Archive for the ‘Outras viagens’ Category

Entre estrelas Michelin e um sanduíche de tripas: o prazer da boa comida em terras italianas pode ser algo muito simples

08/06/2016
Lampredotto - Florença

A barraca de lampredotto do Pollini: democracia e excelência gastronômica

Certa vez fiz uma viagem de sonhos pela Itália. Passei uns dez dias no Piemonte, na temporada das trufas, e me esbaldei. Fui a pelo menos meia dúzias de restaurantes com estrelas Michelin, como La Ciau del Tornavento, em Treiso; Guido Ristorante (no hotel Villa Contessa Rosa Fontanafredda), em Serralunga d’Alba; Ristorante Christian & Manuel (no hotel Cinzia), em Vercelli Vintage 1997, em Turim; Villa Crespi, em Orta San Giulio (Lago d’Horta), entre outros, e mais um punhado de casas sem distinções estelares do guia rouge francês, mas também excelentes, como o Bovio e, principalmente, a Trattoria della Posta, onde fiz duas refeições não menos que memoráveis, regadas a Barolos antigos, e Barbarescos, idem.
O Piemonte é, para mim, o melhor lugar do mundo para se comer. As trufas, as massas caseiras (e viva o ravióli dal plin), os pães, os queijos e embutidos, as carnes curadas, o gado fassona, os risotos… E mais os vinhos locais, entre os meus preferidos.
De lá, estiquei até Florença, e a região de Chianti, para mais alguns dias de puro deleite nababesco. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas foi um investimento pesado. Uma refeição dessas não sai por menos de 100 euros, com vinhos, podendo chegar a 300. Não é moleza, não. (para ler uma reportagem sobre a região, clique aqui).
O que quero dizer com isso é que grandes restaurantes, premiados, com estrelas MIchelin e outros louros, são mesmo espetaculares, experiências que podemos levar pelo resto de nossas vidas. Verdade. Mas, muitas vezes, encontramos prazeres tão imensos em lugares simples, que nos ajudam a tatear melhor a alma de um lugar, através da comida de seus moradores. Passeei por diversos restaurantes fantásticos, lindos e elegantes, com serviço impecável, mas posso dizer com convicção que uma das melhores coisas que provei durante esses 20 dias de esbória italiana foi um singelo sanduíche, chamado de lampredotto, típico das ruas da cidade que foi berço do Renascimento. Há várias barraquinhas pelas ruas da cidade. Recebi a recomendação enfática de um amigo, o Alexandre Bronzatto, italianófilo de carteirinha, um dos grandes conhecimentos da gastronomia e dos vinhos do país (ele que me recomendou boa parte dos restaurantes citados acima). “Você que gosta de miúdos, tem que provar o lampredotto do Pollini”.
O sanduíche consiste em uma parte do estômago bovino, cozida lentamente, em molho bem temperado, com base de tomate. A carne fica macia, e com sabor deliciosamente untuoso. Antes de servir, o atendente pergunta se o comensal quer que ele lambuze o pão no tal molho onde cozinha a carne (TEM QUE DEIXAR ELE FAZER). Depois, o recheio é regado com molhos de ervas e de pimentas, um verde e outro vermelho. E sabe quanto custa? Uns dois ou três euros…
Um acontecimento gastronômico, uma experiência incrível de observação antropológica. Vi um pintor de paredes todo sujo de tinta comendo dois em seguida, com dois copinhos de vinho (de plástico). Ao seu lado, uma senhotinha elegante pediu dois, um para ela, outra para a netinha que estava no carrinho, de uns cinco anos (com piementa e tudo). Havia toda a sorte de florentinos, jovens, idosos, mulheres, homens, grupos de amigos, comensais solitários, gente simples, gente rica. Turista, aparentemente, apenas eu. Foi realmente um dos momentos mais incríveis de minha viagem.
E anda tem copo de Chianti por menos de um euro…
No mais, obrigado, amigo Bronza.

Cinco noites em santiago por US$ 481?

06/06/2016

Como jornalista de viagem, gastronomia e afins, há 15 anos o que mais faço é divulgar o trabalho dos outros. Chefs, enólogos, cervejeiros, mixologistas, produtores rurais e outros artesãos alimentares, hoteleiros, sommeliers, maitres, garçons, guias de turismo e muitos outros profissionais.

Agora, como trabalhador independente, preciso divulgar a mim mesmo. Já disse aqui que este blog vai virar um site, e que vários outros projetos estão em gestação. Um deles é organizar pequenos grupos para viagens por roteiros gastronômicos e enófilos, e dar consultoria para turistas que vão para destinos que atraem visitantes por suas vinícolas, mercados, restaurantes, bares, produtos rurais e outras delícias do gênero.

Pacote Santiago

Já estive em Santiago, no Chile, várias vezes. E consegui através de uma parceria com a MK Travel um preço muito atraente para um pacote básico para Santiago do Chile: US$ 481, divididos em até 9 vezes (de US$ 37 cada parcela). Inclui passagem aérea e cinco noites de hotel com café da manhã. A viagem de data específica, com saída no dia 24 de fevereiro de 2017, ou seja, mo carnaval.

Há vários passeios extras que podem ser agregados. E o preço conta com a minha ajuda na escolha dos restaurantes e vinícolas a visitar.

Maiores informações, in box.

Teremos, em breve, sete noites em Nova York, por US$ 995. Estou até considerando ir nessa.

 

 

Mendoza, terceiro dia: um bate-e-volta até San Juan

09/03/2015

Quando se fala em vinhos da Argentina, há três regiões bem definidas, que fazem um recorte vertical do país, com fortes variações de latitude, e de altitude. Salta, ao norte, com vinhedos que chegam a 3 mil metros acima do nível do mar, os mais altos do mundo. Mendoza, em área mais central, com vinhas entre 800 e 1.300 metros. E a Patagônia, bem ao sul, com plantações de uva que ficam ao redor de 300 metros. Nesse contexto geográfico, muita gente se esquece de San Juan, um pouco ao norte de Mendoza, e mais baixa. Existem bodegas famosas por lá, com produção consistente, em termos de volume e qualidade, com preço sempre mais atraente, na média, como Finca Las Moras. Mas muita gente acha que esses são vinhos de Mendoza. Pena. Parece-me que está mais do que na hora de se falar dos vinhos de lá, região onde a Syrah é a estrela, ao lado da Tannat, mas sem deixar de dar espaço à onipresente Malbec, e a outras variedades, como as brancas Viognier e a sempre plantada Chardonnay.

