Archive for the ‘O meu Rio’ Category

Pipo: a nova casa de Felipe Bronze, restaurante mais falado dos últimos tempos, confirma a ótima fase do chef

15/07/2013
Mesmo em um período tão fértil em inaugurações de novos restaurantes no Rio, com propostas originais, o Pipo foi seguramente a mais aguardada de todas. A nova casa de Felipe Bronze, na Dias Ferreira, no Leblon, no endereço da filial carioca do Carlota, abriu as portas há dez dias cercado de expectativas. Faz todo o sentido. Colecionando premiações, com livro lançado no final do ano passado, e quadro no programa Fantástico, Felipe Bronze vive o melhor momento de sua carreira de pouco mais de dez anos. O Oro se estabeleceu como um dos melhores restaurantes do Brasil, fazendo uma leitura original, inteligente, lúdica e saborosa  dos sabores do país, e jantar ali é uma das mais espetaculares experiências gastronômicas que podemos ter por aqui. Mas, ali no endereço do Jardim Botânico a pedida são os menus degustação, com preços a partir de R$ 170, o que assusta muita gente (para ler o último post que fiz sobre o restaurante, clique aqui). O Pipo seria uma casa de perfil mais simples e informal, com cardápio inspirado na cozinha de botecos, com preços mais acessíveis, o que contribuiu muito para todo o burburinho que envolveu a abertura do lugar, além de sua localização na rua mais badalada da gastronomia carioca. Logo no primeiro dia de funcionamento eu já vi fotos no Instagram, comentários no Facebook, com imagens e descrições de pratos absolutamente tentadoras. Salivei. Quis provar. Mas eu não tinha o que fazer… Ainda na Itália, restava escolher o primeiro dia possível para conhecer o Pipo.
Pipo 3 - salão
E este dia era hoje, na hora do almoço. Liguei para lá às 11h30, imaginando que abriria ao meio-dia, mas só ás 13h o restaurante estaria funcionando, e não aceitariam reservas, respeitando a ordem de chegada. Lá fui eu, e pontualmente às 13h cheguei, junto com um casal, e mais um sujeito de bicicleta. Fomos os primeiros clientes de hoje. Logo, às 13h15, as mesas estavam todas lotadas.  E quem passava na rua olhava o menu, mostrava curiosidade.
Claro que a cultura botequeira está presente, mas não dá para chamar o Pipo de botequim. Nem muito menos podemos dizer que se trata de um lugar barato (minha conta, sozinho, foi de mais de R$ 200). Mas, seguramente, é das melhores novidades da temporada. Eu diria uma visita imperdível. Tem basicamente as mesmas virtudes do Oro: um cardápio inteligente, com receitas bem boladas, muitas vezes mexendo com as emoções, com recriações de clássicos preparados com execução segura e bons ingredientes. Fiquei com vontade de provar o cardápio inteirinho. Não existe ali  um prato sequer que não tenha aguçado as minhas papilas gustativas. Mas, nesta minha visita inaugural, fui quase comedido (deixo no final deste post uma foto do cardápio, impresso em papel de pão, e que serve de jogo americano, mais que tentador, que me deixou com vontade, repito, de provar absolutamente tudo).
Pipo 2 - caldinho
Comecei com o caldinho de feijão coroado com espuma de couve, com duas texturas, cores e sabores. Na parte de baixo do copo americano, o caldo espesso de feijão bem temperado. No alto, o creme aerado de couve,  com sabor equilibrado, leve. Só senti falta de uma pimenta da casa, da boa, forte, para acompanhar alguns pratos, porque só tem Tabasco e um molho de pimenta biquinho, e botequeiros como eu adoram uma boa malagueta, e fica aqui o meu pedido para que isso seja providenciado logo. :-)
Pipo 1 - cerveja
Para acompanhar, a cerveja Summer Ale, leve e refrescante, produzida Röter Brauhof, de Barra do Piraí, bela fábrica de cerveja, que faz dois rótulos especiais para o Pipo.
Pipo - chachorro Thor
Eu estava só em minha mesa, e dei sorte. Meus vizinhos eram gente de ótimo papo. Primeiro, à esquerda, um casal acompanhado de seu belo cão,  o Thor, da raça Golden Retriever, acho eu na minha ignorância canina, um já famoso frequentador de restaurantes no Rio (é bem conhecido no Entretapas, me disseram eles). Emendamos na conversa sobre restaurantes e viagens.À direita, mais simpatia e boa conversa. Em suma, gostei dos frequentadores dominicais do Pipo, e obviamente não estou me incluindo aí.
Pipo 5 - bolinho de pirarucu
Em seguida, uma releitura do bolinho de bacalhau temperado com as cores do Brasil, usando pirarucu em vez do peixe salgado de origem nórdica que se transformou em iguaria ícone de Portugal, e por consequência de botecos cariocas e restaurantes tradicionais da cidade. Para acompanhar, um delicioso molhinho de pimenta de cheiro com um toque de tucupi. Beleza pura. Bolinho sequinho, saboroso.
Pipo 7 - Pale Ale
À essa altura eu já estava empunhando a belíssima Pale Ale, igualmente produzida Röter Brauhof, de Barra do Piraí, e rotulada especialmente para o Pipo. Mais encorpada e potente, tem amargor agradável, um saborzinho floral.
Pipo 6 - pastéis
Depois, pedi uma dupla de pastel, com um sabor de cada um dos dois servidos ali, os clássicos queijo e carne. Mas não tão simples assim, claro. O queijo era de Campo Redondo (MG) e vinha com alho poró acidulado, enquanto a carne era bochecha de wagyu com pimenta biquinho, azeitona e milho. Pedi uma pimentinha para esquentar a brincadeira, e chegou o vidrinho de Tabasco, que cumpriu com louvor o seu papel, mas eu bem que preferia uma malagueta das boas. No copo havia ainda a Pale Ale, que escoltou bem os dois pratos.
Pipo - Ostrix 3
Alegre e faceiro, pedi o único prato que eu já cheguei tendo a certeza de que pediria, o sanduíche de ostra, a comida mais fotografada dos últimos dias no Instragram dos cariocas, não sem razão.
Pipo - Ostrix 4
De outro ângulo, porque gostei muito, inclusive da aparência. Era um pequeno sanduíche no pão de milho (delicioso) com ostras crocantes empanadas em farinha panko, com maionese de ostras, limão siciliano confit e cebola roxa. Muito bom.
Pipo 10 - caju amigo
Neste momento de transição, antes de escolher o prato principal, pedi o Caju Amigo, com a fruta confitada, suco dela mesma, gengibre e cachaça. Delícia. O garçom logo informou.
- Temos disponível no momento esse cajuzinho pequeno, que só nasce a cada dois anos, no Cerrado. Talvez a gente não consiga sempre, mas o resultado é o mesmo em termos de sabor. Pode comer, mas cuidado com a castanha, que é bem amarga.
Comi, estava delicioso, e fiquei com vontade de comer mais da frutinha. Caju é das minhas frutas preferidas.
Pipo 8 - carbonara
Vamos em frente.
Mas, e o que pedir para encerrar? Dúvida cruel. Mais um sanduíche? Falaram tão bem do hambúrguer de wagyu, e eu acho tão incrível a releitura que o Bronze fez do clássico do Cervantes, de porco com abacaxi. Dúvida cruel. Mas a lista de pratos, digamos, principais, em porções ligeiramente maiores, é tentadora demais. A fraldinha de wagyu que tanto me recomendaram, as lasanhas (de bochecha de boi ou de pupunha) a carbonara do Oro (esta lindeza que aparece aí em cima, em foto tirada da mesa vizinha, que era só elogios ao prato)… Um sofrimento é escolher. Ainda bem que volto logo, ainda esta semana…
Pipo 12 - Camarão com catupiry
Mas se o Pipo foi um dos restaurantes mais falados dos últimos tempos, antes de abrir as portas, e se o Ostrix, nome oficial do sanduíche de ostra empanada, foi o prato mais fotografado da história recente do Instragram em terras cariocas, coube ao camarão ao catupiry o post de louça mais badalada das últimas semanas. O prato é servido numa cumbuca que imita o formato e o rótulo clássico do requeijão mais famoso do Brasil, que vem recuperando os seus dias de glória pelas mãos de jovens chefs (como eu já escrevi neste post aqui). Para acompanhar, pedi o molhinho de pimenta de cheiro que é servido com o bolinho de pirarucu, por sugestão do casal vizinho, e fiz muito bem, ficou melhor do que o Tabasco teria ficado.
Pipo 11 - Gim Tônico
No copo, o curioso Gim Tônico, versão deste drinque clássico, com Hendrick’s, especiarias e… maxixe. Sim, maxixe. Curti mil vezes.
Pipo 13 - Bellini de taperebá
Para a sobremesa, sem fome e com sede, fui no Belém Bellini, versão amazônica do clássico drinque italiano, feito com cava e suco da fruta. Gostei mais que a versão original, de prosecco com suco de pêssego.
Em resumo: adorei, e quero voltar.
Saí contente e feliz. No caminho para casa, ainda na Dias Ferreira, quase em frente à CT Boucherie, encontrei o querido casal Fernando e Cintia, que foi destaque na coluna Gente Boa de hoje, por suas andanças pelos melhores restaurantes do Rio, e do mundo, devidamente registrados em fotos no Instagram. Foram justamente eles, no dia da inauguração, que me apresentaram pela primeira vez o Pipo através dos relatos instantâneos do jantar. Voltaram outras vezes, revisitaram o Oro, e estavam lá eles dois, serelepes, voltando mais uma vez ao Pipo. Alegaram que viram as minhas fotos do almoço, e ficaram tentados. Assim, no boca a boca, no fota a foto, o Pipo vai começando a vida em alto estilo.
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O  cardápio (para aumentar a imagem, basta clicar na foto)
Pipo - cardápio grande
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Uniko: a Itália à mesa no Centro do Rio, mais uma bela novidade da safra recente de restaurantes cariocas

