Archive for the ‘Bares e restaurantes’ Category

Tempêro com Arte: bom, bonito e barato, um restaurante para todas as horas em Teresópolis (e o favorito da filha)

14/12/2010

– E aí, onde vamos jantar hoje?
– Quero uma pizza no Tempêro com Arte.
– Mas de novo?

O agradável salão com a bonita adega: bom, bonito e barato

Sempre que pergunto à filha, em Teresópolis, onde ir comer ela me vem com essa resposta (sim, pergunto a ela onde ir, e geralmente cumpro as suas vontades). Não adianta eu sugerir o banquete russo da Dona Irene, as receitas ótimas de bacalhau da Camponesa da Beira, ou mesmo as pizzas delicadas da Manjericão, ou as especialidades alemães da taberna Alpina, ou os gloriosos pescados do Caldinho de Piranha. De nada adiantam as minhas alegações. Quase que invariavelmente acabamos lá Tempêro com Arte (sim, com circunflexo: imagino que seja porque ali o tempero é acentuado), devorando pizzas feitas com carinho no forno a lenha, isso quando não pedimos o indecente e delicioso filé ao pato, que combina catupiry e alho frito com um mignon alto e bem grelhado, escoltando por feijão cremoso, arroz soltinho, batata frita sequinha e farofa bem tostada. Ontem não foi diferente, tudo terminou em pizza.

Maria faz palhaçada na "bodega": visita obrigatória, ainda mais no calor

O restaurante, que já tem 19 anos de estrada, apresenta uma relação qualidade-preço admirável. Para começar, a comida é boa e barata, assim como a carta de vinhos, com boa oferta e preços para lá de interessantes, talvez seja a menor margem de lucro entre os restaurantes fluminenses (não conheço melhor).

O forno para as pizzas: charmoso e bonito, né?

Como se isso fosse pouco, todo o resto conspira a favor de uma linda refeição. A começar pelo serviço, que é simpático, eficiente e competente (o serviço de vinhos é feito por gente bem treinada, que sabe indicar bons rótulos, sem ganância, e ainda cumprem bem toda a liturgia que envolve a bebida). Até o guardador de carros é muito mais simpatico que a média. O ambiente também é muito agradável, um casarão com piso de madeira e paredes de tijolinho, onde chama a atenção o forno a lenha que assa as pizzas e os cormicioni, a massinha preparada de maneira crocante, com coberturas simples como uma deliciosa combinação de alho frito com queijo. A adega é linda, e a Maria sempre pede para visitar o que ela chama de bodega (ali dentro, preciso ficar atento, porque a moça levada troca as etiquetas dos vinhos).

O cardápio é realativamente extenso, apresentando receitas para todos os gostos e estações do ano. Há, por exemplo, uma boa seleção de sopas perfeitas para os dias frios e de saladas, ótimas pedidas para o verão.

O cardápio de ontem, muitas vezes repetido: pizza metade alla'rabiata metade calabresa com azeitonas verdes

Entre as entradas aprecio bastante o charolais na brasa (este queijo de cabra assado no forno à lenha com folhas de rúcula e tapenade), do comiccione rosso (massa de pizza fina e crocante com molho de tomate, alho e parmesão) e do encorpado caldo de feijão. Na maioria das vezes peço mesmo uma pizza. Adoro a Tempero alla’rabiata (com linguicinha, cebola e pimenta dedo-de-moça fatiada), e também a funghi e copa (com mussarela, cogumelos frescos refogados e fatias de copa) e a Genéve (com queijo caprino romano St. Maure e tapenade). Ontem dividimos uma metade Tempero alla’rabiata, metade calabresa.

Há uma boa seleção de massas, na qual destaco o ótimo nhoque de mandioquinha. Nós mesmos escolhemos o molho e, neste caso, fica perfeito o de quatro queijos (quem quiser pode pedir um filezinho também, que vai muito bem, obrigado).

Aos sábados a feijoada é um pedido certeiro, com tempero correto, tempo exato de cozimento das carnes e bons acompanhamentos. Consegue um feito raro: não é muito pesada.

Alguns pratos me chamam a atenção, mas nunca provei embora fique sempre tentado, como o coelho ao vinho branco, o filé de pernil ao molho de limão e a sopa de abóbora com carne-seca e gorgonzola. Ainda hei de provar.