San Juan 1 - Pedernal - Las Moras

San Juan é a segunda maior região vinícola da Argentina, atrás apenas de Mendoza, claro. Assim como acontece em Mendoza (Vale de Uco, Luján de Cuyo), em San Juan o filé mignon está localizado mais perto da Cordilheira dos Andes, em altitudes um pouco mais altas, subindo as montanhas, e encontrando condições climáticas mais interessantes para a produção de vinhos de qualidade. Neste contexto, Pedernal está para San Juan assim como o Vale de Uco está para Mendoza. Além de Pedernal, são duas outras áreas de cultivo de vinhas em San Juan: Sonda e Tulun.

San Juan 5 - Pedernal - Las Moras

Para se ter uma ideia da variação climática por lá, a uva Malbec é colhida na primeira quinzena de janeiro em Sonda, área mais quente, onde a uva amadurece mais cedo. Em Sonda, a colheita da mais emblemática casta da Argentina acontece em março. Já em Pedernal, zona mais fresca, os cachos são cortados apenas em abril (na foto acima, uma parcela de Malbec, sem enxerto, plantado em pé franco). Difícil observar algo assim em outra região do mundo.

San Juan 2 - Pedernal - Las Moras
– Mas aqui em Pedernal a colheita também começa no começo de janeiro, com a Chardonnay. Já houve anos em que começamos a colheita no final de dezembro – lembra Claudio Rodriguez, gerente de viticultura da Las Moras.

San Juan 3 - Pedernal - Las Moras
Para ver de perto esta nova realidade, fizemos um bate-e-volta a partir de Mendoza. E a primeira parada foi justamente em Pedernal, onde visitamos a Las Moras. O solo é compostos de pedra planas e negras, de origem glaciar, que esquentam durante o dia, refletindo o seu calor nas uvas, e esfriam rapidamente quando o sol cai, criando uma amplitude térmica ainda mais extrema, o que é ótimo para se ter uvas de qualidade.

San Juan 7 -  Las Moras

Foi uma bateria e tanto.

San Juan 8 -  Las Moras

Começamos a prova com o Alma Mora Blanc 2014, corte de Sauvignon Blanc e Semillón, leve e com frescor, e bom volume de boca. Já o Chardonnay 2014 da mesma linha mostra notas de madeira e frutos tropicais, tipo abacaxi. Numa gama mais alta, o Black Label Sauvignon Blanc 2013 tem notas de arruda e aspargos, com aroma intenso.

San Juan 9 -  Las Moras
A linha Dadá nasceu inspirada no Dadaísmo, e foi pensada para atrair novos consumidores. O Moscato tem apenas 50 gramas de açúcar por litro, e carece de um pouco de acidez, mas promete se dar bem com sobremesas pouco doces feitas com frutas como pêssego e abacaxi.
Começamos a bateria de tintos com o Alma Mora 2014 Malbec, bem típico, com notas de ameixa, e final de boca mentolado, com aromas de eucalipto, e leve amargor.

Já o Cabernet Sauvignon 2014, como sempre acontece na Argentina, está em um patamar acima da Malbec, com mais corpo e estrutura, e elegância.
Mescladas as duas uvas, com uma parte de Petit Verdot, dão origem ao Alma Mora Blend 2014, mais concentrado, complexo e equilibrado, com boa fruta e mais intensidade.
Chegamos, então, aos três tintos da linha Dadá. O número 1 é corte de Bonarda e Malbec, com 14 gramas de açúcar residual por litro, com aromas de baunilha e notas florais. O Dadá 2 é um Merlot, com diferentes tipos de madeira, com sabor marcante de café, fácil de beber e de agradar o público inciante. Já o Dadá 3, Cabernet Sauvignon e Syrah, tem notas de cravo e canela, com um pouco de caramelo. O povo que me acompanhava não curtiu muito o estilo empastelado, que também não é a minha praia. Mas entendi bem a proposta, e o público que eles querem alcançar.
O Malbec Reserva 2013 é feito com uvas de Sonda, e já está elevando o nível da brincadeira. O mesmo acontece novamente com o Cabernet Sauvignon Reserva 2013, Cabernet Sauvignon e Syrah, com frutas negras, algo de caramelo e um bom corpo.

San Juan 11 -  Las Moras
O Malbec Black Label 2013 é imponente e tânico, com boa textura, e notas de amora e groselha maduras. Gostei ainda mais, porém, o Black Label Bonarda 2012, bem aromático, com boa dose de especiarias, muita fruta vermelha e notas florais, com mais estrutura e concentração.
Mas foi mesmo a partir do Black Label Cabernet-Cabernet 2012 que a coisa ficou séria. Mais elegante e complexo, tem notas de alcaçuz e cereja, com aromas animais e um agradável frescor, que se replete na acidez que dá harmonia ao conjunto, com tons levemente amarguinhos no final de boca.
Em seguida, o Mora Negra 2011, corte de Malbec (70%) e Bonarda, tinha amora, outras frutinhas do bosque (lembrou muito a bala Halls’ de cereja) e muita flor (rosa, violeta), e algo caramelado, mantendo agradável frescor e equilíbrio. Achei um vinho muito argentino em sua essência.

San Juan 12 -  Las Moras
Chegamos, pois, ao Gran Syrah, colhido em Pedernal, dois meses depois, por exemplo, que o Vale de Sonda. Feito com uvas dos três vales (Tulun também entra), tem potência aromática e muita intensidade.

San Juan 13 -  Las Moras
O Finca Las Moras Malbec 2011, com uvas inteiramente de Pedernal, é um belo exemplar da casta, com violeta, cereja madura. É um vinho distinto de todos os demais, que fermenta em barrica, com os cachos inteiros, com leveduras indígenas.

