Archive for the ‘Samba’ Category

Um roteiro pelas melhores feijoadas do Rio de Janeiro (lembrando que o prato nada tem que ver com escravos, e menos ainda com a África)

22/10/2015
Na Casa da Feijoada o prato é servido em sistema de rodízio, a R$ 62,70 por pessoa (vale a pena pedir em casa, a porção serve tr~es ou quatro)

Na Casa da Feijoada o prato é servido em sistema de rodízio, a R$ 62,70 por pessoa (vale a pena pedir em casa, a porção serve três ou quatro)

Na rotina sofrida das senzalas, os escravos ao menos comiam bem. Naqueles ambientes escuros e insalubres eles conseguiram criar o prato mais emblemático do Brasil, a feijoada. Usavam, para isso, os restos de carnes de porco salgada, dispensadas pelos senhores, cozidas com feijão preto. A história é bonita, talvez por isso tenho sido propagada por tanto tempo. Porém, por mais triste que seja dizer isso, não, a feijoada não nasceu assim. Os senhores, mesmo eles, não tinham carnes de porco sobrando. E, lamentavelmente, essa é apenas uma lenda histórica, já há muito consertada pelos estudiosos do tema. É inacreditável que, em pleno século 21, no ano de 2015, ainda exista gente que conte essa história como se fosse verdade. Pior ainda, se for um jornalista especializado no assunto. Porque ainda tem leitor que acredita, e assim essa linda mentira continua sendo perpetuada. Lamentável.

Pior ainda é dizer que a feijoada tem origem africana… Aí, meu amigo… Não, a feijoada não tem origem africana, mas europeia. É uma receita derivada de tantos ensopados preparados com feijões ou seus primos, de cores, tamanhos e formatos variados. Ao contrário do que se diz, com ingenuidade e ignorância, a feijoada não tem origem humilde, mas muito nobre. Nasceu sob a inspiração do cassoulet francês, da fabada asturiana, dos caldos ricos italianos, e, principalmente, de tantas variações de pratos afins que existem por Portugal.

Sem querer cortar o barato de ninguém, jornalista deve ser fiel aos fatos. E os fatos são esses.

É tão ridículo quanto outra teoria de um ícone brasileiro, a cachaça. Sim, há quem diga que o nome aguardente vem da dor que sentiam os escravos ao ter um pouco de pinga caindo sobre as suas costas machucadas pelo açoite. Francamente…

Os melhores lugares do Rio pra beber cachaça a gente pode deixar pra outro dia. Já das feijoadas podemos falar hoje.

As mais divertidas da cidade acontecem nas quadras das escolas de samba, que já estão fervilhando no clima pré-carnavalesco. A Portela, com as suas quituteiras de mão cheia, e seus sambistas de fino trato e grandes composições, sem dúvida é a mais emblemática no quesito (inclusive já até lançaram um livro de receitas, “Batuque na cozinha – As receitas e as histórias das tias da Portela”). Mas, tradicionalista que sou, indico ainda a Mangueira, o Império Serrano e o Salgueiro. Como as escolas fazem as feijoadas em fins de semana alternados, sempre tem alguma rolando. Na Feira das Yabás, que acontece todo o segundo domingo do mês, na Praça Paulo da Portela, em Oswaldo Cruz, as tias da Portela, incluindo Dona Neném, do alto de seus 87 anos, servem várias comidas em suas barracas, que servem refeições bacanudas por cerca de R$ 15. Marlene é famosa pela sua feijoada.

Seguramente, em nenhum restaurante ou hotel a feijoada será tão animada quanto esses da turma do samba. Nos hotéis, muitas vezes o bufê de feijoada dos sábados é servido com um conjunto, que anima o ambiente com clássicos. Já fui no Caesar Park (antes de virar Sofitel), em Ipanema, e no Sofitel, no Posto 6, em Copacabana. Achei a comida boa, e música contribuiu para a minha felicidade (raramente gosto de música ao vivo em restaurantes, como aqueles de Paraty, onde somos obrigados a jantar com um banquinho e violão tocando, mas ás vezes curto a ambiência sonora, caso dos pianos da Brasserie Lapeyre, no Centro, e da Churrascaria Palace, em Copacabana).

