Archive for the ‘Carnaval’ Category

Um roteiro pelas melhores feijoadas do Rio de Janeiro (lembrando que o prato nada tem que ver com escravos, e menos ainda com a África)

22/10/2015
Na Casa da Feijoada o prato é servido em sistema de rodízio, a R$ 62,70 por pessoa (vale a pena pedir em casa, a porção serve tr~es ou quatro)

Na Casa da Feijoada o prato é servido em sistema de rodízio, a R$ 62,70 por pessoa (vale a pena pedir em casa, a porção serve três ou quatro)

Na rotina sofrida das senzalas, os escravos ao menos comiam bem. Naqueles ambientes escuros e insalubres eles conseguiram criar o prato mais emblemático do Brasil, a feijoada. Usavam, para isso, os restos de carnes de porco salgada, dispensadas pelos senhores, cozidas com feijão preto. A história é bonita, talvez por isso tenho sido propagada por tanto tempo. Porém, por mais triste que seja dizer isso, não, a feijoada não nasceu assim. Os senhores, mesmo eles, não tinham carnes de porco sobrando. E, lamentavelmente, essa é apenas uma lenda histórica, já há muito consertada pelos estudiosos do tema. É inacreditável que, em pleno século 21, no ano de 2015, ainda exista gente que conte essa história como se fosse verdade. Pior ainda, se for um jornalista especializado no assunto. Porque ainda tem leitor que acredita, e assim essa linda mentira continua sendo perpetuada. Lamentável.

Pior ainda é dizer que a feijoada tem origem africana… Aí, meu amigo… Não, a feijoada não tem origem africana, mas europeia. É uma receita derivada de tantos ensopados preparados com feijões ou seus primos, de cores, tamanhos e formatos variados. Ao contrário do que se diz, com ingenuidade e ignorância, a feijoada não tem origem humilde, mas muito nobre. Nasceu sob a inspiração do cassoulet francês, da fabada asturiana, dos caldos ricos italianos, e, principalmente, de tantas variações de pratos afins que existem por Portugal.

Sem querer cortar o barato de ninguém, jornalista deve ser fiel aos fatos. E os fatos são esses.

É tão ridículo quanto outra teoria de um ícone brasileiro, a cachaça. Sim, há quem diga que o nome aguardente vem da dor que sentiam os escravos ao ter um pouco de pinga caindo sobre as suas costas machucadas pelo açoite. Francamente…

Os melhores lugares do Rio pra beber cachaça a gente pode deixar pra outro dia. Já das feijoadas podemos falar hoje.

As mais divertidas da cidade acontecem nas quadras das escolas de samba, que já estão fervilhando no clima pré-carnavalesco. A Portela, com as suas quituteiras de mão cheia, e seus sambistas de fino trato e grandes composições, sem dúvida é a mais emblemática no quesito (inclusive já até lançaram um livro de receitas, “Batuque na cozinha – As receitas e as histórias das tias da Portela”). Mas, tradicionalista que sou, indico ainda a Mangueira, o Império Serrano e o Salgueiro. Como as escolas fazem as feijoadas em fins de semana alternados, sempre tem alguma rolando. Na Feira das Yabás, que acontece todo o segundo domingo do mês, na Praça Paulo da Portela, em Oswaldo Cruz, as tias da Portela, incluindo Dona Neném, do alto de seus 87 anos, servem várias comidas em suas barracas, que servem refeições bacanudas por cerca de R$ 15. Marlene é famosa pela sua feijoada.

Seguramente, em nenhum restaurante ou hotel a feijoada será tão animada quanto esses da turma do samba. Nos hotéis, muitas vezes o bufê de feijoada dos sábados é servido com um conjunto, que anima o ambiente com clássicos. Já fui no Caesar Park (antes de virar Sofitel), em Ipanema, e no Sofitel, no Posto 6, em Copacabana. Achei a comida boa, e música contribuiu para a minha felicidade (raramente gosto de música ao vivo em restaurantes, como aqueles de Paraty, onde somos obrigados a jantar com um banquinho e violão tocando, mas ás vezes curto a ambiência sonora, caso dos pianos da Brasserie Lapeyre, no Centro, e da Churrascaria Palace, em Copacabana).