San Juan 15 -  Las Moras
Foi um panorama bem interessante da bodega, e consequentemente da região.

San Juan 16 - Casa Montes
De lá, partimos para a Casa Montes, um vinícola que me deixou impressionado com a qualidade dos vinhos, em relação ao seus preços.

San Juan 19 - Casa Montes

Logo de cara, o Ampakama Viognier 2014 é um vinho limpo, clássico da casa, floral, com frutas tropicais, além de ter aromas de pêssego e pomelo, e uma boa acidez. É vendido por R$ 25 no Zona Sul. Não é fácil encontrar um branco com preço melhor no mercado brasileiro. A rede de supermercados carioca, que tem uma linha de vinhos bem atraente, importa o vinho diretamente. Hoje, a Casa Montes está buscando um importador no Brasil. Se eu fosse importador, pegava na hora, sem pestanejar. E fica a dica.
O Torrontés 2014 é floral, com bom frescor. Já o Chardonnay 2013, com 10% do vinho fermentado em barricas novas, chama a atenção, e é uma pechincha pelos cerca de R$ 30 que custa no mesmo Zona Sul.
Chegamos aos tintos através do Ampakama Malbec 2014, pura fruta, um Malbec muito do bem feito, e na mesma faixa de preço dos anteriores. Vale ir conferir.
Já o Ampakama Syrah-Tannat 2014, com 50% de cada uva, tem certo frescor e boa carga de taninos, novamente com preço tentador.
Numa linha superior, o Fuego Negro Malbec 2014 custa uns R$ 35-R$ 40. Uma beleza, com os seus taninos firmes, mas redondos, as notas de chocolate.
Uma das linhas se chama Ampakama Intenso. Provamos dois desses vinhos: o Malbec 2013 e o Cabernet Sauvignon 2013.
Outra linha superior se chama Don Balthazar, na faixa dos R$ 45. São três varietais: Malbec (muito tanino), Cabernet Franc (floral) e Petit Verdot (bem bom, meu preferido).

San Juan 17 - Casa Montes
A linha da bodega é bem extensa, e traz outra gama superior, Alzamora (cerca de R$ 65). O Malbec 2012 passa 15 meses em barrica. Mas gostei mais do Syrah, condimentado, macio, com notas de chocolate e frutas negras em compota.
Por fim, o Casa Montes 2012, floral, fino e macio, o topo de gama da Casa Montes, floral, fino e macio, uma edição limitada a 6 mil garrafas que ainda não foi lançado. Encerramos com o Ampakama Viognier Dulce (também a menos de R$ 30). Um achado com apenas 8,5 de álcool e cerca de 75 gramas de açúcar poor litro, com sabor de maçã verde, e dulçor equilibrado.

San Juan 20 - Finca del Enlace
Encerramos a nossa incursão a San Juan na relativamente nova Finda del Enlace, uma bodega que também me impressionou, …

San Juan 21 - Finca del Enlace

… pela estrutura e – a exemplo das anteriores – pela qualidade dos vinhos, e seus preços.

San Juan 24 - Finca del Enlace

O Tracia Chardonnay tem fruta fresca, como abacaxi.

San Juan 27 - Finca del Enlace

E o Malbec é simples e direto, com notas de violeta. Novamente, gostei mais do Cabernet Sauvignon, com boa fruta, lembrando goiabada e geleia de morango. Vão chegar ao Brasil por cerca de R$ 30.

San Juan 31 - Finca del Enlace
Numa patamar superior, o Tracia Honores Bonarda 2010 (faixa de R$ 40) é bem interessante.

San Juan 32 - Finca del Enlace
Encerramos com o Alados Blenc 2012, um vinho que vem sendo bem falado e premiado, com intensidade de cor e boa fruta, com inesperado frescor.

Campanha Gaúcha: distante e promissora

04/03/2015

Campanha Gaúcha

Sabe o longe. Ande um pouco mais, então se chega à região da Campanha Gaúcha, a área mais ao sul do Brasil, junto às fronteiras com Uruguai e Argentina. A viagem desde Porto Alegre leva mais de quatro horas, talvez cinco, atravessando uma paisagem marcada por plantações de soja e trigo, com alguns aglomerados de eucalipto, que ocupam toda a planície, com suaves elevações, e algumas florestas resistentes à pecuária e à agricultura. Pastos alimentam cavalos, e o gado. É, entre tantas manifestações humanas e geográficas, o que podemos chamar de Brasil profundo. O gaúcho valente, de bombacha e chimarrão, esse cara nasceu aqui. Inclusive o Analista de Bagé.

Campanha Gaúcha 2
Andamos, andamos, andamos. E ainda estamos longe. Cruzamos protestos de caminhoneiros. Paramos para almoçar em uma churrascaria de beira de estrada que funciona em um posto de gasolina, onde podemos comprar lembraças de viagem, brinquedos, revistas e CDs de música, um lugar onde lemos na entrada do banheiro: “Favor não limpar cuia de mate”. São muitos os Brasis dentro desse país. Este é o mais austral.
Chegamos a uma estância na cidade de Rosário do Sul, onde está instalada a pequena vinícola Routhier & Darricarrère, com o dia ainda claro. Não tenho dúvida em afirmar que esta é uma das minhas vinícolas prefereidas. Gosto de seus vinhos. Me dão prazer. Já antes de conhecê-los, porém, eu já anunciava que, para mim, o verdadeiro eldorado do vinho brasileiro está aqui, na Campanha Gaúcha. E, depois de três dias visitando várias vinícolas, e provando os seus vinhos, tenho certeza disso.

