Archive for the ‘Cerveja’ Category

Viajar, comer, beber, aprender, compartilhar: o blog está de volta antes de virar site

31/05/2016

Viagens, comidas e bebidas são coisas indissociáveis. As pessoas viajam para provar pratos típicos, vinhos, cervejas, uísques, cachaças. E fazer uma refeição é sempre uma forma de viajar, tanto no sentido literal, quanto muitas vezes no figurado, aquela trufa branca que nos conduz até o Piemonte. A bebida faz o mesmo com a gente: um Barolo que nos leva direto para Monforte d’Alba, aquela cerveja que traz a Bélgica até nós.
Isso tudo para dizer que este blog Rio de Janeiro a Dezembro, cujo nome eu adoro, tinha como missão tratar das delícias cariocas. Porém, apesar de engraçadinho, o nome acaba indicando um universo restrito de assuntos, e não será mais assim.
O Rio de Janeiro a Dezembro nasceu como herança de outro blog que cuidei com muito carinho: Direto do Rio, criado em 2006 (portanto, vejo que sou blogueiro há dez anos), quando fui morar em São Paulo, para ser editor da revista Viagem e Turismo, e inspetor de restaurantes do saudoso Guia Quatro Rodas. ele ficava hospedado no site Viaje Aqui, guarda-chuva de várias publicações de turismo e gastronomia da Editora Abril. Saí da empresa, mas continuei colaborando com eles, até que quando fui trabalhar em O Globo, em 2009, precisei deixar o blog. Mas já tinha me apegado a ele, e gostava cada vez mais de escever sobre o Rio. No periódico carioca, eu fazia o blog Enoteca, e trabalhava para a revista Boa Viagem, depois ganhei a coluna de vinhos na Revista, e uma outra no finado Globo a Mais. Ou seja, ainda que os assuntos se entrelacem, havia espaços bem demilitados. Turismo em Boa Viagem; a vida carioca em Rio de Janeiro a Dezembro; vinho e outras bebidas em Enoteca. Mas agora quero mesmo é misturar isso tudo.
Depois de um ano e meio em regime quase sabático, fazendo apenas pequenos trabalhos e refletindo profundamente sobre a profissão, decidi nunca mais voltar a trabalhar em uma redação, pelo menos não nos modelos atuais, um sistema praticamente escravocrata, estressante, com salários baixos, assédio moral e mais uma centena de coisas desagradáveis que poluem esses ambientes editoriais (há exceções, claro).
Neste período nasceram muitas ideias. Algumas delas abandonadas, outras em pleno andamento, e tantas mais ainda no campo dos sonhos. Aplicativo, consultoria de turismo, site, programa de TV, websérie, livros, filmes… Até fazer cervejas e conservas entraram na pauta. Fazer vinho também. Um monte de coisa boa a caminho, ou como objeto de sonho. Mas, entre todos os trabalhos que já fiz e que desejo ainda fazer, editar um blog está no topo de minhas predileções, junto de palestras e aulas, porque o contato com o público, diretamente, olho no olho, também me encanta.
Viajar, comer, beber, aprender, compartilhar… Essa é a meta. Enquanto o novo site não fica pronto (confesso, ainda nem comecei a cuidar disso, as prioridades no momento são outras), vou por aqui tentando desenferrujar, e dar forma ao tipo de conteúdo que pretendo publicar no site, com dicas, notícias, crônicas, críticas, reportagens, um ambiente plural, onde comidas e bebidas são protagonistas.
Por ora, é isso.
Obrigado pela companhia.

Guia 450 Sabores do Rio 49 – Botto Bar: entre as 20 torneiras de cerveja da casa jorra sempre a Noi Amara, uma das melhores do Brasil

17/04/2015
A Noi Amara é produzida por Leonardo Botto na fábrica de Niterói: com uma espuma densa e muito perfumada, é uma Imperial IPA (India Pale Ale), com 10,5% de álcool, cheia de notas cítricas e maltadas. A receita leva cinco tipos de maltes e dois lúpulos diferentes — o americano summit e o australiano galaxy

A Noi Amara é produzida por Leonardo Botto na fábrica de Niterói: com uma espuma densa e muito perfumada, é uma Imperial IPA (India Pale Ale), com 10,5% de álcool, cheia de notas cítricas e maltadas. A receita leva cinco tipos de maltes e dois lúpulos diferentes — o americano nugget e o australiano galaxy