Servida como reza a tradição aos sábados, a feijoada do Rubaiyat Rio, no Jockey Club, tem várias bossas extras, a começar pelas corridas de cavalo, que acontecem ao longo da tarde (vale tentar uma mesa na varanda, mas evite isso nos dias muito quentes), passando pelas batidas, servidas livremente, e pelo bufê de sobremesas, tudo incluído no preço. No belo balcão de madeira que recebe os panelões com as carnes também abriga um belo leitão, além de tudo aquilo que nos habituamos a ver nos serviços de feijoada. Um caldeirão com o feijão, e vários outros com as carnes separadas, a farofa, o arroz, a couve, o torresmo e a laranja, além de complementos suínos, como linguiça, bisteca, pernil e costelinha, sem falar na banana frita.  Pelo conjunto a obra, eu diria que todo o carioca deveria fazer esse programa ao menos uma vez na vida. Como ir até o Corcovado e subir o Pão de Açúcar. Custa R$ 109, e incluindo isso tudo, está de bom tamanho.

– O que é legal é que as partes suínas são todas de baby pork da Fazenda Rubaiyat. O feijão também é supernovo, igualmente da fazenda. A feijoada tem todos os pertences separados: carne seca de Brangus, costela fresca, costela defumada, paio, língua, rabinho, pé, orelha. O Claude só vai lá por conta desses três últimos– conta um dos sócios da casa, David Zylbersztajn.

Já se vão lá mais de 20 anos que a Casa da Feijoada (na foto), em Ipanema, se converteu em um dos poucos restaurantes que também são ponto turístico da cidade. Fazendo um trabalho junto a hotéis e guias de viagem, a  Casa da Feijoada recebe muitos turistas, e não tantos cariocas assim. Besteira. Seguramente é um dos melhores lugares do Rio para se dedicar a esse prato, servido em sistema de rodízio, na mesa, com preço por pessoa (R$ 62,70).  Pra começar,  caldinho de feijão e linguiça mineira, além de batidas de limão e maracujá (também incluídas no preço). Com o feijão, são 11 opções de carnes, que podem ser encomendadas pelos clientes: bacon defumado, orelha de porco, lombo salgado, carne seca, linguiça fresca, rabo, costela salgada, língua defumada, chispe, carne de boi e paio. Os acomapanhamentos de sempre. E a sobremesa são as compotas caseiras de abóbora com coco, banana e o doce de leite. Vale pedir para a viagem. São muitas quentinhas, que servem umas três ou quatro pessoa, sendo assim de preço praticamente imbatível. Confira.

Pra minha surpresa, porém, descobri que os dois restaurantes portugueses mais tradicionais do Rio também servem admiráveis feijoadas. No Antiquarius e no Adegão Português eu como feijoadas não menos que sublimes, com toda aquela fartura que nos habituamos a ver na culinária portuguesa.

Essas são as minhas feijoadas preferidas em terras cariocas (muito aprecio a do Tempero com Arte, em Teresópolis, e do Parador Lumiar, em Nova Friburgo, ambas também aos sábados). Falam-me, ainda, maravilhas de duas feijoadas tijucanas. Do Bar do Momo e do Bar do Pavão. Nunca fui, mas diante das observações de bambas como Guilherme Studart e Gabriel Cavalcante (o da Muda), eu confio cegamente nas dicas.

Sem que a gente possa se esquecer do antológico e inigualável bolinho de feijoada do Aconchego Carioca, servido na matriz, na Praça da Bandeira, e também na filial do Leblon.

Feijoada é uma delícia, o mais brasileiro dos pratos. Mas nada tem que ver com escravos, e menos ainda com a África. Ok?

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A Vila Isabel, campeão do carnaval carioca, tá com tudo, e o Bar do Costa é o melhor boteco do bairro

16/02/2013

Uma amiga me escreve dizendo que tá indo pra Vila Isabel com umas amigas. E pede sugestão de boteco. Nem precisei pensar. Escrevi:

“Pra mim, o melhor é o Bar do Costa. Mesinha na calçada, mil petiscos, cerveja gelada e preço bom. Fica na Torres Homem. É tão bom boteco que até fica numa esquina.”

