Archive for the ‘Bares e restaurantes’ Category

Um almoço no Solar dos Nunes

07/12/2010

Queijo de Azeitão, presunto de porco preto, azeitonas... só pra começar

Rua dos Lusíadas número 70. Até o endereço é uma delícia. O Restaurante Solar dos Nunes é uma preciosidade em Alcântara, perto de Belém. E foi lá que almocei ontem, minha refeição inaugural nesta rápida viagem por Portugal. Além do mais, adoro restaurantes que tenham nome e sobrenome, e os Nunes, pai, filho e filha, estão sempre lá, a tocar o negócio. Fiz reserva do hotel (segunda-feira é um dis complicada para se comer fora em Lisboa. Tentei o Tavares, o Conventual, mas todos “encerram às segundas”). Ao chegar ao restaurante, depois de visitar o sensacional aquário, a mesa estava deliciosamente posta, com pratinho de presunto de porco preto, uma queijo de Azeitão e um pratinho de azeitonas. Não demorou para chegar menu e carta de vinhos. Pedi, ainda, uma farinheira, que logo chegou em um pratinho. O lugar é bárbaro. Tem chão de pedras portuguesas e, pelas paredes, que às vezes são de madeira, uma uma série de pratos, além de muitas reportagens de jornais e revistas, que revela uma clientela conhecida: Ivan Lins, Gilberto Gil, Djavan… A casa tem um estilo bem alentejano, que me fez lembrar o inesquecível restaurante O Fialho, em Évora, verdadeira instituição portuguesa, como o Solar dos Nunes também me parece ser. Escolhi, por sugestão do garçom, um empadão de perdiz, a 10 euros. Estava bastante bom. O cardápio é muito interessante, com muitos pratos de peixes e frutos do mar (tinha açorda de cherne com lagosta, a 39 euros, para duas pessoas) e de caças (lebre, coelho selvagem, javali, veado, perdiz). À certa altura o dono veio até a mesa, saber se tudo corria bem. Sim, estava tudo ótimo. Mas queria saber se era possível eles prepararem uma porção diminuta dos lombinhos de veado, que fiquei tentado a provar. Claro que sim, foi a resposta que eu já esperava mesmo. E comi, pela primeira vez, um veado. Até que foi bom. A carne foi servida com grelos (!), creme de espinafre, torradinha com geléia de framboesa e uma saladinha. Delícia. Depois ainda houve tempo para um leite creme, bem melhor do que 99,9% dos creme brulée que já pude provar. Pedi um café, a conta e me fui embora, muito contente com a minha primeira refeição.

Cabrito do Nova Capela, por Claude Troisgros, para encerrar o assunto

21/11/2010

Cabrito, alho, arroz com brócolis: receita da felicidade à mesa

“A gente vai comer o pernil de cordeiro do Capela porque sabe que ele está sempre do mesmo jeito, isso é consistência, algo muito importante”.

Cabrito ou cordeiro, não importa. O fato é que a frase foi publicada ontem na coluna Gente Boa, de O Globo. E o autor é ninguém menos que o Claude Troisgros. Simplesmente ele. Vai ver que o cara não entende nada de comida, né?

De lambuja, e só de sacanagem, o restaurante que serve bolinho de bacalhau ruim, cabrito decadente e chope mal tirado, esse mesmo lugar ainda faturou o título de “melhor restaurante tradicional do Rio de Janeiro” no Prêmio Rio Show de Gastronomia, na noite de quinta-feira. Pois é.

Quem quiser saber mais sobre o assunto é só clicar aqui ou aqui.

Este blog, pessoalmente, declara totalmente encerrado por aqui esse assunto. E, na outra semana, depois de voltar da jornada nordestina, uma viagem à beira mar de Fortaleza aos Lençóis Maranhenses, aventura que se inicia hoje, vamos ao Nova Capela comer bolinhos de bacalhau, perninhas de cabrito e derrubar alguns chopes. Pra comemorar.

E viva o Nova Capela! E viva a tradição gastronômica carioca!