Exibida, encorpada e alcoólica, a cerveja Noi Amara é cotada como uma das melhores do Brasil. Produzida em Niterói seguindo a receita do mestre cervejeiro carioca Leonardo Botto, é deliciosa na garrafa, e consegue ser ainda melhor, como quase sempre acontece, quando servida “on tap”, direto das torneiras. Com uma espuma densa e muito perfumada, é uma Imperial IPA (India Pale Ale), com 10,5% de álcool, cheio de notas cítricas e maltadas. A receita leva cinco tipos de maltes e dois lúpulos diferentes — o americano nugget e o australiano galaxy. Pois o Leonardo Botto inaugurou o Botto Bar, e quase sempre – tem entre as suas 20 torneiras – a Noi Amara, servida no copo especial para IPAs. Não pode haver lugar melhor para se provar essa cerveja. A escolha de cervejas vendidas na casa geralmente é muito bem feita, criteriosa, com uma seleção de estilos diversos, de marcas de diversas procedências. Difícil ter algo que não seja bom. A cozinha segue a cultura cervejeira, com um apanhado de comidinhas com inspiração nos principais países produtores. Para celebrar a Bélgica, carbonade flamande, clássico da gastronomia flamenga, nacos de carne cozidos em cerveja e gratinados com queijo, macios e saborosos, servido com pão de malte feito na casa. Há deliciosos croquetes de queijo, empanados com massa cabelo de anjo, inspirada na receita do albergue vizinho à Abadia Notre Dame de Scourmont, na Bélgica, produtora da Chimay, a famosa trapista. No menu executivo, encontramos kassler com salada de batatas, lembrando a tradição alemã. E, festejando a cultura cervejeira dos EUA, wings picantes: oito coxinhas de frango fritas e marinadas em molho picante da casa, servidas com molho blue cheese e palitos de aipo. Não poderia faltar hambúrguer. A Inglaterra jamais seria esquecida neste painel, e a homenagem chega em forma de fish ‘n’ chips, claro, com molho tártaro e limão siciliano. A cerveja muitas vezes é usada ns receitas, caso do croquete cremoso a base de pernil assado no chopp. Acompanha molhinho de abacaxi agridoce; e do escondidinho Botto Bar, uma das melhores pedidas da casa: cubos de carne cozidos em molho cremoso de chope e cobertos por purê de aipim ao gorgonzola, tudo gratinado com mix de queijos, e servido em panelinha. Quente pra diabos, e ainda fica melhor se colocar ainda mais umpouco. Pra beber, uma Noi Amara, naturalmente. Encontro de gigante. Sábado rola feijoada. E na trilha sonora, rock, muito rock, muitas vezes tocado ao vivo, por bandas que desfilam repertórios clássicos do gênero.

BOTTO BAR – Rua Barão de Iguatemi 205, Praça da Bandeira. Tel. 3496-7407. De ter. a sáb., das 15h à meia-noite; dom., das 15h às 22h. http://www.bottobar.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 48 – Bazzar Lado B: a comida confortável com jeitinho brasileiro e seu lindo croque sinhá

16/04/2015
O croque sinhá do Bazzar Lado B, em IPanema: Servido em bonita tijela de cerâmica, é a combinação sedosa entre presunto cozido com queijo gruyère suíço, montados em pão de forma e gratinados, conjunto coroado pelo ovo caipira do Sítio Anahata

O croque sinhá do Bazzar Lado B, em Ipanema: servido em bonita tigela de cerâmica, é a combinação sedosa e cremosa entre presunto cozido com queijo gruyère suíço, montados em pão de forma e gratinados, conjunto coroado pelo ovo caipira do Sítio Anahata

 