Então, resgato um textinho meu, publicado no Guia do Gosto Carioca, sobre esse boteco que para mim não só é o melhor de Vila Isabel, como entre entre os preferidos na cidade inteira. E aproveito para deixar um link para um post em que falo também do Salete, na Tijuca, dois botequins queridos.

bar-do-costa

Mais perfeita tradução do que é um boteco, o Bar do Costa fica em uma esquina. De Vila Isabel. E tem mesinhas espalhadas pela calçada. Na geladeira a batidinha de maracujá está sempre a postos, e bem geladinha. No balcão aquecido repousam muitos dos acepipes que fazem o sucesso da casa: tem moela, torresmo, pernil, jiló, presunto tender… É um lugar para se despir de preconceitos, provando uma combinação de maxixe, jiló e quiabo, chamada amargoso, que faz um sucesso danado, e fica uma maravilha com uma boa pimentinha. O bolinho de vagem é sensacional, imperdível.  No total, são cerca de 70 petiscos diferentes, que fazem a alegria da vizinhança, e de muitos moradores da Zona Sul que vão até lá, curtir esse bar emblemático, que como poucos traduz o espírito despojado carioca. A cerveja é sempre muito gelada. O que mais se pode querer de um boteco?

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Resultado do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro: um palpite

13/02/2013

 

 

Todo o carioca tem opinião a respeito do desfile da Sapucaí. Este ano, vi algumas escolas inteiras, outras só algumas partes. De outras, vi apenas melhores momentos. Li algumas reportagem vi muitos programas. De modo que escrevo sob todas essas influências.

Vila Isabel sairá campeã, e consagrada, na apuração de hoje. Título incontestável.

Em segundo lugar teremos o Salgueiro, que muito bem soube executar um enredo sobre a fama, bancado pela revista Caras.

Em terceiro, acho que vem a Beija-Flor, mas seria justo que fosse a Portela. Mais uma vez a escola de Nilópolis fez um desfile impecável, com a força da comunidade, o que a garante no Desfile das Campeãs, mas não o título (a Beija-Flor tem tido dificuldade em ser campeã quando o enredo não fala da Amazônia e da água, em discursos patrióticos e ecológicos repetitivos, mas vencedores).

Em quarto vem a Portela, que fez um lindo desfile celebrando Madureira, berço da escola.

Em quinto acredito que teremos a Unidos da Tijuca, que veio bem.

Em sexto, e aí entra o lado torcedor, vamos ver a Mangueira, mesmo perdendo os pontos pelo atraso, e com os prováveis descontos em evolução e alegorias, resultantes do final confuso do desfile.

 

Fechamos a noite das campeãs. Acho difícil que aconteça, mas seria bacana a Grande Rio cair.

Sobe o Império Serrano.

 

Será?

 

Ecos do carnaval: notícias, análises e confetes a respeito do tríduo momesco

13/02/2013

O carnaval pegou fogo e a Quarta-Feira de Cinzas faz jus ao seu nome. Distante da folia momesca, acompanhei de perto a situação.  E concluí: o carnaval do Rio está muito chato, acho que Veneza é o canal.

Primeiro, os blocos.

Vi um pessoal fazendo macumba no Posto 8. Era a Umbamda de Ipanema.

Nesta mesma área, um grupo de drag queens mijões foi pego com as mãos na massa, e com a boca na botija.

O Céu na Terra virou um verdadeiro inferno.
O prefeito Paes, acertadamente, porque isso aqui não é Bahia, proibiu cordas nos blocos. Mas, ufa, os cordões estão liberados. Bola Preta e Boitatá agradecem.

Me Beija que sou cineasta só é frequentado por assistentes de câmera, e olhe lá.

O Monobloco está muito grande, carregando multidões. Mesmo assim, acho que não devia usar cárter de som.

Agora, uma análise da Sapucaí.

A comissão de frente está claramente em baixa. Bundas brilharam mais do que peitos na Avenida.

A Mangueira brochou.

A Beija-Flor vai ficar chupando néctar, e a Ilha vai morrer na praia.

Com desfile fracassado, Paulo Barros tá na lama.

O bom e velho Salgueiro, guerreiro, e sua bateria furiosa, não deu as Caras na Sapucaí.

Notícia de bastidores: Com Viradouro, Porto da Pedra e Cubango, Niterói planeja lançar o seu desfile independente. Niemeyer já foi contactado, e assina o projeto da Passarela do Samba Araribóia.

Também fiquei atento ao carnaval em outras partes do país.

Como é triste ver o desfile da Mocidade Alegre.

Em São Paulo, o MEC estuda fechar as escolas de samba, que não ensinam adequadamente.

O carnaval de Recife é mais legal em Olinda.