Entre as sobremesas, me encantam os “Doces da Tia Cléo” (de abóbora com coco, de laranja da terra e de banana). Há outras clássicos da doçaria de restaurantes, como pudim de leite condensado, petit gateau, torta alemã, brownie, romeu e julieta, mousse de chocolate. A filha pede sempre uma pizza de banana, vez ou outra com chocolate (ou borda de). Essa, geralmente, eu dispenso. Um dia, espero eu, ela também vai abandonar o hábito. Sou mais as compotas caseiras, o pudim, os bolos…

Quando vejo que a filha insiste em sempre comer lá, o que é do meu agrado, vejo que, desde muito menina, ela mostra bom gosto à mesa. Ontem, me orgulhei, ao fim da refeição.

– Papai, quando eu crescer também vou querer ter um trabalho igual o seu.

Só isso já valeria a viagem até Teresópolis. Mas ainda teve as fatias de pizza compartilhadas entre nós, a redação da cartinha pro Papai Noel, um vinho gostoso… E, mais importante de tudo, o delicioso ato de se matar as saudades.

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Bar do Gomez, um certo armazém de Santa Teresa

13/12/2010

 

Bacalhau, cebola, azeitonas, azeite, pimenta e chope...

O nome oficial é Armazém San Thiago, mas quase ninguém conhece assim. Quando quiser um boteco autêntico em Santa Teresa o melhor é perguntar pelo Bar do Gomez, para mim o mais divertido, bonito, autêntico e gostoso do bairro montanhês.

Para começar, como deveriam ser todos os bares, fica numa casa de esquina (da famosa rua Áurea com uma outra que ignoro). À direita de quem entra, um grande balcão, de onde saem chopes tirados à perfeição, com colarinho espesso e líquido dourado com bom nível de borbulhas, servido, como manda a regra, em copo tipo schinitt, tal os melhores da cidade, como o alemão Bar Brasil e o português Adonis.

Neste balcão existe uma estufa que mantém aquecidos alguns acepipes que são especialidade da casa, como os bolinhos de bacalhau e de carne, as empadas, os croquetes. Todos bem feitos. Ao menos nos fins de semana, quando a casa fica lotada, não se preocupe com o inevitável ressecamento que este recurso impõe, porque eles são vendidos às dezenas, e não dá tempo de ficarem ruins submetidos aos calor. Mas o fato é que o melhor a se fazer é ficar à espreita e aguardar a bandeja sair da cozinha, para pedir os salgados antes mesmo de entrarem na vitrine aquecida, fresquinhos. Assim é mesmo melhor.

Outra virtude é haver boa pimenta malagueta preparada ali, e azeite, que também temperos adequados a boa parte das receitas. Se há Tabasco, não vi… Isso, como se sabe, soma ainda mais pontos para este lugar na minha estima. Tabasco em boteco é algo grave como chope quente e sem colarinho, ou cerveja choca.

A casa é de origem espanhola, mas tem bem um jeitinho português, sendo mesmo os nacos de bacalhau com cebolas e azeitonas a melhor pedida de petisco.

Mas o que faz do Armazém San…, ops, do Bar do Gomez um lugar especial nem é exatamente a sua boa comida, mas principalmente a ambiência, um belo salão à moda antiga, com mesas de mármore e cadeirinhas de madeira, muitos quadros pela parede (fotos do começo do século passado, recortes de jornal… ) e armários graciosos, daqueles típicos dos secos e molhados de outrora, cenografia original, e muito linda. Seria capaz de ir lá só para apreciar a decoração do lugar. Isso sem falar numa cordialidade gostosa dos atendentes. Tem um clima que não se encontra mais facilmente por aí, sabe¿ Um Rio que vai se perdendo e a gente quer encontrar. E, é claro, o fato de estar em Santa Teresa. O que já não é pouca coisa.

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Restaurante da Alzira, no Cais da Ribeira, ótima pedida no Porto

10/12/2010

Com paredes de pedra e um serviço simpático, a casa serve ótima comida

Ontem, eu, a Deise Novakoski, o João de Souza e o Alexandre Lalas, no intuito de, finalmente, podermos comer bem nesta viagem de gastronomia sofrível (a culpa não é de Portugal, mas da organização) nos desgarramos do grupo.

Primeiro visitamos o bonito, mas muito mal cuidado, mercado do Bolhão, com linda estrutura de ferro e um time de barraqueiros que pode ser divertidíssimo ou muito mal educado.