 

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O mistério das empadas serranas e praianas

20/11/2010

Empadinhas da Leiteria Santo Antônio, um clássico de Teresópolis, verdadeiras obras e arte: com ou sem pimenta?

Tem coisas que são engraçadas, né? Aqui no Estado do Rio são muito famosas a tal “Empada Praiana”. Ainda mais conhecida é a marca Empada Brasil – que faz questão de agregar ao nome a sua origem, Petrópolis. Temos ainda a também célebre Empada Carioca, que já chegou até a Rondônia.

Acontece que, em primeiro lugar, as melhores empadas não são encontradas na praia, mas na serra. Não são praianas nem cariocas. E, em Petrópolis, as melhores empadas são outras que não a tal Brasil. Duas empadas petropolitanas me chamam muito mais a atenção, e na verdade são muito mais gostosas: as da padaria Pão & Pão, em Nogueira, e a de queijo servida na Pousada Alcobaça. Muito boas.

Não Pão & Pão, uma portinha deliciosa na pracinha da estação de Nogueira, bem em frente a ela, todas as empadinhas são forradas com catupiry e depois cobertas com recheio e a massa, que é leve e gostosa. Tem vários recheios legais, tipo carne-seca, camarão. Mas acho que a minha preferida é a de berinjela. São, todas elas, bem melhores que as praianas, brasileiras, cariocas.

Na Alcobaça, onde só estive uma vez, comi uma empadinha deliciosa, caseira, macia, aconchegante. Demais.

Em Teresópolis também como empadinhas sublimes, bem melhores que essas mais afamadas. A começar pelas que são servidas na Leiteria Santo Antônio, no Centro da cidade, na Rua Duque de Caxias. Eles servem ali umas empadas maravilhosas, com recheios impressionantes, todos apresentados em duas versões: com ou sem pimenta, e eu sempre peço as com. A de carne-seca é obra de arte.

Ao lado da gostosa pizzaria Manjericão, ainda em Teresópolis, na outra esquina, tem um cara que faz empadas também lindas. Ele fica ali, na saída do Comary, com seu carrinho em vermelho e branco, vestido impecavelmente com calça e camisa social. Da chaminé de seu carrinho sai uma fumaça. E eu sempre passava por ele, sem fome, mas curioso para provar o acepipe. Até que um dia parei. Comi umas de três. Se me lembro bem, de camarão, carne-seca e calabresa. Todas estavam deliciosas, não só pela massa com aquelas importantes propriedades já apresentadas nesses texto, como a leveza, mas também pelos recheios, com gostinho caseiro, de comida da vovó. E ainda tem o cheirinho de fumaça, que não assa  o salgado, como eu acreditava, mas apenas mantém quente a pequena estufa que guarda e exibe as gostosuras. Custa R$ 2 cada uma. Relação custo-benefício em termos de prazer muito difícil de se superar. Ah, a empada da Leiteria Santo Antônio também custa R$ 2, e igualmente é capaz de causar calafrios de tão gostosa. Ainda mais se ela vier, como sempre vem, na escolta de uma boa e gelada cerveja.

Prêmio Rio Show de Gastronomia confirma: 2010 foi o ano de Roberta Sudbrack

19/11/2010

Roberta Sudbrack voltou para casa merecidamente com três prêmios: melhor chef, restaurante e contemporâneo. Bem que eu avisei...

Depois do jantar de apresentação da nova coleção da Roberta Sudbrack, eu disse que a chef ia faturar todos os prêmios de gastronomia este ano. Não deu outra, faltava apenas o Prêmio Rio Show, que foi entregue ontem. E ela fez barba, cabelo e bigode, ganhando três troféus: melhor chef, melhor restaurante e melhos restaurante contemporâneo.
Antes a chef já tinha ganho os prêmios da Vejinha, da Prazeres da Mesa.
Bem, acertei a previsão. Mas não há mérito nisso. Foi fácil. Depois de provar o novo cardápio da casa do Jardim Botânico, não tinha como não acertar.
A cozinha da Roberta Sudbrack foi o destaque do ano, não no Rio de Janeiro, mas no Brasil.
Parabéns, chef. Foi merecidíssimo.