Servida como reza a tradição aos sábados, a feijoada do Rubaiyat Rio, no Jockey Club, tem várias bossas extras, a começar pelas corridas de cavalo, que acontecem ao longo da tarde (vale tentar uma mesa na varanda, mas evite isso nos dias muito quentes), passando pelas batidas, servidas livremente, e pelo bufê de sobremesas, tudo incluído no preço. No belo balcão de madeira que recebe os panelões com as carnes também abriga um belo leitão, além de tudo aquilo que nos habituamos a ver nos serviços de feijoada. Um caldeirão com o feijão, e vários outros com as carnes separadas, a farofa, o arroz, a couve, o torresmo e a laranja, além de complementos suínos, como linguiça, bisteca, pernil e costelinha, sem falar na banana frita.  Pelo conjunto a obra, eu diria que todo o carioca deveria fazer esse programa ao menos uma vez na vida. Como ir até o Corcovado e subir o Pão de Açúcar. Custa R$ 109, e incluindo isso tudo, está de bom tamanho.

– O que é legal é que as partes suínas são todas de baby pork da Fazenda Rubaiyat. O feijão também é supernovo, igualmente da fazenda. A feijoada tem todos os pertences separados: carne seca de Brangus, costela fresca, costela defumada, paio, língua, rabinho, pé, orelha. O Claude só vai lá por conta desses três últimos– conta um dos sócios da casa, David Zylbersztajn.

Já se vão lá mais de 20 anos que a Casa da Feijoada (na foto), em Ipanema, se converteu em um dos poucos restaurantes que também são ponto turístico da cidade. Fazendo um trabalho junto a hotéis e guias de viagem, a  Casa da Feijoada recebe muitos turistas, e não tantos cariocas assim. Besteira. Seguramente é um dos melhores lugares do Rio para se dedicar a esse prato, servido em sistema de rodízio, na mesa, com preço por pessoa (R$ 62,70).  Pra começar,  caldinho de feijão e linguiça mineira, além de batidas de limão e maracujá (também incluídas no preço). Com o feijão, são 11 opções de carnes, que podem ser encomendadas pelos clientes: bacon defumado, orelha de porco, lombo salgado, carne seca, linguiça fresca, rabo, costela salgada, língua defumada, chispe, carne de boi e paio. Os acomapanhamentos de sempre. E a sobremesa são as compotas caseiras de abóbora com coco, banana e o doce de leite. Vale pedir para a viagem. São muitas quentinhas, que servem umas três ou quatro pessoa, sendo assim de preço praticamente imbatível. Confira.

Pra minha surpresa, porém, descobri que os dois restaurantes portugueses mais tradicionais do Rio também servem admiráveis feijoadas. No Antiquarius e no Adegão Português eu como feijoadas não menos que sublimes, com toda aquela fartura que nos habituamos a ver na culinária portuguesa.

Essas são as minhas feijoadas preferidas em terras cariocas (muito aprecio a do Tempero com Arte, em Teresópolis, e do Parador Lumiar, em Nova Friburgo, ambas também aos sábados). Falam-me, ainda, maravilhas de duas feijoadas tijucanas. Do Bar do Momo e do Bar do Pavão. Nunca fui, mas diante das observações de bambas como Guilherme Studart e Gabriel Cavalcante (o da Muda), eu confio cegamente nas dicas.

Sem que a gente possa se esquecer do antológico e inigualável bolinho de feijoada do Aconchego Carioca, servido na matriz, na Praça da Bandeira, e também na filial do Leblon.

Feijoada é uma delícia, o mais brasileiro dos pratos. Mas nada tem que ver com escravos, e menos ainda com a África. Ok?

Resultado do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro: um palpite

13/02/2013

 

 

Todo o carioca tem opinião a respeito do desfile da Sapucaí. Este ano, vi algumas escolas inteiras, outras só algumas partes. De outras, vi apenas melhores momentos. Li algumas reportagem vi muitos programas. De modo que escrevo sob todas essas influências.

Vila Isabel sairá campeã, e consagrada, na apuração de hoje. Título incontestável.

Em segundo lugar teremos o Salgueiro, que muito bem soube executar um enredo sobre a fama, bancado pela revista Caras.

Em terceiro, acho que vem a Beija-Flor, mas seria justo que fosse a Portela. Mais uma vez a escola de Nilópolis fez um desfile impecável, com a força da comunidade, o que a garante no Desfile das Campeãs, mas não o título (a Beija-Flor tem tido dificuldade em ser campeã quando o enredo não fala da Amazônia e da água, em discursos patrióticos e ecológicos repetitivos, mas vencedores).

