Archive for the ‘A horta’ Category

A horta: os personagens

20/04/2010

 

A hortinha da janela vai bem, obrigado.

Hoje vou apresentar esses personagens, que deram sabor fresco às minhas receitas, e algum trabalho para cuidá-los.

 

O manjericão foi uma das plantas que mais sofreram com as tempestades cariocas de duas semanas atrás. Muitas de suas folhas se queimaram, galhos se partiram e ela deu uma boa murchada. Mas já está bem, com muitos brotos surgindo em todos os ramos.

 

Logo ao seu lado na janela da sala, estão os dois oréganos…

 

… e as sálvias (a menor foi plantada recentemente, já que a que estava em seu lugar logo morreu)

 

Na jardineira vizinha temos três tomilhos…

 

… e duas manjeronas. (Nesses pequenos detalhes delicados da natureza, um raminho que se espalhou pelo chão começou a crescer como se fosse três novas plantas, olha que bonito).

 

Na ponta, ainda na janela da sala, está o alecrim, viçoso, verde, perfumado e crescendo com incrível vigor.

 

Ainda na janela, mas do lado de dentro de casa, ainda pegando a rebarba do sol matinal, a mesa da sala virou abrigo de vasinhos com pimenta. Hoje alberga dois, mas acho que cabem quatro e já vou tratar de arrumar companhia para a dupla.

Agora trocamos de cômodo. No escritório a horta tem no canto direito um vaso grande. Nele, primeiro plantei um capim-limão, que honra o nome, transformado num aromático matagal urbano cítrico confinado num parapeito. Junto ao capim-limão plantei, em outubro do ano passado, um humilde brotinho de hortelã-pimenta, que o chef Checho Gonzales me deu de presente quando visitei o seu restaurante, o Ají, em São Paulo.

Avisado de que eu estava montando uma hortinha na janela de casa, Checho me deu outro regalo. Era um ají, esta pimenta andina que tempera, entre outros pratos clássicos peruanos, o ceviche. Estava seco e ele me disse que, plantando as sementes, elas nasceriam.

E eu espalhei elas pela sementeira. Logo vieram os brotos. Alguns foram transplantados. Os maiores estão deste jeito aí de cima (plantei a jardineira em duas etapas), altos e com muitas folhas novas e flores surgindo.

Este vaso, agora exuberante com o crescimento do Ají, vinha sendo palco de tentavas frustradas de agricultura de pimenta. Umas cinco outras, de espécies diferentes,  foram plantadas. Todas vieram do vaso comprados em floriculturas e não resistiram. Ao menos, concederam os seus frutos picantes por algum tempo. Mas essas pimentas vendidas em loja são fadadas à morte precoce, porque são criadas para serem exuberantes, darem muitas flores e frutas até serem vendidas. Mas aí não dão conta de seguir em frente. Porque, na verdade, são praticamente plantas ornamentais que servem mais para serem dadas de presente do que para iniciar um cultivo. O bom é que, além de darem pimentas frescas, as plantinhas ainda pode virar boas conservas (tenho ainda duas aqui na geledeira, bem gostosas e ardidas, preparadas com pinga, vinagre, alho, louro e um fio de azeite).

A última pimentinha plantada nessas circunstâncias deu pimenta para a rabada do fim de semana. E ainda está lá, toda avermelhada, corada, toda cheia de dedos-de-moças. Embora com folhas murchas, anunciando o seu falecimento.

Ao lado desta pimenteira está o vaso do cheiro verde: dois pés de cada. Temos três variedades.

Primeiro a salsinha aí de cima, que parece estar adorando a queda de temperatura, cheia de novas folhinhas…

… depois a cebolinha, que já me proporcionou muitas finalizações de pratos com suas pontinhas finas que a fazem se parecer com a cebolinha francesa, na teoria ingrediente mais nobre…

… E, por fim, o coentro, que está na segunda geração, porque a primeira não vingou (pelo tamanho dá para perceber que a salsinha e o coentro são muito mais, digamos, maduros – tem pelo menos uns seis meses a mais).

Fechando a linha de temperos da janela do escritório tenho um vasão de hortelã, no qual plantei dois pés, e já usei em várias ocasiões (principalmente no chá, mas também para temperar o cordeiro, na salada com iogurte…).

No meu quarto, mais quatro vasos.

No primeiro, o cebolinha francesa, a ciboulette, como gostam alguns mais frescos (ou afrancesados).

Ao seu lado, uma das minhas plantações favoritas: uma pimenteira só de malaguetas. É um quarteto, quase do mesmo tamanho, cheio de pimentas penduradas, outras florescendo e uma série de brotos aparecendo. Ao que me parece, elas estão muito bem ali, onde pegam bastante sol.

No quarto também botei outra jardineira querida, aquele que recebeu os brotos de mostarda e couve chinesa, a exemplo do ají plantados desde semente e, por isso, mais altas na minha estima de agricultor. (Mas a história da sementeira fica um pouco mais para baixo).

O que importa é que ali, neste pedacinho de terra, estão crescendo essas verduras, que ando louco para matar, apesar de ser o genitor, e transformar em salada (aliás, alguns dos brotinhos, claro, já foram parar no prato faz tempo).

Na extremidade da janela do meu quarto ainda tenho o manjericão roxo, que já rendeu um lindo pesto. A exemplo do seu irmão mais verde, ele se deu muito bem ali, mostrando estar muito bem adaptado ao clima ipanemense.

Do outro lado da casa, na ala sul, onde está também a cozinha e a copa, o quarto da filha tem um, digamos, terroir menos propício à agricultura predial de subsistência. Não bate sol e, além disso, tem mais vento, muitas vezes agressivo, como foi na semana retrasada.