Quem também brilhou ontem foi o Le Pré Catelan de Roland Villard, que ganhou os prêmios de melhor restaurante francês da cidade e também o de melhor decoração. O Braseiro da Gávea também se saiu muito bem, ganhando os prêmios de melhor para paquerar (que termo mais antiquado, né?) e custo-benefício. Outro que ganhou dois quadrinhos para prender na parede foi o o Garcia & Rodrigues, que triunfou em doce e café da manhã. E também o Astor, absoluto como melhor novidade (justo) e melhor para namorar (muito injusto). O Cipriani por sua vez ganhou o prêmio de melhor Italiano do Rio. O Adegão Português ganhou na sua especialidade (isso agora, depois que Antiquarius, Celeiro, Gero, Olympe e Satyricon foram alçados à categoria hors-concours, e nãop puderam concorrer). Também fez belo papel o Nova Capela, que ganhou o de melhor tradicional, o Jobi, que levou para casa o troféu de melhor pé-limpo, enquanto o Pavão Azul ganhou o de pé-limpo. O Bar Urca também deveria virar hours-concours, porque aquela mureta, ainda que os debilóides do poder público queiram acabar com isso, aquela mureta é imbatível. O Sawasdee venceu na categoria oriental, enquanto o Terzetto ganhou em vinhos, o Porcão em carnes, o Fasano al Mare em serviço, o Amir em árabe, o Gula Gula em salada, o Albamar em peixes e frutos do mar e por aí vai. Uma pequena observação: achei boa a ideia de cada jurado votar em dois restaurantes, acho que assim o resultado acaba refletindo melhor a opinião de todos.

Papelão mesmo fez este blogueiro. Que foi ao banheiro no exato momento em que foi chamado para subir ao palco para entregar o prêmio. Que vergonha. Mas o melhor de tudo foi escutar o meu nome sendo dito na voz da Maria Fernanda Cândido, na hora da apresentação dos jurados. Fiquei até vermelho…

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O cabrito do Nova Capela: mais duas opiniões respeitáveis

18/11/2010

O comentário do Bicho: "A camada externa que eu julgava seca se mostrou – já na primeira mordida – na verdade muito crocante. O interior que eu imaginava rançoso veio concentrado com aquele sabor deliciosamente cordeiroso. A gordura solidificada tinha se transformado em carne muito úmida e macia"

Muito bom este link aqui embaixo, do Que Bicho Me Mordeu, sobre o cordeiro (ou seria cabrito?) do Nova Capela.

 http://quebichomemordeu.wordpress.com/2009/09/19/o-que-o-japao-sim-aprende-do-rio

Aliás, falando nisso, o Moa me escreveu dizendo que “vc sabe que o Rio é tão charmoso no andar, na natureza, nas pessoas, que a gastronomia é tratada como cotidiano  banalizando raridades como a empada do Carangueijo, a fritada do Paladino ou o cabrito do Capela, uma excelência no paladar da madrugada: – gosto muito!”
No Nova Capela, o sublime vira banal.
Está dito por quem sabe.

E ainda tem mais. Ontem, depois de eu escrever este post, o Nova Capela faturou o Prêmio Rio Show de Gastronomia de “Melhor Cozinha Tradicional”. Pior é que tem gente que acredita que, ao falar mal do Nova Capela, está contibuindo para formar uma “massa crítica”, seja lá o que isso signifique, gente que acredita que, assim, está contribuindo para a gastronomia carioca. Francamente…

Para saber mais sobre este assunto, clique aqui.