Dizem que tudo fica melhor com dois ovos por cima. Tese inquestionável. Então, imagine um croque madame com um temperinho caipira. Pois o croque sinhá do Bazzar Lado B, que funciona no segundo andar da filial de Ipanema da Livraria da Travessa, é assim. Perfeito para um café da manhã tardio e preguiçoso. Servido em bonita tigela de cerâmica, é a combinação sedosa e cremosa entre presunto cozido com queijo gruyère suíço, montados em pão de forma e gratinados, conjunto coroado pelo ovo caipira do Sítio Anahata. Sim, comida confortável é a proposta da casa, que tem muitas formas de utilização. Pela manhã serve café, com cardápio específico, que tem, além do croque sinhá, ovos mexidos daqueles cremosos, de amarelo intenso. Ele também brilha em outro prato do menu enxuto e certeiro, composto ainda por sopinhas e saladas, sanduíches, grelhados com molhos e acompanhamentos a escolher, e um time de sobremesas estilo casa da avó. Desta vez cozido, o ovo caipira é um dos componentes da salada de bacalhau, com o peixe confitado em lascas, mesclado a arroz vermelho, cebola roxa, alho confit e folhas orgânicas, tudo com muito azeite, uma delícia ainda maior com uma taça de vinho branco. Ali encontramos clássicos do Bazzar, como o escondidinho de aipim com pato e queijo de cabra da Fazenda Genève, além da famosa tarte tatin. Outra excelente escolha é o hambúrguer, um dos melhores do Rio, seguindo a mais fina linhagem tradicionalista deste sanduíche clássico. A composição leva carne de picanha, com a gordura moída em separado, para dar mais suculência ao hambúrguer. A carne vem com o interior rosado, e a casquinha bem grelhada, coberta com queijo cheddar em estado de derretimento. Ao redor, alho confit, saladinha de rúcula, e dois molhos da casa, barbecue e mostarda. O pão fofinho vai à grelha, ganhando aquelas marcas tostadinhas, e que realçam o sabor. As batatinhas fritas em forma de palito comprido, sequinho, são servidas ao lado. Para encerrar, além da melhor tarte tatin do Rio, que tal um copo de churros, que chega à mesa simpaticamente em tábua de madeira, onde foi estrategicamente colocada uma colherada generosa de doce de leite Aviação, que ganha ainda uma salpicada de flor de sal, para contrapor. Há boas escolhas de vinhos em taça, que variam regularmente. E a carta de cervejas segue a mesma linha: se não é ampla, tem oferta variadas com rótulos bem escolhidos.

 

BAZZAR LADO B – Rua Visconde de Pirajá 572, Ipanema. Tel. 2249-4977. Seg., do meio-dia às 23h; de ter. a dom, das 10h às 23h. www.bazzar.com.br Aceita cartões.

 

 

Divino Malte: uma das melhores lojas de cerveja do Rio vende a mítica Westvleteren 12

08/04/2015
A deliciosa californiana Sierra Nevada Pale Ale, novidade no Brasil: lançamento a R$ 15, depois sobre para R$ 20

A deliciosa californiana Sierra Nevada Pale Ale, novidade no Brasil: lançamento a R$ 15, depois sobre para R$ 20

Conheci a loja Divino Malte através de sua própria insistência. Comecei a receber e-mails divulgando esta loja de cerveja. Apagava todos, até que um me chamou a atenção. Isso porque anunciava a cerveja Sierra Nevada Pale Ale a R$ 15. O rótulo está chegando agora ao Brasil, e é muito bom, por sinal, um belo representante da escola californiana, com boa carga de lúpulo, muito perfumada e com estrutura elegante, paladar fino. O praço é muito bom, visto que eu já paguei US$ 5 por uma garrafinha dessas em uma deli de um hotel da Flórida. Ou seja, com o câmbio atual, está mais barato aqui do que nos EUA. Isso quase nunca acontece com nenhum tipo de produto, ainda mais os americanos. Pois então fui ver, e descobri que a loja fica ao lado de minha casa, a apenas três quadras, exatamente na rua Visconde de Pirajá 437, é a loja “i” de uma galeria comercial como tantas do bairro.
A loja fica lá nos fundos, e é miúda. Mesmo assim, está sempre lotada, com seus seis ou sete clientes, capacidade máxima do lugar. Pedi uma Sierra Nevada Pale Ale, e falei sobre o preço.
– É uma promoção de lançamento. Depois, vamos subir. Vamos vender a R$ 20 – disse o atendente.

A loja Divino Malte, em Ipanema, tem rótulos como os da japonesa Kuchi Brewery e da americana Blue Moon

A loja Divino Malte, em Ipanema, tem rótulos como os da japonesa Kuchi Brewery e da americana Blue Moon

