Archive for the ‘Queixas’ Category

Sempre que acontecem episódios como os de ontem, envolvendo restaurantes badalados do Rio…

16/04/2015

… um monte de gente vem me perguntar o que eu penso do assunto.

Pois então hoje tento condensar minha opinião a respeito.

Em primeiro lugar: é claro que ações do tipo contam com o meu apoio. Porém, da maneira que é feita, torna-se nefasta, ineficaz, covarde e sensacionalista. E a repercussão dos fatos geralmente não questiona a razão de regras tão tolas, e rígidas.
Um dos primeiros pontos importantes é o seguinte: se esses órgãos (Procon e Vigilância Sanitária) estivessem mesmo ocupados em proteger a alimentação das pessoas, fiscalizariam os estabelecimentos que de fato colocam em risco a saúde da população, risco de vida, inclusive. Numa cidade como o Rio, com tantos e tantos bares e restaurantes imundos, com funcionários porcos, e que trabalham sem higiene alguma, na cozinha, no banheiro, no salão, não faltam lugares que merecem ser não apenas multados, mas fechados. Porém, esses não dão ibope, não sairiam nos jornais, e portanto não interessam aos fiscais. E sem falar nos milhares de ambulantes de comida que estão por todo o canto, oferecendo alimentos que, pela aparência e estado de conservação, apresentam grandes chances de terem problemas. Nenhum desses é importunado.

Esse, a meu ver, é o primeiro ponto importante. O segundo são as regras em si. Não são apenas rígidas, porque assim devem ser, mas são tolas e sem qualquer eficiência na proteção da segurança alimentar da população. E sem contar no impacto que isso tem no custo do restaurante, e quem paga a conta é o próprio cliente, que muitas vezes aplaude essas ações (o Brasil é país que pune os empreendedores, os que trabalham corretamente: fazer sucesso e ganhar dinheiro aqui é como se fosse uma afronta). Nunca vi reportagens questionando essas regras. Não conheço outros lugares, e sou bem viajado, que tenham regras tão ridículas. Cozinha é lugar de manipulação de alimentos, e isso acontece ao longo de todo o dia. Se as mesmas regras fossem aplicados a outros restaurantes do mundo, os melhores, eles seriam autuados, não tenham dúvidas disso. Se esses mesmo fiscais, seguindo essa mesma legislação, fossem às cozinhas do Noma, do Mugaritz, do Le Meurice, do Per Se, do Jiro, e de tantos outros, eles também passariam pelas mesmas situações.
São essas mesmas regras tolas que impedem o aproveitamento de partes da cabeça dos animais, exclusividade brasileira. Só aqui não se pode comer bochecha de boi ou porco, cérebro e certas vísceras; e assim muitos alimentos nobres são descartados. E ainda tem outras questões. Os queijos de leite cru, os produtos alimentícios artesanais. Chegamos ao absurdo de termos proibido a produção de mel de abelhas nativas: por aqui, só mel de abelhas africanas. Como o perdão do trocadilho. O Brasil é o fim da picada.

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Só não quero que me falte a danada da cachaça

25/02/2015
Não se engane: caipirinha, é de cachaça; se não é de cachaça, não é caipirinha

Não se engane: caipirinha, é de cachaça; se não é de cachaça, não é caipirinha

Faz um bom tempo uma coisa me intriga. Na verdade, hoje o verbo é irritar. Fico bem irritado quando vou a um bar – algo bem comum – e peço uma caipirinha – algo bem raro. Em cálculos ligeiros de memória, mas com índices altamente confiáveis, eu diria que em cerca de 80% dos casos a resposta do garçom me faz ter vontade imediata de ir embora, e em alguns casos eu vou mesmo, caso haja algo aceitável nas redondezas.
– O senhor prefere que tipo de vodca, premium ou comum? – agridem uns.
– Vodca nacional ou importada? – debocham outros.
Coisa irritante.
Coisa vergonhosa.
Porque se eu peço caipirinha, isso significa que se trata de um drinque feito com limão macerado com um pouco de açúcar, com cachaça e gelo. E até pode haver variações. Sempre questões quantitativas: com ou sem açúcar?, com pouco ou muito gelo? Ou, então, são questões cromáticas: prata ou ouro?, branca ou dourada?, com ou sem madeira? (De uma maneira geral, as branquinhas, sem passagem em barris, são mais adequadas, pela sua maior neutralidade, mas há exceções). Aceito até o uso de melado, ou açúcar mascavo. Até xarope de água com açúcar.
Ou seja, caipirinha é cachaça e limão. Qualquer coisa diferente disso, não é caiprinha. Se eu peço caipirinha, sequer preciso dizer que é de limão. Porque caipirinha é de limão. Se é de morango, de caju, de uva, ou de qualquer outra coisa, temos que chamá-la de caipirinha de morango, caipirinha de caju, caipirinha de uva, ou caipirinha de qualquer outra coisa. Sendo de limão, basta chamá-la caipirinha.
Se é de vodca, sequer pode ser chamada de caipirinha. Existe uma palavra (muito da chata) para isso: caipirosca (às vezes abreviado como rosca, caso da Bahia, o que torna pior o que é muito ruim). Ou caipivodca, que acho melhor, porque o nome já traz em si a sua subversão escrota; Caipirosca já dá margem a dúvidas.
Quando chegará o dia em que o Brasil vai entender que, quando pedimos caipirinha,a queremos um drinque de limão e pinga. Com (ou sem)
Pior é que se eu pedir um Cuba libre, não haverá garçom que me questione o tipo de destilado usado.
Pior é que se eu pedir um pisco sour, ninguém vai me perguntar se quero com que tipo de vodca.
Isso vale para todos os drinques clássicos. Caipirinha é um drinque clássico. Sua receita, com ingredientes imutáveis, seja lá onde se faça uma caipirinha, é limão e cachaça, tendo gelo e açúcar como acessórios.
E, evidentemente, se alguém pedir uma caipirosca, certamente jamais a resposta será: “Com qual marca de cachaça você prefere?”

