Archive for the ‘O meu Rio’ Category

Rio de Janeiro a Dezembro: um olhar amador (no sentido literal) sobre os bares, restaurantes e outras delícias cariocas

07/11/2018

O Pão de Açúcar, visto do terraço do hotel Yoo2 – Foto de Bruno Agostini

Sempre observei  o Rio de Janeiro com aquele olhar curioso de quem é um pouco residente e um pouco turista. Não sei se por ter morado parte da adolescência em Teresópolis, mas o Rio onde nasci e cresci, estudei, me formei e trabalhei – talvez por seu tamanho – sempre foi um pouco misterioso, até mesmo distante. O que é ótimo. É maravilhoso morar em um lugar e não conhecê-lo por inteiro, e ter sempre algo novo a explorar, um lugar desconhecido a visitar, um quitute jamais visto a se experimentar, um balcão inédito a se gastar a tarde. O Rio é assim.  Para mim.

Mesmo que há mais de dez anos eu tenha transformado o que era lazer em trabalho, ainda preservo um olhar amador sobre isso. Amador no sentido literal mesmo. Segundo o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, da Michaelis, amador (adj sm) é: 1)Que ou aquele que ama; amante; 20) Que ou aquele que gosta muito de alguma coisa; amante, apreciador; 3) Que ou aquele que se dedica a algo não por profissão, mas por diletantismo; diletante. E é disso que se trata. É assim que sou. Mesmo em missão de trabalho. Faço por amor, por paixão, e que sorte é poder trabalhar com aquilo que se gosta.

Ir a bares e restaurantes sempre foi um dos meus passatempos prediletos, e mesmo antes de entrar para a faculdade de jornalismo, e apesar da pouca idade, eu já me considerava um especialista em bares e botequins (também tinha boa experiência com grandes restaurantes, mas neste caso patrocinado pela família que sempre gostou de comer fora), porque os frequentava desde cedo, com fome e sede.  Continua sendo uma diversão, mas também é um trabalho, e já faz muito tempo que não entro em um bar ou restaurante sem esse olhar curioso, um tanto amador, mas também observador e provador profissional. Eu me divirto enquanto trabalho, e trabalho enquanto me divirto.

A partir de 2006, quando fui morar em São Paulo, comecei a escrever sobre o Rio de janeiro, pois até então só fazia reportagens de turismo e gastronomia. Fui, assim, a partir do prédio da Editora Abril na Marginal Pinheiro, afinando esse olhar de forasteiro, uma vez que eu escrevia para publicações de especializadas em Turismo, como a revista Viagem e Turismo, o Guia Quatro Rodas (naquela época já rebatizado de Guia Brasil) e o site Viaje Aqui, onde criei o blog Direto do Rio, que existiu até 2009, quando fui trabalhar no Boa Viagem, d’O Globo – e então criei este blog aqui, Rio de Janeiro a Dezembro, que andou um pouco descuidado nos últimos tempos, enquanto em pensava de que modo eu voltaria a usar esse espaço.  Ele, então, se torna uma parte do site Menu Agostini, que em breve será lançado (onde o Rio também terá destaque, é claro). Mas esse Rio de Janeiro a Dezembro se torna um lugar dedicado 100% à cidade, explorando também o interior, das serras ao litoral. Um guia com os melhores lugares para se comer e beber no Rio de Janeiro, com resenhas, crônicas e críticas sobre bares, restaurantes, cafés, enotecas, cervejarias, padarias, quiosques, mercados, feiras, armazéns e outras bodegas e botequins que mereçam atenção. Na pauta, listas de melhores em diferentes categorias, votações com especialistas, roteiros gastronômicos, crônicas gulosas e afetivas, memórias das comidas da infância, e muitas fotografias – em vídeos, muito em breve.

A ideia aqui também é começar a organizar textos, fotos e informações para a edição de livros, a começar por um guia com o melhor do Rio (nos moldes do que lancei em 2011, pela Editora Senac-RJ), e outros um pouco mais focados em temas mais específicos, como uma seleção de lugares antigos e cheios de histórias para contar e um projeto dedicado a mapear o universo cervejeiro do estado, com bares, lojas, fábricas, rótulos, tours e tudo o mais que envolve este assunto. Rio de Janeiro a Dezembro vira também um selo editorial.

Por ora é isso. Apertem os cintos que isso aqui será a maior viagem.

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Uma noite perfeita no Cipriani

01/10/2018

 

Gran finale: merengue, em apresentação linda e escultural, com o brasileiríssimo cupuaçu, além de morango e macedônia – Foto de Bruno Agostini

Era uma noite fria de quinta-feira, e chamou a atenção o salão bem cheio, quase lotado, do Cipriani. Movimentado daquele jeito eu só tinha visto em eventos fechados. Sentei no balcão do bar, embalado pelo piano logo ao lado. Pedi um bellini. Elogiei. Pedi explicações sobre o purê de pêssego.

– Eu faço aqui mesmo – explicou sem ostentação o bartender, o que em associação ao Prosecco de ótima qualidade explica a razão de estar tão bom o coquetel de origem veneziana, clássico do Cipriani original na cidade italiana.