13/07/2013

Uniko - prédio

Do mesmo modo que procuro visitar restaurantes típicos de um país dias antes de viajar para ele, também gosto de ir a essas casas especializadas logo que volto. Assim, a semana de regresso da Itália foi temperada por sabores italianos. Primeiro em casa, no domingo, com um penne com ragu de ossobuco que me deixou orgulhoso por ter sido apreciado pela filha, depois com um jantar de gala no Fasano al Mare, na noite de quarta-feira, com direito a aperto de mão em Jonh Travolta e a papo animado com a Bebel Gilberto ao final, culminando no almoço de quinta-feira, quando finalmente pude conhecer o Uniko, nova casa da dupla dinâmica Nicola Giorgio e Dionísio Chaves, do Duo e da Bottega del Vino, inaugurada em maio. A novidade está garbosamente instalada no térreo do prédio da Sul América Seguros, joia da arquitetura carioca, recém-restaurada.

Uniko - varanda
A decoração é elegante, no estilo Duo, com direito a varandinha agradável para essas tardes ensolaradas de inverno,…

Uniko - cozinha
… cozinha envidraçada à porta,

Uniko - bar
… um bar com várias Enomatics com rótulos bem escolhidos,…

Uniko - mesa bar e adega

… e uma adega na parte superior.

Uniko - salão 1
O salão, iluminado pela luz natural que entra pelas amplas áreas envidraçadas, é claro e alegre, e vive bastante cheio, a julgar pela minha visita, e pelos comentários de amigos.

Uniko - mesa
Além do ambiente, o cardápio italianíssimo é composto de receitas descomplicadas e bem executadas, numa lista de delícias criadas por Nicola, num perfil culinário muito próximo do Duo.
Quando recebi o cardápio, fui listando as minhas preferências mentalmente. Mas, quando o Nicola chegou para pegar o pedido, eu preferi deixá-lo escolher. Um grande maître não se faz ao acaso, tem que conhecer a clientela, e ele conseguiu a proeza de escolher exatamente as receitas eleitas por mim. Incrível.

Uniko - espumante

Para alegrar a vida, uma tacinha do Kriter brut, refrescante espumante da Borgonha. Tim tim!

Uniko - couvert
Assim, depois do couvert com pães quentinhos feitos na casa, com destaque para a versão com azeitona, melhor ainda quando regadas com azeite, ele me trouxe…

Uniko - polvo
… um polvo sobre molho de tomate defumado e croquete de batatas (R$ 30), exatamente o que teria escolhido. Na taça, um Chardonnay de Pierre Labet, formando belo par.
– O defumado do molho vem do bacon, que usamos pra dar sabor.
Nem sabia disso que escolhi este prato na lista de entradas. Se soubesse, seria barbada, porque acho que bacon (e presunto cru) formam par perfeito com frutos do mar como vieiras, camarão, lula e polvo. Mas a concorrência é boa. Entre as entradas, fiquei tentado a provar outras, e espero logo voltar para fazer isso: tem tartare de atum com aipo (R$ 30), carpaccio de filé com rúcula, cogumelos e parmesão (R$ 28) e burrata com presunto de Parma e rúcula (R$ 38), para ficar apenas nos que mais me tentaram naquela tarde lindamente ensolarada do inverno carioca.

Na hora do primo piato, pinçado da lista de massas e risotos, seguindo a liturgia clássica da cozinha italiana, eu tinha muitas escolhas possíveis: massa fresca com leitão e espinafre R$  46), nhoque ao pesto e pinoli crocante (R$ 42), espaguete com vôngoles e brócolis (R$ 42), ravióli de vitela com fondue de parmesão (R$ 46), tortelli recheado de burrata com tomate-cereja e manjericão (R$ 46),  linguine em tinta de lula com camarões e aspargos (R$ 48), massa fresca com ragu de cordeiro (R$ 48) e risoto de cogumelos frescos (R$ 56). Foi difícil, mas minha escolha foi o pici alla norcia, massa fresca com cogumelos e linguiça toscana. Foi o que o Nicola escolheu, e me trouxe o prato simpaticamente.

Uniko - pici alla norcia

– Agora você vai dar um pulinho na Toscana. Simplicidade e sabor.

Bravo!

Nicola escolhia os pratos, e o Douglas, ex-sommelier do Fasano, tratava de trazer o vinho, neste caso o lindo Barbera de Pio Cesare. E, entre os méritos que enxerguei na nova casa, foi exatamente a montagem da equipe. O Douglas foi uma dessas belas aquisições, assim como o Aílton, que eu já conhecia do Aprazível, garçom gente boa que me serviu.

– Quer um protetor? Massa comprida assim é fogo? Se a gente não bota um guardanapo, suja a roupa toda.

Pois para poupar a minha camisa, aceitei a sua sugestão. Não sujei o pano branco. Mas, tenho certeza: se não tivesse colocado teria pingado molho na blusa. Lei de Murphy, sabe como é…

Na cozinha, comandando as panelas à vista dos clientes está o chef Cleiton Paiva, ex-Ráscal, que promete, entre outros pratos, para um futuro breve, quando mexer no menu, o clássico polpetone, no estilo Jardim de Napoli, em São Paulo, onde ele também trabalhou, e um ragu de rabada, por exemplo.