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Mosteiro: um restaurante que merece uma missa em sua homenagem (e uma pensata sobre o trabalho das assessorias de imprensa e o dos repórteres)

17/11/2010

O salão classudo, com muita madeira, sempre tem gente, uma clientela fiel (e bastante sabida)

Outro dia li no blog da Luciana Fróes uma crítica de uma leitora se queixando das assessorias de imprensa. Segundo ela seriam essas empresas as responsáveis por restaurantes tradicionais fecharem as portas, no caso o post falava do Astrodome.
Mas que bobagem. As assessorias apenas fazem o seu trabalho. Quem está errado mesmo são as pessoas que escrevem sobre restaurantes, que aceitam qualquer pautinha besta, do tipo que junta dez clientes de uma mesma assessoria. Estão errados os assessores? Não, errados estamos nós, os repórteres, e também os críticos e outras denominações para pessoas que escrevem sobre comida. Já vi matéria com uns sete ou oito restaurantes, todos da mesma assessoria. Pode? Não deveria poder, mas sabe como é, né? Repórter até pode aceitar sugestão de assessoria, mas seu dever é estar na rua vendo o que há de novo. Repórter até pode visitar restaurante a convite, mas seu dever é frequentar os restaurantes da cidade por sua conta. Quem deve pautar o repórter, afinal, é ele mesmo, seus leitores e seus editores, e não os assessores. Mas não é que o tem acontecido, e isso não se restringe à área da enogastronomia, que fique claro. Repórter até pode pedir informações por e-mail, na correria. Mas seu dever é ir apurar as coisas onde elas acontecem. É entrevistar pessoalmente, ou pelo menos pelo telefone. É ver para crer. Ou não crer.
Esse preâmbulo é só para falar de dois restaurantes tradicionais que vivem lotados e não têm assessoria de impresa, visitados por mim não faz muito tempo: o luso-internacional Mosteiro, no Centro, e a churrascaria Majórica, no Flamengo (como hoje uma chuleta lá que não me sai da memória: com gosto de churrasco de antigamente, sabe? Um defumado de carvão e gordura. Delícia).
Não tem jeito: entra ano, sai ano, eles estão sempre cheios, e não precisam de assessoria de comunicação, porque servem comida honesta, sem firulas. Não precisam de mídia. Basta continuarem fazendo o que fazem há décadas: servir boa gastronomia.
Primeiro vamos falar do Mosteiro, que há muitos anos ostenta estrela do Guia Quatro Rodas, honraria maior da gastronomia brasileira (outro dia tratamos da Majórica, que me encantou). Esse restaurante tradicional do Centro do Rio andou saindo nos jornais não faz muito tempo. Mas não pense que foi por causa da sua comida, que é muito boa, mas pelo simples fato de que a casa pertence ao pai do ministro da Saúde José Temporão. Olha só que coisa… Até houve quem tivesse louvado as suas empadas, os pratos de bacalhau fartos e bem feitos. Mas o assunto nem era esse, eram as visitas do Temporão, filho, ao restaurante. Veja só que coisa esquisita…

Empadas irresistíveis circulam pelo salão: peça-as, por favor

Pois bem. O Mosteiro é um endereço certeiro para uma refeição à moda antiga no Centro. Nada de espuma, nada de louça chamativa, nada de sommelier famoso ou moça bonita na porta (que fique claro, não sou contra nada disso, até pelo contrário, mas quero reforçar que um restaurante não precisa disso. Pode ter, é interessante, mas não precisa). No Mosteiro tem boa comida, e só. E alguém lá precisa de algo mais que isso?
Pois então vamos falar dela, a cozinha, que é na verdade a única coisa que importa verdadeiramente em um restaurante. O resto é isso, o resto: serviço, talheres de prata, toalhas de linho… De que adianta se a comida é ruim? De nada, ao menos pra mim. Comida ruim, afinal, é o fim (e foi mal pela rima pobre, que não foi proposital).

Bolinhos de bacalhau também são oferecidos à mesa pelos garçons: regue com azeite e pimenta e seja feliz

No Mosteiro é praticamente obrigatório começar o trabalho com as empadas e os bolinhos de bacalhau, que vão circulando pelo salão sempre quentinhos, servidos pelo garçom (não acredito que você pensava que esse recurso tinha sido inventado pelo Belmonte, né?). São ótimos.

O Mosteiro tem até aqueles carrinhos de bebida , que andam sumidos por aí

Enquanto degustamos os acepipes e avaliamos o cardápio é possível apreciar o salão elegante, com muita madeira e até alguns detalhes de gosto muito duvidoso, como a fonte que enfeita (eu disse enfeita???) a entrada.