E em Salvador, a pipoca é um saco…

Falando sério, um pouquinho, para encerrar.

A Mangueira fez bonito, e o tempo é relativo, como se sabe.

Se a Vila Isabel, desfile impecável e único samba verdadeiramente bom deste ano junto com o da Portela, não ganhar a Liesa deveria ser interditada.

A Portela falando de Madureira foi um desfile histórico, e lindo.

De alguma forma, os enredos patrocinados deveriam ser banidos.

E foi um acerto da TV Globo passar os defiles da Série A, antigo Grupo de Acesso, para o Rio de Janeiro. Império Serrano, Viradouro e outras agremiações tradicionais mexem com o coração dos cariocas, e fazem desfiles melhores que os paulistas. Não fazia o menor sentido a transmissão dos desfiles do Tietê, sexta e sábado. Até que enfim, bom senso.
Afinal, quem quer ver Mocidade Alegre, Gaviões da Fiel, Rosas de Ouro e companhia, Vai-Vai para o Anhembi. Ou não gosta de samba.

Evoé.

Mas e o Papa, hein. Conseguiu emplacar manchete e foto principal n’O Globo mesmo na edição de Terça-Feira Gorda. Não me lembro de outra vez que o alto da primeira página de um jornal carioca não tinha foto de carnaval neste dia.

Malandrinho o pontífice.

Mais carnaval: Bumbumpaticundumprocurundum (o nosso samba minha gente é isso aí é isso aí)

27/02/2012

Quando, aos seis anos, o samba me conquistou, pelas mãos do antológico desfile do Império Serrano, em 1982, eu enxerguei apenas a sonoridade, só essa virtude, além da farra, as fantasias, as festas, mas sem atentar muito para isso… O que valia mesmo ali, na mais pura inocência infantil, era o som. Refrão começendo com “bumbum” é prato cheio pra criança, razão de gracejo inevitável. Ainda mais quando o bumbo bate: “Bum-Bum!”.
Além disso, a música era, e ainda é, e pra sempre será, de uma beleza impecável, de uma precisão absoluta, o samba-enredo em essência, conduzindo uma idea, defendendo uma tese: o samba tá mudando. O nosso samba minha gente é isso aí, é isso aí!
Esse equilíbrio melódico das palavras em comunhão com o ritmo marcado forte pela percussão não é samba, simplesmente: é escola de samba, é show, é batucada, um desfile, uma apresentação, que tem que fazer sentido e ser tecnicamente  impecável, que precisa ser  espetacular par a plateia, que paga caro.
Onomatopéia (com acento, que havia).
“Bumbumpaticundumprocurundum
O nosso samba minha gente é isso aí é isso aí
É isso aí
Enfeitei
Eu enfeitei
Meu coração
(Efeitei meu coração)
De conferte e serpentina
Minha mente se fez menina
Num mundo de recordação
Abracei a coroa imperial
Fiz meu carnaval
Extravasando toda a minha emoção
Ó, Praça 11, tu és imortal
Teus braços embalaram o samba
A sua  Apoteose é triunfal”

Por aí, em lindos versos, nós vamos. Sou mangueirense, mas meu coração bate também em verde-e-branco, e esse enredo é a razão disso.
Demorei uns 20 anos mais para ter a dimensão desses versos, e mais uma década para entender o seu real significado.
”Superescolas de samba S.A.
Superalegoria
Escondendo gente bamba
Que covardia”
Quando vejo a Grande Rio desfilar nas Campeãs, e a Mangueira de fora, quando vejo o enredo do Império Serrano sobre a minha diva Dona Ivone Lara, madame do samba, ela ou a escola da Serrinha a origem desse post e do meu lado carnavalesco, ainda que seja mangueirense desde os oito anos, enfim, quando vejo a verde-e-branco perder fazendo um desfile tão lindo daqueles, eu, retornando ao tema do início do parágrafo, fico a ponto de chorar.
Aqueles versos são mais atuais hoje que em 1982.
“E passo a passo
No compasso
O samba cresceu
Na Candelária
Construiu seu apogeu”
Olha o Bola Preta aí, levando um ou dois, não importa, um ou dois milhões de pessoas. Partindo da Candelária, aliás, desde esse ano. O Bola é a resistência do carnaval carioca, nesse momento em que vemos blocos temáticos (acho bom) que não estão nem aí para o samba, o cordão mais tradicional do Rio de Janeiro tem a melhor tinha sonora entre todas as agremiações carnavalescas. Apesar da multidão, o Bola é sempre divertido, e eu adoro.