 

ATUALIZAÇÃO: Ontem, publiquei o link deste post no Facebook. E foram muitos comentários em seguida. Um deles, merece destaque aqui, feito por Rafael De Almeida Sampaio, sócio do Barthodomeu, e um grande apreciador da cachaça: “Tem uma questão que separa os dois produtos. A Vodca é o único destilado que é mais elegante quanto menos gosto tem, então destilam um monte de vezes. Na cachaça, o gosto interessa!”

Deu pra entender que caipirinha é de cachaça com limão, açúcar e gelo, ou precisamos desenhar?

 

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Eu também vou reclamar (viva Raul Seixas): muitas vezes o que parece ruim é ótimo

03/07/2012

Vejam como as pessoas gostam de reclamar à toa, chorar as mágoas que não são necessárias. Fazer drama é chato, mas faz sucesso nas redes sociais. Reclamar é sempre razão de aplausos, concordâncias. Uma chatice só. A pessoa vai no restaurante estrelado só para reclamar: reclama da quantidade de comida de cada prato, do excesso de etapas da refeição, ou da falta delas. Reclama de tudo. E o povo acha legal.
Me lembro até do mestre Raul Seixas: “Mas é que se agora
Pra fazer sucesso
Pra vender disco
De protesto
Todo mundo tem
Que reclamar”
Minha gente. Vamos parar de chorar pelo leite derramado…
Há cerca de quatro anos anunciaram que o Quadrifoglio de Silvana Bianchi fecharia as portas, dando lugar a outro restaurante.
teve gente que quase arrancou os cabelos. Mas o lugar já vinha dando mostra de cansaço. Estava desgastado pelo tempo. E tapetes puídos eram uma das evidências disso.
Pois bem. O restaurante reabriu infinitamente melhor. Hoje o Quadrifoglio é o melhor restaurante italiano da cidade. Acho. E olha que a concorrência é ótima.
Outro dia, o Carlota também anunciou que fechava a filial do Rio, que nunca foi lá grandes coisas (se a matriz paulistana já não é lá nenhum Brastemp, a casa carioca sempre foi, no máximo, razoável).
Pois no fim de semana ficamos sabendo que o chef Felipe Bronze está assumindo o lugar, para montar um restaurante dedicado a pratos pequenos, na linha Oui Oui e Miam Miam.
O sucesso de um restaurante depende de inúmeros fatores. Pode dar certo, ou não. Mas não resta dúvida de que será muito mais interessante que o Carlota. Teve gente que chorou o fechamento da casa da carla Pernambuco. Eu posso não ter comemorado, mas sequer fiquei um tantinho de nada triste.
Hoje, sim, eu comemoro a possibilidade de ter um bar de tapas do Felipe Bronze.
Era você que lamentava o fechamento da Chaika?
Não se preocupe. Quem sabe em breve não teremos uma boa notícia?