Deu vontade de pedir mais um, mas já sabia que seria longa a noite, e segui para a  mesa. Olhando ao redor, era mais ou menos metade de estrangeiros, e a outra de brasileiros, entre cariocas – muitos – e turistas de outros estados. Muitos parecem hóspedes, mas várias mesas estavam claramente comemorando algo. O Cipriani é mesmo muito adequado para ocasiões especiais. Dois grupos diferentes tinham aniversariantes, e o clima de romance atraía muitos casais, daqui e de alhures.

Jantar no Cipriani é mesmo especial, e recentemente entrou seguramente para a lista de melhores restaurantes do país, em qualquer seleção que se faça. Difícil de competir: a vista linda da piscina mais famosa do Brasil, o serviço que está impecável, um pouco menos formal que antes (que bom), a lista de vinhos e os drinques e – sobretudo – e o que é o mais importante em um restaurante: uma cozinha de alto nível. Altíssimo nível. Dos grandes italianos do mundo. Do mundo, sim.

LEIA MAIS EM: https://brunoagostini.wordpress.com/cipriani/

Chez Claude: a cozinha afetiva do chef Troisgros

24/09/2018

Chez Claude: ovos e ovas – Foto de Bruno Agostini

“Mais à vontade do que nunca na Chez Claude, sua casa que faz um ano em dezembro, Monsieur Troisgros aproveita para apresentar ao mundo sua pupila Jéssica Trindade, que é quem está no comando da cozinha no dia-a-dia, mostrando competência e simpatia.
– Ela sabe exatamente como eu gosto de minha comida, e cozinha muito bem – elogia o chef, que sempre que a agenda permite dá expediente no salão, onde a cozinha é elemento central, dividindo o ambiente em dois, com um balcão debruçado sobre ela.
O preparo dos pratos é um show, e acontece uma deliciosa interação entre os clientes e os cozinheiros, que servem os pratos. Não à toa as filas na porta acontecem diariamente.”

Um dia, quatro restaurantes, entre eles o novíssimo Ró, inaugurado ontem, o primeiro crudívoro do Brasil

09/06/2016

Ontem fiz uma loucura, uma deliciosa e insana jornada gastronômica, em parte fruto do meu apetite por novidades, em parte resultado de feliz desenrolar de acontecimentos.

Já acordei com uma agenda cheia. Trabalho como escritor de manhã cedo, reunião às 11h, almoço ao meio-dia e meia no Puro, degustação de vinhos no Encontro Mistral, no Sofitel de Copacabana, às 17h, e jantar no Bagatelle, às 20h30.

Até aí, tudo bem.

Mas a loucura começo a se desenhar quando, logo ao chegar ao Puro, para o almoço, li na página do Facebook do novíssimo restaurante Ró a seguinte mensagem: “Chegou o dia! Abriremos hoje para almoço de 12:30 às 16:30 horas (sem reserva) e o jantar com reservas pelo telefone 3559-0102 ou e-mail contato@ro-raw.com Almoço com menu “a la carte” e jantar “Experiência Ró de 5 ou 8 pratos. Sejam todos muito bem-vindos !”

Pensei… Se o almoço acabar antes das 16h, acho que vou me sentar no balcão do Ró pra beber um drinque (tinha ouvido falar que este será um dos pontos fortes da casa) e provar uns dois pratos.

Enquanto apreciava um menu degustação de imenso deleite preparado pelo chef Pedro Siqueira, do Puro, que pra mim já se colocou na minha galeria de preferidos, toca o telefone.

– Oi, Bruno. Queria te convidar pra jantar esta semana no Sushi Leblon, o cardápio comemorativo dos 30 anos da casa, em carta até sexta, com o chef espanhol Ricardo Sanz, do premiado restaurante Kabuki, com quatro unidades em Madri, Tenerife e Málaga, todas elas estreladas pelo Guia Michellin. Você pode? – perguntou a assessora da casa.

– Caramba, que pena. Não vai dar. Tenho um jantar hoje, e amanhã eu subo a serra. Estou sofrendo desde já – respondi com o coração guloso tomado de imensa tristeza.

– Ah, não acredito. Queríamos tanto a sua presença.

– Olha, também quero ir. Mas só temos uma chance. Meu jantar está marcado para 20h30. Vou tentar passar pra 21h. Se der, eu poderia chegar às 19h, mas preciso sair 20h45 (sou metódico com horários, e tenho orgulho de raramente me atrasar para compromissos).

– Ok, vou ver se consigo.

Logo ela retorna.

– Consegui um lugar no balcão, 19h. Mas não atrasa, senão não dá tempo de provar o menu inteiro.

Pois então, neste hercúleo esforço de reportagem, eu consegui encaixar tudo o que queria.

Encerrei o almoço no Puro, que me deixou eufórico, com uma sequência de pratos arrebatadora (farei um post à parte), com destaque para os dois exemplares mar-e-montanha, o sashimi de vermelho em caldo de porco, e o polvo com barriga de porco, além de um lagostim no mais preciso ponto de cozimento possível, selado só de um lado, mostrando toda a delicadeza e sabor delicioso do crustáceo, sem falar na moela de pato, que me comoveu, e um acém de wagyu grelhado que eu vou te contar…

Como a novidade é fresquíssima, vou dedicar este post de hoje ao Ró, que – como já disse – abriu as portas para o público ontem.