Beto sem Braço, esses caras autores desse samba clássico do Império, além de bambas, eram profetas. Profetas do samba.
Chora cavaco!
Afinal: “Vem meu amor (Vem meu amor)
Manda a tristeza embora
É carnaval
É folia
Neste dia ninguém chora”

Um carnaval que passou

22/02/2012

Como são engraçadas as coisas. Há cerca de 15 anos dizia-se que o carnaval carioca estava morrendo. As escolas de samba faziam desfiles iguais na Sapucaí, e os blocos, bandas e outras manifestações de rua, estavam morrendo. Ali por volta de 1996, com o surgimento do Cordão do Boitatá, e de outras associações, como o Céu na Terra, em 2001, e muitos outros, o carnaval de rua voltou com força. Instituições tradicionais, como a Banda de Ipanema, os Barbas, o Simpatia e o Suvaco se fortaleceram, e os cariocas voltaram a querer passar o carnaval no Rio. E os turistas foram vendo que a folia de Momo no Rio é muito mais que o desfile das escolas de samba. Novos blocos foram surgindo, mas gente foi ficando na cidade, mais gente foi chegando a casa ano…
O fato é que hoje o carnaval de rua no Rio extrapolou todos os limites. Como somos porcos. A passagem de um bloco causa uma devastação digna de cenários de guerra. Guerra entre porcalhões. Passa o samba, fica toda a sorte de sujeira. O fedor é indescritível. Não há banheiro químico que dê jeito. Pior é ver que o consumo de cerveja é incentivado nesses blocos, combustível para mijões, brigões e outros idiotas.
Ao menos temos os blocos matinais, mais tranquilos, com clima de baile de clube, com  famílias reunidas, confete e serpentina, um ar de alegria, com as pessoas fantasiadas. Mas conforme o dia passa, a selvageria toma conta das ruas, homens bêbados agarram à força mulheres cambaleantes, gente vomita pelos cantos, alguns caem na sergeta, muitos são furtados, e não faltam brigas, garrafas quebradas… Um caos.
Por outro lado vemos o nascimento de novos blocos, com novas propostas. E essa onda de agremiações temáticas, tocando repertórios conhecidos e variados, de Beatles, Roberto Carlos, Wando e Raul Seixas, por exemplo, para citar os mais famosos e interessantes, é uma fórmula divertida, que tem a cara do carnaval. Grande bola dentro foi o surgimento do bloco Timoneiros da Viola.  Assim como é boa a ideia de migrarem alguns blocos para lugares mais abertos.
Precisamos de mais banheiros, e de mais policiamento, para prender mesmo quem mija na rua. Precisamos de menos vendedores de cerveja, e de mais organização do trânsito. Precisamos de mais educação, de mais campanhas de educação, de mais lixeiros no fim de cada bloco, e de mais lixeiras durante dos desfiles.
Esse ano, pela primeira vez, não fui a nenhum bloco. Estava num clima totalmente off-carnaval, aproveitei para descansar, relaxar. Espero no ano que vem estar mais animado com a festa. Mas esse foi um ano de reciclagem.  Quero ir aos blocos pela manhã, curtir um baile ou outro e voltar à Sapucaí, mas não para trabalhar.
Porque o desfile das escolas de samba, depois de um longo período marcado pela monotonia, parece estar melhor a cada ano. As escolas estão cada vez mais ousadas, com propostas diferentes, fazendo lindos carnais, marcados pelo equilíbrio. Ao mesmo tempo parece que os bicheiros estão se afastando definitivamente das escolas de samba (será?  Tomara). As obras que aumentaram o Sambódromo fizeram um bem danado, aumentando a capacidade e, por consequência, o calor humano.
As escolas fizeram bonito. A paradona histórica da Mangueira, com um samba que colou, cantado lindamente pelos componentes e peas arquibancadas, em maravilhosa comunhão. Tivemos o desfile antológico da Vila Isabel, falando de Angola, evocando a mística de Kizomba, um dos desfiles mais espetaculares da História. Vi a Portela renascer, fazer da águia uma fênix, e ser novamente, depois de anos, candidata ao título, com um enredo fabuloso falando de Clara Nunes, lembrando ainda outro desfile antológico da azul-e-branco de Madureira, em 1984, misturando a mesma cantora com Bahia, Paulo da Portela e Natal Quem não se lembra dos versos: “É cheiro de mato/ É terra molhada/ É Clara guerreira/ Lá vem trovoada  (eparrei!)”. Quem não lembra? A Unidos da Tijuca, e Paulo Barros, fazendo mais um desfile marcante, cheio de bom humor e irreverência, um show inteligente e bonito, surpreendente. O Salgueiro também foi com tudo, num desfile cheio de garra, lindo. Vimos duas escolas queridas, a União da Ilha e a São Clemente fazerem desfiles lindos. Vimos a Beija-Flor e a Grande Rio novamente apostarem em desfiles técnicos, belos e consistentes (que não me emocionam, mas preciso reconhecer o seu valor). Enfim, acho que foi lindo.
Para mim, a Mangueira não ganha, porque acho que vai perder uns pontos importantes em harmonia e bateria por conta da paradona (se não perder, pode ganhar).
É preciso reforçar que sou mangueirense, com imensa simpatia por muitas escolas (Portela, Império Serrano, Salgueiro, Unidos da Tijuca, União da Ilha, especialmente essas), mas para mim hoje ca campeão desse carnaval deveria ser a verde-e-rosa. Para mim, a ordem deveria ser essa:
1: Mangueira
2: Unidos da Tijuca
3: Vila Isabel
4: Portela
5: Salgueiro
Com o Império Serrano completando o time de escolas escalado para o Desfile das Campeãs, no próximo sábado. Lindo desfile, em homenagem justíssima a Dona Ivone Lara, essa Deusa do samba, majestade da Serrinha, Rainha dos terreiros.