O Rio de Janeiro cada vez mais lindo: mas ainda falta tanta coisa…

02/07/2012


Ontem o Rio de Janeiro foi eleito Patrimônio Mundial da Unesc o, inaugurando a categoria “paisagem cultural”. Paraty, ao mque parece, segue o mesmo caminho, e deve logo ser tombada, como patrimônio histórico.
Sim, o Rio é lindo, e merece a distinção.
Sim, visitar o Rio pode ser extremamente divertido.
Sim, morar no Rio é delicioso.
Sim, o carioca, quando não é besta e prepotente, é gente boa, sujeito agradável.
Sim, essa combinação única de mar e montanha faz do Rio um lugar mágico: sair da praia para tomar um banho de cachoeira numa cidade grande é algo raro em todo mundo. E, depois disso, emendar em um chope, de chinelo e sem camisa, é a glória.
Sim, a cultura do samba, as feijoadas das escolas, os botecos, a Floresta da Tijuca, tudo isso cria um ambiente delicioso.
Tudo isso é fantástico.
Mas precisamos fazer o nosso dever de casa.
A pacificação dos últimos anos é algo essencial.
Programas sociais também.
Mas, precisamos, melhorar muita coisa. Não para os turistas, que deveríamos receber em quantidades muito maiores, mas para o próprio carioca.
Temos que criar condições de deslocamento pela cidade, porque nosso transporta público é algo deplorável. Precisamos limpar a cidade: sim, o carioca é muito porco. Basta ver a praia no final de tarde de um domingo de sol. Dá vontade de chorar.
Precisamos melhorar a qualidade dos nossos hotéis e restaurantes. Temos que desonerar o setor: o Rio está caro demais.
Precisamos ter uma empresa municial de turismo que seja útil aos visitantes. O quje temos hoje, a nível municipal, estadual e federal, é uma piada de mau gosto: o que é a Riotur, minha gente? E a Embratur? Fico com vergonha. Se compararmos com órgãos semelhantes do Chile, Argentina e Uruguai, e Peru, Colômbia, Equador e México, isso para ficar só aqui na nossa vizinhança, vemos que tomamos um banho. Não sabemos, infelizmente, vender o Brasil como um país turístico. nem o Rio como destino. Ainda não sabemos até hoje, o que é inacreditável…
Precisamos valorizar a cultura que ainda resta: das cachaças de Paraty e do Vale do Paraíba às festas folclóricas: a congada, o jongo, a ciranda. Precisamos preservar a riqueza gastronômica: os pratos caiçaras, a cozinha das fazendas, a tradição cervejeira da Região Serrana.
Precisamos acabar com a atuação promíscua dos taxistas, em especial os que ficam nos aeropostos.
Precisamos de tanta coisa. Pelo menos, parece que encontramos um prumo. Estamos no caminho. Mas é bom correr, para não perder o bonde. Não se sabe se teremos uma próxima chance.