Fica a poucos passos do Puro, ali no final (ou começo), da Pacheco Leão, quase na rua Jardim Botânico.

Subi as escadinhas que levam ao salão, muito bonito por sinal. As paredes de tijolo aparente, as mesas de madeira, uma escultura arborista no centro, a cozinha envidraçada ao fundo, e o bar com balcão de poucas cadeiras logo à esquerda, na entrada.

Cheguei, e dei de cara com uma mesa reunindo os criadores da casa. Os Alexandres Lalas e Schiavo, os sócios, e a chef Inês Braconnot, que foi enviada aos EUA pela dupla para estudar na mais prestigiosa escola de gastronomia crudívora, ou seja, não só vegetariana, mas também restrita a alimentos crus (na verdade, cujo processo de cozimento não pode passar os 42 graus Celsius.

Bebi um delicioso rosé da Vinhética, em edição não-filtrada, especialmente para a casa, acertado pedido do Lalas. E pude me encantar com esse menu criativo, com pratos lindos, com já andei acompanhando nas duas últimas semanas, quando as minhas redes sociais foram enfeitadas por fotos dos pratos. Provei alguns.

Ró - ravióli de nabo

O surpreendente ravióli de nabo

Comecei logo com o que foi o meu preferido, chamado adequadamente de transparência, um ravióli com “massa” de nabo, finíssima, recheado com kinchi e o PhilaRó, nome irreverente para o cremoso falso queijo, feito com leite de amêndoas.

Ró - sopa de cenoura

A aveludada sopa fria de cenoura

Depois, uma delicada sopa fria de cenoura, com gengibre, refrescante e bem temperada, aveludada pelo uso de castanhas e com o bom sabor do gergelim negro.

– Como você sabe, o gergelim negro é tostado. Ou seja, não é cru. Não sou radical, não gosto de radicalismo. Como é só um tempero, faço uma concessão. Mas 99% do que usamos é absolutamente cru – conta a chef Inês Braconnot.

Ró - salada de algas

A salada de algas, com gomos de laranja e rabanete

Logo em seguida, a salada de algas, que tem textura cheia de nuances, e que traz coroando a montagem dois gomos de laranja, ao fundo, pra no final o prato ganhe contornos cítricos e mais suculência.

Ró - panna non cotta

A irreverente panna non cotta

Pra fechar, o também irreverente no nome panna non cotta. Delírio na arquibancada. Que lugar legal, original, pioneiro, sem igual não no Rio, mas no Brasil, talvez na América Latina. Muita criatividade, louças belas, que dão lindos contornos à apresentação dos pratos, com flores, brotos e especiarias aparentes. Inteligência no uso dos temperos, e técnica apurada, nos cortes e nos preparos. Fiquei encantado. Só plantas. Uma leveza, uma delicadeza.

Enfim, quero voltar, com calma, com mais gente, pra provar todo o menu, todo. Porque tudo me apeteceu. Uma grande novidade para o Rio.

De lá, fui para o Encontro Mistral, rapidamente, e em seguida pro Sushi Leblon. O menu fica em cartaz até sexta, e é o seguinte. Tem primeiro uma versão do dry martini de boas-vindas feito com a vodca Belvedere. Em seguida, vieiras com shichimi fresco, usuzukuri de peixe branco com flor elétrica 9nosso jambu), usuzukuri de peixe branco com azeite do seu fígado, tudo escoltado pelo brilhante champanhe Ruinart Blanc de Blancs. Depois, ovos fritos com batatas e atum picante ou ouriço, sushi de peixe branco com toucinho e sushi de tutano com caviar (estão tendo dificuldades de encontrar o tutano, e talvez precisem adaptar), com o igualmente delicioso champanhe Ruinart Brut Rosé. A sequência seguinte tem tataki de atum com ovas, guisado clássico com sashimi e sushi de atum com açúcar moreno queimado, abrilhantadas pela refrescância do neo-zelandês  Cloudy Bay Sauvignon Blanc 2014. Custa R$ 410, e te digo: está valendo, e muito. Tanto que talvez nem tenha mais vagas. A quem quiser chegar, o telefone é 2512-7830. Quer ver umas fotos do jantar? Vai lá no Instagram @brunoagostinifoto

De lá, corri para o Bagatelle, e consegui ser pontual. E curti a casa. Lugar bonito, com público jovem e festeiro, e uma equipe também jovem e festeira, com ótima carta de drinques, bem executados, e um cardápio pra lá de aconchegante, que tem base francesa, mas passeia pela Itália, e traz referências brasileiras, como as coxinhas de galinha, que agora fazem frente ás já famosas servidas no Bar da Gema. Depois de certa hora, o lugar vira uma quase boate, com música em tom mais alto, gente dançando, e um clima de festa. Também merece post a parte, assim como o Puro, e em breve público aqui. Foi um dia longo, cansativo, e calórico. Mas delicioso. Por essas e outras, eu adoro o meu trabalho, e a liberdade que a vida de frila me proporciona.

