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Mendoza, terceiro dia: um bate-e-volta até San Juan

09/03/2015

Quando se fala em vinhos da Argentina, há três regiões bem definidas, que fazem um recorte vertical do país, com fortes variações de latitude, e de altitude. Salta, ao norte, com vinhedos que chegam a 3 mil metros acima do nível do mar, os mais altos do mundo. Mendoza, em área mais central, com vinhas entre 800 e 1.300 metros. E a Patagônia, bem ao sul, com plantações de uva que ficam ao redor de 300 metros. Nesse contexto geográfico, muita gente se esquece de San Juan, um pouco ao norte de Mendoza, e mais baixa. Existem bodegas famosas por lá, com produção consistente, em termos de volume e qualidade, com preço sempre mais atraente, na média, como Finca Las Moras. Mas muita gente acha que esses são vinhos de Mendoza. Pena. Parece-me que está mais do que na hora de se falar dos vinhos de lá, região onde a Syrah é a estrela, ao lado da Tannat, mas sem deixar de dar espaço à onipresente Malbec, e a outras variedades, como as brancas Viognier e a sempre plantada Chardonnay.

San Juan 1 - Pedernal - Las Moras

San Juan é a segunda maior região vinícola da Argentina, atrás apenas de Mendoza, claro. Assim como acontece em Mendoza (Vale de Uco, Luján de Cuyo), em San Juan o filé mignon está localizado mais perto da Cordilheira dos Andes, em altitudes um pouco mais altas, subindo as montanhas, e encontrando condições climáticas mais interessantes para a produção de vinhos de qualidade. Neste contexto, Pedernal está para San Juan assim como o Vale de Uco está para Mendoza. Além de Pedernal, são duas outras áreas de cultivo de vinhas em San Juan: Sonda e Tulun.

San Juan 5 - Pedernal - Las Moras

Para se ter uma ideia da variação climática por lá, a uva Malbec é colhida na primeira quinzena de janeiro em Sonda, área mais quente, onde a uva amadurece mais cedo. Em Sonda, a colheita da mais emblemática casta da Argentina acontece em março. Já em Pedernal, zona mais fresca, os cachos são cortados apenas em abril (na foto acima, uma parcela de Malbec, sem enxerto, plantado em pé franco). Difícil observar algo assim em outra região do mundo.

San Juan 2 - Pedernal - Las Moras
– Mas aqui em Pedernal a colheita também começa no começo de janeiro, com a Chardonnay. Já houve anos em que começamos a colheita no final de dezembro – lembra Claudio Rodriguez, gerente de viticultura da Las Moras.

San Juan 3 - Pedernal - Las Moras
Para ver de perto esta nova realidade, fizemos um bate-e-volta a partir de Mendoza. E a primeira parada foi justamente em Pedernal, onde visitamos a Las Moras. O solo é compostos de pedra planas e negras, de origem glaciar, que esquentam durante o dia, refletindo o seu calor nas uvas, e esfriam rapidamente quando o sol cai, criando uma amplitude térmica ainda mais extrema, o que é ótimo para se ter uvas de qualidade.

San Juan 7 -  Las Moras

Foi uma bateria e tanto.

San Juan 8 -  Las Moras

Começamos a prova com o Alma Mora Blanc 2014, corte de Sauvignon Blanc e Semillón, leve e com frescor, e bom volume de boca. Já o Chardonnay 2014 da mesma linha mostra notas de madeira e frutos tropicais, tipo abacaxi. Numa gama mais alta, o Black Label Sauvignon Blanc 2013 tem notas de arruda e aspargos, com aroma intenso.

San Juan 9 -  Las Moras
A linha Dadá nasceu inspirada no Dadaísmo, e foi pensada para atrair novos consumidores. O Moscato tem apenas 50 gramas de açúcar por litro, e carece de um pouco de acidez, mas promete se dar bem com sobremesas pouco doces feitas com frutas como pêssego e abacaxi.
Começamos a bateria de tintos com o Alma Mora 2014 Malbec, bem típico, com notas de ameixa, e final de boca mentolado, com aromas de eucalipto, e leve amargor.

Já o Cabernet Sauvignon 2014, como sempre acontece na Argentina, está em um patamar acima da Malbec, com mais corpo e estrutura, e elegância.
Mescladas as duas uvas, com uma parte de Petit Verdot, dão origem ao Alma Mora Blend 2014, mais concentrado, complexo e equilibrado, com boa fruta e mais intensidade.
Chegamos, então, aos três tintos da linha Dadá. O número 1 é corte de Bonarda e Malbec, com 14 gramas de açúcar residual por litro, com aromas de baunilha e notas florais. O Dadá 2 é um Merlot, com diferentes tipos de madeira, com sabor marcante de café, fácil de beber e de agradar o público inciante. Já o Dadá 3, Cabernet Sauvignon e Syrah, tem notas de cravo e canela, com um pouco de caramelo. O povo que me acompanhava não curtiu muito o estilo empastelado, que também não é a minha praia. Mas entendi bem a proposta, e o público que eles querem alcançar.
O Malbec Reserva 2013 é feito com uvas de Sonda, e já está elevando o nível da brincadeira. O mesmo acontece novamente com o Cabernet Sauvignon Reserva 2013, Cabernet Sauvignon e Syrah, com frutas negras, algo de caramelo e um bom corpo.

San Juan 11 -  Las Moras
O Malbec Black Label 2013 é imponente e tânico, com boa textura, e notas de amora e groselha maduras. Gostei ainda mais, porém, o Black Label Bonarda 2012, bem aromático, com boa dose de especiarias, muita fruta vermelha e notas florais, com mais estrutura e concentração.
Mas foi mesmo a partir do Black Label Cabernet-Cabernet 2012 que a coisa ficou séria. Mais elegante e complexo, tem notas de alcaçuz e cereja, com aromas animais e um agradável frescor, que se replete na acidez que dá harmonia ao conjunto, com tons levemente amarguinhos no final de boca.
Em seguida, o Mora Negra 2011, corte de Malbec (70%) e Bonarda, tinha amora, outras frutinhas do bosque (lembrou muito a bala Halls’ de cereja) e muita flor (rosa, violeta), e algo caramelado, mantendo agradável frescor e equilíbrio. Achei um vinho muito argentino em sua essência.

San Juan 12 -  Las Moras
Chegamos, pois, ao Gran Syrah, colhido em Pedernal, dois meses depois, por exemplo, que o Vale de Sonda. Feito com uvas dos três vales (Tulun também entra), tem potência aromática e muita intensidade.

San Juan 13 -  Las Moras
O Finca Las Moras Malbec 2011, com uvas inteiramente de Pedernal, é um belo exemplar da casta, com violeta, cereja madura. É um vinho distinto de todos os demais, que fermenta em barrica, com os cachos inteiros, com leveduras indígenas.

San Juan 15 -  Las Moras
Foi um panorama bem interessante da bodega, e consequentemente da região.

San Juan 16 - Casa Montes
De lá, partimos para a Casa Montes, um vinícola que me deixou impressionado com a qualidade dos vinhos, em relação ao seus preços.

San Juan 19 - Casa Montes

Logo de cara, o Ampakama Viognier 2014 é um vinho limpo, clássico da casa, floral, com frutas tropicais, além de ter aromas de pêssego e pomelo, e uma boa acidez. É vendido por R$ 25 no Zona Sul. Não é fácil encontrar um branco com preço melhor no mercado brasileiro. A rede de supermercados carioca, que tem uma linha de vinhos bem atraente, importa o vinho diretamente. Hoje, a Casa Montes está buscando um importador no Brasil. Se eu fosse importador, pegava na hora, sem pestanejar. E fica a dica.
O Torrontés 2014 é floral, com bom frescor. Já o Chardonnay 2013, com 10% do vinho fermentado em barricas novas, chama a atenção, e é uma pechincha pelos cerca de R$ 30 que custa no mesmo Zona Sul.
Chegamos aos tintos através do Ampakama Malbec 2014, pura fruta, um Malbec muito do bem feito, e na mesma faixa de preço dos anteriores. Vale ir conferir.
Já o Ampakama Syrah-Tannat 2014, com 50% de cada uva, tem certo frescor e boa carga de taninos, novamente com preço tentador.
Numa linha superior, o Fuego Negro Malbec 2014 custa uns R$ 35-R$ 40. Uma beleza, com os seus taninos firmes, mas redondos, as notas de chocolate.
Uma das linhas se chama Ampakama Intenso. Provamos dois desses vinhos: o Malbec 2013 e o Cabernet Sauvignon 2013.
Outra linha superior se chama Don Balthazar, na faixa dos R$ 45. São três varietais: Malbec (muito tanino), Cabernet Franc (floral) e Petit Verdot (bem bom, meu preferido).