Enquanto isso, eu pensava no prato principal, de carne e peixe, que eu escolheria. Vermelho ao forno com farofa de ervas e legumes (R$ 56)? Bacalhau à mediterrânea (R$ 68)? Atum em crosta, molho de limão e caponata à siciliana (R$ 50)? Galeto na brasa com cogumelos frescos e polenta R$ 42)? Tagliata de filé com foie gras e batata sautée R$ 54)? Filé mignon ao molho de cinco pimentas com batata sautée (R$ 58)? Bife de chorizo grelhado com rúcula e tomates verdes fritos (R$ 56)? Comeria todos. Mas foi o lombo de cordeiro com risoto de parmesão (R$ 58) o prato que mais me apeteceu. E logo aparece o Nicola, trazendo justamente…

Uniko - cordeiro

… o lombo de cordeiro com risoto de parmesão. Na taça, um velho e querido conhecido, o Guado al Tasso, a mais pura elegância toscana.

– Você acertou na mosca, Nicola. Trouxe exatamente os três pratos que eu teria escolhido, obrigado – respondi.

Com sorriso feliz, ele disse.

– A gente aprende a conhecer os clientes.

Uniko - cordeiro 2

O cordeiro, valorizado pelo molho com base de carne, estava macio e suculento, rosadinho, grelhado no ponto exato, num padrão Frederic de Mayer, do Eça, que faz esse corte ovino maravilhosamente bem. O risoto estava bom de sabor e cremosidade, mas um degrau abaixo no ponto de cozimento, mais al dente do que deveria, o único senão do almoço.

Uniko - mil folhas com morangos

Na lista de sobremesa, havia pannacotta com calda de chocolate (R$ 20), torta de limão siciliano R$ 18) e tiramisú (R$ 20). Fiquei com a leveza da mil folhas com morango, que inspirou o Douglas e voltar ao início da brincadeira, servindo de maneira inteligente novamente o Kriter, para encerrar.

Uniko - biscoitinhos

Encerrar é modo de dizer, porque havia, ainda, o Vin Santo nosso de cada dia, que escoltou os biscoitinhos do café.

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Eça: um restaurante quase francês, com tempero belga e matéria-prima brasileira

22/06/2013

A viagem à França foi mais cansativa, intensa e, felizmente, mais produtiva do que eu poderia imaginar, e não deu tempo para preparar nenhum postzinho para este blog, como eu previa inicialmente, e nem nos dias seguintes ao retorno, como eu não poderia imaginar. Porém, agora sob a inspiração francófila do roteiro pela Côte d’Azur, com paradinha estratégica em Paris, na volta, retomamos o assunto, e nos próximos dias o tema aqui vão ser restaurantes franceses, ou quase isso (e seguindo o mesmo raciocínio, depois da série gaulesa eu quero fazer uma sequência de posts sobre as casas italianas do Rio: no sábado que vem embarco em direção ao norte do país, passando por Milão, Verona e outras cidades por lá).

Eça

Quase isso, porque hoje o Eça entra na pauta deste blog novamente. Porque o chef Fredéric de Meyer seguramente está entre os melhores do Rio, transitando com desenvoltura entre a cozinha clássica com raízes europeias, fincada na tradição francesa, e os pratos de perfil mais autoral, usando essa técnica adquirida em sua Bélgica natal para criar pratos impecáveis explorando ingredientes brasileiros, parte deles usando matéria-prima orgânica, muitas vezes de origem carioca, ou fluminense, sejam os pescados sempre frescos, sejam as verduras e legumes de origem serrana.

Mas, como eu ia dizendo, o Eça é quase um restaurante francês. Quase porque é assim classificado por guias e afins. Mas, tecnicamente, me parece, sim, um restaurante belga. O chef, nascido, criado e formado na Bélgica, mostra porque o seu país tem uma das maiores concentrações per capita de estrelas Michelin, se não for a maior entre todas.

Tenho a sorte de almoçar ali com feliz regularidade. Entre outras razões porque o Eça está entre os restaurantes mais concorridos do Rio para encontros de negócios, devido à sua localização central, ambiente fino, além da cozinha impecável e variada, e o serviço infalível, comandado pela Nina.

Eça 1 - canapé

Recentemente estive ali três vezes, em dois almoços de trabalho, e numa outra ocasião, a convite da assessoria de imprensa da casa. Assim, pude percorrer o menu com alegria e distinção, alternando receitas novas, com clássicas da casa. No Eça, tudo sempre começa com delicados canapés, que divertem minha boca, com massas leves e saborosas que variam regularmente: pastinhas de azeitona, de atum, de queijo de cabra, tartares de peixes, ervinhas, vegetais se alternam  ali em cima.

Eça 2 - azeite etc

Depois, há bons pães sempre quentinhos, e que passeiam pelo salão regularmente, além de ótimo azeite Punta Lobos, manteiga de qualidade, flor de sal. Das últimas vezes que lá estive, uma novidade: castanhas caramelizadas com mel e gergelim. Feitas ali, como tudo na casa. Delícia.

Eça 3 - sopinha

Há sempre uma sopinha, mimo do chef, a nos confortar. Esta era de baroa, mas já vi, e provei, de cenoura, de batata com alho poró, entre tantas outras.

Eça 4 - terrine de queijo de cabra

No almoço que fui conhecer as novidades, só olhei o menu para cumprir o protocolo. Deixei a escolha dos pratos a cargo do chef. Primeiro, terrine de queijo de cabra com legumes orgânicos, preparados de diversas maneiras. Os tomatinhos vinham crus, as cenouras laminadas, e havia conservinhas tipo picles de vegetais tipo baby. Uma delícia, uma delicadeza.

Eça 5 - Château Les Tuileries

Para acompanhar adequadamente, o Château Les Tuileries, de Entre-Deux-Mers, Bordeaux, um refrescante e aromático corte de Sauvignon Blanc e Sémillon.

Eça 6 - mini Prosecco

Depois, abrimos um divertido prosecco, servido em garrafinha de 187 ml…

Eça 7 - ceviche

…para poder encarar a acidez do ceviche, com peixe fresco (não me lembro mais qual, mas era de carne branca, magra e delicada) alegremente temperado com arroz crocante, brotinho e, ulalá, uma geminha de ovo de codorna, deliciosamente indecorosa.

Eça 8 - Tierra Andina Sauvignon Blanc 2011

Depois, a Sauvignon Blanc retornou à mesa, desta vez sozinha na garrafa, e de origem chilena, em versão vegetal e cítrica, para…

Eça 9 polvo com mousseline de inhame com coco tomatinhos confitados

… escoltar um primoroso polvo com mousseline de inhame com coco tomatinhos confitados. Um desses pratos aconchegantes, que nos instigam a repeti-lo quantas vezes formos capazes.

Eça 10 - Tomero Torrontés 2010

Embora já fosse outono, quase frio, a tarde ensolarada inspirava os brancos, e a escolha do Tomero Torrontés por parte da Nina foi precisa.

Eça 11 - cavaquinha com molho de moqueca e mousseline de baroa defumada

O aromático vinho argentino acompanhou com brilhantismo a cavaquinha com molho de moqueca e mousseline de baroa defumada. Preciso dizer alguma coisa?

Eça 12 - Casa Rivas Carmenère 2010

Em seguida, continuamos pelo Mercosul, cruzando a Cordilheira novamente, em direção ao Chile, pátria do Casa Rivas Carmenere.