Ok, ainda assim está um valor ok. Os preços que praticam ali são os melhores que já vi na Zona Sul. Tipo Noi Amara a R$ 30. Era uma quarta-feira à tarde, e na TV passava um jogo da Liga dos Campeões. Toda hora entrava alguém, para comprar uma cerveja, ou para beber ali. Pelo espaço diminuto, rola uma intimidade quase obrigatória entre os frequentadores, que acaba, conversando sobre cerveja, muita cerveja, além de futebol, política, Rio de Janeiro. Como toda a mesa de um bar, o que o Divino Malte não deixa de ser. Para comer, só amendoins, ofertados como cortesia.
Continuo recebendo os e-mails deles. Pois então hoje chega mais um que me chama a atenção. No assunto estava escrito: “DIVINO MALTE | WESVLETEREN 12”.
Para quem não sabe, esta é provavelmente a mais cultuada cerveja do mundo. Raríssima, é vendida em pequenas quantidades no mosteiro belga onde é produzido, manipulada exclusivamente pelos próprios monges (daí a produção muito limitada). É a Browerij der Abdij van St. Sixtus, localizada na cidade de Westvleteren (ou Sint-Sixtusabdij Westvleteren, segunda outra grafia). Para visitar o site da abadia, clique aqui.

A Westvleteren 8, um pouco mais leve e menos alcoólica que a Westvleteren 12, sobre a mesa do bar do Antiquarius

A Westvleteren 8, um pouco mais leve e menos alcoólica que a Westvleteren 12, sobre a mesa do bar do Antiquarius

A Westvleteren 12 é um mito do universo cervejeiro, e beber uma dessas garrafas é um privilégio. Honra que eu pude ter através da generosidade de uma amiga, que foi até a Bélgica, e trouxe algumas dessas joias na mala (na mesma noite provei ainda a Westvleteren 8 e a Westvleteren 10, e fizemos isso no Antiquarius, comendo entre outras coisas bochechas de javali!). Na foto acima, aparece a Westvleteren 8, com detalhes em azul na tampinha.

As Westvleteren 8 e 12, no Antiquarius, em foto do Instagram (@brunoagostinifoto)

As Westvleteren 8 e 12, no Antiquarius, em foto do Instagram (@brunoagostinifoto)

Mas falamos da Westvleteren 12, a maioral, ícone maior desta abadia, pra muita gente, como dizíamos, a melhor cerveja do mundo, acima  em foto do Instagram (@brunoagostinifoto) ao lado da 8.
É uma cerveja corpulenta, afinal tem pelo menos 10,2% de álcool, e uma base de malte densa, untuosa, ampla. Musculosa e firme, a Westvleteren 12 (também se usa a numeração romana, XII) tem notas finas de padaria, malte e fermento, com algo que remete a frutos secos, como passas, ameixas e tâmaras, lembrando até um Jerez Pedro Ximenez. Tem aromas de chocolate amargo, especiarias… Uma loucura.
Lançada oficialmente em 1941, com nome oficial de Sixtus, a partir de 1992 adotou o nome Westvleteren depois de uma briga com a cervejaria vizinha St. Bernardus, com quem tinha uma parceria. A Justiça, então, determinou que ninguém poderia usar o nome Sixtus (o nome do mosteiro é Abadia de São Sisto). Lá na abadia uma caixa com 24 garrafas de 330 ml custa 40 euros, ou 52, para quem não tiver a caixa de madeira e os vasilhames para trocar.
Pois a Divino Malte está fazendo, até o próximo sábado, dia 11, a pré-venda desta cerveja mítica, a famosa garrafa sem rótulo, com tampinha com detalhes em amarelo. Vai custar R$ 175. Barato realmente não é… Mas da última vez que ouvi falar da venda da Westvleteren 12 no Rio ela custava R$ 250. Em São Paulo, soube da venda no Empório Alto de Pinheiros a R$ 190.

DIVINO MALTE – Rua Visconde de Pirajá 437, Loja i, Ipanema. Tel. (21) 3563-9491. http://www.divinomalte.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 40 – Cachambeer: um boteco épico, com petiscos heróicos e deliciosos

08/04/2015
Meninas ficam espantadas, e encantadas, com o costelão recém-saído do forno de bafo, onde fica por horas assando lentamente

Meninas ficam espantadas, e encantadas, com o costelão recém-saído do forno de bafo, onde fica por horas assando lentamente