San Juan 17 - Casa Montes
A linha da bodega é bem extensa, e traz outra gama superior, Alzamora (cerca de R$ 65). O Malbec 2012 passa 15 meses em barrica. Mas gostei mais do Syrah, condimentado, macio, com notas de chocolate e frutas negras em compota.
Por fim, o Casa Montes 2012, floral, fino e macio, o topo de gama da Casa Montes, floral, fino e macio, uma edição limitada a 6 mil garrafas que ainda não foi lançado. Encerramos com o Ampakama Viognier Dulce (também a menos de R$ 30). Um achado com apenas 8,5 de álcool e cerca de 75 gramas de açúcar poor litro, com sabor de maçã verde, e dulçor equilibrado.

San Juan 20 - Finca del Enlace
Encerramos a nossa incursão a San Juan na relativamente nova Finda del Enlace, uma bodega que também me impressionou, …

San Juan 21 - Finca del Enlace

… pela estrutura e – a exemplo das anteriores – pela qualidade dos vinhos, e seus preços.

San Juan 24 - Finca del Enlace

O Tracia Chardonnay tem fruta fresca, como abacaxi.

San Juan 27 - Finca del Enlace

E o Malbec é simples e direto, com notas de violeta. Novamente, gostei mais do Cabernet Sauvignon, com boa fruta, lembrando goiabada e geleia de morango. Vão chegar ao Brasil por cerca de R$ 30.

San Juan 31 - Finca del Enlace
Numa patamar superior, o Tracia Honores Bonarda 2010 (faixa de R$ 40) é bem interessante.

San Juan 32 - Finca del Enlace
Encerramos com o Alados Blenc 2012, um vinho que vem sendo bem falado e premiado, com intensidade de cor e boa fruta, com inesperado frescor.

Mendoza, segundo dia, parte 2 – O Vale de Uco: passeio imperdível

27/02/2015

Vale de Uco 1

Em termos de paisagem, mesmo com a forte concorrência (Patagônia, Luján, Pedernal), a viagem de aproximadamente uma hora e meia de Mendoza ao Vale de Uco foi a mais bela. Seguimos rumo ao Sul, acompanhando a Cordilheira dos Andes, à nossa direita. Quando viramos em direção às montanhas, deixando a estrada principal, já vamos subindo um pouco de altitude, nos embrenhando nas raízes dos Andes, que vão se tornando cada vez mais imponentes quanto mais próximos estamos deles. O vulcão Tupungato é uma rocha sólida e nevada, branca, com sombreados, de contornos preciosos, tipo obra de arte, um desenho de precisa beleza acidentada.
O clima campestre, as parrillas de beira de estrada e os vinhedos que vão surgindo dão contornos bucólicos ao passeio. Passamos por pequenos vilarejos pacatos, onde podemos comer maravilhosos pescados, garante-me o meu motorista, e eu acredito nele.
– Que pescados? Trutas da região? Salmão? – pergunto.
– Sim, claro. Também. Mas eles fazem de tudo. Camarões, lulas, peixes marinhos. Muito recomendável.

O Vale de Uco anda se sofisticando, no ritmo da fama de seus vinhos. Algumas das mais lindas e modernas bodegas da Argentina estão por lá, como a Salentein, que era o nosso destino naquela manhã ensolarada, depois de um raro dia nublado em Mendoza. O movimento enófilo atraiu vários hotéis e pousadas, e consequentemente, bons restaurantes e um interessante comércio local, com umas lojinhas de artesanato, butiques, coisa e tal.
O cenário é desértico, com plantações alimentadas pela água do degelo dos Andes. Entramos na vinícola, passamos por uma capelinha e logo estamos de frente para o prédios de linhas retas, em tons ocres, combinando com a paisagem, bem integrado a ela.
Na verdade, são duas edificações, distantes cerca de 100 metros uma da outra.

Salentein 2

Na primeira, uma espécie de centro de visitantes, com recepção, loja etc.

Salentein 24

Há um restaurante com vista para os vinhedos.

Salentein 26

 

As empanadas que provei estavam bem boas.
Salentein 29

E o lugar tem até uma galeria de arte.

Salentein 25

Gostei dessa obra, um emaranhado de lentes, que distorce os quadros.

Vale de Uco 5 - Salentein 2
E há várias peças espalhadas por diversas partes, externas e…

Salentein 1
… internas.

Salentein 3
Do outro lado está a bodega propriamente dita, onde é produzido o vinho. Vamos caminhado pela alameda que atravessa o vinhedo,…

Salentein 6

… tirando aquelas fotografias clássicas.

Salentein 5

As roseiras, com os vinhedos, e neste caso, com uma bossa especial, os Andes ao fundo.

Salentein 7
Comemos algumas uvinhas, porque ninguém resiste a verificar os graus de açúcar e acidez, delicioso exercício de imaginação. A fruta suculenta, a secura dos taninos, o caldo agridoce. A tinta que colore os nossos dedos ao esfregarmos as cascas. O sabor amargo da semente, que mordemos para testar os taninos.
Soube que tinha nevado na noite anterior.

Salentein 9
– Essas montanhas ontem não estavam assim. Caiu muita neve – informa-me um local.

Salentein 10
Do lado de fora podemos dizer que o prédio é discreto, quase camuflado na paisagem, com a vegetação andina, tambpem em tons desbotados, ocres. Não se imagina que lá dentro o cenário é imponente, com ares de catedral, um templo do vinho. As barricas estão como em altares. Dedicados a Baco. Dionísio.

Salentein 11

Dele temos um bom panorama do edifício que recebe os visitantes.

 

Salentein 12
Quando chegamos ao salão principal, um imenso buraco redondo no chão revela uma sala de barricas que é como uma grande caverna.

Salentein 13
Tem acústica de sala de concertos, e um piano de cauda está sempre ali, esperando o próximos maestro (são pelo menos duas apresentações por ano, uma de tango, outra de música clássica). Uma rosa-dos-ventos no chão é sinal de orientação.

Salentein 16
Descemos até o chão. A energia no local é boa. Flui. As barricas. Redondas. O salão. Arredondado. Os grandes tonéis. Circulares. Tudo fluido.
O buraco que era no piso, agora está no teto. E dele vem uma luz bonita, apoteótica, quase divina, daquela que vemos em igrejas antigas, invadindo a nave através do mosaico meticulosamente pensado.

Salentein 18
Há várias enotecas, salas não muito grandes que guardam os vinhos já engarrafados, em armários com portas de metal. São também salas de degustação, para que os grupos de visitantes em cada prova não sejam muito grandes. E há de vários tipos.
A mesa é belíssima. Um tipo de mármore, em pedra bruta, que lembra uma rolha.

Salentein 23
Nem sempre se tem a sorte de degustar os vinhos com o seu autor. Quando isso acontece, é sempre melhor.Quem nos recebeu para a prova foi o enólogo da casa, Pepe Galante.

Salentein 19

E começamos a prova.

O Salentein Reserve Sauvignon Blanc 2014 era muito aromático, com pimenta branca, mentolado, e vegetal, com notas de capim-limão e grama cortada, com uma mineralidade, e um toque salino. É uma especialidade da casa. São 1,2 milhão de garrafas ao ano.

– Somos a única vinícola da Argentina que produz mais Sauvignon Blanc do que outros brancos, como Chardonnay e Torrontés. E fazemos isso porque aqui em Uco o clima é mais fresco, e adequado a esta variedade – explica Pepe Galante.

O Salentein Reserve Chardonnay 2013 é fermentado em  barraica, ganhando untuosidade, com textura gorda. Tem notas florais, e de frutas, como melão, e cítricos, como limão. Tem volume de boca, deixando um rastro adocicado, de baunilha, mas com isso tudo, sem perder o frescor.

Salentein 20

Partimos para os tintos. O Salentein Reserve Pinot Noir 2013 puxou a fileira, com muita fruta, e uma pimentinha. Um vinho claro, com bonita cor, límpido e puro, com notas de rosas e cerejas, e algo de ervas, com um tomilho fresco muito nítido, e um final longo e agradável.

Salentein 21

O Salentein Reserve Malbec 2013 trazia as típicas notas florais de violeta, e tília, com muita fruta fresca, notas de chá, e taninos macios, com textura agradável. Uma seda. Muito delicado.

Salentein 22

Foi a vez do Numina Cabernet Franc 2013. Bastou um giro na taça, e uma respirada na borda dela para sentir o perfume do vinho, terroso, floral, cheio de fruta, cheio graça. Já ali tinha a certeza que estava diante de um dos vinhos preferidos da viagem. O que comprovei em seguida, ao sentir a textura firme e sedosa, o sabor rico, com tudo aquilo que os aromas revelavam, e algo mais. Cogumelos. Trufas. Especiarias. Ervas. Fruta, muita fruta. Amoras e mirtilos. Jaboticaba. Um Cabernet “Franco”, direto e puro, sincero eu diria. Elegante.

Depois, ainda provamos o Numina Malbec 2012 (aroma delicadamente doce, com taninos firmes e textura fina: “delícia”, como escrevi); e o Numina Gran Corte (coisa séria, meio misterioso, com muito frescor; complexo, floral, com notas de frutas em compota, floral, bem longevo, com acidez marcante e taninos  redondos: acho que chega ao auge em uns 10, 15 anos).