Eça 13 - Paleta de cordeiro em crosta de ervas com salada de feijão e iogurte

Cumpriu bem o seu papel de dar ainda mais moral à carne, uma paleta de cordeiro em crosta de ervas com salada de feijão e iogurte, prato de impecável execução, com essa leve pegada árabe, e uma leveza sedutora.

Eça 14 - maçã nectarina abóbora e crumble

Hora das sobremesas, uma das especialidades do chef. E não pense que a doçaria do Eça, um dos pontos altos da casa, fica só nos chocolates, ingrediente no qual o chef Frederic de Mayer reforça a sua origem belga: provei um trio que mostra que o chef sabe jogar com outras matérias-primas tão bem quanto com o cacau. Primeiro, uma delicada combinação, leve e refrescante, de  maçã, pêra, nectarina, abóbora (em forma de sorbet, acredite) e um crumble, pra dar um cro croc.

Eça 15 - Tom sobre tom coco etc

Depois, outra sobremesa pouco doce, leve e delicada, uma composição tom sobre tom, à base de coco.

Eça 16 banana doce de leite algodão doce

Parti para o abraço, com alegria infantil, no encerramento de gala, mais fruta, delicadeza e charme, brincadeira de criança, quermese, afago comestível em forma de bananinhas grelhadas com doce de leite, lâmina de chocolate (belga, claro), financier de avelã e algodão doce, rememorando circo, Daniel Azulay, e cinema de domingo com filme dos Trapalhões. Tão bom e divertido que até lembrei da filha: Maria precisa provar isso!

Eça 17 - café

Nem era ainda o encerramento. Porque se tem um lugar que eu jamais recuso o café, este lugar é o Eça. Porque além de servir espressos ótimos, eles vêm sempre acompanhados das melhores telhas de amêndoas da cidade, do Brasil. Indispensável pedir, ainda, uns chocolates do chef, que faz bombons perfeitos, porque ninguém nasce na Bélgica por acaso.

Fato é que sempre saio do Eça feliz.

E tenho a sorte de voltar frequentemente. Depois deste almoço de gala, nem passaram-se dez dias, e já estava lá eu de volta ao Eça, desta vez para um almoço de trabalho, com diretores de um grupo hoteleiro inglês, gente que soube escolher muito bem o lugar do encontro, obrigado.

Mais preocupado em conversar do que em fotografar, cumpri novamente todo o ritual do início, saboreando canapés, pães quentinhos mergulhados em bom azeite, ou derretendo a boa manteiga, ligeiramente salpicados com flor de sal, bebi a sopinha, brindei.

Eça 18 - polvo

Para começar, repeti o polvo, porque este é “Um desses pratos aconchegantes, que nos instigam a repeti-lo quantas vezes formos capazes”. E vou repetir sempre.

Eça 19 - cordeiro

Depois, já que o clima era de rever pratos queridos, fiz isso em dobro, pedindo o lombo de cordeiro em crosta de ervas acompanhado pela explosiva frigideira de palmito, abobrinha e batata, algo magistral e sublime em toda a sua simplicidade. No Eça temos uma possibilidade interessante: a de escolher algumas carnes e peixes, e acompanhamentos variados para eles. O lombo de cordeiro é velho conhecido, e acho que provei pela primeira vez há exatos dez anos, em 2003, quando trabalhava ali ao lado, e ia almoçar no Eça ao menos uma vez por mês, um presente que eu me dava assim que o salário éntrava na conta (sem falar em outros tantos almoços de trabalho). Já a frigideira com os três vegetais eu descobri há cerca de três ou quatro anos, e é outra combinação que não me canso de repetir. Ponto preciso dos ingredientes, al dente, crocantes, com sabor tostado, boa dosagem de sal. Novamente, a simplicidade em uma de suas melhores expressões.

Depois, o de sempre: um doce, naquela tarde de chocolate, o café e seus acompanhantes. Mas não fiz fotos.

Nesses pouco mais de dez anos de frequência assídua, tenho uma certeza: o Éça é infalível, e reflete muito bem a personalidade do chef. Fréderic é um sujeito delicado e simpático, honesto, inteligente, irreverente também, enfim, um cara querido e gente boa, que tem atividades sociais, busca ingredientes locais e é muito trabalhador (chega cedo ao restaurante, e quase todas as noites vai cozinhar na casa de alguém, em eventos privados, porque é um dos mais requisitados no Rio para esses serviços, e não é difícil entender porque).

Gosto tanto do Eça, e do Fréderic, que termino este post com vontade de almoçar lá. Pena que hoje é sábado, e o restaurante no subsolo da H Stern da Avenida Rio Branco só abre de segunda a sexta, para almoço, além disso, escrevo de Teresópolis.

Mas semana que vem eu tô lá.

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Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã… Sim, talvez só depois de amanhã…

20/06/2013

Ufa!
Nas últimas semanas foi impossível atualizar o blog por uma rara combinação de fatores. Muito trabalho, viagens praticamente emendadas uma na outra, plantões, muitos textos a escrever, além de matérias e fotos a editar, traduções…
Ufa!
Enfim, só queria dar uma satisfação, antes de retomar os posts, porque não tem nada pior para um blog do que estar desatualizado.
Na eterna promessa, que desta vez espero que se concretize, de me organizar para poder escrever, fotografar, editar, viajar, comer, fazer exercícios, beber, descansar e me me divertir um pouco também, quero retomar as postagens constantes sobre o Rio de Janeiro, seus restaurantes, os arredores, e temas afins

Mas só amanhã, ok?
Ou, como escreveu Fernando Pessoa, no lindo poema “Adiamento”…
“Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…”

Aproveitando o ensejo, deixo o tal poema.

ADIAMENTO – Fernando Pessoa (Poesias de Álvaro de Campos)

“Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…

O porvir…
Sim, o porvir…”

Sob a inspiração da França, o blog se pinta de bleu, blanc, rouge pelos próximos dias

25/05/2013
Lindeza de prato: mil folhas de creme de parmesão com macarons de cogumelos Paris, um dos destaques do menu “à l’envers”, o cardápio invertido que o chef Roland Villard acaba de estrear no Le Pré Catelan

Lindeza de prato: mil folhas de creme de parmesão com macarons de cogumelos Paris, um dos destaques do menu “à l’envers”, o cardápio invertido que o chef Roland Villard acaba de estrear no Le Pré Catelan

Na quarta-feira eu embarco para a França, para uma temporada no sul do país, viajando pela região da Côte d’Azur, passando por Nice, Eze, Saint-Paul-de-Vence, Saint-Tropez (vou ter que ouvir muito Pink Floyd para me inspirar), Menton, Antibes e Cannes.

Vieiras em duas preparações no cardápio do Laguiole, do chef revelação  Ricardo Valadão Lapeyre, em forma de tartare e de carpaccio

Vieiras em duas preparações no cardápio do Laguiole, do chef revelação Ricardo Valadão Lapeyre, em forma de tartare e de carpaccio

Por coincidência, estive em muitas restaurantes franceses no Rio de Janeiro nos últimos dias, muitos deles com novidades. Aproveitando as coincidências, se conseguir tempo, pretendo começar amanhã, domingo, uma série de posts aqui contando dessas refeições, muitas delas memoráveis, como o almoço no Laguiole, que tem novo chef, em que já ganhou o prêmio da Vejinha, merecidamente, como revelação, o jovem, simpático e talentoso Ricardo Valadão Lapeyre (da foto acima); o jantar na mesa do chef Roland Villard, com o seu menu ao inverno (na foto do alto do post), dois almoços quase consecutivos no Eça, um jantar magnífico no Olympe (na foto abaixo), um jantar no Le Vin ao sabor do invernal pot-au-feu (para ler o post, clique aqui), um almoço no Casarão Ameno Resedá, que tem uma brasserie bem bacana, entre outras deliciosas refeições.