Há um certo sentido épico na existência do Cachambeer. Numa bebedeira, Marcelo Novaes, o dono atual deste boteco com trocadilho anglófilo no nome tipicamente carioca, acabou comprando o bar, do qual era frequentador assíduo. Hoje ele preserva o ritual copioso e está lá, batendo ponto dia sim, outro também, ajudado por sei fiel escudeiro, o Pança, que comanda a churrasqueira com heroísmo heróico, na calçada. Como Don Quixote e Sancho Panza, formam uma dupla e tanto. Marcelo montou um boteco de sonhos, quase um devaneio. A costela no bafo é uma epopeia carnívora, os ossos expostos, a carne longamente assada por horas e horas, do tipo que se desmancha ao olhar, nem precisa colher, aquela cebola desmaiada que ajusta o sabor, dando delicados contornos adocicados. Há porções de tamanhos variados, para até seis pessoas. As menores servem três. Quatro até, caso recorram aos petiscos preliminares. Até seis ou oito, até dez, caso as pessoas encarem o costelão como tapa, a maneira espanhola do petiscar comunitário. Com pompa e circustância. O cardápio é enorme, investindo pesado nas iguarias mais calóricas possíveis, e das mais apropridas para serem divididas entre muitos, entre elas duas das porções mistas, no meio de uma seleção com várias, uma chamada Infarto Completo, outra de Tábua Hipertensão (o primeiro, com torresmo, coração e aipim, entre oito itens; e o segundo um combinado com sete carnes, como cordeiro, paio, camarão à milanesa e costelinha de porco, com dois molhos: rosé e barbecue). Outro elemento de destaque é o palmito in natura, coberto com muito camarão e Catupiry (mesmo crustáceo que estrela um dos pastéis mais famosos da casa). O chamado Porquinho embriagado é uma costelinha laqueada em muita cerveja preta, servida com farofinha de bacon, alho torrado e uma dose de pinga. Tudom na medida exata. A deliciosa loucura prossegue com a língua faladeira e o jiló (o músculo bucal bovino em rara e feliz namoro com o vegetal amargo), o joelhão de porco à pururuca e o prato batizado como Olha a marra do porquinho, nada menos do que nacos robustos de barriga suína lindamente assados ao alho e servidos com dois molho: o de mel e mostarda e o de limão com abacaxi. Veja só que abuso…

CACHAMBEER – R. Cachambi 475, Cachambi. Tel. 3597-2002. DE ter. a sex., das 17h à meia-noite; sáb., do meio-dia à meia-noite; dom. e feriados, do meio-dia às 18h. http://www.cachambeer.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 39 –Bar da Gema: um boteco bem bolado que serve polenta, torresmo, pastel, lasanha, coxinha, hambúrguer…

07/04/2015
Uma das estrelas do cardápio do Bar da Gema é a polenta que, coberta com rabada desfiada, é dos melhores petiscos em cartaz no Rio

Uma das estrelas do cardápio do Bar da Gema é a polenta que, coberta com rabada desfiada, é dos melhores petiscos em cartaz no Rio

O Bar da Gema tem um histórico muito particular, e ao mesmo tempo muito bem representa a nova geração de botequins do Rio de Janeiro. Resultado da união de amigos que fizeram faculdade de gastronomia, a dupla Luiza Souza e Leandro Amaral, tem uma lista vasta de quitutes bem bolados, e com execução segura de quem sabe cozinhar, com técnica, um pouco de criatividade e respeito às tradições culinárias. Desse modo, encontramos ali coxinha, hambúrguer, caldinhos, lasanha, polenta, pastel e torresmo. Mas sempre com uma bossa. Símbolo maior desse borogodó simpático é a polenta que, coberta com rabada desfiada, é dos melhores petiscos em cartaz no Rio. Nem muito alta, nem muito fina, a massa de farinha de milho é grelhada, ganhando uma camada externa douradinha e crocante, protegendo o interior cremoso. Cortado em quadradinhos, serve de base para a carne do rabo bovino muito bem cozida, se desmanchando, com um toque de cheiro verde, para dar vivacidade. Nas noites de terça rola uma coxinha de galinha, que muita gente boa considera a melhor do Rio. Às quartas, a turma que vai até lá ver o futebol, tem como iguaria do dia o hambúrguer de peito bovino com compota de berinjela e muçarela, com batatas rústicas e molho béarnaise. Golaço! Tem pastel, sim. Mas de mortadela com cebola e de feijão gordo. Caldinho? Mas é claro. Só que é caldinho de jiló, versão líquida e bem temperada deste ingrediente clássico dos botequins carioca, temperado com alho frito, com textura admiravelmente cremosa. A lasanha é de jiló, fazendo as vezes de massa. A montagem é vertical, com umas quatro camadas do jiló entremeadas por igual quantidade de andares de queijo, e de uns pedacinhos de linguiça, com um bom e encorpado molho de tomate regando todo o lindo conjunto. Outro bom exemplo do nível do menu é o petisco que atende pelo nome de Péla égua: “É uma trouxinha de couve recheada com canjiquinha e queijo. E coberta por um molho de linguiça”, como define o próprio criador, o chef Leandro Amaral. Como bom botequim que se preze, há torresmo, tipo pipoca, dos bons, uma companhia esperta para apurar a sede, e derramarmos mais cerveja goela abaixo, muito próprio para embalar o papo com os amigos. A última criação da dupla Luiza Souza e Leandro Amaral foi para a edição 2015 do Comida di Buteco: uma porção de cubos de frango acompanhado de farofa de quiabo de milho flocado. Mais um motivo para corrermos até lá para conferir a novidade.