Eu, que acredito nas energias, e na influência delas em todas as coisas, tenho a certeza de que aquela bodega bonita, com jeito de basílica, em suas formas fluidas, arredondadas, ajudam o vinho a ter esse estilo redondo, macio e sedoso. Ele descansa em barricas muito bem acomodadas, e que por vezes são brindados com belos concertos. Dizem que a música faz bem ao vinho. E eu acredito. Ainda mais depois desta visita à Salentein.

 

Mendoza, segundo dia, parte 1 – O Vale de Uco

26/02/2015
A estrada a caminho do Vale de Uco: viramos a direita e temos os Andes à nossa frente, e vamos nos entranhando nele, em busca de alguns dos melhores vinhedos da Argentina, e de  algumas das bodegas mais lindas, e dos hotéis mais charmosos

A estrada a caminho do Vale de Uco: viramos a direita e temos os Andes à nossa frente, e vamos nos entranhando nele, em busca de alguns dos melhores vinhedos da Argentina, e de algumas das bodegas mais lindas, e dos hotéis mais charmosos

Num país como a Argentina, com produção de vinhos gigantesca, encontramos a um só tempo muitas tendências. Hoje, por exemplo, podemos dizer sem medo de errar que uvas como Cabernet Franc, Petit Verdot e Semillon andam em alta, bem como o surgimento de single vineyards. Em termos de geografia, em se tratando de Mendoza, a região que está mais badalada no momento é o Valle de Uco, a cerca de uma hora e meia de carro, por uma estrada reta, que primeiro vai acompanhando paralelamente o traçado dos Andes, aquele cenário de picos lindos e imponentes, até que viramos à direita, e vamos nos entranhando nas montanhas, seguindo um circuito agora sinuoso, com paisagem que vai se tornando cada vez mais bela.

O vulcão extinto Tupungato, e sua neve eterna

O vulcão extinto Tupungato, e sua neve eterna

Até surgir imponente o vulcão Tupungato, ícone da paisagem linda, com picos de neve eterna. É o pedaço mais quente e “cool”, de Mendoza. Quente, entenda por badalado, porque esta é das zonas mais frias, e alta, o que é grande parte de suas credenciais de distinção e qualidade. Áreas como La Consulta e Gualtallary estão na moda, e o Valle de Uco, como um todo. Quem visita Mendoza hoje em dia não pode deixar a preguiça tomar conta, restringindo o programa apenas às bodegas mais próximas da área central, e como Maipú, Godoy Cruz, Agrelo e até Luján de Cuyo. Uco é necessário.
E quem quiser pode até se hospedar por lá, em hotéis como The Vines Resort & Spa, entre tantas possibilidades de hospedagem, desde pousadas de charmes a resorts temáticos (sobre vinho, claro).

A Salentein tem uma arquitetura integrada à paisagem

A Salentein tem uma arquitetura integrada à paisagem

Entre as bodegas de visita obrigatória está a Salentein, pela combinação da arquitetura meticulosamente linda e original, bem integrada à paisagem, e com raro perfil, passando pela própria qualidade dos vinhos em si, …

Obras de arte estão espalhadas pela Salentein

Obras de arte estão espalhadas pela Salentein

… e até chegar à coleção de arte que se espalha pela propriedade, e pela loja bem montada, e o restaurante de paredes envidraçadas, com vista para as montanhas, que era o nosso destino naquela manhã. Acordamos e saímos cedo, e a esticada até lá já começa a valer a pena só pela paisagem que podemos apreciar pela janela (escolha um lugar no lado direito).
E este é o tema do próximo post da série (para ler, clique aqui).

Mendoza, primeiro dia, parte 3 – Seis bodegas e um jantar

25/02/2015

Feira - Finca Agostino

 

De todas as bodegas que encontraria naquela noite, que ainda estava clara por volta das 21h, eu apenas não conhecia a Finca Agostino, que pertence a uma família de raízes italianas, como tantas em Mendoza, mas que imigrou para o Canadá, e anos mais tarde voltou à capital do vinho argentino para começar a produzir a bebida, numa trajetória muito particular. Comecei por ela. Provei um corte de Chardonnay e Viognier que é untuoso e amendoado, cremoso.

Maria e as lhamas
Pulei para a mesinha da Tapiz, bodega que conheço com certa intimidade, onde já havia me hospedado, em 2008 (para ler um post da época, clique aqui), numa pousada campestre, em meio aos vinhedos, com piscina frequentada por lhamas (acredite), e quartos instalados em um casarão antigo, de modo que a gente se sente em casa. A foto acima é “de arquivo”, roubada do post de 2008, lá no blog Enoteca.

Feira 2- Tapiz
Ali nos esperavam três vinhos da linha Alta Collection: Chardonnay, Cabernet Sauvignon e Malbec. O primeiro segue a estirpe amadeirada, untuoso e rico, cítricos, com notas de peras suculentas, com bom frescor e final agradável. O Cabernet tem muita fruta madura, e aromas refrescantes, que remetem a ervas como menta e hortelã, com taninos persistentes. O Malbec também era potente, bem típico da uva, com ameixa e violeta, com notas adocicadas.

Feira 3 Finca El Origem
Na mesa da Finca El Origen, mais um Viognier ensolarado, floral, como se espera, o Reserva 2013. A vinícola opta por um estilo musculoso, com madeira marcante.

Feira 4 - Trivento
Na Trivento, um trio de Malbec, para investigar seus estilos. De uma maneira geral, entre os vinhos argentinos, os mais leves e frutados me dão mais prazer, e são bem mais baratos. Assim, achei sagaz e alegre o Malbec Reserva 2012, floral, frutado. O Golden Reserve 2012 é apimentado, com notas de violetas, as mais vinhedos de Luján de Cuyo, de onde saem as uvas deste vinho. Chegamos, então, ao Eolo, ícone deste bodega que faz parte da Chandon, e por consequência, do grupo LVMH, um vendaval, concentrado, espesso. Aí, neste exemplar da safra 2011, ainda encontramos tudo muito misterioso e concentrado. Há baunilha, chocoleta amargo, café. Há ameixas e uvas passas. Há geleias de amoras e mirtillos. Há flores. E ervas. Pode ser um tempero para pratos fortes.

Feira 5- Argento

A Argento levou um trio de perfil bem variado. O Pinot Gris mostra que esta casta anda mesmo em alta em várias áreas do novo mundo, dos EUA e Austrália, até a Argentina, já contaminando o resto da América do Sul.
Hoje a vinícola tem a sua própria bodega e vinhedo. E a Bonarda tem aquele perfil de que falávamos, de fruta, leveza, um vinho correto para o dia a dia, de preço justo, acessível.
O Malbec-Malbec Reserva 2012 é um corte de vinhos da mesma uva, que tem a virtude do equilíbrio.

Altocedro 1- Restaurante
O jantar foi bem agradável. O restaurante é uma unidade mendocina de uma casa porteña, que segue a linhagem “confort food”, buscando produtos orgânicos para resultar numa cozinha aconchegante. Levamos para a mesa os vinhos das provas. E outros foram abertos. O Altocedro Año Cero Rosé de Malbec é uma tchutchuca, delicado, refrescante e fresco, com sabor de maçã, com casca, daquelas suculentas, ácidas, e com alguma doçura. Lindeza.

Altocedro 2 - Restaurante
Foi com ele na taça que eu fui dando bicadinhas nessa xícara esmaltada, que trazia uma piperrada, sopinha fria, prima do gaspacho.

Altocedro 3 - Restaurante
Depois, eu fiquei namorando por muito tempo o Altocedro Pinot Noir. E pedi mais uma taça. Coloquei um pouco de Eolo. E nem estava pensando em harmonizar, porque a etapa seguinte era uma torradinha fina de focaccia, com provoleta de cabra, assada no forno, com casquinha crocante, ressaltando a sua salinidade e gordura, com uma espécie de ratatouille, e saladinha da horta, com folhas orgânicas, tomatinhos. Puro conforto. Maridaje? O Pinot ficou um tesão com esse prato.

Altocedro 4 - Restaurante
O prato principal era um matambre de porco, com recheio tipo “pascualino”, com queijo, espinafre, em base de ovo, com um purê verde (talvez de batatata com favas) e vagens francesas, em dois tons de cor, com molho de… Pimentão, se não me valha a memória (não tomei nota deste prato).

Altocedro 5 - Restaurante
O “postre” foi um pudim. Chamado por lá de flan. E, neste caso, preparado de modo que eu jamais havia visto, em tabuleiro, para ser cortado em quadradinhos, retângulos, ou como se queira. Ao lado, uma generosa colherada de doce de leite reforçava a doçura.

E amanhã vamos pegar uma estradinha, rumo ao cada vez mais badalado Vale de Uco.