Prato divertido do Olympe, que está em grande forma: salmão com melancia marinada, imitando atum: lindo, delicioso e irreverente

Prato divertido do Olympe, que está em grande forma: salmão com melancia marinada, imitando atum: lindo, delicioso e irreverente

Ou seja, nos próximos dias, só vai dar França por aqui, e também na Enoteca, onde vou postar ao vivo durante a viagem, que promete ser deliciosamente exaustiva.
Bleu, blanc, rouge pra você!!!

Um jantar (inesquecível) de Oro, e um chef em ascensão

17/05/2013

Oro - Felipe Bronze

O Felipe Bronze é um chef em ascensão. Isso no sentido mais amplo da palavra. No ano passado, ele conquistou tudo o que podia, como já escrevi neste post aqui. Mas continua crescendo, continua subindo.

Oro - janela do Olympe

Em outubro o restaurante Oro completa três anos de funcionamento. Estive na casa umas seis ou sete vezes, talvez oito, desde a inauguração, a última delas há três semanas, em uma mesa muito agradável entre amigos. E reforcei a certeza que tinha de que a cozinha do Bronze está cada vez mais inteligente e delicada, irreverente, divertida e precisa, e o mais importante de tudo, saborosa e equilibrada.  Foi um jantar longo, deliciosamente inesquecível, com alguns clássicos da casa, e outras novidades do menu que acaba de entrar em cartaz. Ficamos na melhor mesa, diante da janela, com vista para a cozinha do Olympe, do outro lado da rua.

Oro - drinques 1

Começamos com dois drinques comestíveis: uma caipirinha de abacaxi (em forma de compressa) com hortelã e suspiro de cachaça, que eu não conhecia,…

Oro - drinques 2 - caju

…  uma espécie de caju amigo reinventado, com a fruta em forma de passa e sorbet de pinga, velho conhecido que adorei revisitar. Demais!

Oro - caiu na rede

A etapa seguinte foi o chamado “caiu na rede”, uma tela de tapioca crocante com manjubinha defumada. Uma beleza. Uma delícia. sacada inteligente e bem executada, o mar em apresentação irreverente e bonita. Texturas antagônicas, sabores complementares.

Oro - compressa de melancia com sardinha 3

Depois, um outro prato que já conhecia, levemente modificado (para melhor). A compressa de melancia, que antes ganhava uma lula curtida em solução salina, agora vem com sardinha curada, e os nacos de fruta são feito preparados com Jerez.

Oro - compressa de melancia com sardinha 2

A fumaça é puro frescor que vem de ervas (acho que menta, ou hortelã). E acho o prato tão lindo que quero mostrar outra foto.

Oro - Campolargo

Para se ter uma grande refeição, vinhos bem escolhidos são fundamentais. E a Cecília Aldaz, que cuida disso, está entre as pessoas que mais entendem do assunto, propondo harmonizações equilibradas e surpreendentes. E nos serviu esse magnífico branco português, fresco, aromático e intenso.

Oro - milharal

E foi com ele na taça que recebemos a etapa seguinte: “O milharal”, brilhante combinação de cones de milho, com espuma do mesmo, com catupiry e pó de pipoca. Genial. Comi muitos. Crocante por fora, cremoso por dentro, desculpe por usar este clichê da crítica gastronômica (como escreveu hoje o querido Jefferson Lessa no Rio Show). Foi das melhores coisas que já comi no oro, em toda a sua simplicidade.

Oro - milharal 2

Como também acho lindo e delicioso, publico novamente outra foto. :-)

Oro - alho e cebola

Era uma sequência de pratinhos, os chamados snacks: alho e cebola (“Nossos temperos preferidos”, diz o chef).

Oro - profiteroles

Depois, profiteroles de queijos do Brasil, outro clássico da casa, em cartaz desde o início. Adoro. Lambuzo os dedos. Limpo com a boca.

Oro - bife à cavalo

Aí, então, chegou a versão Felipe Bronze do “bife à cavalo”. Caramba!!! Comeria 100 desses. Não sei como ele faz isso, uma loucura. Mas ele injeta um caldo de carne dentro da gema do ovo, com uma seringa. E é esse calor do caldo que cozinha levemente a gema. Havia ainda uma farofinha pra dar o croc croc. Uma loucura. Delirei! Está na galeria dos meus pratos preferidos de toda a vida. Se tudo fica melhor com um ovo por cima, imagine com uma gema mole em volta.

Oro - camarão com chuchu

E vamos em frente com o camarão com chuchu, um picles do legume com vinagrete de taperebá. Lindo, delicioso, marcante, com um sabor levemente picante, pura delicadeza. Uma reconstrução inteligente deste receita clássica.

Oro - Frei João

E a Cecília chegou com o divino e abençoado Frei João, outro branco português de respeito.

Oro - drinques - parte 2

Aí, logo veio mais uma etapa etílica, resultado da viagem recente do chef ao Japão, que lhe trouxe boas inspirações, como também veremos adiante. Saquê com yuzu, aquela frutinha cítrica típica do país asiático. Uma maravilha para limpar a boca, zerando as papilas para a continuação do menu.

Oro - japonês 1

E ele veio novamente sob inspiração nipônica, numa linda composição, com louça caprichada: tamaki de atum na parte de cima…

Oro - japonês 2

… tataki de wagyu com shoyo, gergelim e yuzu na parte de baixo.

Oro - japonês 3

Depois, o chef chegou à mesa. E abriu um compartimento inferior (mas jornalistas curiosos que somos, já tínhamos aberto para ver o que era, estragando em parte a surpresa). Eram três delicadezas, com espírito nipônico: picles de alga com lula e sal de chá verde, edamame com wasabi e dois guiozas, um de enguia com amêndoas (sublime), outro de rabada. Merecia aplausos esse prato, batizado de “passeio pelo Japão”, que só é servido nos menus degustação mais longos.

Oro - um dia na praia 2

Irreverente e divertido era “Um dia na praia”, amável combinação de espetinho de camarão com um toque de pimenta, com farofa de amendoim (a areia, com direito a marquinha de sandália Havaiana feita com aquele simpático chaveirinho, veja só), biscoito Globo…

Oro - um dia na praia

E mate com limão…

Oro - um dia na praia 3

… e milho com manteiga (uma espécie de pó gelado) e queijo coalho esferificado (na verdade, uma evolução da técnica, já que estava em formato retangular).

Oro - Selbach-Oster

E fomos em frente, um tanto felizes. Para beber, um lindo Riesling alemão, que reforçou a nossa felicidade: Selbach-Oster Riesling Trocken 2011. Maravilha!

Oro - pirarucu

No prato, pirarucu curado com feijão guandu, pimenta de cheiro e picles de quiabo. Outra obra-prima do chef que está pendurada na minha galeria de receitas prediletas.

Oro - pirarucu e vinho

Achou bonito? Eu também! Melhor que lindo, estava delicioso. Daria nota 1.000!!!

Oro - ravióli de pupunha

Depois, ravióli de pupunha, que usa a fruta desta palmeira, que pode ser transformar em uma massa farinácea, com leite de castanha de baru, com castanha-do-Pará laminada. A pupunha é usada na massa e no recheio. Muito bom.