No mais… acho que nos próximos anos vai sempre ter confusão no desfile de São Paulo. Só assim eles chamam a atenção…

Samba de segunda: Para começar a semana com animação, um roteiro com algumas das melhores rodas de samba do Rio de Janeiro

19/05/2011

O clube do Andaraí recebe o Samba do Trabalhador, de Moacyr Luz, nas tardes de segunda-feira

No Rio de Janeiro a semana começa sempre ao som do samba. Segunda-feira é um dos dias mais animados da cidade para quem aprecia uma boa batucada. Para os mais animados dá para dançar do meio da tarde até a madrugada. São mais de dez sambas de qualidade acontecendo em vários bairros. Para começar tem o Samba do Trabalhador, capitaneado pelo bamba Moacyr Luz, no Clube Renascença, no Andaraí, festa com clima bem familiar que começa ali pelas 16h, esquenta mesmo por volta das 18h e segue firme até umas 21h.

No comecinho da noite quem quiser pode migrar para o Samba da Pedra do Sal, que acontece neste lugar, uma espécie de beco na Gamboa, onde teria nascido o mais brasileiro dos ritmos. É uma roda animada e divertida, com muitos jovens e gringos e o que é melhor: acontece na rua, e é de graça. O Samba da Pedra do Sal, que era informal, foi legalizado pela prefeitura, e agora tem hora marcada para acontecer: das 18h às 22h30.

Depois é só migrar para a na Lapa, bem perto dali, onde também tem agito. No Carioca da Gema, uma das casas mais tradicionais do bairro, o puxador de samba Richahs comanda a roda. E, desde de novembro do ano passado, sempre às segundas-feiras, rola o Botequim da Cidade do Samba, no complexo carnavalesco que abriga os barracões das escolas do Grupo Especial, na Zona Portuária. Do outro lado da cidade segunda também é dia de samba, quando o grupo Molejo se apresenta no Barril 800 da praia da Barra da Tijuca, num dos dias mais movimentados do bar.

SERVIÇO
– Barril 8000 (Av. Sernambetiba, 8000, tel. 21/2433-1730, www.barril8000.com.br)
– Carioca da Gema (Rua Mem de Sá, 79, Lapa, tel. 21/2221-0043, www.barcariocadagema.com.br)
– Cidade do Samba (Rua Rivadavia Correia, 60, Gamboa, tel. 21/2213-2503, http://cidadedosambarj.globo.com)
– Samba da Pedra do Sal (Rua Argemiro Bulcão, 38, Gamboa)
– Samba do Trabalhador (Clube Renascença, Rua Barão de São Francisco, 54, Andaraí, Tel. 21/9628-9329)

P.S. – Este texto foi escrito para a edição de março da revista de bordo da TAM.