Na adega repousam ótimos vinhos, com destaque para os portugueses

Na bonita adega repousam grandes vinhos, e outros não tão bons asssim, mas com preços justos, por isso, quase todas as mesas têm garrafas sobre elas.
Avaliando as entradas se percebe claramente as fortes inclinações lusitanas (sardinha com salada de agrião, queijo da Serra da Estrela…). Essa impressão se confirma ao percorremos o restante do menu, cujo setor mais importante, e vasto, é aquele dedicado aos pratos de bacalhau: são dez receitas no total, entre elas o Mosteiro (grelhado, com brócolis, cebola, ovo e batatas cozidas), o à Zé do Telhado (lascas grelhadas com cebola, azeitona, batatas, pimentão e gratinado) e a fritada de bacalhau à Jair Coser (lascas de bacalhau, ovos, cebolinha, salsa, tomate e batatas cozidas).
Outra seção altamente relevante é aquela, logo abaixo, que lista os pratos de peixes e frutos do mar, que igualmente merece consideração. Tem um monte de coisa boa, veja se não tem: haddock escocês defumado à beurre noir (cozido ao leite com batatas cozidas), risoto de Camarão VG à Don Rivera (com arroz, tomate, cebola e ervilhas e grão), espetada mista de frutos do mar (com polvo, lulas, camarão, peixe, pimentão e cebola), frutos do mar à provençal (lulas, peixe,camarão, polvo e molho de tomate), polvo à Don Luiz Leite (guisado com arroz e brócolis), polvo grelhado com arroz e açafrão, moqueca de badejo, entre outros. Um dia vi no salão ser servido um camarão ao catupiry. E até eu, que desenvolvi certa aversão a esse queijo, que considero gostoso, até eu fiquei vontade de ir lá e pedir esse prato que na adolescência já foi a minha receita favorita.
Aliás, reparou quantos pratos levam nome de gente?
E o restante do menu continua assim, um festival de clássicos: filé chateaubriand (tornedor com molho de champignon e arroz à piamontese), filé mignon à La Broche (ponta de filé mignon com batata prussiana), tornedor ao molho de mostarda com batatas cozidas, filé à Oswaldo Aranha e assim por diante. Como boa casa portuguesa é servido um substancioso arroz de pato, com certeza. E, entre as sobremesas, uma bela seleção de doces da terrinha, como a barriga de freira, o toucinho do céu, o pastel de natas. Mas também tem goiabada com queijo, morango com chantily e até um irresistível mineiro de botas (para quem não sabe, e sei que muita gente não sabe, trata-se de uma combinação de banana, queijo minas, ovo, canela e açucar caramelizado. Belezura).
Já estive no Mosteiro umas cinco ou seis vezes. Nunca foi barato, mas sempre saí de lá feliz da vida. O Mosteiro, na Rua São Bento, merece uma missa. Com direito a canto gregoriano, como a que acontece perto dali, no Mosteiro de São Bento que, aliás, lhe empresta o nome e batiza a sua rua.

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Rio Minho: restaurante mais antigo do Rio, inaugurado em 1884, um porto seguro para comer pescados

16/11/2010

A porta de vidro para o salão refrigerado: entrada do restaurante mais antigo do Rio de Janeiro, segundo do Brasil, inaugurado em 1884

Era uma barganha. E me lembro bem do preço e ocasiões, todas elas (ou quase todas). E olha que foram muitas.
Dizer que me lembro do preço é meia verdade. Recordo-me só mesmo que era barato, coisa de uns R$ 12, numa quantidade que acredite você dava até para dividir entre duas pessoas sem fome avassaladora, o que não é o meu caso (mas já vi duas damas e até casais, repartindo o prato farto, transbordando tentáculos de polvo).