De lá visitamos uma bela confeitaria, com serviço muito ruim. E decidimos ir até o Cais da Ribeira para almoçar. Pedimos informações sobre como chegar até lá caminhando a um trio de homens que estava a atravessar a rua. Depois, pedimos uma dica de restaurante por lá. Eles nos indicaram, mostrando conhecimento de causa, o Restaurante da Alzira.

– Ei, já ouvi falar bem deste lugar, vamos lá? – eu disse.

E lá fomos nós descendo as ladeiras da cidade do Porto. Chegamos ao cais e achamos o restaurante, de frente para o Rio. É um lugar muito agradável, com paredes antigas de pedra e um serviço mui simpático.

Fizemos uma bela refeição. Quando subi para ver o andar de cima da casa, estava sobre a mesa uma travessa com belo pedaço de lombo de porco rodeado por batatinhas ao forno. Que perfume. Ali percebi que iríamos ter um belo almoço. E assim foi. Perguntei pelo prato, e o garçom informou que era o almoço deles, os funcionários. Nunca tive tanta vontade de ser garçom…

Pois o nosso almoço não ficou para trás. Começamos com as melhores sardinhas fritas que já provei, na companhia de um lindo bruto. Depois pedimos um branco, que escoltou o sublime e cremoso arroz de tamboril, que também levava uns camarões, com tempero forte, untuoso, uma delícia. Encerramos o percurso salgado com um cabrito com batatinhas ao forno, na escolta de um tinto (mas o prato também foi bem com o branco que ainda restava no copo). Fechamos o almoço com um lindo rocambole de laranja (e também provei uma torta de chocolate e um toucinho do céu). Tudo, é claro, na companhia de uma garrafa de Porto, o que é sempre bom, mas ainda consegue ser muito melhor quando apreciado ali, de frente para a Vila Nova de Gaia, onde estão os armazéns que guardam esta preciosa bebida. À nossa frente estava o armazém da Noval, que dispensa apresentações.

Depois de umas boas três horas à mesa, voltamos muito felizes para o hotel, para inveja dos colegas que almoçaram muito mal, uma vez mais. Assim, até pude dispensar o inacreditável jantar que, apesar dos bons vinhos, foi servido de pé (que horror).

Hoje espero novamente poder fugir do grupo…

Um almoço no Solar dos Nunes

07/12/2010

Queijo de Azeitão, presunto de porco preto, azeitonas... só pra começar

Rua dos Lusíadas número 70. Até o endereço é uma delícia. O Restaurante Solar dos Nunes é uma preciosidade em Alcântara, perto de Belém. E foi lá que almocei ontem, minha refeição inaugural nesta rápida viagem por Portugal. Além do mais, adoro restaurantes que tenham nome e sobrenome, e os Nunes, pai, filho e filha, estão sempre lá, a tocar o negócio. Fiz reserva do hotel (segunda-feira é um dis complicada para se comer fora em Lisboa. Tentei o Tavares, o Conventual, mas todos “encerram às segundas”). Ao chegar ao restaurante, depois de visitar o sensacional aquário, a mesa estava deliciosamente posta, com pratinho de presunto de porco preto, uma queijo de Azeitão e um pratinho de azeitonas. Não demorou para chegar menu e carta de vinhos. Pedi, ainda, uma farinheira, que logo chegou em um pratinho. O lugar é bárbaro. Tem chão de pedras portuguesas e, pelas paredes, que às vezes são de madeira, uma uma série de pratos, além de muitas reportagens de jornais e revistas, que revela uma clientela conhecida: Ivan Lins, Gilberto Gil, Djavan… A casa tem um estilo bem alentejano, que me fez lembrar o inesquecível restaurante O Fialho, em Évora, verdadeira instituição portuguesa, como o Solar dos Nunes também me parece ser. Escolhi, por sugestão do garçom, um empadão de perdiz, a 10 euros. Estava bastante bom. O cardápio é muito interessante, com muitos pratos de peixes e frutos do mar (tinha açorda de cherne com lagosta, a 39 euros, para duas pessoas) e de caças (lebre, coelho selvagem, javali, veado, perdiz). À certa altura o dono veio até a mesa, saber se tudo corria bem. Sim, estava tudo ótimo. Mas queria saber se era possível eles prepararem uma porção diminuta dos lombinhos de veado, que fiquei tentado a provar. Claro que sim, foi a resposta que eu já esperava mesmo. E comi, pela primeira vez, um veado. Até que foi bom. A carne foi servida com grelos (!), creme de espinafre, torradinha com geléia de framboesa e uma saladinha. Delícia. Depois ainda houve tempo para um leite creme, bem melhor do que 99,9% dos creme brulée que já pude provar. Pedi um café, a conta e me fui embora, muito contente com a minha primeira refeição.