No mais, pensando bem, ontem foi moleza, se comparado com o dia em que fui a seis restaurantes, e mais um bar, em Buenos Aires, para preparar esta reportagem aqui. Vida de repórter de turismo, gastronomia, vinhos e afins é assim mesmo, um saboroso devaneio.

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Ró – Rua Pacheco Leão 102, Jardim Botânico. Tel. 3559-0102. www.ro-raw.com

 

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

 

 

O novo Oro é uma versão urbana e modernas dos tradicionais restaurantes familiares

03/06/2016
Oro - homenagem ao Cervantes

A homenagem ao Cervantes: sanduichinho de porco empanado com picles de abacaxi no brioche

Eu tenho um especial apreço por restaurantes familiares, tocados por casais, seus pais e seus filhos, seus irmãos, cunhados, noras e muitas vezes, os amigos mais próximos, os vizinhos. Acho que todo mundo tem.
Estabelecimentos assim, tocados por parentes, estão na própria origem dos restaurantes, cujo nome vem de restauração, restaurar. Eram as estalagens medievais que recebiam geralmente os viajantes, que paravam nas estradas para comer e descansar, muitas vezes passando a noite no local, porque no mesmo momento nasciam os hotéis.
Já estive em restaurantes no interior da Itália, e também da França, mas eles existem por toda a Europa, que contam com apenas duas pessoas. Marido na cozinha, e mulher no salão, ou vice-versa. Como é o caso do magnífico La Speranza, em Farigliano, no Piemonte, onde comi as trufas bancas mais exuberantes de toda a vida, colhidas na mesma manhã em que foram fatiadas finamente sobre os meus pratos.
Comandando os fogões está Maurizio Quaranta, chef histórico do Piemonte. No salão, sua mulher, Sabrina. E eles cuidam de tudo. Escolhem os vinhos, com precisão. Afinam queijos. E montam menus deliciosamente acertados. Talvez seja o melhor custo-benefício da região. Sem contar o fato de que Farigliano, asfastado das áreas vinícolas dos arredores de Alba, ainda tem as suas florestas preservas nas cercanias, é na nas raízes de seus carvalhos que nascem as cobiçadas trufas. Difícil achar mais frescas, mesmo nas feiras e melhores mercados de Alba.
Toda essa introdução para dizer que o casal Cecilia Aldaz e Felipe Bronze estão fazendo um lindo trabalho no Oro, seguindo essa linhagem de restaurante familiar. Claro que a realidade urbana é outra, e eles contam com uma equipe de primeira linha, na cozinha, no bar e no salão. Mas a alma da casa é o casal. No antigo Oro eu tive experiências memoráveis, que foram me agradando de maneira crescente, de modo cada refeição que fazia ali era melhor que a outra. Já sentia uma guinada em direção ao conforto nas últimas visitas à casa. Mas ontem ficou muito clara essa nova fase, que tem na brasa o fio condutor do menu, e todos os pratos passam no calor das churrasqueiras.
Por detrás do balcão, Felipe Bronze rege a entrada dos pedidos e a saída dos pratos, servidos pelos próprios cozinheiros, na linhagem Noma. Ele mesmo cuidou da decoração, escolhendo mesas e cadeiras bonitas, e um balcão central que além de ter quatro lugares para os comensais ainda deixa uma linda bancada de maneira para que Cecília brilhe, exibindo a sua desenvoltura no serviço, com atenção ao nível das taças, o conhecimento profundo que não deixa perguntas enófias sem resposta, mas que principalmente faz um trabalho incrível de harmonização, escolhendo rótulos certeiros, mas que fogem do óbvio. Ela sempre saca três ou quatro coisas que não conheço, e sei que isso não é fácil. Em cada visita é assim.
Em breve conto detalhes do menu, com destaques para o éclair de foie gras ao chocolate branco, o ceviche de vegetais montado sobre delicado e inesquecível crocante de batata-doce, o taco de camarão, o sanduíche de porque empanado com abacaxi, o tempura de vagem francesa, o arroz meloso de favas, as empanadas de alho poró, e o dim sum de rabada, o polvo purê de amêndoas ao limão, e o trio de sobremesas.
Foi assim. Cheio de aconchego.

Ninguém precisa reclamar que faltam restaurantes indianos no Rio: existe a casa de Rashmy Naik, no Leblon, e vale muito a pena conhecer

27/10/2015

 

Já houve um tempo em que podíamos escolher entre dois (bons) restaurantes quando dava vontade de se dedicar às especiarias, aos sabores intensos e ao perfil aromático e sedutor da cozinha indiana. Havia o Natraj, no Leblon, que fechou as portas primeiro, e o Raajmahal, em Botafogo (hoje a empresa  faz pratos e refeições sob encomenda, em eventos ou em casa: para o contato, clique aqui), que existia pelo menos até uns cinco anos atrás, quando estive lá pela última vez. Hoje já não temos mais nenhum endereço especializado nessa que é uma das mais antigas e tradicionais cozinhas de todo o mundo. Tivemos festivais isolados, como  os menus preparados pela Bindu Mathur, no Miam Miam, e sempre encontramos alguns curries por aí.