Em quarto vem a Portela, que fez um lindo desfile celebrando Madureira, berço da escola.

Em quinto acredito que teremos a Unidos da Tijuca, que veio bem.

Em sexto, e aí entra o lado torcedor, vamos ver a Mangueira, mesmo perdendo os pontos pelo atraso, e com os prováveis descontos em evolução e alegorias, resultantes do final confuso do desfile.

 

Fechamos a noite das campeãs. Acho difícil que aconteça, mas seria bacana a Grande Rio cair.

Sobe o Império Serrano.

 

Será?

 

Ecos do carnaval: notícias, análises e confetes a respeito do tríduo momesco

13/02/2013

O carnaval pegou fogo e a Quarta-Feira de Cinzas faz jus ao seu nome. Distante da folia momesca, acompanhei de perto a situação.  E concluí: o carnaval do Rio está muito chato, acho que Veneza é o canal.

Primeiro, os blocos.

Vi um pessoal fazendo macumba no Posto 8. Era a Umbamda de Ipanema.

Nesta mesma área, um grupo de drag queens mijões foi pego com as mãos na massa, e com a boca na botija.

O Céu na Terra virou um verdadeiro inferno.
O prefeito Paes, acertadamente, porque isso aqui não é Bahia, proibiu cordas nos blocos. Mas, ufa, os cordões estão liberados. Bola Preta e Boitatá agradecem.

Me Beija que sou cineasta só é frequentado por assistentes de câmera, e olhe lá.

O Monobloco está muito grande, carregando multidões. Mesmo assim, acho que não devia usar cárter de som.

Agora, uma análise da Sapucaí.

A comissão de frente está claramente em baixa. Bundas brilharam mais do que peitos na Avenida.

A Mangueira brochou.

A Beija-Flor vai ficar chupando néctar, e a Ilha vai morrer na praia.

Com desfile fracassado, Paulo Barros tá na lama.

O bom e velho Salgueiro, guerreiro, e sua bateria furiosa, não deu as Caras na Sapucaí.

Notícia de bastidores: Com Viradouro, Porto da Pedra e Cubango, Niterói planeja lançar o seu desfile independente. Niemeyer já foi contactado, e assina o projeto da Passarela do Samba Araribóia.

Também fiquei atento ao carnaval em outras partes do país.

Como é triste ver o desfile da Mocidade Alegre.

Em São Paulo, o MEC estuda fechar as escolas de samba, que não ensinam adequadamente.

O carnaval de Recife é mais legal em Olinda.

E em Salvador, a pipoca é um saco…

Falando sério, um pouquinho, para encerrar.

A Mangueira fez bonito, e o tempo é relativo, como se sabe.

Se a Vila Isabel, desfile impecável e único samba verdadeiramente bom deste ano junto com o da Portela, não ganhar a Liesa deveria ser interditada.

A Portela falando de Madureira foi um desfile histórico, e lindo.

De alguma forma, os enredos patrocinados deveriam ser banidos.

E foi um acerto da TV Globo passar os defiles da Série A, antigo Grupo de Acesso, para o Rio de Janeiro. Império Serrano, Viradouro e outras agremiações tradicionais mexem com o coração dos cariocas, e fazem desfiles melhores que os paulistas. Não fazia o menor sentido a transmissão dos desfiles do Tietê, sexta e sábado. Até que enfim, bom senso.
Afinal, quem quer ver Mocidade Alegre, Gaviões da Fiel, Rosas de Ouro e companhia, Vai-Vai para o Anhembi. Ou não gosta de samba.

Evoé.

Mas e o Papa, hein. Conseguiu emplacar manchete e foto principal n’O Globo mesmo na edição de Terça-Feira Gorda. Não me lembro de outra vez que o alto da primeira página de um jornal carioca não tinha foto de carnaval neste dia.

Malandrinho o pontífice.

