
Um acontecimento gastronômico, uma experiência incrível de observação antropológica. Vi um pintor de paredes todo sujo de tinta comendo dois em seguida, com dois copinhos de vinho (de plástico). Ao seu lado, uma senhotinha elegante pediu dois, um para ela, outra para a netinha que estava no carrinho, de uns cinco anos (com piementa e tudo). Havia toda a sorte de florentinos, jovens, idosos, mulheres, homens, grupos de amigos, comensais solitários, gente simples, gente rica. Turista, aparentemente, apenas eu. Foi realmente um dos momentos mais incríveis de minha viagem.
E anda tem copo de Chianti por menos de um euro…
No mais, obrigado, amigo Bronza.

Cinco noites em santiago por US$ 481?

06/06/2016

Como jornalista de viagem, gastronomia e afins, há 15 anos o que mais faço é divulgar o trabalho dos outros. Chefs, enólogos, cervejeiros, mixologistas, produtores rurais e outros artesãos alimentares, hoteleiros, sommeliers, maitres, garçons, guias de turismo e muitos outros profissionais.

Agora, como trabalhador independente, preciso divulgar a mim mesmo. Já disse aqui que este blog vai virar um site, e que vários outros projetos estão em gestação. Um deles é organizar pequenos grupos para viagens por roteiros gastronômicos e enófilos, e dar consultoria para turistas que vão para destinos que atraem visitantes por suas vinícolas, mercados, restaurantes, bares, produtos rurais e outras delícias do gênero.

Pacote Santiago

Já estive em Santiago, no Chile, várias vezes. E consegui através de uma parceria com a MK Travel um preço muito atraente para um pacote básico para Santiago do Chile: US$ 481, divididos em até 9 vezes (de US$ 37 cada parcela). Inclui passagem aérea e cinco noites de hotel com café da manhã. A viagem de data específica, com saída no dia 24 de fevereiro de 2017, ou seja, mo carnaval.

Há vários passeios extras que podem ser agregados. E o preço conta com a minha ajuda na escolha dos restaurantes e vinícolas a visitar.

Maiores informações, in box.

Teremos, em breve, sete noites em Nova York, por US$ 995. Estou até considerando ir nessa.

 

 

O novo Oro é uma versão urbana e modernas dos tradicionais restaurantes familiares

03/06/2016
Oro - homenagem ao Cervantes

A homenagem ao Cervantes: sanduichinho de porco empanado com picles de abacaxi no brioche

Eu tenho um especial apreço por restaurantes familiares, tocados por casais, seus pais e seus filhos, seus irmãos, cunhados, noras e muitas vezes, os amigos mais próximos, os vizinhos. Acho que todo mundo tem.
Estabelecimentos assim, tocados por parentes, estão na própria origem dos restaurantes, cujo nome vem de restauração, restaurar. Eram as estalagens medievais que recebiam geralmente os viajantes, que paravam nas estradas para comer e descansar, muitas vezes passando a noite no local, porque no mesmo momento nasciam os hotéis.
Já estive em restaurantes no interior da Itália, e também da França, mas eles existem por toda a Europa, que contam com apenas duas pessoas. Marido na cozinha, e mulher no salão, ou vice-versa. Como é o caso do magnífico La Speranza, em Farigliano, no Piemonte, onde comi as trufas bancas mais exuberantes de toda a vida, colhidas na mesma manhã em que foram fatiadas finamente sobre os meus pratos.
Comandando os fogões está Maurizio Quaranta, chef histórico do Piemonte. No salão, sua mulher, Sabrina. E eles cuidam de tudo. Escolhem os vinhos, com precisão. Afinam queijos. E montam menus deliciosamente acertados. Talvez seja o melhor custo-benefício da região. Sem contar o fato de que Farigliano, asfastado das áreas vinícolas dos arredores de Alba, ainda tem as suas florestas preservas nas cercanias, é na nas raízes de seus carvalhos que nascem as cobiçadas trufas. Difícil achar mais frescas, mesmo nas feiras e melhores mercados de Alba.
Toda essa introdução para dizer que o casal Cecilia Aldaz e Felipe Bronze estão fazendo um lindo trabalho no Oro, seguindo essa linhagem de restaurante familiar. Claro que a realidade urbana é outra, e eles contam com uma equipe de primeira linha, na cozinha, no bar e no salão. Mas a alma da casa é o casal. No antigo Oro eu tive experiências memoráveis, que foram me agradando de maneira crescente, de modo cada refeição que fazia ali era melhor que a outra. Já sentia uma guinada em direção ao conforto nas últimas visitas à casa. Mas ontem ficou muito clara essa nova fase, que tem na brasa o fio condutor do menu, e todos os pratos passam no calor das churrasqueiras.
Por detrás do balcão, Felipe Bronze rege a entrada dos pedidos e a saída dos pratos, servidos pelos próprios cozinheiros, na linhagem Noma. Ele mesmo cuidou da decoração, escolhendo mesas e cadeiras bonitas, e um balcão central que além de ter quatro lugares para os comensais ainda deixa uma linda bancada de maneira para que Cecília brilhe, exibindo a sua desenvoltura no serviço, com atenção ao nível das taças, o conhecimento profundo que não deixa perguntas enófias sem resposta, mas que principalmente faz um trabalho incrível de harmonização, escolhendo rótulos certeiros, mas que fogem do óbvio. Ela sempre saca três ou quatro coisas que não conheço, e sei que isso não é fácil. Em cada visita é assim.
Em breve conto detalhes do menu, com destaques para o éclair de foie gras ao chocolate branco, o ceviche de vegetais montado sobre delicado e inesquecível crocante de batata-doce, o taco de camarão, o sanduíche de porque empanado com abacaxi, o tempura de vagem francesa, o arroz meloso de favas, as empanadas de alho poró, e o dim sum de rabada, o polvo purê de amêndoas ao limão, e o trio de sobremesas.
Foi assim. Cheio de aconchego.