A chef indiana Rashmy Nai apresenta as suas samosas

A chef indiana Rashmy Nai apresenta as suas samosas

Pois ontem eu fui apresentado à chef indiana Rashmy Nai. Ela dá aulas e prepara jantar em sua própria residência, ou na casa dos clientes, em clubes, restaurantes etc.

O que eu posso dizer é que ela cozinha muito.

O  murgh makhani (butter chicken) foi o melhor prato da noite

O murgh makhani (butter chicken) foi o melhor prato da noite

O menu foi incrível. Destaque para o Papadam, uma massa crocante de lentilha; e para o  murgh makhani (butter chicken), muito saboroso, picante na medida para os paladares brasileiros, com admirável textura do molho, denso, rico intenso. Além do iogurte feito ali mesmo (aliás, todas as massas, dos pães e da samosa, são feitas por ela, bem como os curries e vários temperos compostos por várias especiarias. É artesanato puro).

Reservas no 97190-1146 ou no e-mail rashkish@yahoo.com. O preço varia de acordo com diversos fatores. Ontem, pra comer na casa dela, garrafinhas de água mineral incluída, pagamos R$ 120 por cabeça. Achei bem bom, diante da qualidade e da quantidade (era muita comida, e quem quiser repetia várias vezes).

 

O Donnhoff Riesling Trocken: uma boa companhia para a cozinha indiana

O Donnhoff Riesling Trocken: uma boa companhia para a cozinha indiana

Pra harmonizar, fomos de champanhe, Ferrari demi-sec, Donnhoff Riesling Trocken, Leyda Riesling, e Viña Bisquertt La Joya Gewürztraminer. Pense sempre em vinhos aromáticos, e quem sabe com algum açúcar residual. Prefira os brancos aos tintos. E o mesmo raciocínio se aplica ás cervejas. Eu iria de Wit e de IPA (melhor ainda: imperial IPA, especialmente para os curries, de frango ou cordeiro).

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Reproduzo aqui a apresentação da chef, e o menu (quem organizou a farra foi a amiga Be Augusto, que descobriu Rashmy, ajudou a compor o menu, e escreveu o texto).

Nossa anfitriã Rashmy Naik nasceu em मुंबई, Bombaim (hoje Mumbai), cidade às margens do Oceano Índico que é a capital do estado de Maharashtra.  Ela viajou por vários países acompanhando seu marido, sempre valorizando a culinária do seu país.  Rashmy está há cinco anos no Brasil e é uma referência para expatriados que querem saborear a verdadeira comida indiana.  Ela dá aulas de culinária, faz sua própria Massala e traz de fora todos os ingredientes originais, pois não acredita em condimentos que já vem prontos ou moídos.  Sua cozinha parece simples, mas é carregada das tradições e sabores da Índia.  Bel montou com ela este menu recheado de informações importantes.

MENU

Samosas: Pequenos pastéis com recheio de batatas e ervilhas. Origem: Uttar Pradesh, estado a Noroeste da Índia que faz fronteira com Nepal.

Murgh Makhani (Butter Chicken): Prato indiano de frango em molho de manteiga com tomates, alho e gengibre, delicadamente picante, com receita do restaurante Moti Mahal, em Delhi.  Este restaurante tem mais de 50 anos e foi responsável por levar os indianos a comer fora de casa, hábito que não era frequente.  Lá se mantém a tradição da cozinha Tandoori, cujo nome vem do tipo de forno utilizado.  Hoje, o Moti Mahal tem filiais em Nova Delhi, Inglaterra , Dubai e Líbano.

Pulao de Vegetais:  Versão indiana do arroz pilaf, o pulao é mencionado no Mahabharata em 400 AC

Arroz Basmati puro:  A Índia produz 65% do arroz Basmati do mundo, sendo o resto produzido no Paquistão.  Hoje s abemos que este arroz é naturalmente aromático devido à presença, nos grãos, de um raro componente perfumado, o 2-acetyl-1-pyrroline

Palak Paneer: Um clássico da cozinha vegetariana indiana, com espinafre, molho de tomate e Paneer (queijo) temperados com Garam Massala e outras especiarias. Origem: Punjab, estado do noroeste da Índia que sediou uma das mais antigas civilizações do mundo

Raita: É feito de Dahi (iogurte) com pepino e tomate.  Muito usado para equilibrar os pratos picantes com seu frescor, tem origem no Paquistão e Bangladesh

Aloo Gobi Fry: Batatas e couve flor fritos temperados com especiarias. Origem: Paquistão, Nepal e Índia.

Gajar Halwa (Carrot pudding): É feito de cenouras com redução de leite, açúcar, frutas secas e especiarias. Origem: Norte da Índia e Paquistão

 

A noite foi um acontecimento.