Mais carnaval: Bumbumpaticundumprocurundum (o nosso samba minha gente é isso aí é isso aí)

27/02/2012

Quando, aos seis anos, o samba me conquistou, pelas mãos do antológico desfile do Império Serrano, em 1982, eu enxerguei apenas a sonoridade, só essa virtude, além da farra, as fantasias, as festas, mas sem atentar muito para isso… O que valia mesmo ali, na mais pura inocência infantil, era o som. Refrão começendo com “bumbum” é prato cheio pra criança, razão de gracejo inevitável. Ainda mais quando o bumbo bate: “Bum-Bum!”.
Além disso, a música era, e ainda é, e pra sempre será, de uma beleza impecável, de uma precisão absoluta, o samba-enredo em essência, conduzindo uma idea, defendendo uma tese: o samba tá mudando. O nosso samba minha gente é isso aí, é isso aí!
Esse equilíbrio melódico das palavras em comunhão com o ritmo marcado forte pela percussão não é samba, simplesmente: é escola de samba, é show, é batucada, um desfile, uma apresentação, que tem que fazer sentido e ser tecnicamente  impecável, que precisa ser  espetacular par a plateia, que paga caro.
Onomatopéia (com acento, que havia).
“Bumbumpaticundumprocurundum
O nosso samba minha gente é isso aí é isso aí
É isso aí
Enfeitei
Eu enfeitei
Meu coração
(Efeitei meu coração)
De conferte e serpentina
Minha mente se fez menina
Num mundo de recordação
Abracei a coroa imperial
Fiz meu carnaval
Extravasando toda a minha emoção
Ó, Praça 11, tu és imortal
Teus braços embalaram o samba
A sua  Apoteose é triunfal”

Por aí, em lindos versos, nós vamos. Sou mangueirense, mas meu coração bate também em verde-e-branco, e esse enredo é a razão disso.
Demorei uns 20 anos mais para ter a dimensão desses versos, e mais uma década para entender o seu real significado.
”Superescolas de samba S.A.
Superalegoria
Escondendo gente bamba
Que covardia”
Quando vejo a Grande Rio desfilar nas Campeãs, e a Mangueira de fora, quando vejo o enredo do Império Serrano sobre a minha diva Dona Ivone Lara, madame do samba, ela ou a escola da Serrinha a origem desse post e do meu lado carnavalesco, ainda que seja mangueirense desde os oito anos, enfim, quando vejo a verde-e-branco perder fazendo um desfile tão lindo daqueles, eu, retornando ao tema do início do parágrafo, fico a ponto de chorar.
Aqueles versos são mais atuais hoje que em 1982.
“E passo a passo
No compasso
O samba cresceu
Na Candelária
Construiu seu apogeu”
Olha o Bola Preta aí, levando um ou dois, não importa, um ou dois milhões de pessoas. Partindo da Candelária, aliás, desde esse ano. O Bola é a resistência do carnaval carioca, nesse momento em que vemos blocos temáticos (acho bom) que não estão nem aí para o samba, o cordão mais tradicional do Rio de Janeiro tem a melhor tinha sonora entre todas as agremiações carnavalescas. Apesar da multidão, o Bola é sempre divertido, e eu adoro.

Beto sem Braço, esses caras autores desse samba clássico do Império, além de bambas, eram profetas. Profetas do samba.
Chora cavaco!
Afinal: “Vem meu amor (Vem meu amor)
Manda a tristeza embora
É carnaval
É folia
Neste dia ninguém chora”

Samba de segunda: Para começar a semana com animação, um roteiro com algumas das melhores rodas de samba do Rio de Janeiro

19/05/2011

O clube do Andaraí recebe o Samba do Trabalhador, de Moacyr Luz, nas tardes de segunda-feira

No Rio de Janeiro a semana começa sempre ao som do samba. Segunda-feira é um dos dias mais animados da cidade para quem aprecia uma boa batucada. Para os mais animados dá para dançar do meio da tarde até a madrugada. São mais de dez sambas de qualidade acontecendo em vários bairros. Para começar tem o Samba do Trabalhador, capitaneado pelo bamba Moacyr Luz, no Clube Renascença, no Andaraí, festa com clima bem familiar que começa ali pelas 16h, esquenta mesmo por volta das 18h e segue firme até umas 21h.

No comecinho da noite quem quiser pode migrar para o Samba da Pedra do Sal, que acontece neste lugar, uma espécie de beco na Gamboa, onde teria nascido o mais brasileiro dos ritmos. É uma roda animada e divertida, com muitos jovens e gringos e o que é melhor: acontece na rua, e é de graça. O Samba da Pedra do Sal, que era informal, foi legalizado pela prefeitura, e agora tem hora marcada para acontecer: das 18h às 22h30.