A caminho da Campanha Gaúcha, de onde saem alguns dos vinhos brasileiros que mais me encantam

03/03/2015
O Merlot vinificado como branco, da Dunamis, uma das oito vinícolas no roteiro

O Merlot vinificado como branco, da Dunamis, uma das oito vinícolas no roteiro

Já estive umas dez vezes na Serra Gaúcha. Talvez 12. Mas jamais visitei a região da Campanha Gaúcha, de onde saem alguns dos vinhos brasileiros que mais me encantam atualmente. Resolvo esta questão a partir de hoje, quando embarco para Porto Alegre para quatro dias de viagem por cidades como Bagé, Uruguaiana e Rosário do Sul, tendo como base Santana do Livramento, onde estarei hospedado.
O roteiro combina vinícolas veteranas, como a Almadém, hoje pertencente ao grupo Miolo, que chegou à região ainda nos anos 1970, fruto de investimentos estrangeiros, e novatas, como a Guatambu, cuja cantina foi inaugurada há menos de cinco anos, um dos projetos mais interessantes da Campanha Gaúcha.
As visitas propriamente começam hoje, por volta das 18h, quando chegamos a uma das vinícolas brasileiras mais simpáticas, a Routhier & Derricarrère, aquela cujo símbolo é uma Kombi vermelha, localizada em Rosário do Sul.
De modo que, nos próximos dias, esse blog vai estar cheio de assunto: ainda tem histórias da viagem à Argentina para contar aqui; a série “450 Sabores do Rio” está a pleno vapor (o prato de hoje é o kassler à mineira, do Bar Brasil, uma criação de ninguém menos que Paulinho da Viola) e logo vou começar também a escrever sobre a Campanha Gaúcha.
Adoro essa diversidade de assuntos e lugares.

Mendoza, segundo dia, parte 2 – O Vale de Uco: passeio imperdível

27/02/2015

Vale de Uco 1

Em termos de paisagem, mesmo com a forte concorrência (Patagônia, Luján, Pedernal), a viagem de aproximadamente uma hora e meia de Mendoza ao Vale de Uco foi a mais bela. Seguimos rumo ao Sul, acompanhando a Cordilheira dos Andes, à nossa direita. Quando viramos em direção às montanhas, deixando a estrada principal, já vamos subindo um pouco de altitude, nos embrenhando nas raízes dos Andes, que vão se tornando cada vez mais imponentes quanto mais próximos estamos deles. O vulcão Tupungato é uma rocha sólida e nevada, branca, com sombreados, de contornos preciosos, tipo obra de arte, um desenho de precisa beleza acidentada.
O clima campestre, as parrillas de beira de estrada e os vinhedos que vão surgindo dão contornos bucólicos ao passeio. Passamos por pequenos vilarejos pacatos, onde podemos comer maravilhosos pescados, garante-me o meu motorista, e eu acredito nele.
– Que pescados? Trutas da região? Salmão? – pergunto.
– Sim, claro. Também. Mas eles fazem de tudo. Camarões, lulas, peixes marinhos. Muito recomendável.

O Vale de Uco anda se sofisticando, no ritmo da fama de seus vinhos. Algumas das mais lindas e modernas bodegas da Argentina estão por lá, como a Salentein, que era o nosso destino naquela manhã ensolarada, depois de um raro dia nublado em Mendoza. O movimento enófilo atraiu vários hotéis e pousadas, e consequentemente, bons restaurantes e um interessante comércio local, com umas lojinhas de artesanato, butiques, coisa e tal.
O cenário é desértico, com plantações alimentadas pela água do degelo dos Andes. Entramos na vinícola, passamos por uma capelinha e logo estamos de frente para o prédios de linhas retas, em tons ocres, combinando com a paisagem, bem integrado a ela.
Na verdade, são duas edificações, distantes cerca de 100 metros uma da outra.

Salentein 2

Na primeira, uma espécie de centro de visitantes, com recepção, loja etc.

Salentein 24

Há um restaurante com vista para os vinhedos.

Salentein 26

 

As empanadas que provei estavam bem boas.
Salentein 29

E o lugar tem até uma galeria de arte.

Salentein 25

Gostei dessa obra, um emaranhado de lentes, que distorce os quadros.

Vale de Uco 5 - Salentein 2
E há várias peças espalhadas por diversas partes, externas e…

Salentein 1
… internas.

Salentein 3
Do outro lado está a bodega propriamente dita, onde é produzido o vinho. Vamos caminhado pela alameda que atravessa o vinhedo,…

Salentein 6

… tirando aquelas fotografias clássicas.

Salentein 5

As roseiras, com os vinhedos, e neste caso, com uma bossa especial, os Andes ao fundo.

Salentein 7
Comemos algumas uvinhas, porque ninguém resiste a verificar os graus de açúcar e acidez, delicioso exercício de imaginação. A fruta suculenta, a secura dos taninos, o caldo agridoce. A tinta que colore os nossos dedos ao esfregarmos as cascas. O sabor amargo da semente, que mordemos para testar os taninos.
Soube que tinha nevado na noite anterior.

Salentein 9
– Essas montanhas ontem não estavam assim. Caiu muita neve – informa-me um local.

Salentein 10
Do lado de fora podemos dizer que o prédio é discreto, quase camuflado na paisagem, com a vegetação andina, tambpem em tons desbotados, ocres. Não se imagina que lá dentro o cenário é imponente, com ares de catedral, um templo do vinho. As barricas estão como em altares. Dedicados a Baco. Dionísio.

Salentein 11

Dele temos um bom panorama do edifício que recebe os visitantes.

 

Salentein 12
Quando chegamos ao salão principal, um imenso buraco redondo no chão revela uma sala de barricas que é como uma grande caverna.

Salentein 13
Tem acústica de sala de concertos, e um piano de cauda está sempre ali, esperando o próximos maestro (são pelo menos duas apresentações por ano, uma de tango, outra de música clássica). Uma rosa-dos-ventos no chão é sinal de orientação.

Salentein 16
Descemos até o chão. A energia no local é boa. Flui. As barricas. Redondas. O salão. Arredondado. Os grandes tonéis. Circulares. Tudo fluido.
O buraco que era no piso, agora está no teto. E dele vem uma luz bonita, apoteótica, quase divina, daquela que vemos em igrejas antigas, invadindo a nave através do mosaico meticulosamente pensado.