 

Casa das Natas: pasteis de nata divinos (incluindo versão de bacalhau), com entrega em casa

23/10/2015

As mídias sociais são uma tentação. Pelo menos nesse nosso ambiente guloso. Minha time line vive coalhada de fotos apetitosas de pessoas que eu sigo. Assim, vou me informando sobre bares, restaurantes, vinhos, cervejas, viagens e outras delícias. Há cerca de um ano o Alexandre Henriques, da Gruta de Santo Antônio, em Niterói, um dos restaurantes mais incríveis da Guanabara, postou duas fotos que me fizeram salivar copiosamente. Um bolinho de bacalhau recheado com queijo da Serra da Estrela (meu Deus do Céu!!!) quase me fez tomar a primeira barca na Praça XV pra ir até o restaurante do simpático bairro arariboia de Portugal Pequeno. Mesmo efeito teve a foto de um pastel de nata de bacalhau, coroado por um pedacinho de azeitona verde. Quase comi o celular. Por pouco não saí nadando de Ipanema rumo ao Cais de Icaraí. Contive o ímpeto faminto, e a preguiça acabou falando mais alto.

Pois essa semana eu caminhava pela Reta, em Teresópolis, procurando um lugar para comprar uma água com gás. Passo por um posto de gasolina, entre o McDonald’s e o Green Fruit, e vejo uma lojinha com tons de rosa no letreiro, destoando do ambiente escuro e sujo. Estava escrito: Casa das Natas. Vi foto de pastéis de nata. Fui conferir.

Pastel de nata, na sua versão tradicional

Pastel de nata, na sua versão tradicional

Naquela pequena portinha encontrei um tesouro. Uma estufa repleta de pasteis de nata. Os melhores que já comi desse lado do Atlântico. Não só isso, havia, ainda, versões de bacalhau, como as que eu tinha visto nas fotos da Gruta de Santo Antônio. Comprei dois de cada. E venho voltando sempre. Além da loja do posto (também tem arroz doce e caldo verde), eles também estão na Feirinha do Alto.

A versão de bacalhau é coroada por azeitona verde

A versão de bacalhau é coroada por azeitona verde

A massa apresenta uma crocância admirável. E os recheios estão no ponto exato em termos de textura e sabor. O de natas não é muito doce, e o de bacalhau acerta no sal.

E sabe o que é melhor? Eles entregam em casa. No Rio, onde está a fábrica, e em Teresópolis. Visita lá o site. http://www.casadasnatas.com.br/

Fica a minha dica. Compre os mais clarinhos. Leve para casa. E aqueça em forno alto, por uns cinco ou seis minutos (uso o meu, elétrico). Fique de olho pra não queimar, porque a potência dos fornos é muito variável. No caso do pastel de nata, quem gosta pode polvilhar um pouco de canela. Já o de bacalhau merece ser regado com azeite do bom antes de ir pro forno.

É muita alegria contida em tão pouco espaço.

 

 

 

 

Um roteiro pelas melhores feijoadas do Rio de Janeiro (lembrando que o prato nada tem que ver com escravos, e menos ainda com a África)

22/10/2015
Na Casa da Feijoada o prato é servido em sistema de rodízio, a R$ 62,70 por pessoa (vale a pena pedir em casa, a porção serve tr~es ou quatro)

Na Casa da Feijoada o prato é servido em sistema de rodízio, a R$ 62,70 por pessoa (vale a pena pedir em casa, a porção serve três ou quatro)

Na rotina sofrida das senzalas, os escravos ao menos comiam bem. Naqueles ambientes escuros e insalubres eles conseguiram criar o prato mais emblemático do Brasil, a feijoada. Usavam, para isso, os restos de carnes de porco salgada, dispensadas pelos senhores, cozidas com feijão preto. A história é bonita, talvez por isso tenho sido propagada por tanto tempo. Porém, por mais triste que seja dizer isso, não, a feijoada não nasceu assim. Os senhores, mesmo eles, não tinham carnes de porco sobrando. E, lamentavelmente, essa é apenas uma lenda histórica, já há muito consertada pelos estudiosos do tema. É inacreditável que, em pleno século 21, no ano de 2015, ainda exista gente que conte essa história como se fosse verdade. Pior ainda, se for um jornalista especializado no assunto. Porque ainda tem leitor que acredita, e assim essa linda mentira continua sendo perpetuada. Lamentável.

Pior ainda é dizer que a feijoada tem origem africana… Aí, meu amigo… Não, a feijoada não tem origem africana, mas europeia. É uma receita derivada de tantos ensopados preparados com feijões ou seus primos, de cores, tamanhos e formatos variados. Ao contrário do que se diz, com ingenuidade e ignorância, a feijoada não tem origem humilde, mas muito nobre. Nasceu sob a inspiração do cassoulet francês, da fabada asturiana, dos caldos ricos italianos, e, principalmente, de tantas variações de pratos afins que existem por Portugal.

Sem querer cortar o barato de ninguém, jornalista deve ser fiel aos fatos. E os fatos são esses.

É tão ridículo quanto outra teoria de um ícone brasileiro, a cachaça. Sim, há quem diga que o nome aguardente vem da dor que sentiam os escravos ao ter um pouco de pinga caindo sobre as suas costas machucadas pelo açoite. Francamente…

Os melhores lugares do Rio pra beber cachaça a gente pode deixar pra outro dia. Já das feijoadas podemos falar hoje.