Depois é só migrar para a na Lapa, bem perto dali, onde também tem agito. No Carioca da Gema, uma das casas mais tradicionais do bairro, o puxador de samba Richahs comanda a roda. E, desde de novembro do ano passado, sempre às segundas-feiras, rola o Botequim da Cidade do Samba, no complexo carnavalesco que abriga os barracões das escolas do Grupo Especial, na Zona Portuária. Do outro lado da cidade segunda também é dia de samba, quando o grupo Molejo se apresenta no Barril 800 da praia da Barra da Tijuca, num dos dias mais movimentados do bar.

SERVIÇO
– Barril 8000 (Av. Sernambetiba, 8000, tel. 21/2433-1730, www.barril8000.com.br)
– Carioca da Gema (Rua Mem de Sá, 79, Lapa, tel. 21/2221-0043, www.barcariocadagema.com.br)
– Cidade do Samba (Rua Rivadavia Correia, 60, Gamboa, tel. 21/2213-2503, http://cidadedosambarj.globo.com)
– Samba da Pedra do Sal (Rua Argemiro Bulcão, 38, Gamboa)
– Samba do Trabalhador (Clube Renascença, Rua Barão de São Francisco, 54, Andaraí, Tel. 21/9628-9329)

P.S. – Este texto foi escrito para a edição de março da revista de bordo da TAM.

Um pouco de carnaval

03/03/2011

Banda de Ipanema com sol é uma delícia

Este ano não estou muito em clima de carnaval, não. Apesar de que hoje vou ao Baile de Gala da Devassa, amanhã no Bip Bip (é o único bloco de sexta possível a um trabalhador, já que sai á meia-noite), no sábado a algumas agremiações matinais de Santa Teresa e Centro, terminando nas águas de Ipanema antes de seguir para a feijoada do Amaral, no domingo, se tudo der certo, subo a serra para levar a filha no baile infantil do Comary, na segunda trabalho no caderno de carnaval d’O  Globo e, na terça, de folga novamente, ainda não sei. 🙂
Como ia dizendo, este 2011 não me animou. Muita coisa na cabeça, ainda nem tive tempo de pensar em folia. Por isso, não fiz nenhum post (não consigo escrever sobre um assunto, aqui neste blog, por obrigação).
Mas, ao menos para a data não passar em branco, resolvi postar alguns links de outros carnavais.

Um fim de semana sambista no Rio de Janeiro

O carnaval, o verão e o choque de ordem (e viva Paulo Barros)

Feijão dá samba: a relação entre o carnaval carioca e o mais brasileiro dos pratos

Abram alas que o blog já está passando

O guia indispensável do carnaval carioca

A livraria mais carioca do mundo

A lista oficial com locais de desfile, horários de concentração e percurso dos blocos de carnaval do Rio (versão 2010, mas muita coisa ainda vale)

O carnaval e o tempo (ou vice-versa)

Mais um link essencial para o carnaval carioca (versão 2010, mas muita coisa ainda vale)

Porque eu adoro o verão carioca



Bip Bip: um boteco carioca, que é bloco de carnaval e roda de samba

Em homenagem ao Dia do Samba

02/12/2010

Samba da Pedra do Sal, segunda à noite: melhor maneira de se começar a semana

Hoje, dois de dezembro, é o Dia Nacional do Samba. Muito conveniente que aconteça nesta data, porque para mim é como se fosse o fim do luto eterno de três dias pela morte de mestre Cartola, o maior sambista da história, fundador da Mangueira e autor de dezenas de clássicos do gênero. Um gênio.
 
Neste ano o já famoso e badalado Trem do samba sai em dois dias. Hoje, quando o bicho pega nos vagões entre a Central do Brasil e Osvaldo Cruz, com paradinha na Mangueira para uma carona à Velha Guarda da verde-e-rosa, e no sábado.
 
Em homenagem à data, listo os meus sambas preferidos na cidade (note que segunda, no Rio de Janeiro, é dia de samba, quando pelo menos duas rodas sensacionais acontecem). Não são os melhores, apenas os de que mais gosto (não coloquei o Choro na Feira, na Praça General Glicério, em Laranjeiras, porque me disseram que acabou).
– Samba do Trabalhador, às segundas no Clube Renascença, no Andaraí. Quem comanda a festa é o Moacyr Luz, ou seja, samba da melhor linhagem. Começa umas 15h, 16h (leia mais clicando aqui).
– Samba da Pedra do Sal, às segundas, na mesma Pedra do Sal. Tem alta frequência de gringos e moças bonitas. Começa lá pelas 19h, 20h. Tem tem uma roda lá, berço do samba, às sextas. Mas a de segunda é melhor (leia mais clicando aqui).
– Clube dos Democráticos, de quarta a sábado, rodas organizadas pelo boa praça Nano Ribeiro. Público sempre muito ecléticos, de jovens a idosos, cariocas, brasileiros de todo o cantos e estrangeiros. Fica bom lá pela meia-noite.
– Trapiche Gamboa, às sextas, comandado pelo onipresente Galotti.Repertório sensacional, muita gente legal. Chegue umas 22h30, 23h para entrar tranquilamente.