 

Mendoza, primeiro dia, parte 2 – Proemio, novidade no Brasil, e Altocedro, que está de volta: bom ficar de olho neles

24/02/2015

 

Depois do almoço no Bistro M, do Park Hyatt, começamos a jornada vinícola mendocina com uma novidade para o mercado brasileiro: fomos conhecer a Proemio, que a partir de março começa a ser vendida por aqui, uma bodega que eu resumiria como pragmática: querem fazer bons vinhos, usando madeira e uva de qualidade. E conseguem. O que vi foi uma linha de perfil conservador, que usa madeira de alta qualidade, fazendo uma classificação básica, com vinhos sem barrica, e outros com, e os rótulos de alta gama.

A sala de barricas da Proemio, que comprou uma bodega de 1930

A sala de barricas da Proemio, que comprou uma bodega de 1930

Na sua linha mais simples, enxergamos a fruta, e encontramos alguma leveza e frescor, como deve ser.

O Proemio Cabernet Sauvignon Reserve, ao lado de outros vinhos de alta gama da Proemio

O Proemio Cabernet Sauvignon Reserve, ao lado de outros vinhos de alta gama da Proemio

O seu Proemio Cabernet Sauvignon Reserve, com passagem em madeira, foi um dos vencedores do Argentina Wine Awards. “Condimentado, defumado, com taninos bem marcados e uma acidez nervosa, que vai lhe dar condições de muito melhorar nos próximos cinco anos, acho eu. Seco, com uma piracina interessante, que me lembrou ají amarelo, e boa expressão da fruta, com a madeira de qualidade bem integrada”, foi o que escrevi no post sobre os vinhos premiados.
Os vinhos apresentam uma boa relação qualidade-preço, mas como não são baratos, vão atingir mais o consumidor que busca mais qualidade do que preço.Gostei da purereza e do frescor do Chardonnay, sem barrica, um vinho limpo e fácil de beber, com acidez agradável.

Proemio Cabernet Sauvignon 2014: a pureza da fruta, a partir do mês que vem no Brasil, a R$ 49

Proemio Cabernet Sauvignon 2014: a pureza da fruta, a partir do mês que vem no Brasil, a R$ 49

O seu Cabernet Sauvignon básico, que será vendido na casa dos R$ 49 (é o preço da linha sem mandeira), muito me agrada. Um ponto interessante da prova foi harmonizar os vinhos com doces.
A empresa tem um perfil de atuação amplo em termos de negócios envolvendo o mundo do vinho.
– Queremos nos tornar um conglomerado de viticultura. Tudo começou com a importação de barricas francesas Vicard para a Argentina. Depois, veio a vontade de fazer vinho. Começamos comprando uvas, e hoje já temos os nossos vinhedos. E compramos essa bodega, que é de 1930, há 12 anos. O projeto inclui vários outros produtos, como polifenóis de semente de uva para cosméticos, e mesmo para a adição em vinhos – diz Julián Iñarra Iraegui, gerente de exportações da Proemio, que hoje produz 12 mil caixas por anos, e pretende vender mil delas para o mercado brasileiro, através da importadora Wine & Co.

A nova sede da Altocedro, em uma antiga bodega, em Coquimbito, na área de Maipú: "La Consulta é muito longe", diz Karim Mussi, o enólogo da casa

A nova sede da Altocedro, em uma antiga bodega, em Coquimbito, na área de Maipú: “La Consulta é muito longe”, diz Karim Mussi, o enólogo da casa

De lá fomos até Coquimbito, na área de Maipú, onde está uma espécie de novo posto avançado da bodega Altocedro, que assumiu uma antiga vinícola, estando agora também um pouco mais perto da cidade de Mendoza.
– La Consulta, onde estamos, é muito longe – resume Karim Mussi, o enólogo da Altocedro, que ainda dá consultorias, e fas projetos paralelos.
Foi ótimo reencontrá-lo (para ler uma reportagem sobre essa degustação, clique aqui). Karim Mussi é um dos expoentes da nova geração de enólogos argentinos, um cara com perfil empreendedor, e que faz os seus vinhos com a mesma personalidade que mostra ao falar deles. Tem ideias originais. E, o mais importante, sabe fazer vinhos. Durante esse encontro, algumas frases dele me chamaram a atenção.
“Tem muita gente fazendo Cabernet Franc varietal na Argentina. Ótimos vinhos, mas não vou fazer um vinho assim, porque não gosto de modismos”.
“Na hora de fazer vinhos, eu gosto de ter opções sobre a mesa. Não gosto de vinhos sobremaduros, porque quero preservar a boa acidez, e o frescor, e não quero um resultado muito alcoólico. Porém, na hora de montar um corte, é bom podemos misturar um vinho mais jovem, fresco, com um mais potente, encorpado. Este trabalho é um dos mais difíceis para um enólogo, e dos mais prazerosos”.

O Altocedro Gran Reserva Icone Malbec 2012: "Muito fino e elegante. Profundo e complexo.  Bom agora, melhor em dez anos"

O Altocedro Gran Reserva Icone Malbec 2012: “Muito fino e elegante. Profundo e complexo. Bom agora, melhor em dez anos”

“O nosso Gran Reserva não é um macho forte, um vinho potente, musculoso. Pensamos nele como uma dama elegante. Queremos mudar este paradigma. Fazemos uma cofermentação, com cerca de 2 ou 3% de Sémillon”.
Resumi assim o vinho – feito com uvas de um vinhedos de mais de 100 anos, em La Consulta – no meu bloquinho: ” SENSACIONAL. Muito fino e elegante. Profundo e complexo. Bom agora, melhor em dez anos.

Abras Malbec e Abras Torrontés: produzidos em Salta

Abras Malbec e Abras Torrontés: produzidos em Salta

Começamos a nossa degustação com um Torrontés de Salta, o Abras 2014. No meu bloquinho de notas, escrevi em letras garrafais (homenagem ao amigo Pedro Mello e Souza): “Gosto disso”. Ao lado, outros comentários: “Bem + elegante mas com a mesma exuberância no aroma do que outros Torrontés. Muita flor, sim, mas com lichia, e outras notas que o aproximam de um Sauvignon Blanc, cítrico, algo vegetal, e acidez lá em cima”. Está dito.
– Colhemos a Torrontés em três etapas, mais verde, mais madura, e bem madura, para jorgar com a acidez, e o frescor, e a madurez, a estrutura, o álcool – explica Karim.

Año Cero Pinot Noir 2013,  um vinho raro em termos de enologia argentina: "Foi um dos melhores, entre os quase 300 provados durante a viagem".

Año Cero Pinot Noir 2013, um vinho raro em termos de enologia argentina: “Foi um dos melhores, entre os quase 300 provados durante a viagem”.

E os vinhos de Karin se encaixam no meu perfil. O seu Año Cero Pinot Noir 2013 é um vinho raro em termos de enologia argentina. Um vinho altamente sedutor, muito agradável de beber, com pimentas, especiarias, um tostadinho aqui, um defumado ali, tudo isso sem esconder a fruta fresca, que brilha em forma de notas de cerejinhas, amorinhas… Tudo isso com muita elegância, um vinho equilibrado, com acidez e frescor, e com volume de boca, untuoso.
Outro destaque foi o Cabernet Sauvignon Año Cero 2013, com aromas de morrones (pimentões vermelhos) assados, pimenta preta, amora frescor, e umas fumacinhas, com taninos marcantes.
E, antes que eu me esqueça… Os vinhos, que já foram importados para o Brasil pela Terramatter, estão voltando, por coincidência, assim como a Proemio, chegando ao Brasil agora em março, pelas mãos de uma nova importadora (que tem os dedos do Marcio Moualla, da Terramatter) chamada Ares dos Andes. Se eu fosse você, ficava de olho.
Além dos vinhos da Altocedro, ainda provamos rótulos de mais quatro bodegas (três de cada: Finca El Origen, Argento, Finca Agostino, Trivento e Tapiz). E, no lugar, também funciona um bom restaurante, e foi lá que jantamos. Mas isso é assunto para o post de amanhã, né? Este já está bem longo. E, nos próximos dias, vamos fazer assim. Vou continuar falando de Mendoza, e de San Juan, encerrando a jornada argentina, enquanto ao mesmo tempo também volto a falar do Rio de Janeiro, e de cerveja, e de vinhos de outras partes, e de cachaça. Ok?

Mendoza, primeiro dia, parte um: um almoço regado a Inéditos Torrontés Brutal 2012

23/02/2015

 

Bistrô M - Park Hyatt Mendoza 1

Adoro a cozinha aberta do Bistrô M, no hotel Park Hyatt, de Mendoza.  E foi ali, com um belo café da manhã (depois de dez horas de viagem madrugada adentro, desde Neuquén, de ônibus), que começou o primeiro dos nossos cinco dias na cidade ,- a capital do vinho argentino (são cerca de 1.400 vinícolas!!!) -, com direito a uma escapada até San Juan, onde visitamos três bodegas.

Bistrô M - Park Hyatt Mendoza 2

Ao centro, um grande forno, a gás, que parece a lenha, pela forma, e pelo resultado do que é assado ali dentro.