Oro - lagostins 2

Prosseguimos com outro prato que esteve entre os destaques desta noite memorável: lagostim com cenoura.  Demais. Além do purê do legume ele aparece em versão baby e também macerada na beterraba. Para acompanhar, farinha de coco de Cruzeiro do Sul, no Acre, e um aromático caldo de mocotó feito com Jerez. Clap clap clap clap clap!!!!!

Oro - Sileni

Na taça, o Sileni Pinot Noir. Bravo, bravíssimo!!!

Oro - A1 Muvedre

Logo pulamos para o Al Muvedre. Vinha coisa fina e potente, como ele, pela frente.

Oro - amamos porco 3

Vamos em frente apreciando um prato que é uma declaração de amor aos suínos. Em “Nós amamos porco” Felipe Bronze entrega uma ode ao leitão, servido em diversas formas. A pele à pururuca, com uma espécie de papel comestível, com raspinha de limão, revelando acidez e frescor; uma versão do jamón Joselito com pão de milho e tomate confit (o melhor do mundo, “Joselito Pérola Negra”, segundo as palavras de Pedro Mello e Souza); a barriguinha do mesmo com jabuticaba, servida em uma ampola de plástico com o seu caldo (demais, pena que vem tão pouquinho),…

Oro - amamos porco 2

… (agora pelo lado inverso) um sanduíche, feito com a orelha (!!!) e montado em um pão junto com queijo da Serra da Canastra e ketchup de goiaba, o lombinho com maçã verde e shoyo e a costelinha com espuma de amendoim.

Oro - amamos porco

Tudo divino, maravilhoso. Um prato antológico, uma homenagem ao porco.

Oro - bochecha 2

O percurso salgado ainda não havia terminado, ainda bem. Assim, provamos ainda a bochecha de boi, com batata doce em três versões: pó, purê e a casca crocante. Uau!!!

Oro - bochecha e vinho 2

Se o prato já seria grandioso sozinho, imagine servido com este lindo Vesevo Taurasi…

Oro - média

Hora dos doces. A brincadeira começou divertida e saborosa; com uma média, um pão besuntado em creme inglês bem abaunilhado e milk shake de café. Tão gostoso quanto lindo. Simples, delicado, saboroso.  Uma graça, não é?

Oro - Casal 20

E o casal veio junto à mesa servir um PF. Sim, depois de tudo isso, comemos um Prato feito…

Oro - PF 2

Depois, mais um prato deliciosamente irreverente: o PF, com miniarroz doce, com espuma de bacuri e gema de taperebá, limão galego laminado, fazendo o papel de couve, e uma farofinha, além de uma castanha (baru?) embebida em chocolate. Caracoles!!! Muito divertido. Curti muito.

Oro - algodão doce

Hora da sessão Daniel Azulay: “Algodão doce para vocês”. No caso, para nós. E com framboesa liofilizada. :-) Só alegria!!!

Oro - brigadeiro

Pensa que acabou? Que nada. A farra ainda teve brigadeiro, o que reforçou o clima de festa, e eu já estava me sentindo uma criança.

Oro - churros

Pensa que acabou? Que nada… Comemos churros com caramelo salgado, e nos encaminhávamos para o final da festa, e que festa.

Oro - docinhos

Pensa que acabou? Que nada… Ainda havia surpresinhas… Coco queimado, ravióli Romeu e Julieta, de goiabada com queijo, bolinho de pupunha…

Sim, agora acabou… Acho que não esqueci de nada. Tenho certeza que jamais que esquecerei deste jantar. Foi dos melhores de toda a vida.

Para encerrar, os preços (o nosso foi o chamado “Experiência Oro”, uma experiência de ouro):
5 cursos: snacks, quatro cursos R$ 170, | R$ 95 (harmonização)

7 cursos: snacks, seis cursos R$ 220, | R$ 145 (harmonização)

9 cursos: snacks, sete cursos,“o bosque” R$ 290, | R$ 190 (harmonização)

ORO Vegetal: 9 cursos vegetarianos R$ 275, e R$ 190 (harmonização)

Experiência ORO: um passeio de 21 cursos por nossa cozinha(somente sob reserva) R$ 395, e  R$ 295 (harmonização)

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O Mercado, domingo, no Circo Voador: feira gastronômica pousa pela primeira vez no Rio, reunindo alguns dos melhores jovens chefs da cidade

16/05/2013

Sucesso em São Paulo, O Mercado pousa pela primeira vez no Rio de Janeiro no próximo domingo (19/5) em local perfeitamente apropriado, o Circo Voador.
A festa gastronômico idealizada pelo chef boliviano Checho Gonzales (hoje à frente da Cebicheria Gonzales, em São Paulo), Henrique Fogaça (da Sal Gastronomia) e pela produtora cultural Lira Yuri começa ao meio-dia e termina às 20h, com entrada gratuita.
Vários chefs bacanas participam do evento, que terá shows com as bandas Rabotnik e Posada e o Clã.
Entre os cozinheiros que vão se reuniar n’O Mercado estão alguns dos meus preferidos: são nomes como Jan Santos (Entretapas), Kátia Barbosa (Aconchego Carioca), Marcos Sodré (Sawasdee), Fábio Bastitella (Barzinho), Pedro de Artagão (Irajá Gastrô), Roberta Ciasca (Miam Miam, Oui Oui e Mira), Frederic Monnier (Brasserie Rosario), Pablo Vidal (Zazá Bistrô) e Ronaldo Canha (Quadrucci), além do Checho, entre outros.
Para comer encontraremos coisas como sanduíche de cupim com pimenta de maracujá no pão de batata; baião de dois; couscous marroquino; e picadinho oriental com arroz de coco e farofa de castanhas.
Eu vou.
Vamos?

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Kimchi, a iguaria da vez, e outros fermentados em cartaz nos novos menus do Bazzar, restaurante e cafés

15/05/2013

A Cristiana Beltrão, do Bazzar, é hoje mais do que uma amiga, mas uma referência  para mim. Quase fico espantado com a visão que ela tem da comida, e a paixão, e a dedicação. Visão, que eu digo, é no sentido da capacidade de detectar as tendências. Antevisão seria mais preciso. Quase fico espantado porque, conhecendo bem a moça, acompanhando as suas viagens pelo mundo (quando não, viajando com ela) em busca justamente do que está acontecendo no panorama gastronômico mundial, não poderia ficar surpreso. Mesmo assim, ainda fico.

Outro dia, me achando um sabichão, mandei para ela.

Kimchi do azumi

– Cris, os alimentos fermentados estão super na moda, sabia? Tendência em Nova York. O kimchi, aqueles fermentados coreanos apimentados, estão sendo servidos em vários restaurantes (acho até que posso dizer que parte do sucesso recente dos restaurantes coreanos de São Paulo – pena não termos nenhum no Rio – tem a ver com a ascensão do kimchi, que aliás também pode ser encontrado em versão espetacular no Azumi, feito por uma família coreana, superpicante, que fica delicioso com um bom saquê, esse aí da foto acima, feita para o Instagram).

Pois bem, voltemos à Cristiana Beltrão e ao Bazzar. Ela acabara de voltar da Grande Maçã. E ela não apenas já sabia da informação da moda do kimchi, como já estava desenvolvendo um novo cardápio para o Bazzar, com pratos que usam ingredientes fermentados, incluindo uma versão da iguaria coreana feita na casa pelo chef Cláudio de Feitas para adornar sanduíches das filiais do Bazzar Café. Esta semana os pratos entram em cartaz, e logo em seguida, os sanduíches do café, com lascas de pato e kimchi no pão de erva doce.