Cabrito do Nova Capela, por Claude Troisgros, para encerrar o assunto

21/11/2010

Cabrito, alho, arroz com brócolis: receita da felicidade à mesa

“A gente vai comer o pernil de cordeiro do Capela porque sabe que ele está sempre do mesmo jeito, isso é consistência, algo muito importante”.

Cabrito ou cordeiro, não importa. O fato é que a frase foi publicada ontem na coluna Gente Boa, de O Globo. E o autor é ninguém menos que o Claude Troisgros. Simplesmente ele. Vai ver que o cara não entende nada de comida, né?

De lambuja, e só de sacanagem, o restaurante que serve bolinho de bacalhau ruim, cabrito decadente e chope mal tirado, esse mesmo lugar ainda faturou o título de “melhor restaurante tradicional do Rio de Janeiro” no Prêmio Rio Show de Gastronomia, na noite de quinta-feira. Pois é.

Quem quiser saber mais sobre o assunto é só clicar aqui ou aqui.

Este blog, pessoalmente, declara totalmente encerrado por aqui esse assunto. E, na outra semana, depois de voltar da jornada nordestina, uma viagem à beira mar de Fortaleza aos Lençóis Maranhenses, aventura que se inicia hoje, vamos ao Nova Capela comer bolinhos de bacalhau, perninhas de cabrito e derrubar alguns chopes. Pra comemorar.

E viva o Nova Capela! E viva a tradição gastronômica carioca!

 

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O mistério das empadas serranas e praianas

20/11/2010

Empadinhas da Leiteria Santo Antônio, um clássico de Teresópolis, verdadeiras obras e arte: com ou sem pimenta?

Tem coisas que são engraçadas, né? Aqui no Estado do Rio são muito famosas a tal “Empada Praiana”. Ainda mais conhecida é a marca Empada Brasil – que faz questão de agregar ao nome a sua origem, Petrópolis. Temos ainda a também célebre Empada Carioca, que já chegou até a Rondônia.

Acontece que, em primeiro lugar, as melhores empadas não são encontradas na praia, mas na serra. Não são praianas nem cariocas. E, em Petrópolis, as melhores empadas são outras que não a tal Brasil. Duas empadas petropolitanas me chamam muito mais a atenção, e na verdade são muito mais gostosas: as da padaria Pão & Pão, em Nogueira, e a de queijo servida na Pousada Alcobaça. Muito boas.

Não Pão & Pão, uma portinha deliciosa na pracinha da estação de Nogueira, bem em frente a ela, todas as empadinhas são forradas com catupiry e depois cobertas com recheio e a massa, que é leve e gostosa. Tem vários recheios legais, tipo carne-seca, camarão. Mas acho que a minha preferida é a de berinjela. São, todas elas, bem melhores que as praianas, brasileiras, cariocas.

Na Alcobaça, onde só estive uma vez, comi uma empadinha deliciosa, caseira, macia, aconchegante. Demais.

Em Teresópolis também como empadinhas sublimes, bem melhores que essas mais afamadas. A começar pelas que são servidas na Leiteria Santo Antônio, no Centro da cidade, na Rua Duque de Caxias. Eles servem ali umas empadas maravilhosas, com recheios impressionantes, todos apresentados em duas versões: com ou sem pimenta, e eu sempre peço as com. A de carne-seca é obra de arte.

Ao lado da gostosa pizzaria Manjericão, ainda em Teresópolis, na outra esquina, tem um cara que faz empadas também lindas. Ele fica ali, na saída do Comary, com seu carrinho em vermelho e branco, vestido impecavelmente com calça e camisa social. Da chaminé de seu carrinho sai uma fumaça. E eu sempre passava por ele, sem fome, mas curioso para provar o acepipe. Até que um dia parei. Comi umas de três. Se me lembro bem, de camarão, carne-seca e calabresa. Todas estavam deliciosas, não só pela massa com aquelas importantes propriedades já apresentadas nesses texto, como a leveza, mas também pelos recheios, com gostinho caseiro, de comida da vovó. E ainda tem o cheirinho de fumaça, que não assa  o salgado, como eu acreditava, mas apenas mantém quente a pequena estufa que guarda e exibe as gostosuras. Custa R$ 2 cada uma. Relação custo-benefício em termos de prazer muito difícil de se superar. Ah, a empada da Leiteria Santo Antônio também custa R$ 2, e igualmente é capaz de causar calafrios de tão gostosa. Ainda mais se ela vier, como sempre vem, na escolta de uma boa e gelada cerveja.