Inéditos Torrontés Brutal 2012
A chegada a Mendoza foi triunfal. Pelo que bebemos. No almoço, abrimos uma garrafa do Inéditos Torrontés Brutal 2012, um desses vinhos desconcertantes, não filtrado, com aromas que fogem do usual, um branco com estrutura, vinificado como se fosse um tinto, com maceração com as cascas. Sim, um vinho laranja, uma das obras-primas de Matias Michellini. O vinho tem aromas de mel, uvas passas (brancas), tâmaras e casca de laranja cristalizada. Um vinho denso, com volume de boca, e uma alta acidez – direta, picante, pontiaguda.

Bistrô M - Park Hyatt Mendoza 4
Foi o destaque do almoço, mostrando grande versatilidade à mesa. No meu caso, se entendeu muito bem com a entrada, uma espécie de pizza (fugazetta, para eles), com rúcula, azeitonas pretas e um toque de queijo azul.
Ok, isso era de se esperar. Mas, ando cada vez mais convencido de que certos brancos vão bem com carnes, e esse é o caso dos vinhos laranjas. Pra mim, os vinhos de Josko Gravner (que não são laranja, e não são mesmo, mas sim, âmbar) são altamente gastronômicos, e pratos com cordeiro e vitela ficam divinos com eles (para ler mais sobre os vinhos de Gravner, clique aqui).

Bistrô M - Park Hyatt Mendoza 5

De modo que deixei um pouco do vinho, não só para prolongar o prazer de degustar o Inéditos Torrontés Brutal 2012, mas também porque imaginei que ele se entenderia bem com o prato principal, uma carne (esqueci qual, mas acho que vacío) fatiada, servida com acompanhamentos generosos: queijo, cebola, pimentão vermelho, e um molho roti.

Cabernet Franc

Tínhamos na mesa um Cabernet Franc, mais um belo Cabernet Franc argentino. Essa, uma escolha segura e certeira para um prato assim. E, de fato, ficou muito bom. Mas o Torrontés também brilhou. E eu fiquei ali, com momentos de grande prazer, fazendo algo que tenho gostado muito. Provar dois vinhos com um mesmo prato, e melhor ainda se for um branco e um tinto. Dou um gole no branco. E então uma garfada na comida. Sinto o entendimento da dupla. E então bebo um gole de água, ou vou mesmo direto ao tinto. E dou outra garfada. E sinto como se comportam juntos. E vou ao branco novamente. Que limpa e boca. E, nesse motocontínuo, amigo, só tenho algo a lhe dizer: o vinho nasceu para dar prazer, e não trazer preocupações.

Bistrô M - Park Hyatt Mendoza 6
Encerrei com um sorvete caseiro de pistache, bem bom gostosinho.

Melodía Malbec Rosé Dulce

 

Foi servido com um alegre espumante rosado, e docinho. Ficaria melhor com um doce com frutas vermelhas, tipo tartelete de framboesas, cheseecake com calda de morango e outras variedades do gênero, bem como no preparo de coquetéis.

E de lá começamos uma intensa agenda de visitas e degustações (só em Mendoza, provamos cerca de 200 vinhos, em cinco dias). Mas isso é assunto para outro post, certo?

Um panorama dos vinhos argentinos através de 12 rótulos

21/02/2015

Depois de um almoço sempre bom no La Cabrera, com molleja inteira e asado de tira, fomos visitar Joaquín Alberdi. Tínhamos um horário livre, e tudo o que não se deve fazer em viagens do tipo, é descansar nas horas vagas. Nessas horas, muitas vezes, acontecem algumas das melhores coisas.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - terraço
Chegamos e fomos conferir as boas novas. Subimos as escadas até o terraço, área nova, onde acontecem degustações de vinho, ao lado de uma baita parrilla, vizinha de um belo forno.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - pia

Mas o melhor da nova parte alta da loja são as pias, feitas em cima de barricas. Curti.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - queijos
Outra novidade, esta no térreo, é o balcão refrigerado que abriga uma admirável seleção de queijos de cabra, da Cabañas Piedras Blancas, incluindo variedades como reblouchon e um negro, pintado com tinta de lula. Pois, assim, é possível provar uns vinhos e “picar”, que é petiscar para os argentinos.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - porão
A prova ocorreu no porão, área reservada, ideal para pequenos grupos. Além de nós quatro havia outros quatro brasileiros (duas amigas, de Cuiabá; e um casal de São Paulo), Joaquín Alberdi, e alguns de seus funcionários e amigos.
O homem então se animou, e enfileirou uma baita bateria de vinhos, com uma boa amostra da produção argentina, reunindo clássicos como o Achaval Ferrer Finca Mirador e experimentações, como o Cara Sur, que é “100% Criolla de Parral de más de 80 años”, ou seja, um vinho fino de uva Criolla.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - Gran Medalla
Abrimos com um vinho top de uma bodega gigante. Era o Trapiche Chardonnay 2012, com pêssego e limão, uma madeira bem integrada, e uma boa persistência.Bem feito, mas sem ser encantador (custa 398 pesos). Mais para a frente falamos sobre a Trapiche, que está com projetos bem  interessantes depois que foi comprada pela família que era dona da cervejaria Quilmes, antes dessa ser comprada pela brasileira Ambev.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - Lágrima Canela
Depois, o Lágrima Canela 2011, com madeira surgindo em aromas de canela e baunilha, acidez na medida certa, com notas cítricas refrescantes, e um final de boca amplo e gordo. Custa 308 pesos.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - Desierto Pinot Noir
Desierto 25 Pinot Noir 2013 é um vinho com muitos méritos. Para começar, tem bom preço: 100 pesos. Ou seja, uns R$ 25 (a cotação do Real, em lojas, hoje está na casa dos 4 para 1). Por esta pechincha levamos um vinho puro, leve, com boa expressão da fruta, com sabor de cereja em conserva e framboesa, fácil de gostar e de beber, com boa acidez e taninos sutis.Vinho leve, para ser bebido mais fresco. Muito bom para embalar a conversa, ou um prato de comida, com a sua assumida humildade.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - Cara Sur
O já citado Cara Sur, “100% Criolla de Parral de más de 80 años”, foi uma bela surpresa. Resultado de fermentação natural, com leveduras indígenas, este vinho leva a assintura de Sebastian Zuccardi & Francisco Bugallo. As uvas estão plantadas em Barreal, Valle de Calingasta, em San Juan, a 1.500 metros acima do nível do mar. Não parece ter os seus 14% de álcool. Um vinho que afaga o ego da uva Criolla, nada valorizada. Custa 155 pesos.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - Finca Mirador
O vinho seguinte foi igualmente outro usado como exemplo da diversidade desta prova: o Finca Mirador 2011. Um dos grandes da Argentina, sempre muito bom, quando não excepcional, como é o caso desta safra, que ainda se mostra com certa timidez, porque este é um rótulo que precisa de algum tempo para se apresentar melhor, por inteiro. O que se pode fazer é usar um decanter, deixando o vinho respirar. No meu copo, ele mudou intensamente durante o tempo que eu pude prová-lo. Resumindo, um vinho delicado no nariz, com buquês de flores, as rosas, as violetas… Na boca, é potente e firme, mas com certa ternura, os taninos marcantes, mas macios, e a acidez que deixa a textura sedosa, e agradável. A madeira traz notas de especiarias, que se entendem bem com a fruta, sem mascarar, mas apenas temperando, aquele conhecido pomar que a Malbec apresenta, a ameixa seca, os mirtilos e amoras, aqui ainda frescas, mas que devem evoluir para algo em compota. Vale ficar atento a este vinhos nos próximos anos. Aqui o preço já é sério: 1.012 pesos.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - Special Blend
Depois, mais Achaval Ferrer, agora um vinho que eu ainda não havia provado: o Special Blend 2011. Corte de Malbec e Carménère, é um vinho interessante, que apresenta da primeira as notas de violeta, e da segunda os aromas herbáceos, de tomilho e alecrim. Algo de alcaçuz, que eu entendo mais como rapadura, também me remetia a alguns outros exemplares de Malbec que já provei. Mas vale uma observação: não consegui confirmar o corte das uvas, já li que é Cabernet Franc e Petit Verdot, mas na degustação disseram se trata de Malbec e Carménère, e no site da vinícola eu não encontro as informações. Se alguém as tiver, agradeço o compartilhamento. Custa 500 pesos.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - Gran Enemigo
Seguimos com o Gran Enemigo 2010 Cabernet Franc, com muita fruta, um vinho concentrado, de textura agradável, firme, escuro, e um tanto misterioso. Tem aromas de cafá, chocolate, grafite, alcaçuz… Vinhaço, para resumir. Belo trabalho de Alejandro Vigil. Foi o vinho que primeiro despertou a minha atenção para Gualtallary (se pronuncia “Gualtajarí”), subregião do Vale de Uco, perto de Tupungato, em Mendoza, e que eu ainda provaria muitos vinhos interessantes de lá, uma zona que é queridinha dos enólogos. Custa 875 pesos.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - De Angeles
O próximo era um vinho de uma bodega preciosa, que o próprio Joaquín Alberdi tratou de me apresentar, através de Pablo Rivero, do restaurante Don Julio, para mim a melhor parrilla de Buenos Aires, e com uma carta de vinhos à altura das carnes, cuidada pelo próprio Pablo, da família proprietária da casa. Era o De Angeles Grand Cabernet S 2012, fresco, intenso e profundo. Custa 480 pesos.
Tá pensando que terminou? Pois ainda veio o Yacuil (Yacochuya-Tacuil, parceria entre essas duas bodegas), um vinho produzido em Salta, exuberante e ensolarado, cheio de fruta madura, equilibrado, com notas de violetas e também algo animal, de salame, pele de salame, estruturado, e bem elegante, um tanto diferente do perfil dos vinhos de Salta. Gostaria de provar este vinho com um belo curry de cordeiro. Custa 900 pesos.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - El Esteco
E o Joaquín se animou. Sacou o El Esteco Chañar Punco, um canhão. Mas ainda está bem sisudo, fechadão. Mas, quando se abrir, daqui a uns cinco anos, promete dar o que falar. Custa 965 pesos.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - Témporis
E depois, mais Achaval Ferrer, mostrando a grandeza da casa. Era o Témporis 2011. Confesso que não tomei notas desse vinho, já distraído com o clima de confraternização que tomava conta da sala, os outros brasileiros se despedindo. Mas lembro que gostei, e também me marcou a textura, um vinho amplo, com taninos firmes, cheio de vitalidade e elegância. Custa 1.350 pesos.