O menu fermentado tem entrada, prato principal e sobremesa.

Para começar, conserva de sardinhas com mini legumes orgânicos (R$ 35,70). A conserva é feita de maneira que os ingredientes fermentem em algumas semanas.

Bazzar - costela de wagyu

No domingo, Dia das Mães, levei a minha para almojantar lá (eram quase 18h quando chegamos). Provamos o prato principal do novo cardápio, a profundamente saborosa e aconchegante versão da vaca atolada, cozida na cerveja: são pedaços de costela de wagyu  preparados na cerveja dubbel (de dupla fermentação) com um toque de alho negro e pedacinhos de mandioca, servidos sobre purê   (R$ 89,70). Estava delicioso. Sabor intenso, o purê dando aquele volume, fazendo carinho na boca, e equilibrando a potência da carne.

Bazzar - costela de wagyu 2

Para acompanhar, Trappistes Rochefort 10, dando ainda mais volume e profundidade à receita, enfrentando muito bem a carne,  enfeitada com um tanto de farofa crocante e couve idem. Muito bom. Uma cerveja sublime, escura, densa, saborosa, formando par perfeito com a costela de wagyu.

Para encerrar, sorvete de queijo da Serra da Canastra (um dos melhores do Brasil) com farofa de castanhas brasileiras (R$ 23,70).

Bazza - sanduíche 2

Experimentei, ainda, também no domingo, o sanduíche que leva kimchi (de acelga, nabo e cebola), preparado com carne de pato lindamente desfiada, servida no pão de erva doce junto saladinha de folhas verdes (R$ 36,80). Para acompanhar,  um belo Riesling alemão, levemente adocicado, outra combinação certeira.

Bazzar - tarte tatin

Encerramos com um clássico da casa, a tarte tatin impecável, desta vez acompanhada da belíssima cerveja Baladin Xyauyù Oro. Perfeita harmonização. Minha mãe provou a cerveja sozinha, e não gostou. Depois, provou com o doce. E ficou encantada. Eu, que já gosto da Baladin Xyauyù Oro sozinha, mesmo reconhecendo que não é uma cerveja fácil, também fiquei encantado com a harmonização.

E fomos para casa felizes com as novidades.

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Exaltação ao outono (e um fim de noite na Adega Pérola)

26/04/2013

Piscininha no Arpoador

Ok. Outubro é um mês bem agradável, as escolas de samba estão começando a bombar, com as quadras cheias, e o Rio vai lançando as novidades da temporada que vem. Novembro é muito legal. Vem chegando o verão, o calor no coração, topless na areia, coisa e tal. Mas é um mês abafado, úmido, muitas vezes chuvoso, e infernalmente quente. Dezembro também, e ainda tem o caos do Natal. Janeiro é aquela maluquice. Milhares de turistas. Muito calor. Cidade lotada, noites animadas, na Lapa, e por toda a parte. Eu curto, mas vou sempre achar janeiro um mês estranho. Até porque, pe o mês de meu aniversário. Janeiro é um mês estranho no Rio de Janeiro. Eu amo e odeio ao mesmo tempo. Vá entender… Em fevereiro, tem carnaval, tem carná, eu tenho um Fusca e um violão, sou Flamengo e tenho uma nega chamada Teresa. Bem, fevereiro é uma espécie de continuação de janeiro. São dois meses que se fundem, e condundem. Fevereiro, propriamente dito, só começa depois do carnaval. isso pode ser logo no começo do mês, como algumas vezes acontece. Mas também pode ser nos primeiros dias de março, anulando inteiramente fevereiro do calendário. Março. Depois são as águas de março fechando o verão, é promessa de vida no meu coração. Tudo bem, as águas de março lavam a alma. Adoro as tempestades, mas existe o problema das enchentes e desmoronamentos. Enfim.
Então, chega abril, e a promessa de vida no meu coração se concretiza. Sempre digo: entre abril e setembro, quando estamos na temporada de outono-inverno, o Rio vira o lugar mais incrível e agradável do planeta. Viva o Gil: o melhor lugar do mundo é aqui, e agora. A foto que abre este post, feita ontem, não me deixa mentir. Que coisa, fico abismado ainda com essa beleza outonal do Rio de Janeiro.
Outono no Rio significa dias lindamente ensolarados, e com temperaturas amenas. Podemos caminhar pela cidade sem ficar pingando de suor, mesmo usando roupas de trabalho, com calça, sapato, camisa social. Até terno dá para encarar, embora este traje, definitivamente, não combina com a cidade, e deveria ter uma lei proibindo a sua utulização no balneário. Ou, pelo menos, proibindo qualquer evento a pedir passeio completo. Quem quiser botar terno, que coloque, mas obrigar, não pode. Não deveria poder. Enfim… Este post é sobre calendário, e não sobre a Câmara de Vereadores, ainda bem…
Enfim, chega abril, e o Rio se transforma. A primeira quinzena nem é tão boa assim, porque pode ainda chover muito. Mas a segunda metade do mês é sublime. Como esta semana que estamos vivendo agora. O mesmo vale para as outras cidades do Estado: é muito melhor turistar na Região Serrana, no Vale do Café, na Costa Verde e na Região dos Lagos entre abril e agosto. Ok, subir a serra, fugindo do calor, no verão, tem o seu valor. Mas no inverno é mais gostoso, curtir uma lareira, beber bons vinhos, cozinhar, comer, namorar, se esconder, ver bons vinhos, ler bons livros, pegar um solzinho fresco… É tudo mais gostoso no inverno.
As ondas sobem de tamanho, e há campeonato de surfe no Arpoador. A água fica m ais limpa, em temperatura que pode ser classificada como perfeita. Nem fria, como às vezes se parece no verão (eu adoro), nem quente, como acontece nas praias do Nordeste (eu detesto).

Tutti-frutti na Polis Sucos
Ontem, o dia estava assim, maravilhosamente outonal. E eu esperava um telefonema importante. E fui caminhar na praia com o celular. Primeiro, uma parada no Polis Sucos, na Praça Nossa Senhora da Paz, Visconde de Pirajá esquina com Maria quitéria, coração de Ipanema. E pedi uma vitamina de tutti-frutti, minha preferida desde a mais tenra infância.
E lá fui eu em direção ao Arpoador. Que lindeza de quinta-feira.

Canteiro em Ipanema

Os canteiros ficam mais belos. Inclusive por conta da luz, mais suave e oblíqua, que nos ilumina neste período.

Arpoador com o Dois Irmãos ao fundo

Pois chego no Arpoador, e vejo isso. Olha essa água. Olha esse cenário.

Ipanema

Mergulhei em frente ao Caesar Park.

Espírito Santa

Subi Santa Teresa, e almocei no Espírito Santa. Delícia. Comi, entre outras delícias, trouxinha de couve com vatapá e bolinhos de tapioca com jambu e molho de graviola. Além de um inesquecível e inusitado xinxim de chuchu, simplesmente sensacional. Mas este post nasceu para ter apenas fotos de Instragan, e vou fazer apenas essa exceção, já que acabei não fotografando o almoço com o celular, só com a câmera mesmo. Então, fica prometido para breve o post do Espírito Santa.

Adega Pérola - polvo

Depois de uma longa tarde de trabalho, saio bem de noite. E vou direto para a Adega Pérola. Chego às 22h. Gosto muito de lá, não só da comida. Gosto do lugar, dos frequentadores, e o imenso balcão de acepipes me dá felicidade só de olhar para tantas gostosuras. Gosto das pessoas que frequentam, um público variado que é a cara do Rio, que é a cara de Copacabana. O polvo á vinagrete, desconfio, é o melhor do Rio.