Salentein 18
Há várias enotecas, salas não muito grandes que guardam os vinhos já engarrafados, em armários com portas de metal. São também salas de degustação, para que os grupos de visitantes em cada prova não sejam muito grandes. E há de vários tipos.
A mesa é belíssima. Um tipo de mármore, em pedra bruta, que lembra uma rolha.

Salentein 23
Nem sempre se tem a sorte de degustar os vinhos com o seu autor. Quando isso acontece, é sempre melhor.Quem nos recebeu para a prova foi o enólogo da casa, Pepe Galante.

Salentein 19

E começamos a prova.

O Salentein Reserve Sauvignon Blanc 2014 era muito aromático, com pimenta branca, mentolado, e vegetal, com notas de capim-limão e grama cortada, com uma mineralidade, e um toque salino. É uma especialidade da casa. São 1,2 milhão de garrafas ao ano.

– Somos a única vinícola da Argentina que produz mais Sauvignon Blanc do que outros brancos, como Chardonnay e Torrontés. E fazemos isso porque aqui em Uco o clima é mais fresco, e adequado a esta variedade – explica Pepe Galante.

O Salentein Reserve Chardonnay 2013 é fermentado em  barraica, ganhando untuosidade, com textura gorda. Tem notas florais, e de frutas, como melão, e cítricos, como limão. Tem volume de boca, deixando um rastro adocicado, de baunilha, mas com isso tudo, sem perder o frescor.

Salentein 20

Partimos para os tintos. O Salentein Reserve Pinot Noir 2013 puxou a fileira, com muita fruta, e uma pimentinha. Um vinho claro, com bonita cor, límpido e puro, com notas de rosas e cerejas, e algo de ervas, com um tomilho fresco muito nítido, e um final longo e agradável.

Salentein 21

O Salentein Reserve Malbec 2013 trazia as típicas notas florais de violeta, e tília, com muita fruta fresca, notas de chá, e taninos macios, com textura agradável. Uma seda. Muito delicado.

Salentein 22

Foi a vez do Numina Cabernet Franc 2013. Bastou um giro na taça, e uma respirada na borda dela para sentir o perfume do vinho, terroso, floral, cheio de fruta, cheio graça. Já ali tinha a certeza que estava diante de um dos vinhos preferidos da viagem. O que comprovei em seguida, ao sentir a textura firme e sedosa, o sabor rico, com tudo aquilo que os aromas revelavam, e algo mais. Cogumelos. Trufas. Especiarias. Ervas. Fruta, muita fruta. Amoras e mirtilos. Jaboticaba. Um Cabernet “Franco”, direto e puro, sincero eu diria. Elegante.

Depois, ainda provamos o Numina Malbec 2012 (aroma delicadamente doce, com taninos firmes e textura fina: “delícia”, como escrevi); e o Numina Gran Corte (coisa séria, meio misterioso, com muito frescor; complexo, floral, com notas de frutas em compota, floral, bem longevo, com acidez marcante e taninos  redondos: acho que chega ao auge em uns 10, 15 anos).

Eu, que acredito nas energias, e na influência delas em todas as coisas, tenho a certeza de que aquela bodega bonita, com jeito de basílica, em suas formas fluidas, arredondadas, ajudam o vinho a ter esse estilo redondo, macio e sedoso. Ele descansa em barricas muito bem acomodadas, e que por vezes são brindados com belos concertos. Dizem que a música faz bem ao vinho. E eu acredito. Ainda mais depois desta visita à Salentein.

 

Mendoza, segundo dia, parte 1 – O Vale de Uco

26/02/2015
A estrada a caminho do Vale de Uco: viramos a direita e temos os Andes à nossa frente, e vamos nos entranhando nele, em busca de alguns dos melhores vinhedos da Argentina, e de  algumas das bodegas mais lindas, e dos hotéis mais charmosos

A estrada a caminho do Vale de Uco: viramos a direita e temos os Andes à nossa frente, e vamos nos entranhando nele, em busca de alguns dos melhores vinhedos da Argentina, e de algumas das bodegas mais lindas, e dos hotéis mais charmosos

Num país como a Argentina, com produção de vinhos gigantesca, encontramos a um só tempo muitas tendências. Hoje, por exemplo, podemos dizer sem medo de errar que uvas como Cabernet Franc, Petit Verdot e Semillon andam em alta, bem como o surgimento de single vineyards. Em termos de geografia, em se tratando de Mendoza, a região que está mais badalada no momento é o Valle de Uco, a cerca de uma hora e meia de carro, por uma estrada reta, que primeiro vai acompanhando paralelamente o traçado dos Andes, aquele cenário de picos lindos e imponentes, até que viramos à direita, e vamos nos entranhando nas montanhas, seguindo um circuito agora sinuoso, com paisagem que vai se tornando cada vez mais bela.

O vulcão extinto Tupungato, e sua neve eterna

O vulcão extinto Tupungato, e sua neve eterna

Até surgir imponente o vulcão Tupungato, ícone da paisagem linda, com picos de neve eterna. É o pedaço mais quente e “cool”, de Mendoza. Quente, entenda por badalado, porque esta é das zonas mais frias, e alta, o que é grande parte de suas credenciais de distinção e qualidade. Áreas como La Consulta e Gualtallary estão na moda, e o Valle de Uco, como um todo. Quem visita Mendoza hoje em dia não pode deixar a preguiça tomar conta, restringindo o programa apenas às bodegas mais próximas da área central, e como Maipú, Godoy Cruz, Agrelo e até Luján de Cuyo. Uco é necessário.
E quem quiser pode até se hospedar por lá, em hotéis como The Vines Resort & Spa, entre tantas possibilidades de hospedagem, desde pousadas de charmes a resorts temáticos (sobre vinho, claro).