Lo de Joaquín Alberdi 2 - Montesco Agua de Roca
– Agora, para limpar a boca, vamos abrir esse Montesco Agua de Roca 2014, da Pasionate Wines. Uma beleza, pura refrescância, cítrico, acidez pontiaguda, uns 10% de álcool, um vinho inimaginável para a Argentina. Uma delícia – anunciou Joaquín, para a minha alegria de quem já tinha sido apresentado a este vinho dois dias antes, em jantar no restaurante Uco, no Fierro Hotel (para ler o post, clique aqui). Custa 170 pesos, de pura alegria, juventude e frescor.
E assim, com a boca limpa para a próxima prova, voltamos ao hotel para nos arrumarmos para o show de tango. Mas isso é assunto pro próximo post.

Lo de Joaquín Alberdi: a minha loja de vinhos preferida em Buenos Aires (e em todo o mundo)

20/02/2015

O que não falta em Buenos Aires são lojas de vinho. Há muitas, algumas cadeias, como a Winery, onde até encontramos alguns rótulos interessantes, a preços justos. Mas não recomendo nenhuma dessas.

A fachada amarela da loja, em Palermo, perto da Plaza Cortázar (ex-Plaza Serrano)

A fachada amarela da loja de vinhos Lo de Joaquín Alberdi, em Palermo, perto da Plaza Cortázar (ex-Plaza Serrano)

Sempre que um amigo me pede dicas de onde comprar vinhos na capital argentina eu indico Lo de Joaquín Alberdi, em Palermo. A começar pela localização, a poucos passos da Plaza Serrano, hoje chamada Cortázar, mas que ainda é mais conhecida pelo seu nome antigo, epicentro do burburinho boêmio de Buenos Aires. Sem falar que fica na rua Jorge Luis Borges, número 1772. Adoro Jorge Luis Borges 1772.
Se não falha a minha memória, conheci a loja em 2006 (impressionante como o tempo passa), e desde então passei a frequentá-la e indicá-la, e a resposta que tenho dos amigos é sempre muito positiva.

Joaquín Alberdi, o próprio

Joaquín Alberdi, o próprio

Eis então que escrevi algumas matérias sobre Buenos Aires, e cheguei a citar a loja mais de uma vez, tanto na revista Viagem e Turismo, quanto em O Globo. Acho que até em alguns frilas que não me lembro bem. Fiz ainda um post no blog Enoteca também. E então, em 2009 (se a memória não me trai), visitei a loja mais uma vez (acho que em todas as últimas cinco vezes que estive em Buenos Aires estive em Lo de Joaquín Alberdi). Fui recebido por um sujeito simpático, empolgado, e determinado a sugerir vinhos raros, de pequenos produtores. Papo vai, papo vem, descobri que ele era o próprio Joaquín Alberdi, um ex-chef de cozinha que fez fama na capital Argentina, dono também do restaurante Cabernet, do outro lado da rua, bem em frente à loja. Apresentei-me a ele, como um “periodista” brasileiro, que escreve sobre vinhos, viagens, restaurantes e afins.
– Mucho gusto. Me chamo Bruno Agostini.
– Bruno Agostini???
– Sim.
Desculpe o momento vaidoso, mas ele faz parte indissociável desta história. Ele não hesitou em me dar um forte abraço, agradecendo pelas reportagens, e pela quantidade de gente que mandei pra lá, direta (os amigos) ou indiretamente (os leitores). Engatamos em um papo agradável, comprei uma vez mais vinhos interessantes e fora dos padrões e do mainstrean, degustamos outros rótulos, e nos tornamos amigos em mídias sociais, tipo Facebook e Instagram. Eu diria que hoje a nossa amizade extrapola o ambiente digital, embora os encontros sejam raros.

 

Os vinhos degustados enfileirados: um post à parte sobre esta prova

Os vinhos degustados enfileirados: um post à parte sobre esta prova

São raros os encontros, mas muito bons (a degustação que fizemos com ele no sábado passado, ao lado de outros turistas brasileiros, foi antológica, memorável, emocionante, e ele é assim: abre mesmo vinhos para os potenciais compradores. E abre vinhos bons. E essa história em acho que merece um post à parte (já pronto, para ler, clique aqui), pelas mudanças que a loja sofreu, e pelos vinhos que provamos naquela tarde ensolarada e “inolvidable”).

A seleção criteriosa de vinhos tem raridades, como os rótulos da Viña 1924 De Angeles

A seleção criteriosa de vinhos tem raridades, de pequenas bodegas, como os rótulos da Viña 1924 De Angeles

Então, em uma outra visita que fiz à cidade, em 2012 (esta não tem erro, porque a reportagem que publiquei em seguida não me permite errar a data), eu estava com um roteiro superapertado, tendo que visitar muitos e muitos restaurantes (já contei aqui que cheguei a ir a seis em um único dia). Mas ele viu que eu estava em Buenos Aires. E me mandou uma mensagem, exigindo uma visita, ainda que ligeira. Lá fui, feliz com a exigência, aproveitando que precisava comer em um restaurante em Palermo, não muito longe dali.

Ao longo do dia várias garrafas são abertas para os clientes degustarem

Ao longo do dia várias garrafas são abertas para os clientes degustarem

Até hoje eu sou grato a ele por ter praticamente me obrigado a ir, no dia seguinte, mesmo com um almoço já marcado (no Hernán Gipponi, que funcionava no Fierro Hotel), conhecer o restaurante Don Julio. Ali fui apresentado ao Pablo Rivero, o jovem dono da casa, sommelier competente, hoje à frente do negócio da família, quem por sua vez me apresentou a entraña, um corte raro e que anda na moda na Argentina, de extrema maciez e sabor, e também os vinhos da bodega De Angeles Viña 1924. Ali eu vi o parrillero pegar um quarto traseiro de um boi, inteiro, com todos os ossos e músculos, e gorduras e nervos, e ir destrinchando a peça, separando com precisão cada corte. O cara não é só um parrillero, mas um carnicero (açogueiro) completo. Até hoje me arrependo de não ter filmado a cena, que aconteceu em rapidez impressionante.
– Olha. Aqui temos o bife de chorizo. Essa é a parte mais saborosa dele. O ojo de bife ancho. Aqui o entrecôte. Entre costelas, entende? Daí o seu nome, derivado do francês. E o asado de tira eu saco daqui. Tá vendo esta parte? É o lomo. Aqui seria o T-bone, juntando com o bife de chorizo, mantendo o osso. E, com cuidado, junto ao osso, pegamos a entraña, com a mão mesmo – e ele foi listando as partes do boi, enquanto acendia o fogo, com rara habilidade, e ia separando os cortes na bandeja. Foi uma aula.
Dizer que as carnes servidas depois do show açogueiro estavam impecáveis é pouco. Cada corte com o seu caráter evidente, no ponto exato de cozimento e de salga, e um repertório de achuras, que abriram o almoço, de ser aplaudido de pé. Desde então, quando amigos me perguntam qual a melhor parrilla de Buenos Aires, eu tenho a resposta na ponta da língua: Don Julio, com todo o respeito que eu nutro por outros endereços respeitáveis, como La Cabrera (o único lugar da vida que eu já vi uma molleja servida inteira), Cabaña las Lilas (caro, mas bom, e em lindo lugar) e El Pobre Luis (hoje desfalcado com a morte precoce de seu dono, o uruguaio boa-praça Luis Acuña), além, de outros endereços clássicos e que “a mi me gusta”, como El Desnível (simpático boteco carnívoro de San Telmo, digno de entrar em guias como Rio Botequim), La Brigada (muito bom, mas muito cheio, muito tumultuado), Las Nazarenas (é meio turístico na aparência, mas só vejo argentino por lá) e Arturito (herói da resistência tradicionalista na Corrientes, ao lado de lugares como a pizzaria Guerrín, e sua redondas, suas empanadas e seus fainás; e El Gato Negro, linda e deliciosa casa de chás e especiarias). Sim, o Palácio de las Papas Fritas, e outros do gênero, eu dispenso. É seguro que estou me esquecendo de boas parrillas. Falo de minhas preferidas, e as que já visitei. E que recomendaria, depois da Don Julio, claro.
E, assim, quando alguém me perguntar qual é a melhor loja de vinhos de Buenos Aires, e a melhor parrilla, duas questões muito corriqueiras em minha vida, eu nem vou responder. Vou mandar o link deste post.
Post este em que, de quebra, e como cereja do bolo, eu deixo outra dica que considero preciosa: a melhor empanada de Buenos Aires está na Ña Serapia, em Palermo, na parte de baixo do Parque Las Heras, uma preciosa dica do meu amigo Alexandre Bronzatto, que compatilho com vocês. Ou seja: quando me perguntarem qual a melhor empanada de Buenos Aires (algo muito menos comum que pedidos de indicações de parrillas e lojas de vinho), eu também vou compartilhar este link. Com todo o respeito a El Sanjuanino (famoso pacas, merecidamente), La Americana (muito bom, mas frequentada só por porteños) e a já citada Guerrín. De modo que este post vai virar algo como, “compre um, leve três”.