A fachada do Rio Minho, outro clássico carioca

O cardápio do Rio Minho, o restaurante mais antigo do Rio de Janeiro e, segundo constam os arquivos históricos, o segundo mais velho do Brasil, atrás apenas do espetacular Leite, em Recife, mas, pois bem, o cardápio do Rio Minho não é extenso nem curto, trazendo uma seleção de receitas que valoriza os pescados que o dono, o espanhol Ramon Dominguez, vai diariamente buscar em Niterói (o restaurante já pertenceu a portugueses, daí o seu nome, mas desde a década de 1980 o dono é esse espanhol zeloso, que dá expediante ali todos os dias).
– Acordo uma três e meia para logo depois das quatro estar chegando ao mercado para comprar peixes, crustáceos, mariscos.

A fachada do restaurante na Rua do Ouvidor: o "bunda de fora" está escondido na Avenida Alfredo Agache, com vista para a Perimetral

O restaurante inaugurado em 1884 tem ambiente à moda antiga, e garçons como tal. Mas no salão refrigerado, confesso, estive pouco, umas cinco vezes, sempre em missões oficiais (uma vez almoçando com diretores do jornal, nos tempos de JB, noutra com o pai e um amigo, numa outra como inspetor do Guia Quatro Rodas, e por aí vai). Fui muito ao Rio Minho. Por alguns períodos semanalmente, eu diria. Mas sempre gostei – e era o que podia pagar – de ficar no balcão ao estilo “bunda de fora”, essa estética botequeira tipicamente carioca na qual derrieres ficam voltadas à rua, num projeto arquitetônico de valorização de espaço absolutamente genial. Preferia ficar lá por várias razões, entre as quais o fato de que ali os pratos custam a metade do preço do salão. Nem é metade exatamente. A matemática é mais complexa. Os pratos no balcão “bunda de fora” custam cerca de um terço do preço dos que são servidos no salão, trazendo apenas um pouco mais que  metade da quantidade, servida num prato. Sim, é um PF mesmo. Dos melhores que já comi na vida.

Bolinhos de bacalhau: entre os melhores da cidade, com casquinha crocante e recheio de massa muito saborosa e bem temperada

Enquanto isso, lá dentro, cada receita é apresentada elegantemente, como nos melhores restaurantes, em travessas, em quantias fartas para serem compartidas por pelo menos duas pessoas (bom mesmo é estar em grupo, e pedir várias receitas, para ir mordiscando tudo, aleatoriamente: primeiro os bolinhos de bacalhau carnudos, depois os camarões gordos, os lagostins explosivos, o cherne tenro, a lagosta apetitosa, os anéis de lula crocantes, e o polvo que parece manteiga quente de tão macio.  Impressionante como são bons os frutos do mar e peixes no Rio Minho. Impressionante. Fecha parêntese).

Detalhe dos azulejos da fachada do restaurante

 Pra provar um pouco de tudo, a melhor pedida é o misto de frutos do mar grelhados, com filé de cherne, polvo, camarões, cavaquinha, mexilhões e lulas preparados na chapa e acompanhados de arroz de brócolis e alho frito. Mas este prato só está disponível no salão.

O poalvo ao alho e óleo custa cerca de R$ 20: não há comida melhor no Rio de Janeiro a este preço

Não tem problema, o cardápio “bunda de fora”, se não é extenso, pelo menos é varido e consitente. Tem bobó de camarão, cherne com molho de camarão, sopa Leão Veloso, que teria sido criada ali, polvo ao alho e óleo com arroz de brócolis (sempre com uma porção extra de alho frito). Nessas sinfonias marinhas sempre cabe um belo fio de azeite e algumas colheradas (ou gotículas, dependendo do gosto de cada um) do forte molho de pimenta da casa, belo conjunto de malaguetas adormecidas num caldo bem temperado, com louro e alho, acredito, num resultado aromático, intenso e ardente, como devem ser os molhos de pimenta que infelizmente andam em faltam por aí, assim como as boas casas do ramo “comida brasileira simples e bem feita”).
Gostava de acompanhar o almoço com um garrafa de Serramalte, isso num tempo em que Serramalte não era cerveja servida no Rio de Janeiro, mas no Rio Grande do Sul. Não havia, como há hoje, em qualquer boteco. Mas no Rio Minho tinha.