BAR DA GEMA – Rua Barão de Mesquita 615, lojas C e D, Tijuca. Tel. 2208-9414. De ter. a qui., das 17h à meia-noite; sex., das 17h à 1h; sáb., das 13h à 1h; dom., do meio-dia às 19h. Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 38 – Bar da Frente: um boteco original e imperdível, com seus petiscos deliciosos com nomes impagáveis

06/04/2015
O fofinho de camarão é uma espécie de bolinho de chuva em verão salgada, recheado com o crustáceo envolto em Catupiry. Simplesmente isso...

O fofinho de camarão é uma espécie de bolinho de chuva em verão salgada, recheado com o crustáceo envolto em Catupiry. Simplesmente isso…

Imagine um daqueles bolinhos de chuva, a massa aerada e macia, em versão salgada. Carregando em seu interior delicadamente esponjoso um camarão espetado em um palito, e envolto em uma colherada de Catupiry, é um daqueles petiscos dignos de antologia. Batizado adequadamente de fofinho de camarão, é uma das estrelas principais do Bar da Frente, um desses botecos essenciais para entender o que se passa na gastronomia tradicional do Rio de Janeiro. Com muita imaginação, cuidado e inteligência no desenvolvimento, além de carinho e técnica no preparo, nasceram nos últimos anos várias receitas que trabalham com clássicos do gênero, categoria na qual o Aconchego Carioca é ícone, com os seus bolinhos de feijoada, e outras reinterpretações (e cabe dizer que o bar da Frente funciona no mesmo local de fundação do Aconchego, agora do outro lado da rua, e assim nasceu o nome do bar pilotado por Valéria e Mariana Rezende, mãe e filha, sempre presentes, e amigos da Katia Barbosa, e de toda a turma do Aconchego). Pois o Bar da Frente, é dos mais aconchegantes e cariocas dos botecos. Pequeno, tem a medida exata da intimidade. Vamos ao banheiros, e damos um alô para a cozinha. A varandinha de poucas mesas é muito aprazível, e pedimos alguma das bem escolhidas cervejas da carta, baseada em rótulos nacionais. O repertório de belisquetes é um primor. Além dos fofinhos de camarão, há as mini coxinhas com fondue de queijo. Pois é isso mesmo. O salgadinho em versão miúda é servido junto de um pequeno réchaud que mantém aquecido uma cremosa fonduta de queijo. E se fazer bolinhos virou moda, o Bar da Frente criou uma versão certeira do estrogonofe, a melhor que se tem notícia entre as tantas variações de croquete deste prato de carne, em formato comprido, com interior cremoso e casquinha crocante, para ser passado em batata palha, que vem ao lado. Quer mais? Temos o indecente e delicioso porquinho de quimono, de nome muito bom. Isso porque se trata de um harumaki de massa crocante recheado com costelinha suína defumada e desfiada com requeijão. E o repertório não termina nas entradas, seção que inclui ainda uma das melhores moelas do Rio, cozida em molho de tomate e vinho. Entre os pratos principais, o arroz de rabada está entre os campeões. Os nomes são tão bons quanto a comida. O arroz de puta rica é outro prato ícone, feito com linguiça, carne-seca, frango, filé-mignon, ervilha, cenoura, milho, palmito, azeitona e dois ovos estrelados, coroando lindamente a refeição, farta. Outro exemplo é o camarão à Chica Louca, salteado no vinho branco, com alho poró, que põe um temperinho francófilo neste boteco tão autêntico, e tão carioca. Uma das maiores joias da gastronomia do Rio.

BAR DA FRENTE – Rua Barão de Iguatemi 388, Praça da Bandeira. Tel. 2502-0176. De ter. a sáb., do meio-dia à meia-noite; dom., do meio-dia às 18h. http://www.bardafrente.com.br Aceita cartões.