A loja fica na rua Jorge Luis Borges 1772

A loja fica na rua Jorge Luis Borges 1772

Para mim, Lo de Joaquín Alberdi é a melhor loja de vinhos; Don Julio, a melhor parrilla; e Ña Serapia, a melhor empanada. Um trio de ouro para se sentir a alma porteña, para tatear a gastronomia e a enologia hermana. Três lugares, enfim, para ser feliz em Buenos Aires.

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Para encerrar, deixo esta foto, de um painel que está na vitrine da loja, para orientar o cliente na escolha do vinho para comprar.

Lo de Joaquín Alberdi - painel - grande

 

É divertido. Clique na imagem para ampliar.

Lo de Joaquín Alberdi – Jorge Luis Borges 1772, Palermo,Buenos Aires. Tel. 54 11 4832-5329.

http://www.lodejoaquinalberdi.com

 

Bodega del Fin del Mundo, a gigante da enologia da Patagônia

19/02/2015

Depois da visita à Família Schroeder seguimos para a Bodega del Fin del Mundo, a uns 15 minutos de carro, a grande gigante da enologia da Patagônia. A vinícola é impressionante. Muito grande, com quatro módulos que foram sendo agregados aos poucos, e espaço para outros tantos.

Bodega del Fin del Mundo 1

Tem o seu próprio reservatório de água, para poder garantir a rega em caso de algum desabastecimento prolongado, procedimento comum na Argentina vitivinícola, de paisagens marcadas pela aridez, e de vinhedos dependentes da irrigação. Um oásis no meio da paisagem desértica. Ter uma barragem é um luxo.

Bodega del Fin del Mundo 2
A linha da Bodega del Fin del Mundo (acho o nome ótimo, e vendedor) é bem grande, principalmente se for somada à produção da NQN – que assim como a Schroeder, foi uma dessas bodegas que compraram um terreno ali. E, alguns anos depois, a própria Bodega del Fin del Mundo, que fez esse trâmite imobiliário, recomprou a propriedade. São duas operações separadas, mas a nossa visita foi como se fosse tudo uma coisa só. Primeiro, estivemos na Bodegas del Fin del Mundo, que tem como enólogo chefe o já citado Marcelo Midas, ops… Marcelos Miras.

Bodega del Fin del Mundo 3
É uma bodega gigante, com alta capacidade produtiva, e possibilidade de expansão. Tenho, como quase todo mundo, implicância com colheitadeiras mecânicas de uva. Sei de cada história… Cobras e outros pequenos animais mortos em tanques de fermentação, pedaços de madeira, sacos plásticos… Enfim. As colheitadeiras mais usuais fazem uma rapa na videira, levando vários elementos indesejados. Por isso, foi com o orgulho que, logo que chegamos à bodega, eles nos mostraram essa máquina aí, lançamento fresquinho (vi o veículo depois, em propagandas que apareciam em grandes outdoors nas estradas que saem de Mendoza, anunciando a novidade). O sistema funciona assim: um montão de hastes de um material meio duro, mas maleável, balança os cachos, fazendo cair as uvas maduras, que vão direto para uma grande caixa de armazenamento. Pelo que pude ver, funciona direitinho, ainda que haja certos danos maiores às cascas, uma chanche maior de oxidação, e fermentação espontânea. Nada se compara à colheita manual, e em pequenas caixas. Mas a tecnologia vem ajudando muito quem tem muita pressa e quer baratear os custos.

Bodega del Fin del Mundo 9
A Fin del Mundo é uma bodega muito grande.

Bodega del Fin del Mundo 10

E se não fosse uma boa coleção de obras de arte trabalhadas em barricas, a visita seria frustrante.

Bodega del Fin del Mundo 12
Quando vi essa barrica aí, confesso que pensei: “Uma espécie de boneca inflável de madeira, para enófilos”.
Ideia pouco original, ao que parece. Logo o anfitrião da tarde comentou.
– Essa aí está boa para ser vendida para um sexy shop.

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Os motivos eram os mais diversos. Havia barricas-conceito.

Bodega del Fin del Mundo 13
E outras que serviam de suporte para uma pintura, como se fosse uma tela de madeira e arredondada, com história para contar, um suporte conceitual para estampar a paisagem da Cordilheira dos Andes, que acompanha a trajetória do vinho na Argentina.

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A não ser, também, pelo fato de que pegamos um remuage acontecendo.

Bodega del Fin del Mundo 5

E também pudemos cumprimentar o Marcelo Miras, saindo de seu escritório.

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E, também, porque uma sala de barricas sempre tem o seu charme, aquele perfume de uva e madeira…

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… a bebida viva, ainda em construção, e o mistério do que virá.

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Mas, com tanto espaço, está sendo criada uma área de acolhimento de turistas, com uma imensa varanda debruçada sobre os vinhedos, restaurante, pequena pousada de luxo, lojinha etc etc etc.

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De lá seguimos até a NQN, onde encontramos uma bodega de linhas modernas, bem integrada à paisagem, praticamente encravada numa elevação, coberta de terra.

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Estavam chegando uvas. Pinot Noir, para vinho base de espumante.

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Numa cantina fresca, cercados de barricas, provamos alguns vinhos das duas casas, de diferentes estilos, uvas e gamas de preço.
Falando em borbulhas… Foi justamente com elas, e com um vinho que tinha Pinot Noir em sua composição, que abrimos a degustação, e novamente vimos que espumantes são uma vocação natural da enologia patagônica, como já falamos -e mais de uma vez – nessa série de posts sobre a região argentina.

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O NQN Malma Extra Brut Cuvée Reserve chamou a minha atenção, e tinha a própria Pinot Noir como estrela, ao lado de sua fiel escudeira, amiga de fé, Chardonnay, criando em conjunto um espumante bem harmonioso, com final agradavelmente amarguinho, um espumante com certa delicadeza e elegância, com boa acidez, muita fruta (maçã verde, morango) e umas notas florais, com frescor cítrico e a presença da levedura em boa dosagem.

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O Sauvignon Blanc Malma, límpido e fresco, foi dos que mais gostei entre os vinhos feitos com essa casta na Patagônia, com o sabor direto e cítrico de limão siciliano, com um verde de linhagem nobre, herbal, que também lembrava aspargos frescos, era um vinho ligeiro na boca, um tanto nervosinho, com a acidez picante.

NQN 5
A Pinot desfilou estilosa, em padrões interessantes, condimentada, e com algum frescor e caráter.

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Mas o vinho que mais se chamou a atenção, apesar de seu comportamento nervoso, foi o Fin del Mundo Single Vineyard Tannat 2010. Um vinho com muito corpo e estrutura, mas com uma textura agradável, bela combinação de taninos firmes e maduros com uma acidez bem marcante, num resultado longo e harmonioso, com sabores de frutas, defumados, minerais e profundos. Tipo um grande vinho uruguaio, tal o grandioso Amat. Gostaria de ver este vinho chegando aí pelos seus 10, 12 anos.

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O Special Blend 2009 seguia a mesma linhagem, um vinho bem feito de perfil internacional, poderia ser chileno ou mendocino, californiano ou australiano, bordalês… Tem uma carga forte de madeira, com muitos aromas de coco, tabaco e baunilha, além de especiarias secas, tipo canela e anis. Havia uma fruta madura quase escondida, e uma acidez correta. Um desses tintos que têm muitos adeptos, e que para mim pede por um belo pedaço de carne. Com certa gordura. Uma churrasqueira. E bons amigos à mesa. Aí, ele brilha.
Quem importa a Bodegas del Fin del Mundo é a Mr Man; e a NQN é a Vinhos do Mundo.