Bip Bip atrasadinho, Bola Preta maior que nunca, Sassaricando traquilo e feijão com samba

06/03/2011

Bip Bip, chegando quase na Atlântica, pouco depois da meia-noite de sábado, abrindo o carnaval (foto de celular)

Com um atraso preciso de dois minutos, à meia-noite e três minutos do sábado de carnaval, o Bip Bip saiu para o seu cortejo curto na rua Almirante Gonçalves. Depois do esquenta com clássicos do samba o bloco deste bar mitológico saiu pela rua em direção à praia, e logo foi em direção à esquina da Nossa Senhora de Copacabana. É um bloco comportado. Ninguém fecha a rua, e nem há homens sem camisa puxando as mulheres à força. Todo mundo canta. Chuviscava, mas cantávamos “Alá lá ô ô ô ô ô, mas que calor ô ô ô”. E fomos indo, madrugada adentro, percorrendo um repertório irrepreensível, transitando por marchinhas, sambas de escola, clássicos da avenida, pagodes de primeira.

Como eu escrevi no ano passado, não demoraria muito para o Bola Preta ultrapassar o Galo da Madrugada, como maior bloco do mundo. Foi mais rápido do que eu imaginava. E o Bola é o Bola, mesmo em todo o seu gigantismo eu acho uma delícia: fantasias engraçadas, grandes grupos de amigos suburbanos uniformizados que também são muito divertidos, gringos atônitos, gente de toda a cidade, de todo o Brasil, de todo o mundo. Adoro. E com aquela chuvinha boa, estava melhor ainda.

O Sassaricando se firma com força como um dos melhores blocos da cidade, com gente fantasiada, clima alegre, muitas famílias, com com um defeito grave: tem muito jornalista, parece até o Imprensa que Eu Gamo… Econtrei, no barato, mais de 20 coleguinhas. Não perco mais este bloco que desfila na Praça do Russel, na Glória. Mas apesar do clima tranquilo, um problema grave: não havia banheiro químico. Tive que andar uns 15 minutos até um bar, mas pelo menos deu para ver o terceiro gol do Mengão na TV do boteco. 🙂

E não é só lá: estão fantando banheiros em toda a cidade. Precisa de pelo menos umas quatro ou cinco vezes mais. Alô, prefeitura. E a Antártica quer vender cerveja e não coloca banheiro? Francamente…

Tem gente que não gosta, mas eu prefiro pular carnaval na rua com uma chuvinha fina, como a de ontem. Além de refrescar, limpa a cidade (há uns dois anos não choveu, e o Rio ficou um fedor só, com odor de urina, comida em decomposição e lixo, tudo tostado pelo sol). Tô adorando.

Encerrei a noite com a Feijoada do Amaral. No palco principal estava tendo um som muito estranho. Mas lá onde estava rolando a comida tinha uma roda de samba e choro de primeira linha, com bom espaço para dançar. No camarote, uma loucura: tinha até mulher querendo aparecer posando para fotos só de calcinha, calcinha pequena, é claro. Só não esperava pegar tanto trânsito na volta para casa, às 23h, depois da saideira no boteco da Praça Mauá. Delícia.

Hoje damos um descanso ao corpo, subindo a serra.

Amanhã, trabalho de tarde até a madrugada.
Na terça, liberado de novo para a folia.

Na quarta, trabalho de novo.

Tô achando bom isso, um carnaval com uma paradinha no meio. Pular os cinco ou seis dias direto hoje me exigiria uma semana no estaleiro. Não aguento mais, não…

Um pouco de carnaval

03/03/2011

Banda de Ipanema com sol é uma delícia

Este ano não estou muito em clima de carnaval, não. Apesar de que hoje vou ao Baile de Gala da Devassa, amanhã no Bip Bip (é o único bloco de sexta possível a um trabalhador, já que sai á meia-noite), no sábado a algumas agremiações matinais de Santa Teresa e Centro, terminando nas águas de Ipanema antes de seguir para a feijoada do Amaral, no domingo, se tudo der certo, subo a serra para levar a filha no baile infantil do Comary, na segunda trabalho no caderno de carnaval d’O  Globo e, na terça, de folga novamente, ainda não sei. 🙂
Como ia dizendo, este 2011 não me animou. Muita coisa na cabeça, ainda nem tive tempo de pensar em folia. Por isso, não fiz nenhum post (não consigo escrever sobre um assunto, aqui neste blog, por obrigação).
Mas, ao menos para a data não passar em branco, resolvi postar alguns links de outros carnavais.