Por isso escolhi  plantar ali o louro, maior e mais resistente, que virou tempero cada vez mais recorrente (adoro louro, mas fresco, e não dá para sair pra comprar duas folhinhas a cada assado que vamos preparar, né?. Então, recorremos aos ramos que vão secando na cozinha depois de comprados na feira, mas não é a mesma coisa). O arbusto estava todo feliz, cheio de novos brotinhos. Mas o mau tempo acabou com os ramos bebês, e até rasgou umas folhas veteranas, mostrando que não tava de bobeira. Fosse uma erva, não teria resistido aos ventos. Mas como é uma arvorezinha, bravamente encarou as rajadas geladas.

O tempo não tava de bobeira. Não tava mesmo. Além das encostas fluminenses, também devastou este vasinho com quatro pés de ají que plantei, só pra ver no que dava, porque as sementes vingaram mesmo, e até sobrou brotinho de pimenta.

Quer dizer…

Sobrou até a tempestade de 15 dias atrás.

Depois do horror, veja no que se transformou a minha sementeira, que tinha brotos vigorosos de ají, couve chinesa e mostarda.

Eram pés orfãos de chão, ainda esperando um pedaço de terra para crescerem.

Mas o temporal arrasou a plantação. Sobrou isso aí. Um broto de mostarda tentando seguir a vida, uns frágeis brotos de agrião (tentei plantar, mas o que nasceu das sementes nunca cresceu o suficiente sequer para ser transplantado) e um monte de papel dos envelopes de sementes, que indicavam o lugar em que cada uma estava, triturados pela intempérie. Nada que uma terrinha nova e um arado manual, removendo a terra, não resolvam. E já estão a postos três pacotinhos da Isla Pak (de funcho doce, acelga e estragão russo).

E, por fim, ainda tem o poejo, que também sofreu com as chuvas (veja as folhas queimadas pelo vento cortante), mas já está plenamente recuparado das lesões. Eu é que ainda nem sei bem pra que serve esta erva.

Fazendo essas fotos, escrevendo este post, percebo a importância que tem esta hortinha besta na minha vida.

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A horta: o salvamento da sálvia, o ragu de codorna e a colheita na janela de casa

21/03/2010

A sálvia pelada, em primeiro plano, a sálvia saudável, logo atrás, os tomilhos, manjeronas e grades: a horta dá folhas

Já contei aqui da hortinha que criei. Ela anda me rendendo bons frutos, na verdade, mais folhas que frutos. Temperos, em suma. Colhidos na janela de casa.
Hoje usei a sálvia que estava murchando rumo à morte para temperar a codorna que vai estrelar um ragu para cobrir um ravióli de batata com tomate picante e grana padano, a receita do dia aqui em casa.
Tava aqui escrevendo e pensei na saga deste molho de sálvia há pouco podado por mim.
Comprei ele numa loja de plantas na serra de Teresópolis, ali já quase no Soberbo. Trouxe ela com o propósito de que se desenvolvesse e passasse a me conceder suas folhas regularmente. Era um trio de sálvias. Foram plantadas ali por janeiro.
Uma logo morreu. Duas ficaram bem. Mas a soleira que tostou o Rio parece ter afetado a delicada erva. De uns três dias para cá notei uma uma das duas sálvias restantes andava chocha, triste, com as folhas caídas.
Hoje, ao pensar no tempero da codorna, me lembrei da sálvia. Pensei: posso dar um fim digo a ela.
Então, peguei a tesoura, cortei as folhas tristes e as lancei sobre as costas das codornas, já lambuzadas de vinho branco, pimenta do reino, louro (também da horta), cebola, alho, cenoura, azeite e talvez algo mais que esteja me esquecendo agora.
O perfume que sai da cozinha me faz ir lá a todo o instante, só para senti-lo.
Já já retiro as codornas do forno, desfio sua pouca carne e jogo na frigideira, regando com o molho restante do cozimento, uns tomates maduros, umas lascas de cebola, azeite e sei lá mais o que estiver disponível na despensa no momento.
Recheio o ravióli com as batatas apimentadas com um chutney de pimentas comprado em Paraty (muito bom).
Cozinho no fogo alto a massa.
Saco da água os pasteizinhos com cuidado.
Jogo eles no prato. Um quejinho ralado por cima. Logo derramo uma concha do ragu de codorna. E mais uma chuvinha de grana padano lascado por sobre.
Uma taça de vinho.
E, quem sabe, uma Bethânia cantando no som.

A horta

12/03/2010

Pimentas, em primeiro plano, e tomilho, logo atrás: além das funções culinárias, cuidar de plantas ainda causa efeito psicológico positivo

Tem tomilho, alecrim, louro, hortelã (e hortelã-pimenta), manjericão (e manjericão roxo), malagueta e dedo de moça (e outros dois tipos cujos nomes não sei), ají, coentro, salsinha, cebolinha, manjerona, orégano, sálvia, capim-limão, poejo e, mais recentemente, estão brotando couve-chinesa, agrião e mostarda. Acho que não estou me esquecendo de nada.

Há uns seis meses, aos pouquinhos, comecei a cultivar uma horta nas janelas do apartamento, e ando muito orgulhoso de minhas ervinhas.

Hoje, quase não compro mais temperos no mercado, pego tudo nas minhas jardineiras que, além de tudo, ainda enfeitam a casa.

Para compartilhar essa agricultura urbana, pegar dicas e colhê-las também, resolvi começar a escrever sobre essa plantação. Este é o primeiro post de uma nova categoria aqui deste blog: A Horta.

Aos pouquinhos vou apresentando essas plantinhas que, além das funções culinárias, ainda causam efeito psicológico, porque cuidar de um jardim, ainda que pequeno e suspenso, é muito bom.