O cerco aos vinhos importados, e a nossa grandeza gastronômica ameaçada

16/03/2012

O Brasil precisa tomar vergonha na cara. E o que tem a ver “o cerco aos vinhos importados, e nossa grandeza gastronômica ameaçada”, você pode se perguntar. Muita coisa. As duas coisas mostram como estamos atrasados. No momento em que começamos a fazer bons vinhos, com grandes empresas produzindo e exportando uma gama variada e consistente de estilos ao mesmo tempo em que surgem sem parar pequenas vinícolas, espalhadas por várias regiões, do Sul ao Nordeste, também andamos para trás, ameaçando essas mesmas conquistas. Num movimento orquestrado pelos gigantes do setor, o selo fiscal é mais um empecilho ao consumidor, inibindo a entrada de vinhos importados, um suplício para importadores e pequenos produtores, entrave burocrata e fiscal, uma tolice total. Não satisfeitas, Miolo, Salton, Valduga e companhia limitada agora tramam mais um golpe no enófilo, lutando pela aprovação de mais medidas contra a entrada de vinhos importados no Brasil, com aumento de impostos, salvaguardas etc.
Não aguentamos mais. E já está sendo organizada uma petição pública contra a medida (para ver, clique aqui).
O mundo do vinho está em polvorosa, e pipocam vários e-mails na minha caixa postal, com toda sorte de protesto.
Agora, faço o meu.
Vários movimentos estão se articulando para ir contra essas medidas todas. O que se passa no vinho, se passa igualmente com a gastronomia. Num momento em que todos olham para o Brasil, não conseguimos desenvolver como deveríamos a nossa rica gastronomia. Nossos restaurantes são os mais caros do mundo. É impressionante como pagamos caro muitas vezes para comer mal.
Estamos a anos de distância de outros países. A cozinha peruana é a bola da vez. Vejo casas de carne argentinas espalhadas por cidades dos EUA e Europa. Mas e o Brasil? Nada. Temos chefs se destacando, porque são guerreiros. Ser chef no Brasil é um ato de amor. Roberta Sudbrack, Claude Troisgros, Helena Rizzo, Rodrigo Oliveira, Paulo Barros, Luca Gozzani, Claudio de Freitas, Roland Villard, Alex Atala, Katia Barbosa, Frederic de Meyer, Kiko Faria, Felipe Bronze e tantos outros. Admiro essas pessoas. Lutam contra um sistema medonho, antiquado, colonizado, ignorante. Brasileiro não come miúdo. Brasileiro tem paladar distorcido, que valoriza os sabores doces, fáceis. As pessoas não comem mariscos. Jamais vão ter coragem de comer rins de vitela, ou chinchulines, ou jiló, e mesmo coisas simples e usuais, como cenoura, brócolis, são odiados pela maioria da população. Temos preconceito à mesa. Brasileiro gosta mesmo é de bife com fritas, big Mac e Coca-Cola. Infelizmente. Vejamos nossas feiras, que horror. Pouca oferta, e ninguém se preocupa com a sazonalidade dos produtos. Aos poucos vamos mudando, mas o ritmo é mais lento do que deveria. Nossa carne melhorou, e hoje até produzimos rúcula, aspargos frescos e cogumelos (parace piad, mas até pouco mais de dez anos atrás não havia nenhum dos três ingredientes por aqui: aspargos e champignon? Só conservas medonhas. Palmito idem). Sonho com o dia em que teremos restaurantes simples servindo robalo na brasa com palmito assado, farofa e arroz com coco fresco. Salivo imaginando baianas de acarajé perfumando as esquinas do Rio com aroma de dendê. Fico imaginando como seria bom ir à feira e comprar uma posta de filhote fresco, pescado ainda ontem nas águas escuras do Rio Negro. Seria muita utopia pensar em vieiras de Ilha Grande, ostras de Búzios, lagosta do Ceará, pitu de Paraty, tainha de Florianópolis, sururu do Recôncavo Baiano, pescada-amarela do Maranhão, surubim do Rio São Francisco e tantos outros pescados maravilhosos que habitam a nossa costa, seria demais querer comprar esses produtos frescos nas nossas feiras? Acho que não. Aviú, tucupi, paçoca de carne-seca, queijo Canastra, socol capixaba, farinha de puba do Maranhão, . Minha gente, vamos provar lombo com broto de samambaia, como em Diamantina, Minas Gerais. E pamonha de linguiça com queijo, lá de Pirenópolis, Goiás, e os doces de Goiás Velho (bênção, Cora Coralina). Doce de abóbora com coco, doce de mamão verde, goiabada cascão, em caixa, claro… e com queijo, por favor. Doce de espécie, bolo de goma… Pirarucu, tambaqui, jaraqui, matrinxã, tucunaré…Catado de aratu na folha de bananeira. Dendê da Bahia de Todos os Santos, leite de coco fresco feito na hora. Pimenta malagueta, coentro. Pimenta de cheiro, murici, aroeira… E as frutas? Bacuri, siriguela, açaí… Frango com quiabo, maxixada, jabá com jerimum, sarapatel, galinha cabidela, chouriço… Chambaril. Guaimum.Tapioca. Requeijão. Manteiga Aviação. Vamos provar o manuê de bacia, o camarão casadinho, e ensopado de peixe com banana verde, de Paraty. Entrevero, sapecada… o pinhão. Bolinho de tubalhau, marisco lambe-lambe, pititinga, lambreta. Unha de caranguejo, caranguejo toc toc. Moqueca de siri mole. Pé-de-moleque, curau, mungunzá, canjica. Quentão, vinho quente, aguardente. E ver que o acarajé fica muito mais rico quando servido com caruru, não só com vatapá. Prove uma buchada de bode bem feita. E não tenha medo da linguiça picante de Bragança Paulista. Já provou xinxim de bofe? Certa vez, a baiana Dadá me serviu um. Deliciosamente inesquecível. Filé à Oswaldo Aranha, sopa Leão Veloso. Arroz de cuxá, tacacá, . Virado à paulista, tutu à mineira, churrasco à gaúcha, empadão goiano, moqueca capixaba… Lambari frito. Pudim de cachaça. E o cortado de palma, pirão de parida, godó de banana, receitas dos sertões, de nomes tão gostosos assim. Matula. Afogado, barreado. E os diminutivos? Escondidinho, arrumadinho, picadinho… Costelinha com canjiquinha, lombinho, camarão ensopadinho como… Chuchu. Caipirinha! Quanta delícias miúdas. Moela no molho de tomate, língua ao Madeira, dobradinha à moda do Porto… A grandeza dos miúdos. Bolo de rolo, queijo coalho de leite cru (com melado, por favor), queijo-manteiga. Caldo de piranha, lombo de jacaré, delícias pantaneiras. Pintado à urucum, e o famoso “hipoglos”, também chamado pacu assado. Cachaças, tiquiras… espíritos do Brasil. Vamos valorizar o que é nosso. Vamos levar a sério o que comemos e o que bebemos. Este ano o Peru será o primeiro país do mundo a ter um ministro da Gastronomia. O embaixador, sabemos, já existe há uns 15 anos, Gastón Acurio, quando a cozinha andima começou a ganhar destaque pelo mundo, apresentando produtos autênticos, receitas de personalidade, valorizando ingredientes locais. Por aqui, não podemos nem trazer queijo de minas feito com leite cru, como mandam as regras mais básicas da produção de laticínios de qualidade. Peixe fresco do Amazonas? É raro mesmo em Belém e Manaus, imagine por aqui… Mônica Rangel, do Gosto com Gosto, em Visconde de Mauá, produz linguiças fabulosas. Não pode vender para outros estados. Para alguém produzir linguiça com selo de inspeção federal precisa ter uma fábrica com entrada para caminhões… Para que, meu Deus? Muito claro, para proteger os gigantes do setor. Assim, vamos. Criando latifúndios que só produzem commodities, sem qualquer valor agregado, sem mão-de-obra relevante, com trabalho mecânico. Café, cacau e outros produtos que já foram referências brasileiras hoje são uma vergonha. Quem entende do assunto sabe que o cacau bom mesmo vem do Equador, e o café, da Colômbia. África, Caribe e América Central dominam, quando o assunto é qualidade, algo que um dia já foi nosso. Vejamos os pequenos produtores rurais da estrada Teresópolis-Friburgo, que cultivam lindos campos, repletos de alface, rúcula, couve, cebolinha, salsinha, e tantas outras folhas, e muitos outros legumes: cenoura, pimentão, beterraba… O que acontece ali? Eles vendem baratinho para grandes atravessadores, que descem a serra todos os dias abarrotados, ganhando mil por cento com o trabalho. Se pagam R$ 0,10 o pé de alface, vendem por R$ 1, e nós pagamos R$ 2. Não existe incentivo. Ninguém ensina a essas pessoas que se eles platarem beringelas e pimentões eles podem produzir uma linda caponata, e vender a preços mais razoáveis. Podem ganhar mais dinheiro. Não, ninguém ensina. Eles ficam ali, vendendo pés de alface a R$ 0,10… O Brasil, lamentavelmente, é assim…
Mas há esperança. Vamos começar ajudando a acabar com esse selo fiscal, e com mais esse vergonhoso imposto querem nos meter goela abaixo?