As mais divertidas da cidade acontecem nas quadras das escolas de samba, que já estão fervilhando no clima pré-carnavalesco. A Portela, com as suas quituteiras de mão cheia, e seus sambistas de fino trato e grandes composições, sem dúvida é a mais emblemática no quesito (inclusive já até lançaram um livro de receitas, “Batuque na cozinha – As receitas e as histórias das tias da Portela”). Mas, tradicionalista que sou, indico ainda a Mangueira, o Império Serrano e o Salgueiro. Como as escolas fazem as feijoadas em fins de semana alternados, sempre tem alguma rolando. Na Feira das Yabás, que acontece todo o segundo domingo do mês, na Praça Paulo da Portela, em Oswaldo Cruz, as tias da Portela, incluindo Dona Neném, do alto de seus 87 anos, servem várias comidas em suas barracas, que servem refeições bacanudas por cerca de R$ 15. Marlene é famosa pela sua feijoada.

Seguramente, em nenhum restaurante ou hotel a feijoada será tão animada quanto esses da turma do samba. Nos hotéis, muitas vezes o bufê de feijoada dos sábados é servido com um conjunto, que anima o ambiente com clássicos. Já fui no Caesar Park (antes de virar Sofitel), em Ipanema, e no Sofitel, no Posto 6, em Copacabana. Achei a comida boa, e música contribuiu para a minha felicidade (raramente gosto de música ao vivo em restaurantes, como aqueles de Paraty, onde somos obrigados a jantar com um banquinho e violão tocando, mas ás vezes curto a ambiência sonora, caso dos pianos da Brasserie Lapeyre, no Centro, e da Churrascaria Palace, em Copacabana).

Servida como reza a tradição aos sábados, a feijoada do Rubaiyat Rio, no Jockey Club, tem várias bossas extras, a começar pelas corridas de cavalo, que acontecem ao longo da tarde (vale tentar uma mesa na varanda, mas evite isso nos dias muito quentes), passando pelas batidas, servidas livremente, e pelo bufê de sobremesas, tudo incluído no preço. No belo balcão de madeira que recebe os panelões com as carnes também abriga um belo leitão, além de tudo aquilo que nos habituamos a ver nos serviços de feijoada. Um caldeirão com o feijão, e vários outros com as carnes separadas, a farofa, o arroz, a couve, o torresmo e a laranja, além de complementos suínos, como linguiça, bisteca, pernil e costelinha, sem falar na banana frita.  Pelo conjunto a obra, eu diria que todo o carioca deveria fazer esse programa ao menos uma vez na vida. Como ir até o Corcovado e subir o Pão de Açúcar. Custa R$ 109, e incluindo isso tudo, está de bom tamanho.

– O que é legal é que as partes suínas são todas de baby pork da Fazenda Rubaiyat. O feijão também é supernovo, igualmente da fazenda. A feijoada tem todos os pertences separados: carne seca de Brangus, costela fresca, costela defumada, paio, língua, rabinho, pé, orelha. O Claude só vai lá por conta desses três últimos– conta um dos sócios da casa, David Zylbersztajn.

Já se vão lá mais de 20 anos que a Casa da Feijoada (na foto), em Ipanema, se converteu em um dos poucos restaurantes que também são ponto turístico da cidade. Fazendo um trabalho junto a hotéis e guias de viagem, a  Casa da Feijoada recebe muitos turistas, e não tantos cariocas assim. Besteira. Seguramente é um dos melhores lugares do Rio para se dedicar a esse prato, servido em sistema de rodízio, na mesa, com preço por pessoa (R$ 62,70).  Pra começar,  caldinho de feijão e linguiça mineira, além de batidas de limão e maracujá (também incluídas no preço). Com o feijão, são 11 opções de carnes, que podem ser encomendadas pelos clientes: bacon defumado, orelha de porco, lombo salgado, carne seca, linguiça fresca, rabo, costela salgada, língua defumada, chispe, carne de boi e paio. Os acomapanhamentos de sempre. E a sobremesa são as compotas caseiras de abóbora com coco, banana e o doce de leite. Vale pedir para a viagem. São muitas quentinhas, que servem umas três ou quatro pessoa, sendo assim de preço praticamente imbatível. Confira.

Pra minha surpresa, porém, descobri que os dois restaurantes portugueses mais tradicionais do Rio também servem admiráveis feijoadas. No Antiquarius e no Adegão Português eu como feijoadas não menos que sublimes, com toda aquela fartura que nos habituamos a ver na culinária portuguesa.

Essas são as minhas feijoadas preferidas em terras cariocas (muito aprecio a do Tempero com Arte, em Teresópolis, e do Parador Lumiar, em Nova Friburgo, ambas também aos sábados). Falam-me, ainda, maravilhas de duas feijoadas tijucanas. Do Bar do Momo e do Bar do Pavão. Nunca fui, mas diante das observações de bambas como Guilherme Studart e Gabriel Cavalcante (o da Muda), eu confio cegamente nas dicas.

Sem que a gente possa se esquecer do antológico e inigualável bolinho de feijoada do Aconchego Carioca, servido na matriz, na Praça da Bandeira, e também na filial do Leblon.

Feijoada é uma delícia, o mais brasileiro dos pratos. Mas nada tem que ver com escravos, e menos ainda com a África. Ok?