A Salentein tem uma arquitetura integrada à paisagem

A Salentein tem uma arquitetura integrada à paisagem

Entre as bodegas de visita obrigatória está a Salentein, pela combinação da arquitetura meticulosamente linda e original, bem integrada à paisagem, e com raro perfil, passando pela própria qualidade dos vinhos em si, …

Obras de arte estão espalhadas pela Salentein

Obras de arte estão espalhadas pela Salentein

… e até chegar à coleção de arte que se espalha pela propriedade, e pela loja bem montada, e o restaurante de paredes envidraçadas, com vista para as montanhas, que era o nosso destino naquela manhã. Acordamos e saímos cedo, e a esticada até lá já começa a valer a pena só pela paisagem que podemos apreciar pela janela (escolha um lugar no lado direito).
E este é o tema do próximo post da série (para ler, clique aqui).

Mendoza, primeiro dia, parte 3 – Seis bodegas e um jantar

25/02/2015

Feira - Finca Agostino

 

De todas as bodegas que encontraria naquela noite, que ainda estava clara por volta das 21h, eu apenas não conhecia a Finca Agostino, que pertence a uma família de raízes italianas, como tantas em Mendoza, mas que imigrou para o Canadá, e anos mais tarde voltou à capital do vinho argentino para começar a produzir a bebida, numa trajetória muito particular. Comecei por ela. Provei um corte de Chardonnay e Viognier que é untuoso e amendoado, cremoso.

Maria e as lhamas
Pulei para a mesinha da Tapiz, bodega que conheço com certa intimidade, onde já havia me hospedado, em 2008 (para ler um post da época, clique aqui), numa pousada campestre, em meio aos vinhedos, com piscina frequentada por lhamas (acredite), e quartos instalados em um casarão antigo, de modo que a gente se sente em casa. A foto acima é “de arquivo”, roubada do post de 2008, lá no blog Enoteca.

Feira 2- Tapiz
Ali nos esperavam três vinhos da linha Alta Collection: Chardonnay, Cabernet Sauvignon e Malbec. O primeiro segue a estirpe amadeirada, untuoso e rico, cítricos, com notas de peras suculentas, com bom frescor e final agradável. O Cabernet tem muita fruta madura, e aromas refrescantes, que remetem a ervas como menta e hortelã, com taninos persistentes. O Malbec também era potente, bem típico da uva, com ameixa e violeta, com notas adocicadas.

Feira 3 Finca El Origem
Na mesa da Finca El Origen, mais um Viognier ensolarado, floral, como se espera, o Reserva 2013. A vinícola opta por um estilo musculoso, com madeira marcante.

Feira 4 - Trivento
Na Trivento, um trio de Malbec, para investigar seus estilos. De uma maneira geral, entre os vinhos argentinos, os mais leves e frutados me dão mais prazer, e são bem mais baratos. Assim, achei sagaz e alegre o Malbec Reserva 2012, floral, frutado. O Golden Reserve 2012 é apimentado, com notas de violetas, as mais vinhedos de Luján de Cuyo, de onde saem as uvas deste vinho. Chegamos, então, ao Eolo, ícone deste bodega que faz parte da Chandon, e por consequência, do grupo LVMH, um vendaval, concentrado, espesso. Aí, neste exemplar da safra 2011, ainda encontramos tudo muito misterioso e concentrado. Há baunilha, chocoleta amargo, café. Há ameixas e uvas passas. Há geleias de amoras e mirtillos. Há flores. E ervas. Pode ser um tempero para pratos fortes.

Feira 5- Argento

A Argento levou um trio de perfil bem variado. O Pinot Gris mostra que esta casta anda mesmo em alta em várias áreas do novo mundo, dos EUA e Austrália, até a Argentina, já contaminando o resto da América do Sul.
Hoje a vinícola tem a sua própria bodega e vinhedo. E a Bonarda tem aquele perfil de que falávamos, de fruta, leveza, um vinho correto para o dia a dia, de preço justo, acessível.
O Malbec-Malbec Reserva 2012 é um corte de vinhos da mesma uva, que tem a virtude do equilíbrio.

Altocedro 1- Restaurante
O jantar foi bem agradável. O restaurante é uma unidade mendocina de uma casa porteña, que segue a linhagem “confort food”, buscando produtos orgânicos para resultar numa cozinha aconchegante. Levamos para a mesa os vinhos das provas. E outros foram abertos. O Altocedro Año Cero Rosé de Malbec é uma tchutchuca, delicado, refrescante e fresco, com sabor de maçã, com casca, daquelas suculentas, ácidas, e com alguma doçura. Lindeza.

Altocedro 2 - Restaurante
Foi com ele na taça que eu fui dando bicadinhas nessa xícara esmaltada, que trazia uma piperrada, sopinha fria, prima do gaspacho.

Altocedro 3 - Restaurante
Depois, eu fiquei namorando por muito tempo o Altocedro Pinot Noir. E pedi mais uma taça. Coloquei um pouco de Eolo. E nem estava pensando em harmonizar, porque a etapa seguinte era uma torradinha fina de focaccia, com provoleta de cabra, assada no forno, com casquinha crocante, ressaltando a sua salinidade e gordura, com uma espécie de ratatouille, e saladinha da horta, com folhas orgânicas, tomatinhos. Puro conforto. Maridaje? O Pinot ficou um tesão com esse prato.

Altocedro 4 - Restaurante
O prato principal era um matambre de porco, com recheio tipo “pascualino”, com queijo, espinafre, em base de ovo, com um purê verde (talvez de batatata com favas) e vagens francesas, em dois tons de cor, com molho de… Pimentão, se não me valha a memória (não tomei nota deste prato).

Altocedro 5 - Restaurante
O “postre” foi um pudim. Chamado por lá de flan. E, neste caso, preparado de modo que eu jamais havia visto, em tabuleiro, para ser cortado em quadradinhos, retângulos, ou como se queira. Ao lado, uma generosa colherada de doce de leite reforçava a doçura.

E amanhã vamos pegar uma estradinha, rumo ao cada vez mais badalado Vale de Uco.