 

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Movimento anti-tabasco! Eu apoio

20/09/2010

Como uma praga, o vidrinho se espalhou por todas as mesas cariocas: restaurantes com preguiça de fazer uma boa pimenta. Quero a minha malagueta de volta!!!!

Até acredito que a cozinha mexicana seja mesmo incrível. Adoro comida apimentada, aprecio demais um prato salgado com ingredientes adocicados, acho lindas as receitas coloridas, a brincadeira com as diferentes texturas, os ingredientes exóticos. Mas acho um horror os restaurantes mexicanos que existem no Brasil, principalmente aqueles que colocam garçonetes armadas de tequila e uns sujeitos que apitam enquanto agitam a cabeça do pobre bebedor do destilado de agave azul. Coitados de nós…
Mas se os restaurantes mexicanos, e também os chamados tex-mex, apenas servissem sua comida desprezível, tudo bem. O problema é que essa onda chicana veio acompanhada de uma praga: o tabasco. Como um câncer esse vidrinho de pimenta industrializada se espalhou por toda a cidade. Tem até boteco e restaurante estrelado colocando tabasco nas mesas. E cadê a minha boa e velha malagueta, curtida em cachaça, azeite, alho e folhas de louro? Cadê, meu Deus? Sento-me num restaurante, peço um caldo de feijão e uma pimentinha, e o que ve chega? Um frasco de tabasco… Chego no restaurante português e mando descer uma porção de bolinho de bacalhau, com azeite e pimenta para acompanhar, naturalmente. E o garçom me traz um tabasquinho…
Pior que isso são os lugares que nem te dão a possibilidade de escolha: só tem tabasco e pronto!
Dessa maneira, eu, que era indiferente ao tabasco, acabei tomando uma antipatia danada. E acabo de lançar o movimento anti-Tabasco.
Quero meu pote de malagueta de volta, quero minha conserva de dedo-de-moça. Quero minha cumari, até a pimenta-de-bico, que só serve para enfeitar. Quero minha pimenta-de-cheiro. Quero a minha cambuci, minha aroeira, a falsa pimenta-rosa. Dai-me todas elas, por favor. Mas tabasco, não, te rogo.
Viva o anti-tabasquismo!