Prêmio Rio Show de Gastronomia confirma: 2010 foi o ano de Roberta Sudbrack

19/11/2010

Roberta Sudbrack voltou para casa merecidamente com três prêmios: melhor chef, restaurante e contemporâneo. Bem que eu avisei...

Depois do jantar de apresentação da nova coleção da Roberta Sudbrack, eu disse que a chef ia faturar todos os prêmios de gastronomia este ano. Não deu outra, faltava apenas o Prêmio Rio Show, que foi entregue ontem. E ela fez barba, cabelo e bigode, ganhando três troféus: melhor chef, melhor restaurante e melhos restaurante contemporâneo.
Antes a chef já tinha ganho os prêmios da Vejinha, da Prazeres da Mesa.
Bem, acertei a previsão. Mas não há mérito nisso. Foi fácil. Depois de provar o novo cardápio da casa do Jardim Botânico, não tinha como não acertar.
A cozinha da Roberta Sudbrack foi o destaque do ano, não no Rio de Janeiro, mas no Brasil.
Parabéns, chef. Foi merecidíssimo.

Quem também brilhou ontem foi o Le Pré Catelan de Roland Villard, que ganhou os prêmios de melhor restaurante francês da cidade e também o de melhor decoração. O Braseiro da Gávea também se saiu muito bem, ganhando os prêmios de melhor para paquerar (que termo mais antiquado, né?) e custo-benefício. Outro que ganhou dois quadrinhos para prender na parede foi o o Garcia & Rodrigues, que triunfou em doce e café da manhã. E também o Astor, absoluto como melhor novidade (justo) e melhor para namorar (muito injusto). O Cipriani por sua vez ganhou o prêmio de melhor Italiano do Rio. O Adegão Português ganhou na sua especialidade (isso agora, depois que Antiquarius, Celeiro, Gero, Olympe e Satyricon foram alçados à categoria hors-concours, e nãop puderam concorrer). Também fez belo papel o Nova Capela, que ganhou o de melhor tradicional, o Jobi, que levou para casa o troféu de melhor pé-limpo, enquanto o Pavão Azul ganhou o de pé-limpo. O Bar Urca também deveria virar hours-concours, porque aquela mureta, ainda que os debilóides do poder público queiram acabar com isso, aquela mureta é imbatível. O Sawasdee venceu na categoria oriental, enquanto o Terzetto ganhou em vinhos, o Porcão em carnes, o Fasano al Mare em serviço, o Amir em árabe, o Gula Gula em salada, o Albamar em peixes e frutos do mar e por aí vai. Uma pequena observação: achei boa a ideia de cada jurado votar em dois restaurantes, acho que assim o resultado acaba refletindo melhor a opinião de todos.

Papelão mesmo fez este blogueiro. Que foi ao banheiro no exato momento em que foi chamado para subir ao palco para entregar o prêmio. Que vergonha. Mas o melhor de tudo foi escutar o meu nome sendo dito na voz da Maria Fernanda Cândido, na hora da apresentação dos jurados. Fiquei até vermelho…

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O cabrito do Nova Capela: mais duas opiniões respeitáveis

18/11/2010

O comentário do Bicho: "A camada externa que eu julgava seca se mostrou – já na primeira mordida – na verdade muito crocante. O interior que eu imaginava rançoso veio concentrado com aquele sabor deliciosamente cordeiroso. A gordura solidificada tinha se transformado em carne muito úmida e macia"

Muito bom este link aqui embaixo, do Que Bicho Me Mordeu, sobre o cordeiro (ou seria cabrito?) do Nova Capela.

 http://quebichomemordeu.wordpress.com/2009/09/19/o-que-o-japao-sim-aprende-do-rio

Aliás, falando nisso, o Moa me escreveu dizendo que “vc sabe que o Rio é tão charmoso no andar, na natureza, nas pessoas, que a gastronomia é tratada como cotidiano  banalizando raridades como a empada do Carangueijo, a fritada do Paladino ou o cabrito do Capela, uma excelência no paladar da madrugada: – gosto muito!”
No Nova Capela, o sublime vira banal.
Está dito por quem sabe.