Guia 450 Sabores do Rio 58: Rio Minho, o berço da mitológica sopa Leão Veloso, a bouillabaisse carioca

26/04/2015
A sopa Leão Veloso do clássico restaurante Rio Minho, inaugurado em 1884, na rua do Ouvidor número 10: camarão, polvo, lula, cherne e mexilhões

A sopa Leão Veloso do clássico restaurante Rio Minho, inaugurado em 1884, na rua do Ouvidor número 10: camarão, polvo, lula, cherne e mexilhões

O pote de barro vem fumegando, com camarões VG expostos, corpo mergulhado, rabo saltando do líquido espesso, com tons de tijolo, avermelhados, por conta do urucum, usado no caldo de cabeça de peixe, e do tomate, base importante do tempero refogado. A sopa Leão Veloso foi criada no Rio Minho, no começo do século passado, pelo diplomata de mesmo nome (há quem conteste o autor, mas não o berço da receita), e entrou para a galeria de grandes pratos emblemáticos do Brasil, especialmente do Rio de Janeiro. Inspirado na bouillabaisse, de Marselha, no sul da França, ganhou contornos tropicais, apostando na nobreza marinha – o camarão, o polvo, a lula, o cherne, os mexilhões (às margens do Mediterrâneo, a receita tradicional dos pescados usa os peixes mais baratos, “de fundo de rede”, como se diz). Para encorpar, um truque: um pouco de creme de arroz. Um ramo de hortelã dá um pouco de cor, perfume e frescor. Além da qualidade dos pescados, é notável o ponto de cozimento de cada um dos ingredientes principais, ganhando todos texturas macias, nunca borrachudas. E o tempero vem na medida, e os sabores podem – e devem – ser realçados pela boa pimenta da casa, forte como se deve ser. Coisa de quem está mais do que habituado a fazer o prato. Vale dizer que a meia porção já serve duas pessoas, e pode valer um almoço. Inaugurado em 1884, o Rio Minho tem o charme de ser o restaurante mais antigo da cidade, funcionando há mais de 130 anos no mesmo endereço, o número 10 da histórica Rua do Ouvidor, veia das mais importantes do Rio Antigo. Na parte externa, sem ar-condicionado, alguns pratos são vendidos em versão. O cardápio é um desfile de pratos marítimos, com forte influência ibérica (fundada por portugueses do Minho, hoje é administrada por espanhóis da Galícia). Uma diversidade enorme de pratos de bacalhau, incluindo os ótimos bolinhos que podem ser pedidos de entrada, tem execução segura, à moda tradicionalista, usando postas altas, de alta classe, da melhor qualidade. Existe um grelhado misto que tem adeptos fervorosos, e reúne cherne, polvo, camarões, cavaquinha, mexilhões e lulas, acompanhados de arroz de brócolis, batatas coradas (ruins) e alho frito (o trio clássico que pode acompanhar outros pratos, como os tentáculos vistosos de polvo). A partir de quarta é servido um prato que é absolutamente necessário: o bobó de lagostins, que novamente apresenta os méritos do lugar de maneira enfática: bons ingredientes, técnica de cozinha ancestral e segura, tempero na medida e uma certa dose de amor que encontramos entranhada nesses restaurantes antigos, algo um pouco inexplicável, mas lindamente delicioso.

RIO MINHO – Rua do Ouvidor 10, Centro. Tel. 2509-2338. De seg. a sex., das 11h às 16h. Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 57: Padaria Bassil, na Saara, com mais de 100 anos de tradição, esfihas e pães assados no forno a lenha

25/04/2015
As esfihas da Padaria Bassil, inaugurada em 1913, ficam expostas na vitrine aquecida, ao lado de quibes, pães árabes e manuches

As esfihas da Padaria Bassil, inaugurada em 1913, ficam expostas na vitrine aquecida, ao lado de quibes, pães árabes e manuches: tem de carne, a campeã de vendas, ricota e espinafre

A massa é fina e delicada, macia, e acomoda um recheio úmido de carne, com cebola e a medida exata de temperos. Assada no forno a lenha, a esfiha da Padaria Bassil, na Saara, tem pontos mais tostadinhos, que acentuam o sabor. Expostas em vitrine aquecida, saem aos montes na rotina apressada dos trabalhadores do Centro do rio. Uns comem ali mesmo, na bancada – com os molhos árabes, de limão, feito na casa, de pimenta e de alho – que fica de frente para a parede alvi-negra, homenagem ao Botafogo, cheia de reportagens sobre o lugar. Outros chegam e levam o salgado para viagem. A esfiha de carne é a campeão de vendas, e os outros recheios também são bem cotados, como o de ricota e o de espinafre. Inaugurada em 1913, a casa vive cheia, e o pefume constante das fornadas que saem ao longo de todo o dia chegam até a rua. Além das esfihas, e de ótimos quibes, de carne e de ricota, a Padaria Bassil não tem esse nome à toa, e produz o melhor pão árabe do Rio. Esses pães árabes, aliás, são usados no preparo do manuche, cobertos com zátar, gergelim e azeite. A pequena portinha revela um dos melhores segredos do Rio. E azar de quem não conhece.

PADARIA BASSIL – Rua Senhor dos Passos 235, Centro. Tel. 3970-1673. De seg. a sex., das h às 18h; sáb., das h às 14h. Não aceita cartões.