Trópica: nova cervejaria carioca lança dois rótulos colaborativos com a Röter

29/03/2015
A Trópica 01 Bora Bora é uma American Blond com perfume de witbier, de coentro e casca de tangerina

A Trópica 01 Bora Bora é uma American Blond com perfume de witbier, de coentro e casca de tangerina, com 4,8%

 

O mundo das cervejas artesanais no Brasil é um universo em ebulição, e em expansão. Na mesma semana em que foi lançada a Miwok, produzida pela Rock Bird em parceria com a Röter, essa mesmo cervejaria apresentou outros dois rótulos colaborativos: Bora Bora (na foto) e Arequipa, ambos assinados pela Cervejaria Trópica, outra novidade tinindo de nova.  A Bora Bora é  Trópica 01, e a Arequipa é a Trópica 02. O Lançamento da dupla aconteceu na quarta-feira passada, reunindo a nata do mundo da cerveja no Rio.

As duas cervejas tinham exatos 4,8% de álcool. Bora Bora assume um estilo híbrido. Uma American Blonde Ale, com laranja e casca de tangerina, dando uma pincelada no perfume, trazendo notas típicas de uma witbier. Está vendendo mais, e provavelmente será assim para sempre. Tem um estilo mais comercial, adequado ao mercado brasileiro.

Porém, os cervejeiros presentes foram unânimes em preferir a Arequipa, uma Session Ipa com mate (tipo o mate de praia mesmo), o que dá uma reforçada no amargor, de maneira delicada.

Cada uma em seu estilo, mostram personalidade, com receitas bem ajustadas. E a julgar pelas primeiras impressões do público (ouvi muito cervejeiro experimentado), a Trópica, assim como a Rock Bird, são marcas de futuro muito promissor.

Boto fé.

Guia 450 Sabores do Rio 29 – Boteco DOC: cervejas especiais e comidinhas bem boladas em Laranjeiras e Ipanema

28/03/2015
O trio de mini burger tem o tamanho ideal para ser apreciado em cinco ou seis mordidas, e virou um símbolo do lugar: a carne chega alta, quase uma almôndega, macia e suculenta, por um macio pão de parmesão, suja banda superior vem ao lado, permitindo uma visão melhor do sanduichinho. Derretendo-se, um queijo que minas padrão, e sobre ele temos picles de beterraba e cebola caramelizada

O trio de mini burger tem o tamanho ideal para ser apreciado em cinco ou seis mordidas, e virou um símbolo do lugar: a carne chega alta, quase uma almôndega, macia e suculenta, por um macio pão de parmesão, suja banda superior vem ao lado, permitindo uma visão melhor do sanduichinho. Derretendo-se, um queijo que minas padrão, e sobre ele temos picles de beterraba e cebola caramelizada

O Boteco DOC abriu as portas em 2013 com uma proposta bem antenada às demandas da boemia carioca. Comida boa, com receitas inteligentes e bem boladas, boa seleção de cervejas e preços camaradas. Por trás do sucesso da casa, um espaço pequeno e intimista em Laranjeiras, está o chef Gabriel de Carvalho,que cria receitas confortáveis e bem montadas. O trio de mini burger tem o tamanho ideal para ser apreciado em cinco ou seis mordidas, e virou um símbolo do lugar, pedido praticamente obrigatório. É mesmo muito bom. A carne chega alta, quase uma almôndega, macia e suculenta, por um macio pão de parmesão, suja banda superior vem ao lado, permitindo uma visão melhor do sanduichinho. Derretendo-se, um queijo que minas padrão, e sobre ele temos picles de beterraba e cebola caramelizada. Ou seja, todos os elementos de um burger perfeito. Outras boas sacadas são o pastel de carne assada, à moda do boeuf bourguignon; os dadinhos de queijo coalho empanados na tapioca; a barriga de porco assada com cogumelos em molho tonkatsu e o escondidinho de linguiça, com tutu de feijão, couve e farofa de laranja. O menu muda sempre, e no almoço há boas pedidas. Para encerrar, bolo de aipim com doce de leite e coco queimado. Para beber, há sempre alguns diferentes tipos de cerveja da Noi, direto das torneiras. Abriu filial em Ipanema, em lugar igualmente pequeno e acolhedor, com cardápio praticamente igual, e um foco também nos drinques, não apenas nas cervejas.

BOTECO DOC – Rua das Laranjeiras 486, Laranjeiras. Tel. 3486-2550. De ter a sex., do meio-dia à meia-noite; sáb., das 13 h à 1h; dom., das 13 h às 19h. http://www.botecodoc.com Aceita cartões.