E ainda tem mais. Ontem, depois de eu escrever este post, o Nova Capela faturou o Prêmio Rio Show de Gastronomia de “Melhor Cozinha Tradicional”. Pior é que tem gente que acredita que, ao falar mal do Nova Capela, está contibuindo para formar uma “massa crítica”, seja lá o que isso signifique, gente que acredita que, assim, está contribuindo para a gastronomia carioca. Francamente…

Para saber mais sobre este assunto, clique aqui.

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Mosteiro: um restaurante que merece uma missa em sua homenagem (e uma pensata sobre o trabalho das assessorias de imprensa e o dos repórteres)

17/11/2010

O salão classudo, com muita madeira, sempre tem gente, uma clientela fiel (e bastante sabida)

Outro dia li no blog da Luciana Fróes uma crítica de uma leitora se queixando das assessorias de imprensa. Segundo ela seriam essas empresas as responsáveis por restaurantes tradicionais fecharem as portas, no caso o post falava do Astrodome.
Mas que bobagem. As assessorias apenas fazem o seu trabalho. Quem está errado mesmo são as pessoas que escrevem sobre restaurantes, que aceitam qualquer pautinha besta, do tipo que junta dez clientes de uma mesma assessoria. Estão errados os assessores? Não, errados estamos nós, os repórteres, e também os críticos e outras denominações para pessoas que escrevem sobre comida. Já vi matéria com uns sete ou oito restaurantes, todos da mesma assessoria. Pode? Não deveria poder, mas sabe como é, né? Repórter até pode aceitar sugestão de assessoria, mas seu dever é estar na rua vendo o que há de novo. Repórter até pode visitar restaurante a convite, mas seu dever é frequentar os restaurantes da cidade por sua conta. Quem deve pautar o repórter, afinal, é ele mesmo, seus leitores e seus editores, e não os assessores. Mas não é que o tem acontecido, e isso não se restringe à área da enogastronomia, que fique claro. Repórter até pode pedir informações por e-mail, na correria. Mas seu dever é ir apurar as coisas onde elas acontecem. É entrevistar pessoalmente, ou pelo menos pelo telefone. É ver para crer. Ou não crer.
Esse preâmbulo é só para falar de dois restaurantes tradicionais que vivem lotados e não têm assessoria de impresa, visitados por mim não faz muito tempo: o luso-internacional Mosteiro, no Centro, e a churrascaria Majórica, no Flamengo (como hoje uma chuleta lá que não me sai da memória: com gosto de churrasco de antigamente, sabe? Um defumado de carvão e gordura. Delícia).
Não tem jeito: entra ano, sai ano, eles estão sempre cheios, e não precisam de assessoria de comunicação, porque servem comida honesta, sem firulas. Não precisam de mídia. Basta continuarem fazendo o que fazem há décadas: servir boa gastronomia.
Primeiro vamos falar do Mosteiro, que há muitos anos ostenta estrela do Guia Quatro Rodas, honraria maior da gastronomia brasileira (outro dia tratamos da Majórica, que me encantou). Esse restaurante tradicional do Centro do Rio andou saindo nos jornais não faz muito tempo. Mas não pense que foi por causa da sua comida, que é muito boa, mas pelo simples fato de que a casa pertence ao pai do ministro da Saúde José Temporão. Olha só que coisa… Até houve quem tivesse louvado as suas empadas, os pratos de bacalhau fartos e bem feitos. Mas o assunto nem era esse, eram as visitas do Temporão, filho, ao restaurante. Veja só que coisa esquisita…

Empadas irresistíveis circulam pelo salão: peça-as, por favor

Pois bem. O Mosteiro é um endereço certeiro para uma refeição à moda antiga no Centro. Nada de espuma, nada de louça chamativa, nada de sommelier famoso ou moça bonita na porta (que fique claro, não sou contra nada disso, até pelo contrário, mas quero reforçar que um restaurante não precisa disso. Pode ter, é interessante, mas não precisa). No Mosteiro tem boa comida, e só. E alguém lá precisa de algo mais que isso?
Pois então vamos falar dela, a cozinha, que é na verdade a única coisa que importa verdadeiramente em um restaurante. O resto é isso, o resto: serviço, talheres de prata, toalhas de linho… De que adianta se a comida é ruim? De nada, ao menos pra mim. Comida ruim, afinal, é o fim (e foi mal pela rima pobre, que não foi proposital).