 

Mendoza, primeiro dia, parte 2 – Proemio, novidade no Brasil, e Altocedro, que está de volta: bom ficar de olho neles

24/02/2015

 

Depois do almoço no Bistro M, do Park Hyatt, começamos a jornada vinícola mendocina com uma novidade para o mercado brasileiro: fomos conhecer a Proemio, que a partir de março começa a ser vendida por aqui, uma bodega que eu resumiria como pragmática: querem fazer bons vinhos, usando madeira e uva de qualidade. E conseguem. O que vi foi uma linha de perfil conservador, que usa madeira de alta qualidade, fazendo uma classificação básica, com vinhos sem barrica, e outros com, e os rótulos de alta gama.

A sala de barricas da Proemio, que comprou uma bodega de 1930

A sala de barricas da Proemio, que comprou uma bodega de 1930

Na sua linha mais simples, enxergamos a fruta, e encontramos alguma leveza e frescor, como deve ser.

O Proemio Cabernet Sauvignon Reserve, ao lado de outros vinhos de alta gama da Proemio

O Proemio Cabernet Sauvignon Reserve, ao lado de outros vinhos de alta gama da Proemio

O seu Proemio Cabernet Sauvignon Reserve, com passagem em madeira, foi um dos vencedores do Argentina Wine Awards. “Condimentado, defumado, com taninos bem marcados e uma acidez nervosa, que vai lhe dar condições de muito melhorar nos próximos cinco anos, acho eu. Seco, com uma piracina interessante, que me lembrou ají amarelo, e boa expressão da fruta, com a madeira de qualidade bem integrada”, foi o que escrevi no post sobre os vinhos premiados.
Os vinhos apresentam uma boa relação qualidade-preço, mas como não são baratos, vão atingir mais o consumidor que busca mais qualidade do que preço.Gostei da purereza e do frescor do Chardonnay, sem barrica, um vinho limpo e fácil de beber, com acidez agradável.

Proemio Cabernet Sauvignon 2014: a pureza da fruta, a partir do mês que vem no Brasil, a R$ 49

Proemio Cabernet Sauvignon 2014: a pureza da fruta, a partir do mês que vem no Brasil, a R$ 49

O seu Cabernet Sauvignon básico, que será vendido na casa dos R$ 49 (é o preço da linha sem mandeira), muito me agrada. Um ponto interessante da prova foi harmonizar os vinhos com doces.
A empresa tem um perfil de atuação amplo em termos de negócios envolvendo o mundo do vinho.
– Queremos nos tornar um conglomerado de viticultura. Tudo começou com a importação de barricas francesas Vicard para a Argentina. Depois, veio a vontade de fazer vinho. Começamos comprando uvas, e hoje já temos os nossos vinhedos. E compramos essa bodega, que é de 1930, há 12 anos. O projeto inclui vários outros produtos, como polifenóis de semente de uva para cosméticos, e mesmo para a adição em vinhos – diz Julián Iñarra Iraegui, gerente de exportações da Proemio, que hoje produz 12 mil caixas por anos, e pretende vender mil delas para o mercado brasileiro, através da importadora Wine & Co.

A nova sede da Altocedro, em uma antiga bodega, em Coquimbito, na área de Maipú: "La Consulta é muito longe", diz Karim Mussi, o enólogo da casa

A nova sede da Altocedro, em uma antiga bodega, em Coquimbito, na área de Maipú: “La Consulta é muito longe”, diz Karim Mussi, o enólogo da casa

De lá fomos até Coquimbito, na área de Maipú, onde está uma espécie de novo posto avançado da bodega Altocedro, que assumiu uma antiga vinícola, estando agora também um pouco mais perto da cidade de Mendoza.
– La Consulta, onde estamos, é muito longe – resume Karim Mussi, o enólogo da Altocedro, que ainda dá consultorias, e fas projetos paralelos.
Foi ótimo reencontrá-lo (para ler uma reportagem sobre essa degustação, clique aqui). Karim Mussi é um dos expoentes da nova geração de enólogos argentinos, um cara com perfil empreendedor, e que faz os seus vinhos com a mesma personalidade que mostra ao falar deles. Tem ideias originais. E, o mais importante, sabe fazer vinhos. Durante esse encontro, algumas frases dele me chamaram a atenção.
“Tem muita gente fazendo Cabernet Franc varietal na Argentina. Ótimos vinhos, mas não vou fazer um vinho assim, porque não gosto de modismos”.
“Na hora de fazer vinhos, eu gosto de ter opções sobre a mesa. Não gosto de vinhos sobremaduros, porque quero preservar a boa acidez, e o frescor, e não quero um resultado muito alcoólico. Porém, na hora de montar um corte, é bom podemos misturar um vinho mais jovem, fresco, com um mais potente, encorpado. Este trabalho é um dos mais difíceis para um enólogo, e dos mais prazerosos”.

O Altocedro Gran Reserva Icone Malbec 2012: "Muito fino e elegante. Profundo e complexo.  Bom agora, melhor em dez anos"

O Altocedro Gran Reserva Icone Malbec 2012: “Muito fino e elegante. Profundo e complexo. Bom agora, melhor em dez anos”

“O nosso Gran Reserva não é um macho forte, um vinho potente, musculoso. Pensamos nele como uma dama elegante. Queremos mudar este paradigma. Fazemos uma cofermentação, com cerca de 2 ou 3% de Sémillon”.
Resumi assim o vinho – feito com uvas de um vinhedos de mais de 100 anos, em La Consulta – no meu bloquinho: ” SENSACIONAL. Muito fino e elegante. Profundo e complexo. Bom agora, melhor em dez anos.

Abras Malbec e Abras Torrontés: produzidos em Salta

Abras Malbec e Abras Torrontés: produzidos em Salta

Começamos a nossa degustação com um Torrontés de Salta, o Abras 2014. No meu bloquinho de notas, escrevi em letras garrafais (homenagem ao amigo Pedro Mello e Souza): “Gosto disso”. Ao lado, outros comentários: “Bem + elegante mas com a mesma exuberância no aroma do que outros Torrontés. Muita flor, sim, mas com lichia, e outras notas que o aproximam de um Sauvignon Blanc, cítrico, algo vegetal, e acidez lá em cima”. Está dito.
– Colhemos a Torrontés em três etapas, mais verde, mais madura, e bem madura, para jorgar com a acidez, e o frescor, e a madurez, a estrutura, o álcool – explica Karim.