Um fim de semana sambista no Rio de Janeiro

O carnaval, o verão e o choque de ordem (e viva Paulo Barros)

Feijão dá samba: a relação entre o carnaval carioca e o mais brasileiro dos pratos

Abram alas que o blog já está passando

O guia indispensável do carnaval carioca

A livraria mais carioca do mundo

A lista oficial com locais de desfile, horários de concentração e percurso dos blocos de carnaval do Rio (versão 2010, mas muita coisa ainda vale)

O carnaval e o tempo (ou vice-versa)

Mais um link essencial para o carnaval carioca (versão 2010, mas muita coisa ainda vale)

Porque eu adoro o verão carioca



Bip Bip: um boteco carioca, que é bloco de carnaval e roda de samba

No balanço do verão

21/03/2010

A praia de Ipanema no desfile do Simpatia é Quase Amor no domingo de carnaval

O verão mais quente do Rio de Janeiro começou bem, com o Flamengo conquistando o sexto título brasileiro e colorindo o país de rubro-negro. Lindo!
E terminou mal, com o infeliz do Ibsen Pinheiro, este anão da política nacional, tentando roubar na mão grande a grana do estado do Rio de Janeiro. A exemplo do Inter, que não conseguiu superar o Mengão, o deputado gaúcho também não vai conseguir o que quer, que é foder o Rio e bagunçar o coreto.
Foi um verão estranho este. Chuvas infernais na virada do ano mataram dezenas de pessoas. Então, depois do aguaceiro, tivemos um janeiro nunca antes visto: sem chuva e com mar quente, o que resultou no modismo mais legal do verão: os banhos de mar à noite – assim, o Arpoador virou o ponto de encontro da galera.
O choque de ordem fez um bem danado a Ipanema – e agora vai começar a fazer também a Copacabana. Apesar de alguns sem educação que insistem em burlar a lei, a proibição do altinho foi uma bola dentro da prefeitura. Mas impedir o Uruguaio de fazer suas carnes foi uma bola fora, tal a proibição do queijo de coalho na areia.
Já que falamos de gastronomia, este verão lançou uma tendência e confirmou outras duas. Com a abertura da Prima Bruschetteria o Leblon ganhou mais um casa dedicada a certa especialidade, no caso as fatias de pão com várias coberturas. A casa tá bombando, lotada todos os dias.
As iogurterias, lançadas no verão de 2008, e a kebaberias, sensação do verão de 2009, consolidaram a sua posição. As primeiras tomaram a cidade, de maneira que só em Ipanema já devemos ter umas dez. E as kebaberias, que foram chegando a partir do começo do ano passado, no fim de 2009 ganharam sua melhor representante na cidade, a Yalla, na Dias Ferreira, no Leblon.
E o carnaval?
Bem, o Rio virou o destino da vez na folia de Momo, arrancando de Salvador o título e, de quebra, lascou de Recife a condição de ser a cidade com o maior bloco de carnaval do Mundo. Hoje, o Cordão do Bola Preta é maior que o Galo da Madrugada.
Faltam muitos banheiros químicos, as a caça aos mijões teve um resultado positivo. A perseguida organização dos desfiles dos blocos é que não me agrada tanto. Deveria haver interesse no desenvolvimento de pequenos blocos de bairro e os grandões, se não o tiverem identidade regional, devem ser mandados para o Centro, como aconteceu com o Monobloco e deveria acontecer com o Afroreggae. Dando um exemplo: o Suvaco de Cristo tem identidade com o Jardim Botânico, como os Barbas têm como Botafogo e o Simpatia com Ipanema, mas o Afroreggae não tem com lugar algum (talvez com Vigário Geral), nem o Monobloco.

Pesando prós e contras, foi um bom verão. Até porque, uma estação que começa com o Mengão levantando a taça do Campeonato Brasileiro, só pode ser mesmo inesquecível. Um sonho para os flamenguistas, e um pesadelo para todos os outros, essa tal torcida do arco-íris, que reúne todos os outros clubes. Do Rio, do Brasil e do mundo. Porque o Flamengo é o maior.