Comida di Buteco: o melhor deste ano é o arroz de puta

01/07/2010

Este ano resolvi me calar a respeito do Comida di Buteco. No ano passado, depois de me empolgar com a primeira edição, em 2008, já fiquei um tanto decepcionado com a história do petisco Doritos. Este ano, com o patrocínio da Hellmann’s e a consequente “sugestão” de que os participantes fizessem petiscos usando maionese, foi o fim da picada.
Para mim, essa é uma forma de prostituição. Recusei o convite para ser jurado desta vez. Hellmann’s e boteco são coisas que não combinam. São antagônicas.
Aí, a gente lembra que o Rio tem uma forte tradição de bares alemães, que servem salada de batata feita com… maionese. Mas é bem diferente, porque as casas sérias fazem a sua própria maioneses, como o Bar Brasil e o bar Luiz (este último, outro prostituto do capital, que trocou a Brahma, mais que centenária fornecedora de chope deles, pela porcaria da Sol, numa negociação a meu ver ridícula.
Por isso, só vou ao Bar Brasil, e abandonei o Luiz, com tristeza, porque a salada de batatas é sensacional).

Entendo que o festival é um negócio, que precisa faturar. Mas daí a se associar a uma marca estrangeira que produz um ingrediente ruim, agressivo à saúde e que não tem nada a ver com botecos, vai uma distância enorme. Não era preciso recorrer à Hellmann’s para viabilizar a parada.
Se a maionese quer patrocinar o evento, o que já é feio, que apareça nos folhetos e afins. Mas nunca como ingrediente de receitas, por favor. Este festival se fez famoso (e charmoso) em Belo Horizonte ao estimular os botecos a criar novidades, o que gerou uma saudável rivalidade entre eles. Porque não fizeram aqui como na capital mineira, sugerindo que os bares usassem um ingrediente específico ( no caso, o jiló) para os pratos, que não fosse a maionese, claro. Algo que tivesse a ver com a tradição botequeira. Tem tanta coisa interessante. O jiló, o inhame, a abóbora, a carne seca, o salaminho, a costelinha de porco. Tanta coisa que cairia tão bem numa disputa entre bares. Mas nunca a maionese, nunca.  Isso me parece tão óbvio.
E enquanto o Comida di Buteco for esta celebração do capital do estrangeiro, do mau gosto, este antro da maionese… enquanto for assim, vai lá que eu não vou.

E, pra fechar, sabe o que foi o melhor do Comida di Buteco este ano? O protesto do Bar da Frente, ali onde era o Aconchego Carioca original, hoje defronte ao endereço antigo. Eles não participaram do evento. Mas criaram um bolinho para meio que dar uma sacaneada no festival. Mostrando sagacidade, sabe o que preparam? Um bolinho de arroz de puta. Sensacional!

Mas, sei lá… Vai ver que sou eu que tô errado, que a grana vale mais que tudo.

Mas ainda boto fé no projeto. Desde que sem viajar na maionese…

Stella Barros: tentativa frustrada de estragar a minha viagem à Disney

16/06/2010

Maria acenas pro personagens na parada da tarde no Magic Kingdom: a menina ficou encantada

Quando contratamos os serviços de uma agência de viagem, queremos duas coisas basicamente: o conforto de não termos que ficar comprando diversos itens em separado (passagens, hotéis, seguro, traslados, passeios etc) e o preço, já que essas empresas geralmente conseguem tarifas melhores do que as disponíveis para nós, pessoas físicas.

Geralmente eu mesmo trato de organizar os meus roteiros, dispensando as agências. Entre outras razões, porque gosto de fazer isso. O prazer de uma viagem, para mim, começa já no seu planejamento. Mas, de uma maneira geral, acho uma boa usar as agências, e costumo a recomendar isso aos muitos amigos que sempre me pedem dicas de viagem.

Muita gente tem preconceito com as agências, confundindo pacotes com excursões. São coisas diferentes. Nem todo o pacote é excursão, mas toda a excursão, aí sim, é um pacote. Pacote pode ser totalmente personalizado: você escolhe o dia de partida e chegada, as cidades que quer visitar, o tipo de hotel e localização ideal, o seguro, se vai querer alugar um carro etc. Aí, o agente monta ao seu gosto um roteiro.

Certa vez, usei esse expediente para organizar uma viagem de um mês através da Agaxtur, entre Portugal e Espanha, e deu tudo certo. Também usei várias vezes os serviços da Coliseu Turismo, aqui do Rio, principalmente em viagens à Argentina. Também deu sempre tudo certo.

Quando resolvi levar a filha para a Disney, decidi procurar a Stella Barros, por ser uma referência em viagens para Orlando.

Mas que decepção. Se arrependimento matasse…

Vamos por partes.

Entrei em contato com eles pelo site, dizendo que queria uma viagem de uma semana para a Disney.

Eles logo retornaram o contato.

Dei mais detalhes: passei as datas, disse que gostaria de me hospedar em um hotel de preço moderado dentro do complexo da Disney, informei que seriam três passageiros e que precisaria de seguro viagem e de cinco dias de ingresso para os parques, e que esses deveriam ser daqueles que dão direito a visitar todos eles, e vários no mesmo dia, se quisesse.