Vinhos da Patagônia – Neuquén, o Novo Mundo da enologia local: uma visita à bodega Família Schroeder

18/02/2015

A área de Río Negro representa a tradição vitivinícola da Patagônia. A Humberto Canale está por lá desde 1909, produzindo vinhos e frutas, como pera e maçã, durante todo esse período. É nesta zona que estão plantados vinhedos antigos, como os da bodega Chacra. Neuquén, ao contrário, representa o novo. Uma família dedicada aos negócios imobiliários encontrou no vinho uma grande oportunidade. Compraram uma grande extensão de terra, lotearam o terreno, plantaram algumas vinhas, e venderam. Quase um condomínio de bodegas.
Venderam todos os terrenos, exceto um, onde funciona a Bodega del Fin del Mundo, a maior da Patagônia. Trata-se de uma gigante que responde por cerca de 50% da produção da região, isso considerando ainda o volume da NQN, que ocupa um terreno que foi vendido, e depois recomprada pelos donos da Bodega del Fin del Mundo.
Outra das bodegas que integram este grande projeto é a Família Schroeder, que faz vinhos interessantes, e convida os turistas a uma visita, com uma boa estrutura de receptivo, incluindo um restaurante muito bom, com vista para os vinhedos, obras de arte, lojinha e até uma pequena mostra, relacionada ao esqueleto de dinossauro encontrado ali, durante a construção da vinícola.
É uma linda bodega, que bem representa a nova geração de vinícolas, que há cerca de 15 anos começaram a ocupar esta grande área em Neuquén, num empreendimento imobiliário vitivinícola.

Neuquén 1

Para chegar até lá, cruzamos o rio Limay, num ponto de belo visual, onde ele forma uma represa.

Família Schroeder 1

Um dos compradores foi justamente a família Schroeder, que ergueu ali uma linda bodega, integrada à paisagem, e com boa estrutura de visitação. Gentilmente, hastearam a bandeira do Brasil.

Família Schroeder 2 - Malbec
Um dia alguém me disse que uva para vinho não é boa de se comer. Sujeito doido esse, e sempre me lembro dessa história quando visito uma plantação carregada, e eu vou experimentando uns cachinhos. Delícia. Ao dedilhar esses Malbecs maduros, expostos ao sol, com a casca quente e a polpa suculenta e fresca, sensação marcada pelo encontro entre acidez e açúcar, e o suave amargor dos taninos.

Família Schroeder 3 - barrica pintada
A visita guiada tem bossas como uma exposição de arte, com artistas locais, que está sempre mudando, e uma barricas pintadas.

Família Schroeder 4 - barricas

Há uma área ampla, que recebe essas exposições.

Família Schroeder 5 - barricas

Com barricas variadas, algumas com tampa de vidro, para se observar o líquido. Mas, não, esses vinhos não são usados, são apenas para exibição, garantem.

Família Schroeder 6 - dinossauro

E a atração mais particular de todas é uma sala, onde foi encontrado o esqueleto de um dinossauro com 75 milhões de anos. As peças verdadeiras foram removidas para estudos e exposição, mas foram colocadas réplicas, mostrando como era o local, com painéis que contam a história da descoberta do…

Família Schroeder 7 - dinossauro

… Panamericansaurus Schroederi, que foi batizado em homenagem à família.

Família Schroeder 8 - corredor

Este corredor dá acesso á lojinha, e nele estão guardadas as garrafas que formam a coleção de vinhos da casa.

Família Schroeder 9 - restaurante
Por fim, o restaurante, que tem linda vista para os vinhedos, e uma cozinha que justifica a visita. Comi um prato de cabrito inecreditavelmente delicioso, com um “lomito” na brasa que deixou saudades (foi este o melhor pedaço de cabrito que já comi, com a carne delicada, com sabor bem marcante). Mas eu deixo o almoço para o final, seguindo a ordem cronológica da visita.

Os vinhos são atraentes. E a sua linha de entrada, livre de madeira, pura fruta, e com preços mais acessíveis, são altamente confiáveis, ótima escolha pelo que custam.

Família Schroeder 10 - Saurus brancos
A linha é ampla. Fomos degustando os vinhos por cepas. Foram muitos, formando uma belo painel da produção da casa. Primeiro, a linha de Sauvignon Blanc. Depois, Chardonnay. Todos da linha Saurus. O Sauvignon Blanc Saurus 2014 tinha pomelo e pimenta branca, pura fruta e frescor. Já o Sauvignon Blanc Saurus Select 2014 era muito perfumado, com um toquezinho de madeira, com notas de abacaxi, aspargo e um final agradável. Os dois exemplares de Chardonnay, também da linha Saurus, e ambos de 2014, era suculentos.

Família Schroeder 11 - Pinot Noir
Em seguida, Pinot Noir. O Pinot Noir Saurus 2014 era muito seco, picante, e com sabor de cereja negra. No Pinot Noir Barrel Fermented 2013, nesta linha que tem fermentação em barrica, como indica o nome, era floral, apimentado, com notas de rosas e cerejas frescas.

Família Schroeder 13 - Malbec
A próxima uva era a Malbec. Na linha de Malbec, com quatro exemplares, mais me chamou a atenção o Saurus 2014, limpo, sem madeira, fruta, fruta, fruta. O Select 2013 era bem condimentado. E o Barrel Fermented apresentava aromas florais, e um certo tostado, algo caramelado, com notas de café e chocolate, picante, e com bom volume de boca. E o S-Malbec era o mais parecido com os exemplares de Mendoza, rígido, concentrado, e com uma pouco mais de madeira do que eu gostaria.

Família Schroeder 15 - Merlot
Eu, que já vinha investigando as virtude da Merlot patagônica apreciei o trio produzido com ela (esta uva não tem o Barrel Selection). O Saurus tinha a franqueza da uva, as frutas frescas se exibindo, amaparadas por uma textura fina, sedosa e ligeira. Um vinho direto, fácil, seguro. Outro que me marcou, minha escolha para levarmos à mesa, foi o S-Merlot 2011, com aquela textura aveludada, baunilha, não chegando a ser enjoativa. Um vinho vigoroso, mas com agradável frescor.

Família Schroeder 16 - Cabernet
Foi então a vez do Cabernet Sauvignon.
Fechando o ciclo, um corte de Pinot com Malbec, uma representando a Patagônia especificamente, a principal uva local, outra em nome da Argentina, a uva tinta nacional.

Família Schroeder 17 - espumantes
Gostamos muito dos três espumantes da casa, provados ao final da degustação, e levados à mesa.

Família Schroeder 19 - espumantes

Eram eles, da esquerda para a direita: o Brut Nature (rosadinho, muito bom), o Rosa de Los Vientos (um rosado quase tinto, mas com frescor e delicadeza) e o Saurus Extra Brut.

Família Schroeder 20 - brut nature

Meu preferido? O Brut Nature, claro. Repare que linda a sua cor. Era fino e delicado, com puro sabor de maçã vermelha, umas notas florais, rosáceas.

Família Schroeder 21 - truta patagônica

O almoço foi inaugurado com um amuse bouche bem divertido, uma torradinha com pastinha de truta patagônica e um toque de beterraba.

Família Schroeder 22 - entradas

Depois, teve um pout-pourri de entradas. Lagostins patagônicos defumados com creme ácido e abacate; prensado de coelho com pimentão assado, purê de damasco e aioli; tentáculos de polvo marinados e truta da Cordilheira confitada sobre salada de quinua andina e folhas baby.

 

Família Schroeder 24 - cabrito
E seguindo a recomendação de minha guia, pedi o cabrito em dois cozimentos. Um filezinho não menos que excepcional, e uma paleta desfiada. O “lomito de chivito” estava sensacional, chamuscado na brasa, com os sabores defumados da lenha, e uma maciez inacreditável, e uma delicadeza de sabor inesperada.

Família Schroeder 25 - sobremesas
A sobremesa, assim como a entrada, foi um apanhado do menu. Louva-se aqui a qualidade da cheesecake de doce de leite, e também essa suave combinação de pêssego e suspiro, bem como um brownie com calda de frutas vermelhas.

Família Schroeder 26 Deseado

Como os doces, provamos ainda um quarto espumante da casa, o Deseado, feito como um Asti, com fermentação direta, na garrafa, e com baixo teor alcoólico, uma belezura, quase um suquinho, perfumado, com boa acidez, agradável, levemente doce. Bem melhor que 90% dos Asti que eu conheço. Fechamos com estilo, reforçando a nossa impressão de que os espumantes estão entre os destaques da produção vinícola da Patagônia.

Quem importa é a Decanter. E deixo o link para o site da bodega.

Família Schroeder 26 - vinhedo

Saímos com pressa, em direção à Bodega del Fin del Mundo, tema do post de amanhã (para ler, clique aqui). Com pressa, mas admirando os vinhedos…