Año Cero Pinot Noir 2013,  um vinho raro em termos de enologia argentina: "Foi um dos melhores, entre os quase 300 provados durante a viagem".

Año Cero Pinot Noir 2013, um vinho raro em termos de enologia argentina: “Foi um dos melhores, entre os quase 300 provados durante a viagem”.

E os vinhos de Karin se encaixam no meu perfil. O seu Año Cero Pinot Noir 2013 é um vinho raro em termos de enologia argentina. Um vinho altamente sedutor, muito agradável de beber, com pimentas, especiarias, um tostadinho aqui, um defumado ali, tudo isso sem esconder a fruta fresca, que brilha em forma de notas de cerejinhas, amorinhas… Tudo isso com muita elegância, um vinho equilibrado, com acidez e frescor, e com volume de boca, untuoso.
Outro destaque foi o Cabernet Sauvignon Año Cero 2013, com aromas de morrones (pimentões vermelhos) assados, pimenta preta, amora frescor, e umas fumacinhas, com taninos marcantes.
E, antes que eu me esqueça… Os vinhos, que já foram importados para o Brasil pela Terramatter, estão voltando, por coincidência, assim como a Proemio, chegando ao Brasil agora em março, pelas mãos de uma nova importadora (que tem os dedos do Marcio Moualla, da Terramatter) chamada Ares dos Andes. Se eu fosse você, ficava de olho.
Além dos vinhos da Altocedro, ainda provamos rótulos de mais quatro bodegas (três de cada: Finca El Origen, Argento, Finca Agostino, Trivento e Tapiz). E, no lugar, também funciona um bom restaurante, e foi lá que jantamos. Mas isso é assunto para o post de amanhã, né? Este já está bem longo. E, nos próximos dias, vamos fazer assim. Vou continuar falando de Mendoza, e de San Juan, encerrando a jornada argentina, enquanto ao mesmo tempo também volto a falar do Rio de Janeiro, e de cerveja, e de vinhos de outras partes, e de cachaça. Ok?

Mendoza, primeiro dia, parte um: um almoço regado a Inéditos Torrontés Brutal 2012

23/02/2015

 

Bistrô M - Park Hyatt Mendoza 1

Adoro a cozinha aberta do Bistrô M, no hotel Park Hyatt, de Mendoza.  E foi ali, com um belo café da manhã (depois de dez horas de viagem madrugada adentro, desde Neuquén, de ônibus), que começou o primeiro dos nossos cinco dias na cidade ,- a capital do vinho argentino (são cerca de 1.400 vinícolas!!!) -, com direito a uma escapada até San Juan, onde visitamos três bodegas.

Bistrô M - Park Hyatt Mendoza 2

Ao centro, um grande forno, a gás, que parece a lenha, pela forma, e pelo resultado do que é assado ali dentro.

Inéditos Torrontés Brutal 2012
A chegada a Mendoza foi triunfal. Pelo que bebemos. No almoço, abrimos uma garrafa do Inéditos Torrontés Brutal 2012, um desses vinhos desconcertantes, não filtrado, com aromas que fogem do usual, um branco com estrutura, vinificado como se fosse um tinto, com maceração com as cascas. Sim, um vinho laranja, uma das obras-primas de Matias Michellini. O vinho tem aromas de mel, uvas passas (brancas), tâmaras e casca de laranja cristalizada. Um vinho denso, com volume de boca, e uma alta acidez – direta, picante, pontiaguda.

Bistrô M - Park Hyatt Mendoza 4
Foi o destaque do almoço, mostrando grande versatilidade à mesa. No meu caso, se entendeu muito bem com a entrada, uma espécie de pizza (fugazetta, para eles), com rúcula, azeitonas pretas e um toque de queijo azul.
Ok, isso era de se esperar. Mas, ando cada vez mais convencido de que certos brancos vão bem com carnes, e esse é o caso dos vinhos laranjas. Pra mim, os vinhos de Josko Gravner (que não são laranja, e não são mesmo, mas sim, âmbar) são altamente gastronômicos, e pratos com cordeiro e vitela ficam divinos com eles (para ler mais sobre os vinhos de Gravner, clique aqui).

Bistrô M - Park Hyatt Mendoza 5

De modo que deixei um pouco do vinho, não só para prolongar o prazer de degustar o Inéditos Torrontés Brutal 2012, mas também porque imaginei que ele se entenderia bem com o prato principal, uma carne (esqueci qual, mas acho que vacío) fatiada, servida com acompanhamentos generosos: queijo, cebola, pimentão vermelho, e um molho roti.

Cabernet Franc

Tínhamos na mesa um Cabernet Franc, mais um belo Cabernet Franc argentino. Essa, uma escolha segura e certeira para um prato assim. E, de fato, ficou muito bom. Mas o Torrontés também brilhou. E eu fiquei ali, com momentos de grande prazer, fazendo algo que tenho gostado muito. Provar dois vinhos com um mesmo prato, e melhor ainda se for um branco e um tinto. Dou um gole no branco. E então uma garfada na comida. Sinto o entendimento da dupla. E então bebo um gole de água, ou vou mesmo direto ao tinto. E dou outra garfada. E sinto como se comportam juntos. E vou ao branco novamente. Que limpa e boca. E, nesse motocontínuo, amigo, só tenho algo a lhe dizer: o vinho nasceu para dar prazer, e não trazer preocupações.

Bistrô M - Park Hyatt Mendoza 6
Encerrei com um sorvete caseiro de pistache, bem bom gostosinho.

Melodía Malbec Rosé Dulce

 

Foi servido com um alegre espumante rosado, e docinho. Ficaria melhor com um doce com frutas vermelhas, tipo tartelete de framboesas, cheseecake com calda de morango e outras variedades do gênero, bem como no preparo de coquetéis.

E de lá começamos uma intensa agenda de visitas e degustações (só em Mendoza, provamos cerca de 200 vinhos, em cinco dias). Mas isso é assunto para outro post, certo?