Miwok, uma perfumada e equilibrada Session IPA, estreia em grande estilo da cervejaria Rock Bird

28/03/2015

Conheci o Afonso Dolabella há exatamente um ano, em março do ano passado, no Herr Pfeffer. Fui apresentado a ele, e a uma de suas cervejas, uma outmeal stout, que ainda por cima foi o que regou o joelhão de porco, antes de ele voltar ao voltar para ser levemente glaceado antes de ser servido (para ler essa história, clique aqui).
Pois na quinta passada, no mesmo Herr Pfeffer, no Leblon, e desta vez por pura coincidência, nos encontramos novamente. Esse é um dos meus locais preferidos na cidade hoje, para comer comida alemã (mas com ingredientes do Rio) e beber cervejas do mundo todo, e papear com os amigos. Na série 450 Sabores do Rio, destaquei justamente o joelhão da casa, algo único na cidade, e delicioso.

Afonso Dolabella tira a sua primeira cerveja comercial na torneira do Herr Pfeffer, no Leblon

Afonso Dolabella tira a sua primeira cerveja comercial na torneira do Herr Pfeffer, no Leblon

Pois na quinta passada o Afonso estava lá. Novamente levando uma cerveja de lavra própria. Mas desta vez, ao contrário do growler do ano passado, ele trazia um barril. Em vez de ter sido feita em casa, como a outmeal stout, tinha sido produzida em tanques, da cervejaria Röter, parceira dele, fundador da Rock Bird Craft Brewery (vejo enorme futuro nela).

Muito fácil de beber, a Miwok é fresca, saborosa e intensa, bem equilibrada, com boa textura, espuma firme, um acerveja de assumida inspiração californiana, que usa lúpulos da costa oeste dos EUA, e busca referência em clássicos da região

Muito fácil de beber, a Miwok é fresca, saborosa e intensa, bem equilibrada, com boa textura, espuma firme, um acerveja de assumida inspiração californiana, que usa lúpulos da costa oeste dos EUA, e busca referência em clássicos da região

Era uma West Coast Session IPA megalupulada, com 4,8%, batizada de Miwok Indian Series. Puta cerveja. Para os “hopheads”, ou seja, fanáticos por lúpulo. Muito fácil de beber, é fresca, saborosa e intensa, bem equilibrada, com boa textura, espuma firme. Um acerveja de assumida inspiração californiana, que usa lúpulos da costa oeste dos EUA, e busca referência em clássicos da região.
Ela seria lançada na sexta, e ele acertava os detalhes com Fabio Santos, sócio do Herr Peffer. Por sorte, tive o prazer e o privilégio, e a honra, de ver o Afonso plugar a sua primeira cerveja comercial na torneira. E também acompanhei ele tirar a primeira leva, com a devida pressão. E brindamos juntos com essa cerveja que achei incrível.
– Tem 16 gramas por litro de lúpulo. Uma IPA convencional tem 8 em média. Fiz um dry hopping poderoso.

A cerveja é muito aromática, cheia de ervas, com notas de frutas, como manga e melão, e toques cítricos

A cerveja é muito aromática, cheia de ervas, com notas de frutas, como manga e melão, e toques cítricos

O resultado é uma cerveja super aromática, com frescor intenso, e perfumes campestres, de ervas, grama cortada, mato, skank. Cheio de frutas tropicais também, com manga, melão e pêssego, algo cítrico, de abacaxi. Vai fazer sucesso, pode apostar.
Imagino que fique muito bom com peixes e frutos do mar em temperos asiáticos picantes, para sushis e sashimis mais encorpados, tipo enguia, polvo e toro, para usar wasabi e gengibre à vontade, além de queijos intensos, maduros e mais untuosos, gorgonzola e grana padano, por exemplo, e uma variedade de burgers, dos mais potentes, com cargas de picles, bacon defumado, barbecues, temperos picantes e queijos gordos. Achei que é muito boa para comida, por seu equilíbrio, seu perfil harmônico, mas com muita potência aromática, frescor, persistência e sabor marcante.

Miwok
O Lançamento continua pelos próximos dias nos principais redutos cervejeiros do Rio. Deixo o calendário.

Miwok 2
E a descrição da cerveja pela própria marca.
Belíssima novidade. Com identidade. Visual, inclusive. Afonso é designer, e criou uma programação visual interessante.