Ok.

O primeiro orçamento chegou muito salgado. Pedi um hotel um pouco mais barato, e logo veio a sugestão do Pop Century.

Total: uns R$ 10 mil para três pessoas, com tudo incluído (e com uma promoção que daria US$ 300 para serem gastos lá). Razoável. Fechamos nesse.

A minha atendente disse que mandaria um boy para pegar a minha assintaura para o débito no cartão de crédito e que, quando a viagem se aproximasse, ela entregaria em minha casa toda a documentação e vouchers necessários.

Até aí, tudo fluiu bem: os e-mails eram logo respondidos, quase sempre no mesmo dia.

Mas foi só fecharmos o contrato para tudo mudar.

Meus e-mails com dúvias muitas vezes não eram respondidos, de maneira que eu precisava insistir umas duas ou três vezes para obter uma resposta. Coisas simples, como informações sobre transporte.

Foi se aproximando o dia da viagem, e a situação não mudava. Era difícil obter retorno da mesma atendente tão rápida antes de vender o seu pacote. Nota do pós-venda da Stella Barros? Zero, bem redondo.

Faltando alguns dias para o embarque, chegam no meu e-mail os vouchers para a viagem. Peraí! Mas ela não ia mandar tudo para o meu endereço?

Resultado: sem impresssora em casa, tive que imprimir tudo no jornal. Sinceramente, não é o que gostaria de fazer, porque era uma viagem particular, ainda que eu fosse aproveitá-la para visitar alguns restaurantes e fazer algumas fotos para complementar uma edição especial sobre Orlando, e também faria um texto sobre essa minha experiência em família na Disney.

Mas o pior ainda estava por vir.

Faltando uns três dias para a viagem, escrevi novamente para eles, pedindo mais algumas informações bem básicas: como seria o transporte entre o aeroporto e o hotel, de que maneira eu ganharia o crédito de US$ 300 e, finalmente, como receberia os ingressos.

A viagem seria no sábado, e esse e-mail foi mandado na quarta. Passou a quinta, que era feriado de Corpus Christi, eu sei, e a sexta, véspara do embarque. Liguei, mas não consegui contato com a minha atendente.

Então, no sábado, liguei algumas vezes no número indicado por ela. Ninguém atendeu. Entrei no site e busquei um número para reservas em São Paulo, o call center geral da empresa.

Fiz a queixa, e exigi que me informassem o que eu estava pedindo.

Um gerente esbaforido, dizendo que estava fora de seu horário de trabalho, e que teria ido à agência só para resolver o meu caso, me ligou. Para começar, se é dia de trabalho dele ou não, isso pouco me importa, sinceramente.

Mas tudo bem. Pelo menos as coisas estavam andando. Ele pediu alguns minutos para checar as informações, e disse que me retornaria. Ele fez isso, me passou os dados que eu precisava, e eu agradeci a atenção. E pediu desculpas. Neste caso, ponto positivo para eles. Nada mais que a obrigação, mas pelo menos resolveram as minhas pendências, ainda que poucas horas antes do embarque, o que atrapalhou, sem dúvida, os meus preparativos.

Mas o pior estava por vir.

Chegando em Orlando, descobri que a minha reserva era para a partir de sábado, mas eu estava chegando na manhã de domingo. Isso dificultou a minha localização pelos atendentes, tanto no transporte, ainda no aeroporto, como no check-in, já no hotel. Foi aí que descobri uma coisa: paguei sete noites, mas só usaria seis. Tudo bem, porque se não fosse assim, não teria um quarto disponível na manhã de chegada (cheguei umas 9h ao hotel). Considerando que estava viajando com a filha, seria muito conveniente não ter uma cama e um banho ao chegar. Mas, pelo menos, eu deveria ter sido avisado que seria desse jeito, não é verdade?

No primeiro dia, fiquei apenas algumas horas no Magic Kingdom. Voltamos para o hotel cansados e dormimos o resto do dia.

No segundo dia, passamos a manhã no Animal Kingdom. No fim da tarde, seguimos para Epcot, onde tinha uma reserva no restaurante marroquino. Foi quando descobri que, ao contrário do que eu havia pedido, meu ingresso dava direito apenas a um parque por dia.

Corri para o Guest Relations e, por sorte, ainda encontrei no escritório a relações públicas da Disney, pois tinha conhecido a equipe de comunicação deles durante a viagem feita em março, a convite do Orlando Convetion & Visitors Bureau. Ela me quebrou o galho, e conseguiu três ingressos para Epcot naquele dia. Mas imagine se eu não fosse jornalista de turismo?