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Astrodome fecha as portas. E eu choro

11/11/2010

 

Uma das refeições mais emocionantes do ano passado foi, sem dúvida, o almoço no restaurante Astrodome.  Foi até gostosa a comida. Mas a emoção não veio daí, sim das lembranças do avô, que comia ali sempre, e me levou diversas vezes para acompanhá-lo. Chorei, como choro agora.

Deu hoje no Ancelmo: o Astrodome fechou.

Era de se esperar. Senti um clima de fim de festa no ar. Sei lá. Decadence avec elegance. 

Vou aproveitar para incluir, lá no Índice de posts de restaurantes, ao lado do nome da casa, uma cruz, indicando o seu falecimento. Até porque quero escrever sobre outros restaurantes que agonizam mas não morrem, como o samba. Caso, por exemplo, do Cosmopolita, que sucumbe ao mau gosto que impera nas novas gerações de cariocas, que andam fresquentando e adorando lugares para lá de estranhos, não é verdade? Assim, sofrem alguns clássicos. Uns merecidamente, caso do Lamas e do Le Coin (o II, porque o I já se foi há tempos. Em seu lugar abriu mais um restaurante inexpressivo, e talvez haja gente que goste dele). Outros sem qualquer razão de ser, como o Cosmopolita e o Nova Capela.

Uma saborosa e engraçada noite de autógrafos do novo livro do Moacyr Luz, sobre o bar Pirajá, em São Paulo

10/11/2010

A alheira do Astor: o delicioso sabor da simplicidade

Não, este blog não está virando território literário, ainda que livros que tratem de Rio de Janeiro, comida, vinho, viagem e outras coisas gostosas serão sempre bem vindos neste espaço.
Mas é que preciso registrar aqui o lançamento, ontem, do livro do meu amigo Moacyr Luz sobre o bar Pirajá, em São Paulo. Cheguei tarde, quase meia-noite, depois de um fechamento tranquilo, mas lento, em meio a dezenas de outras coisas a resolver. Achei que o negócio já estaria no fim, e fui porque o Astor, inevitável endereço da festinha, é do lado da minha casa, menos de três minutos de caminhada. Quanta ingenuidade a minha pensar que tudo acabaria cedo. Ficamos na mesa da varanda até umas três da madrugada.
Rimos muito, não poderia ser diferente. Ainda mais quando o Chico Caruso chegou, ainda depois de mim, e se juntou ao grupo, inspirando o Moa a relembrar histórias engraçadíssimas. Chico, por sua vez, não deixou barato, apresentando uma leva de novas piadas do Jaguar “as únicas verdadeiramente boas que ele ouviu ultimamente”. 
O livro está uma beleza, daqueles para ficar em cima da mesa da sala, para distrair convidados e até o anfitrião. Com seu estilo autêntico, que mistura erudição extrema nos assuntos relacionados ao Rio de Janeiro, ao samba e aos botequins, bom humor e um texto bem calibrado, com ideias e tiradas de mestre. Vez ou outra Moa nos ensina alguma receita, como a que combina maxixe, quiabo e jiló. De vez em quando o Ruy Castro faz o que os editores chamam de “intervenções”. Ou seja, complementa o assunto trazendo algumas histórias que ele, colecionador delas, tem aos montes. Fotos são de Rômulo Fialdini, outro craque, além de algumas compradas de agências.
Falamos de botecos, é claro. Entre eles o Aboim, do qual nunca havia ouvido falar, e foi tema corrente na noite de ontem. Também tratamos do Bar Getúlio, que se mudou para a Atlântica. Moa deu dicas de restaurantes em Portugal, próxima parada estrangeira deste repórter (antes tem Búzios, no próximo fim de semana, e uma expedição pela praia do Ceará ao Maranhão)
O chope foi devidamente escoltado pela minha receita favorita no Astor, a alheira com batata frita e dois ovos. Não precisei pedir o prato. Dudu Cunha, um dos sócios e uma das pessoas mais admiráveis no mundo da gastronomia carioca, um baú de boas histórias e receitas, se encarregou de solicitar ao garçom o embutido português para mim, e ainda advertiu os ocupantes da mesa que o pedido era meu. Evidente, ainda bem, que ninguém respeitou a ordem.
Adoro alheira, e não é de hoje. Já comi no Brasil e em Porugal, no Rio e em São Paulo, na Zona Sul e na Zona Norte, em restaurante chique e em birosca. Acho sempre bom. A do Astor está entre as melhores. Por duas razões. A primeira eu já conhecia. Eles criaram um modo muito interessante de preparar este embutido à base de pão, muito tempero (alheira, compreendeu?), alguma gordura e pouca carne. Eles tiram a película que envolve a massa e fritam. Parece que está empanado. “É por causa do pão”, me explicou o Deco, outro dos sócios, certa vez. Nunca vi, em nenhuma parte. A segunda razão descobri ontem.
“Nossa alheira é feita artesanalmente por um português, o mesmo que fornece para o Adegão Português”, me explicou Dudu Cunha.
Também comi uns espetinhos de pão com bife à milanesa e queijo.
Além de alguns chopes, ainda provei um diferente martini com café, que achei bem interessante.
 