Bolinhos de bacalhau também são oferecidos à mesa pelos garçons: regue com azeite e pimenta e seja feliz

No Mosteiro é praticamente obrigatório começar o trabalho com as empadas e os bolinhos de bacalhau, que vão circulando pelo salão sempre quentinhos, servidos pelo garçom (não acredito que você pensava que esse recurso tinha sido inventado pelo Belmonte, né?). São ótimos.

O Mosteiro tem até aqueles carrinhos de bebida , que andam sumidos por aí

Enquanto degustamos os acepipes e avaliamos o cardápio é possível apreciar o salão elegante, com muita madeira e até alguns detalhes de gosto muito duvidoso, como a fonte que enfeita (eu disse enfeita???) a entrada.

Na adega repousam ótimos vinhos, com destaque para os portugueses

Na bonita adega repousam grandes vinhos, e outros não tão bons asssim, mas com preços justos, por isso, quase todas as mesas têm garrafas sobre elas.
Avaliando as entradas se percebe claramente as fortes inclinações lusitanas (sardinha com salada de agrião, queijo da Serra da Estrela…). Essa impressão se confirma ao percorremos o restante do menu, cujo setor mais importante, e vasto, é aquele dedicado aos pratos de bacalhau: são dez receitas no total, entre elas o Mosteiro (grelhado, com brócolis, cebola, ovo e batatas cozidas), o à Zé do Telhado (lascas grelhadas com cebola, azeitona, batatas, pimentão e gratinado) e a fritada de bacalhau à Jair Coser (lascas de bacalhau, ovos, cebolinha, salsa, tomate e batatas cozidas).
Outra seção altamente relevante é aquela, logo abaixo, que lista os pratos de peixes e frutos do mar, que igualmente merece consideração. Tem um monte de coisa boa, veja se não tem: haddock escocês defumado à beurre noir (cozido ao leite com batatas cozidas), risoto de Camarão VG à Don Rivera (com arroz, tomate, cebola e ervilhas e grão), espetada mista de frutos do mar (com polvo, lulas, camarão, peixe, pimentão e cebola), frutos do mar à provençal (lulas, peixe,camarão, polvo e molho de tomate), polvo à Don Luiz Leite (guisado com arroz e brócolis), polvo grelhado com arroz e açafrão, moqueca de badejo, entre outros. Um dia vi no salão ser servido um camarão ao catupiry. E até eu, que desenvolvi certa aversão a esse queijo, que considero gostoso, até eu fiquei vontade de ir lá e pedir esse prato que na adolescência já foi a minha receita favorita.
Aliás, reparou quantos pratos levam nome de gente?
E o restante do menu continua assim, um festival de clássicos: filé chateaubriand (tornedor com molho de champignon e arroz à piamontese), filé mignon à La Broche (ponta de filé mignon com batata prussiana), tornedor ao molho de mostarda com batatas cozidas, filé à Oswaldo Aranha e assim por diante. Como boa casa portuguesa é servido um substancioso arroz de pato, com certeza. E, entre as sobremesas, uma bela seleção de doces da terrinha, como a barriga de freira, o toucinho do céu, o pastel de natas. Mas também tem goiabada com queijo, morango com chantily e até um irresistível mineiro de botas (para quem não sabe, e sei que muita gente não sabe, trata-se de uma combinação de banana, queijo minas, ovo, canela e açucar caramelizado. Belezura).
Já estive no Mosteiro umas cinco ou seis vezes. Nunca foi barato, mas sempre saí de lá feliz da vida. O Mosteiro, na Rua São Bento, merece uma missa. Com direito a canto gregoriano, como a que acontece perto dali, no Mosteiro de São Bento que, aliás, lhe empresta o nome e batiza a sua rua.

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Rio Minho: restaurante mais antigo do Rio, inaugurado em 1884, um porto seguro para comer pescados

16/11/2010

A porta de vidro para o salão refrigerado: entrada do restaurante mais antigo do Rio de Janeiro, segundo do Brasil, inaugurado em 1884

Era uma barganha. E me lembro bem do preço e ocasiões, todas elas (ou quase todas). E olha que foram muitas.
Dizer que me lembro do preço é meia verdade. Recordo-me só mesmo que era barato, coisa de uns R$ 12, numa quantidade que acredite você dava até para dividir entre duas pessoas sem fome avassaladora, o que não é o meu caso (mas já vi duas damas e até casais, repartindo o prato farto, transbordando tentáculos de polvo).