Então, na manhã seguinte, terça-feira, gastei mais cerca de US$ 180 (e preciosa meia hora da minha viagem) para acrescentar um dia no meu plano de entradas para os parques junto da possibilidade de ir a quantos quisesse no mesmo dia.

Mas a maior decepção veio na manhã de quinta: os planos eram passar as primeiras horas do dia no Typhoon Lagoon e, no dia seguinte, fazer o mesmo no Blizzard Beach – reservando as tardes para outros parques.

Todos com roupa de banho, lá fomos nós para o parque aquático. Aí, veio a decepção maior de toda a viagem: nosso ingresso não dava direito aos parques aquáticos. Para isso, teria que desembolsar mais uns US$ 180. 

Me lembrei de como fui claro ao pedir o pacote: quero ingressos para todos os parques da Disney. Mais uma vez, a Stella Barros errou feio. Nem preciso dizer que a filha ficou decepcionada com a situação, porque já estava há dias contando com a visita ao parque aquático. Foi o momento mais triste da viagem, e que comprometeu todo o resto do dia (acabamos chegando só lá pelas 16h no Hollywood Studios)

Seria demais dizer que a Stella barros estragou a minha viagem. Mas, sem dúvida, atrapalhou bastante. Em vez de ajudar, que é a essência do seu trabalho.

E eu me pergunto agora: o que faço? Entro na Justiça? Escrevo para os jornais? Faço um post pro blog? Acho que farei isso tudo…

Segue o segway (a cena patética na orla do Rio)

04/06/2010

 

Caminhãozinho alegre da empresa que aluga o aparelho em Bermuda: tudo bem, turista pode, mas guarda municipal... francamente...

Em todas as cidades mais turísticas ele virou uma praga. Inofensiva, mas uma praga. Cruzam as ruas levando grupos de visitantes que mal percebem onde estão. Temos vários deles em Nova York, Paris, Lisboa, Bermuda, Madri. Até aí, vá lá, tudo bem.

Acontece que no Rio é diferente. Quem conduz os segways pela orla carioca são os guardas municipais.

Parecem os PMS que ficam fazendo manobrinhas em seus quadriclos, igualmente ridículos, mas esses são ainda piores, porque são perigosos, ainda mais nas mãos de policiais despreparados.

A cena é um tanto ridícula a meu ver. E, em termos de policiamento, não serve para nada senão para desperdiçar dinheiro público. Alguém pode me dar uma razão para eles estarem dirigindo um aparelho caro daqueles? Porque não estão de bicicleta ou a pé, como qualquer guarda em qualquer cidade do mundo? Fora do Rio, apenas os turistas usam esse meio de transporte estranho. Por aqui é estatal, ridiculamente.

E nem vou entrar no mérito de o quanto é cômico ver a tropa circulando a bordo deste biciclo.

Por aqui são os nossos guardinhas, que andam pela orla com cara de bobos, como que deslumbrados com a coisa. Nem prestam atenção ao que se passa ao seu redor. Preocupados em dirigir o troço, ficam cegos. Ou melhor, ficam segways.

A piada é péssima, mas à altura da cena ridícula que é ver os guardas municipais atrapalhando o trânsito na ciclovia acelerando ao máximo os seus brinquedinhos.

É tão deprimente que, em vez de colocar um flagrante do segway cruzando Ipanema com as insígnias da Guarda Municipal, preferi posta essa foto lá de cima, bem mais simpática, do ônibus da empresa que aluga segways, em Bermuda.  Na ilha os turistas vão pra lá e pra cá sobre o aparelho. Mas turistas podem ser ridículos.

Smiles, não, Cries

25/03/2010

As companhias aéreas fazem de tudo para irritar o consumidor.
Atrasam voos, remarcam assentos, somem com as malas, inflacionam os preços organizadas em cartel.
Agora, a Gol (ou seria a Varig?) resolveu quebrar contratos, enganar os clientes. Agora, no programa Smiles, não bastam mais as 10 mil milhas de sempre para se emitir um bilhete para qualquer destino da América do Sul: eles pedem 20 mil pontos.
Na manhã de hoje fui tentar reservar passagens para o feriado da Semana Santa e qual não foi a minha surpresa? Para a volta era preciso desembolsar 20 mil milhas. Sim, 20 milmilhas.
Isso, além de desrespeito, é quebra de contrato: porque quando comprei as minhas passagens, tinha da empresa a “garantia” de que com 10 mil pontos au teria um bilhete para qualquer destino do Brasil e da América do Sul operado pela Gol. Mas agora, no meio do jogo, mudaram as regras. Sem avisar, como sempre.

Smiles? Que nada. Cries.

Claro que não vou gastar 20 mil milhas para emitir a passagem. O que farei é não mais escolher a Gol.