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Cosmopolita: berço do filé à Oswaldo Aranha, receita carioca universal

08/11/2010

 

Ainda hoje o prato é servido na frigideira de ferro, como na época em que foi criado, a década de 1930

 

O restaurante Cosmopolita, na Lapa, é daqueles endereços que precisam ser visitados. Porque não sei se ele vai durar ainda muito tempo. Numa esquina da Mem de Sá, já foi um dos lugares mais importantes da cidade, quando era freqüentado por políticos, principalmente esses, e também diplomatas, jornalistas e empresários, o que o levou a ser conhecido como Senadinho.

Vem desse período a criação de uma receita que tem a cara do Rio, o filé à Oswaldo Aranha, batizado assim por ter sido criado pelo próprio.

O prato é uma obra-prima da simplicidade e harmonia de sabores: pega um belo pedaço de filé, grelhando-o de maneira a deixar uma casquinha queimada, dura e crocante, e um miolo rosado, macio e suculento. Numa frigideira de ferro fumegante a carne é servida escoltada por farofa, arroz e batatas fritas à portuguesa, aqueles chips crocantes que mexem definitivamente na textura de um prato assim, tão aconchegante.

Em tempos de policiamento calórico o maitre sempre pergunta se pode, ao sevir em seu prato o pedaço de carne, arroz e farofa na chapa que está untada de manteiga e sucos da carne, uma daquelas tentações irresistíveis que são capazes de transformar a simples combinação de arroz e farofa num retrato sublime da gastronomia carioca. É possível que alguém ache o prato calórico demais, mas não tratamos de dieta, e sim de prazer.

Esse fabuloso conjunto carne-farofa-batata frita-arroz, nascido exatamente no distante ano de 1933, já se bastaria. Mas aí veio a genialidade culinária do velho Oswaldo Aranha, que certamente não poderia supor como ficaria famoso não apenas no Rio, mas em todo o Brasil, porque o prato virou clássico do receituário nacional (ou estou enganado?): ele, embaixador e ministro, mandou jogar por cima dessa bendita mistura um montão de alho fatiado e frito (nada de espremer o alho, hein: na receita original ele é finamente fatiado). Isso é a glória. Um prato que, se fosse gente, merecia ser canonizado. É simples, é puro, faz bem à alma. Opera milagres.

O chope do Cosmopolita é bom, muito bom. E há outros pratos respeitáveis, que seguem à risca o receituário clássico dos restaurantes e bares mais cariocas do planeta, como é o Cosmopolita, como é a Lapa: o cardápio lista coisas de bacalhau, cabrito, outras variações de uma boa peça de filé. Tudo preparado com aquela dignidade e fartura à moda antiga, do tipo que não se vê mais por aí. Mas, vai por mim. Não há razão de ir ao Cosmopolita e pedir algo que não seja chope e filé à Oswaldo Aranha. Em respeito ao bom gosto e à memória da cozinha carioca.

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