Leia também: Um fim de semana sambista no Rio de Janeiro

Uma saborosa e engraçada noite de autógrafos do novo livro do Moacyr Luz, sobre o bar Pirajá, em São Paulo

10/11/2010

A alheira do Astor: o delicioso sabor da simplicidade

Não, este blog não está virando território literário, ainda que livros que tratem de Rio de Janeiro, comida, vinho, viagem e outras coisas gostosas serão sempre bem vindos neste espaço.
Mas é que preciso registrar aqui o lançamento, ontem, do livro do meu amigo Moacyr Luz sobre o bar Pirajá, em São Paulo. Cheguei tarde, quase meia-noite, depois de um fechamento tranquilo, mas lento, em meio a dezenas de outras coisas a resolver. Achei que o negócio já estaria no fim, e fui porque o Astor, inevitável endereço da festinha, é do lado da minha casa, menos de três minutos de caminhada. Quanta ingenuidade a minha pensar que tudo acabaria cedo. Ficamos na mesa da varanda até umas três da madrugada.
Rimos muito, não poderia ser diferente. Ainda mais quando o Chico Caruso chegou, ainda depois de mim, e se juntou ao grupo, inspirando o Moa a relembrar histórias engraçadíssimas. Chico, por sua vez, não deixou barato, apresentando uma leva de novas piadas do Jaguar “as únicas verdadeiramente boas que ele ouviu ultimamente”. 
O livro está uma beleza, daqueles para ficar em cima da mesa da sala, para distrair convidados e até o anfitrião. Com seu estilo autêntico, que mistura erudição extrema nos assuntos relacionados ao Rio de Janeiro, ao samba e aos botequins, bom humor e um texto bem calibrado, com ideias e tiradas de mestre. Vez ou outra Moa nos ensina alguma receita, como a que combina maxixe, quiabo e jiló. De vez em quando o Ruy Castro faz o que os editores chamam de “intervenções”. Ou seja, complementa o assunto trazendo algumas histórias que ele, colecionador delas, tem aos montes. Fotos são de Rômulo Fialdini, outro craque, além de algumas compradas de agências.
Falamos de botecos, é claro. Entre eles o Aboim, do qual nunca havia ouvido falar, e foi tema corrente na noite de ontem. Também tratamos do Bar Getúlio, que se mudou para a Atlântica. Moa deu dicas de restaurantes em Portugal, próxima parada estrangeira deste repórter (antes tem Búzios, no próximo fim de semana, e uma expedição pela praia do Ceará ao Maranhão)
O chope foi devidamente escoltado pela minha receita favorita no Astor, a alheira com batata frita e dois ovos. Não precisei pedir o prato. Dudu Cunha, um dos sócios e uma das pessoas mais admiráveis no mundo da gastronomia carioca, um baú de boas histórias e receitas, se encarregou de solicitar ao garçom o embutido português para mim, e ainda advertiu os ocupantes da mesa que o pedido era meu. Evidente, ainda bem, que ninguém respeitou a ordem.
Adoro alheira, e não é de hoje. Já comi no Brasil e em Porugal, no Rio e em São Paulo, na Zona Sul e na Zona Norte, em restaurante chique e em birosca. Acho sempre bom. A do Astor está entre as melhores. Por duas razões. A primeira eu já conhecia. Eles criaram um modo muito interessante de preparar este embutido à base de pão, muito tempero (alheira, compreendeu?), alguma gordura e pouca carne. Eles tiram a película que envolve a massa e fritam. Parece que está empanado. “É por causa do pão”, me explicou o Deco, outro dos sócios, certa vez. Nunca vi, em nenhuma parte. A segunda razão descobri ontem.
“Nossa alheira é feita artesanalmente por um português, o mesmo que fornece para o Adegão Português”, me explicou Dudu Cunha.
Também comi uns espetinhos de pão com bife à milanesa e queijo.
Além de alguns chopes, ainda provei um diferente martini com café, que achei bem interessante.
 
Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Comidá de botecô: Moacyr Luz desvenda um bar de Paris

09/07/2010

 

Moacyr Luz é fera. Mesmo em Paris conseguiu encontrar um botecão de primeira linha (leia o post aqui). Lá, comeu, entre outras iguarias, tutuano de boi.
E mais:

“- Dobradinha recheada com pé de vitelo, tradução de pieds el paquets.
–  Um salsichão feito com as tripas do porco de nome andoullette bobosse.
–  Cabeça de vitelo cozida com inhame. E o nome: – tête de veau.
Ainda foi servido um gratin de brócolis pra disfarçar a violência, enquanto o colesterol saltava nas veias protuberantes”

Demais. Ah, se eu soubesse disso… Ficou registrado para a próxima visita a Paris, que espero seja logo.

Para ler mais sobre Paris, clique aqui ou aqui.

Um fim de semana sambista no Rio de Janeiro

14/05/2010

 

A Roda da Pedra do Sal, na noite de segunda: "se não guenta pra que veio?"

Aproveitando que hoje é sexta… Que tal roteirinho para um fim de semana sambista?

Da meia-noite de sexta à meia-noite de segunda. São 72 horas. De puro pandeiro, agogô e tamborim. E também de choro, de jongo, feijões e feiras.

E aí? Vai encarar a maratona e cumprir um fim de semana 100% dedicado ao samba no Rio de Janeiro?

Eu sugiro que se faça assim.

Sexta-feira, 23h45 – Vamos supor que dê para chegar à cidade até umas 22h, isso se já não cá estiveres. Então, em duas horas é possível chegar ao hotel ou casa da tia e deixar as malas, tomar um banho e botar a roupa (leve e descontraída, por favor. Salto, nem pensar, ele não será usado neste circuito. A não ser que você consiga requebrar como as mulatas do alto da plataforma).
Então, dá para por volta da meia-noite estar batendo na porta de alguma das muitas casas de samba que têm uma boa programação na sexta. Toque pro Centro da cidade. Neste dia tem Galotti no Trapiche Gamboa e o lugar fica lotado. Espere fila. Mesmo assim, é o melhor dia da casa e uma das melhores pedidas da noite. Gosto muito também do Clube dos Democráticos, que tem um velho salão de baile delicioso, onde dançam lindas meninas, sempre no embalo de algum grupo legal que toca bom samba (quinta e sábado também costuma a ser bom).
Pedidas turísticas, mas ainda assim ótimas, mesmo para os cariocas (tanto que em todas, todas mesmo, as vezes em que eu estive nessas duas casas eu me diverti horrores): Rio Scenarium e Carioca da Gema. A primeira é um dos melhores bares da cidade porque:
1) Tem uma decoração sensacional, com peças antigas, incluindo cadeiras de dentista, poltronas e cadeiras.
2) A música é sempre de qualidade.
3) A frequencia é muito legal, bem eclética: estrangeiros, cariocas e gente de todo o país dançando
4) Tem umas comidinhas legais.
5) É espaçosa, sempre tem uns lugares mais calmos para tomar um ar e conversar.
6) A música é de primeira.

Assim como no Trapiche Gamboa, saiba que haverá fila.
Já o Carioca da Gema, que tem um público ligeiramente parecido, mesclando gringos e nativos, é um lugar um pouco menor, não tão bom para dançar, mas com músicos sempre de primeiro time, como no Rio Scenarium. É mais para ouvir e cantar mesmo.
É bom lembrar, ainda, que o Circo Voador e a Fundição Progresso promovem umas noites bem legais de samba, às vezes só samba, às vezes com outros ritmos. E, além dessas todas, há diversas outras casas noturnas na Lapa e arredores. E não param de abrir outras. É só se achar.