A fachada do Rio Minho, outro clássico carioca

O cardápio do Rio Minho, o restaurante mais antigo do Rio de Janeiro e, segundo constam os arquivos históricos, o segundo mais velho do Brasil, atrás apenas do espetacular Leite, em Recife, mas, pois bem, o cardápio do Rio Minho não é extenso nem curto, trazendo uma seleção de receitas que valoriza os pescados que o dono, o espanhol Ramon Dominguez, vai diariamente buscar em Niterói (o restaurante já pertenceu a portugueses, daí o seu nome, mas desde a década de 1980 o dono é esse espanhol zeloso, que dá expediante ali todos os dias).
– Acordo uma três e meia para logo depois das quatro estar chegando ao mercado para comprar peixes, crustáceos, mariscos.

A fachada do restaurante na Rua do Ouvidor: o "bunda de fora" está escondido na Avenida Alfredo Agache, com vista para a Perimetral

O restaurante inaugurado em 1884 tem ambiente à moda antiga, e garçons como tal. Mas no salão refrigerado, confesso, estive pouco, umas cinco vezes, sempre em missões oficiais (uma vez almoçando com diretores do jornal, nos tempos de JB, noutra com o pai e um amigo, numa outra como inspetor do Guia Quatro Rodas, e por aí vai). Fui muito ao Rio Minho. Por alguns períodos semanalmente, eu diria. Mas sempre gostei – e era o que podia pagar – de ficar no balcão ao estilo “bunda de fora”, essa estética botequeira tipicamente carioca na qual derrieres ficam voltadas à rua, num projeto arquitetônico de valorização de espaço absolutamente genial. Preferia ficar lá por várias razões, entre as quais o fato de que ali os pratos custam a metade do preço do salão. Nem é metade exatamente. A matemática é mais complexa. Os pratos no balcão “bunda de fora” custam cerca de um terço do preço dos que são servidos no salão, trazendo apenas um pouco mais que  metade da quantidade, servida num prato. Sim, é um PF mesmo. Dos melhores que já comi na vida.

Bolinhos de bacalhau: entre os melhores da cidade, com casquinha crocante e recheio de massa muito saborosa e bem temperada

Enquanto isso, lá dentro, cada receita é apresentada elegantemente, como nos melhores restaurantes, em travessas, em quantias fartas para serem compartidas por pelo menos duas pessoas (bom mesmo é estar em grupo, e pedir várias receitas, para ir mordiscando tudo, aleatoriamente: primeiro os bolinhos de bacalhau carnudos, depois os camarões gordos, os lagostins explosivos, o cherne tenro, a lagosta apetitosa, os anéis de lula crocantes, e o polvo que parece manteiga quente de tão macio.  Impressionante como são bons os frutos do mar e peixes no Rio Minho. Impressionante. Fecha parêntese).

Detalhe dos azulejos da fachada do restaurante

 Pra provar um pouco de tudo, a melhor pedida é o misto de frutos do mar grelhados, com filé de cherne, polvo, camarões, cavaquinha, mexilhões e lulas preparados na chapa e acompanhados de arroz de brócolis e alho frito. Mas este prato só está disponível no salão.

O poalvo ao alho e óleo custa cerca de R$ 20: não há comida melhor no Rio de Janeiro a este preço

Não tem problema, o cardápio “bunda de fora”, se não é extenso, pelo menos é varido e consitente. Tem bobó de camarão, cherne com molho de camarão, sopa Leão Veloso, que teria sido criada ali, polvo ao alho e óleo com arroz de brócolis (sempre com uma porção extra de alho frito). Nessas sinfonias marinhas sempre cabe um belo fio de azeite e algumas colheradas (ou gotículas, dependendo do gosto de cada um) do forte molho de pimenta da casa, belo conjunto de malaguetas adormecidas num caldo bem temperado, com louro e alho, acredito, num resultado aromático, intenso e ardente, como devem ser os molhos de pimenta que infelizmente andam em faltam por aí, assim como as boas casas do ramo “comida brasileira simples e bem feita”).
Gostava de acompanhar o almoço com um garrafa de Serramalte, isso num tempo em que Serramalte não era cerveja servida no Rio de Janeiro, mas no Rio Grande do Sul. Não havia, como há hoje, em qualquer boteco. Mas no Rio Minho tinha.

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