Adega Pérola - sardinhas à escabeche

Também sou fão incondicional da escabeche de sardinha. Algo que já é bom, esse peixinho à milanesa, fica ainda melhor no tempero com vinagre, pimenta, cebola, salsinha e sei lá mais eu o que.

Outro hit feito com o mesmo peixe são os rollmops, enroladinhos de sardinha crua, com uma pedaço de cebola dentro, marinado em vinagre e temperos.

– Uma espécie de ceviche – explicou o atendente a um turista.

– É o sushi de português – emendou uma outra.

Adega Pérola - rollmops

Para mim, não é nem um, nem outro. É o rollmops. Antes de comer qualquer ceviche na vida, antes de provar qualquer sushi, eu já curtia um bom chope com rollmops na Adega Pérola, de modo, então, que o ceviche é uma espécie de rollmops, ou o sushi é rollmops de japonês. E ponto final.

Adega Pérola - berinjela

Outras estrelas daquela incrível vitrine de delícias são a berinjela,…

Adega Pérola - trutas

… a truta à escabeche, que acho que é ainda melhor que a sardinha, …

Adega Pérola -azeitonas pretas

… e as azeitonas pretas ricamente temperadas, além…

Adega Pérola - lula ao vinagrete

… deste clássico vinagrete de lulas.

Adega pérola - linguiça e morcela

Pois, para mim, amante da morcela, e do vinho, outras iguarias da categoria imperdível são o tal embutido de sangue, e também a deliciosa linguiça preparada no tinto. Demais.

Adega Pérola - lagosta

Esses aí eu não conhecia, talvez sejam novos. Outro dia eu provo. Salmão defumado? Lagosta? Cavaquinha? A cara está boa, e lembra outras boas preparações do gênero na casa.

Também curto petiscos quentes, como o caldo de feijão, os bolinhos de bacalhau e o caldo verde. Com pimenta, sempre, e azeite, claro. Mas a verdade é que o balcão refrigerado é mesmo o que me seduz.

Considerando que o chope vem sempre na pressão, e gelado, e que agora a casa ostenta uma ótima lista de cervejas, a Adega Pérola é um dos grandes botecos do Rio. Está no primeiro time, junto de poucos outros endereços. É tão bom, mas tão bom, que tem cacife para ser o encerramento de um dia perfeito no outono carioca. Como foi ontem.

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Temporada de Pato no Garden, terceira edição: bom, bonito e barato

21/04/2013

 

 

O  Garden, em Ipanema, é um desses que fazem parte de minha vida desde a infância, um dos representantes de uma pequena lista que tem, ainda, o Antiquarius, o Alvaro’s e a Taberna Alpina, em Teresópolis, além da Casa do Alemão, na Rio-Petrópolis (e do árabe Baalbeck, na Galeria Menescal, em Copacabana). Desde que sou capaz de me lembrar, já frequentava esses lugares, e continuo frequentando até hoje, porque gosto da comida, e por todo o simbolismo que existe nessa história de me acompanharem por toda a vida.

Já escrevi sobre o assunto aqui, tratando de um almoço no Garden através de um texto que fazia essa menção ao passado (para ler, clique aqui). Depois daquela refeição inspiradora ainda voltei ao restaurante mais três vezes. A última delas, foi na noite de sexta, a convite da casa, para provar alguns pratos da terceira edição da Temporada de Pato (o restaurante faz vários festivais do gênero ao longo do ano, servindo vários pratos feitos com um mesmo ingrediente, e conseguindo preços bem convidativos com isso: no caso do pato, são 15 receitas diferentes, todas a R$ 39,50). A Temporada de Pato fica em cartaz até o fim do outono, no dia 21 de junho, durante o almoço e jantar.

Desta vez a estrela é o pato, ave que adoro. Logo me animei ao papear com o maitre.

– Nosso pato bem de um produtor de Sapucaia.

Isso me animou, e o assunto continuou, quando eu perguntei se ele me recomendava o pato ao molho pardo (adoro receitas ao molho pardo, mas não é fácil encontrar, e nem que sejam bem-feitas).

– Com certeza. O sangue é de pato também, conseguimos com eles.

Assim, não tive muitas dúvidas para escolher o pato principal, quer dizer, o prato principal: a escolha foi ao molho pardo.

Garden - Couvert

Conversamos enquanto eu curtia o couvert da casa, daqueles á moda antiga, sempre enriquecido com uma sopinha, o que sempre cai bem, ainda mais quando o outono-inverno vem chegando.

Mas,para escolher o primeiro prato, tive que refletir para escolher uma entradinha, servida em porção menor, para eu poder provar uma receita diferente.

Garden - Vinho Carmen

 

Para ajudar a clarear as ideias, uma taça do chileno Carmen Cabernet Sauvignon 2011. Difícil eleger entre as 14 opções restantes:  sorrentini de pato com funghi (massa recheada, servida ao molho de natas); salada de magret defumado (salada de peito de pato defumado com folhas verdes, croutons de hortelã e molho de frutas vermelhas); magret da estação (peito de pato defumado, aromatizado com funcho e servido com croquetes de batatas e risoto de aspargos); pato com mostarda (coxa de pato ao molho de mostarda com nhoque na manteiga de sálvia); pato folhado (coxa de pato ao forno, servida com risoto de pato sobre massa folheada, gratinada com farelo de pão); peito na brasa (servido fatiado com molho de damasco e cuscuz marroquino); arroz de pato (servido bem molhadinho na caçarola com chips de paio); pato ao Porto (coxa preparada ao molho de vinho do Porto, guarnecida de purê de maçã e arroz de ameixas); pato com laranja (coxa assada ao molho de laranja e servida com arroz branco); pato com azeitonas (coxa ao molho de azeitonas verdes, acompanhada de purê de batata temperado); risoto de pato (preparado à moda italiana, com arroz arbóreo); cassoulet de pato (coxa à moda francesa, servida em caçarola com feijão branco, paio e linguiça, acompanhado de arroz branco); confit com baroa (coxa confitada, servida com purê de batata baroa); e pato ao tucupi (coxa preparada à moda amazônica, servida com farinha d´água e arroz branco).

Garden - sorrentini de pato com funghi

Fiquei com o sorrentini de pato com funghi, servido com molho cremoso, que estava bem bom. Massa fresca, feita na casa, com recheio saboroso.

Garden - Pato ao molho pardo

Mas bom mesmo foi apreciar o pato ao molho pardo, com molho denso e de sabor delicado, com a carne bem cozida, se soltando com o garfo, mas mantendo a integridade da peça. O arroz branco, que nem de longe é algo que me encanta, foi inteiramente consumido, sendo repetidas vezes umedecido com o molho, de modo que eu seria capaz de comer só isso, sem o ingrediente principal. Arroz e molho. Um ovo frito, claro, cairia muito bem.

Sei bem que, assim como uma feijoada, um prato ao molho pardo não é dos mais lindos. Mas esse, vou te dizer, depois de ter sido tão bem apreciado, me parece lindo. Tem a beleza da comida bem feita, com virtudes que vão além das aparências.

Voltei para casa me prometendo retornar ao Garden para provar outras receitas que me apeteceram bastante, como a salada de magret defumado, o magret da estação,  o pato com mostarda (coxa de pato ao molho de mostarda com nhoque na manteiga de sálvia);  o arroz de pato, o pato com laranja , o cassoulet e o confit com baroa. Não tenho dúvidas: vou sofrer para escolher… Mas não para pagar.

 

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