Se quiser pode enfiar o pé na jaca, quem sou eu para pedir para não fazer uma coisa dessas.
Mas…

Sábado, 10h – Seria muito legal conseguir estar de pé a esta hora. Tome um café rapidamente, nunca na Escola do Pão, que pede um ritual demorado (e você vai sair de lá tendo comido muito, porque é tudo delicioso). Difícil encarar um sambinha depois, né? Se até 11h você conseguir estar na Praça General Glicério, em Laranjeiras, está ótimo. O grupo Choro na Feira, formado ali mesmo, despretensiosamente, toca até pouco depois do meio-dia. Então, dá para ouvir um chorinho, tomar um coco e até comprar legumes, verduras e frutas. Duas coisas são essenciais ali: beber umas caipifrutas na barraca que também vende ótimos CDs de samba e comer os bolinhos de bacalhau do sujeito que fica circulando com uma travessa de alumínio coberta com um pano (a mulher dele fica em casa, perto dali, fazendo os salgadinhos, que nos chegam ainda quentes).

Sábado, 14h – Fique e olho. Se for um sábado de feijoada nas escolas de samba carioca, siga para uma delas. Nos três fins de semana do mês elas acontecem. O roteiro delas é assim: Portela e Vila Isabel (primeiro sábado do mês), Mangueira (todo o segundo sábado do mês), Salgueiro (segundo domingo do mês) e Império Serrano (terceiro sábado de cada mês). Pra mim, essas são as melhores escolas de samba do Rio, e as que fazem as melhores feijoadas. (para ler um post sobre samba e feijão, clique aqui)

Sábado, 21h – Siga o mesmo ritual da noite anterior, variando as casas, ou repetindo-as. Isso se o feijão da tarde permitir.

Domingo, 10h – Se você juntar as palavras Laranjeiras e feira você encontra uma roda de choro. Primeiro foi na General Glicério, aos sábados, e mais recentemente, na Praça São Salvador, aos domingos. É programa para entrar pelo começo da tarde.

Faça um lanche leve, mas não saia muito das redondezas. Porque a próxima etapa acontece por ali, ou em Laranjeiras mesmo, ou no Jardim Botânico. Veja.

Domingo, 17h – “Se não guenta pra que veio?”. Essa é a pergunta que eu faria se você rejeitasse o arremate do fim de semana ao som de samba e ao sabor de feijoada. No domingão o samba come nas feijoadas da Casa Rosa, na Rua Alice, em Laranjeiras) e da Tia Elza (Rua Dona Castorina nas quebradas do Cosme Velho). Tia Elza, por sinal, é figura lendária do samba carioca. Na década de 1980 a casa fervia com intermináveis rodas seguidas de feijoada e feijão amigo. Há uns cinco ou seis anos a casa voltou a receber rodas de samba, com feijão, claro. Começa ali pelo meio da tarde do domigo e vai até umas 22h.

 Domingo, 23h – Vá dormir, meu filho, faça o favor.

 Segunda, 11h – Acorde bem tarde mesmo, vá a uma casa de suco e tome um daqueles bem energéticos.  Gaste o resto do tempo disponível ao calor do sol, intercalando com mergulhos no mar, ritual capaz de restabelecer física e moralmente mesmo o mais cansado dos seres.  

Segunda, 14h – Pensa que acabou? Que nada. Segunda é dia de samba no Rio. E dos bons. Na verdade, um dos melhores, se não o melhor, dia da semana para curtir uma roda. O Samba do Trabalhador, criado pelo querido amigo Moacyr Luz, rola no Clube Renascença, no Andaraí. E ainda tem o sambinha na Pedra do Sal, na Gamboa.

Minha sugestão para os empolgados?

Mas se quiser evitar a praia, ou se o tempo não estiver bom, vá para o Centro. Comece tateando o território. Vá circulando ali pela Pedra do Sal, onde o samba nasceu (sim, foi lá mesmo). Se quiser, entre no bar Gracioso e coma um rissoles de camarão, um os melhores salgados do Rio (leia mais sobre este bar aqui).

Outra boa pedida é estar no Bar da Dona Maria (leia aqui), na Muda, perto do Clube Renascença, no Andaraí. Passe no boteco, tome umas, e siga para a roda capitaneada pelo Moacyr Luz (leia mais aqui), que começa ali pelas 15 e esquenta mesmo umas 18h. De lá, siga novamente para a Pedra do Sal, que começa a ferver lá pelas 20h. E eu vou te contar um segredo: esta roda tem uma das maiores concentrações de moças bonitas da cidade (mas não espalha, tá?).

Ainda restam forças? Acredite, alguns seguem de lá diretamente para a Barra, onde rola o Pagode do Arlindinho, Arlindinho Cruz, é óbvio. Este parece que invade a madruga. Nunca fui, mas quem sou eu de duvidar?