De volta a Odense: mercado de Natal, smorrebrod e um incrível bar de cervejas (e destilados)

08/12/2014

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Embora tenho tido pouco tempo para passear pela cidade de Odense, quando estive lá, na quinta-feira passada, eu curti a cidade, com prédios bonitos, e muita coisa para ver, para fazer, para comer e para beber. Então, voltei no sábado, fazendo como muitos moradores de Copenhague, que vão até lá para passar o final de semana. Peguei um trem na estação central e em menos de duas horas estava lá (e era parador, se for direto a viagem demora 1h15). A cidade estava lotada, com muita gente nas ruas, bares e restaurantes. Até o sol abriu para saudar o sábado. E pela primeira vez na vida vi que o sol dinamarquês é belo, uma luz que na diagonal aquece a paisagem, e dá cor e brilho a ela.

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Cheguei e fui dar uma voltinha pela cidade, passeando por áreas que não tinha visto no sábado. Mas antes passei no hotel, o Plaza Odense (esse aí da foto: simpático, não?), pertinho da estação de trem, para deixar as malas.

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Andando pela área central vi lojas de vinho espetaculares, como a HJ Hansen, que tem formidável seleção de cervejas, e outras bebidas, além de ser uma baita delicatessen.

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Ao lado, como uma extensão, uma área é inteiramente dedicada aos queijos, embutidos e carnes curados. Os dois espaços merecem uma visita.

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Um lugar bacana para compras, com muitas lojas. Tinha até uma H&M, mas o bacana mesmo eram as lojas de roupas nórdicas, para frio, e aquelas com produtos alimentícios. Muita coisa gostosa eu vi.

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Almocei no restaurante Kong Volmer, famoso pelos seus smorrebrods e também pelo brunch. Estava lotado.

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E eu acompanhei a minha refeição com uma cerveja local que eu já tinha provado, N 16, feita na ilha (Odense está em uma ilha), além de um bom aquavit, inspirado na tradição local (é a melhor companhia para os pratos frios…

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…com camarões, salmões e outros peixes).

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O restaurante fica no complexo chamado Brandts, uma imensa e antiga fábrica de tecidos desativada, convertida em uma espécie de centro cultural e de entretenimento, com muitos bares, restaurantes e lojas, e até um pequeno museu, Time Collection, onde encontramos a reprodução de ambientes de quase todas as décadas do século passado, dos anos 1910 a 1980.

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Bem legal.
De lá, segui caminhando, até encontrar um animado mercado de Natal, ao lado de um centro cultural municipal muito bacana, onde aconteciam uma série de atividades, com artesãos fazendo trabalhos à maneira antiga, inclusive um sujeito fundindo soldadinhos de chumbo (como já disse em outro post, Hans Christian Andersen nasceu em Odense, orgulho maior da cidade).

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Quando acontece o mercado de Natal, que começou na sexta, a feira que acontece aos sábados é deslocada para as ruas laterais, tornando o programa ainda mais rico. Além das barraquinhas, há vários artistas de rua, …

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…e espetáculos circenses.

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E o realejo diz que eu serei feliz.

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Durante a minha investida vespertina, passei na charmosa Vintapperstræde, uma rua de pedestres, onde eram os fundos do comércio local.

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Quase escondida, numa fachada discreta, estava o bar Christian Firtal, um verdadeiro achado. É um lugar multietílico.

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Torneiras de chope são 20, só coisa fina, numa seleção variada com ênfase nas dinamarquesas. Uísque? Devem ser uns 40, com bons preços. Que tal um Laphroaig pelo equivalente a R$ 23? Rum é outro destaque, com uns 30 rótulos. E o quadro negro que exibe a seleção de bebidas da casa ainda tem um monte de destilados: marc, calvados, pastis, cognac, armagnac… Só marcas muito bem escolhidas. O lugar é pequena, e estava mais que lotado, com um monte de gente de pé. Encontrei até o meu vizinho de mesa do almoço, bem embriagado. Porque nesta época o povo aqui bebe pesado, e são muitas e muitas festas, todos os finais de semana, até chegar ao Natal.

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Saí para jantar no Kren Kok, para um menu desgustação muito bem harmonizado, uma cozinha com pegada francesa usando ingredientes locais. Comi maravilhosamente.
E hoje acordei com toda a tranquilidade do mundo (estava precisando, depois de seis dias insanos, incluindo os preparativos de viagem, a entrega de vários frilas e a produção de outros, e mais as quatro noites – e cinco dias – aqui, com programação intensa). Finalmente, em Odense, eu relaxei.

Um dia em Copenhague: de uma cerveja com Mikkel Borg Bjergsø, da Mikkeller, até um jantar no Relae

07/12/2014

 

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Na sexta-feira a agenda foi intensa. O dia chuvoso começou de maneira ácida e azeda, com uma visita ao escritório da cervejaria Mikkeller, para um bate-papo com Mikkel Borg Bjergsø, um dos mais cultuados mestres da movimentada cena da produção artesanal, autor de algumas dos melhores rótulos que já bebi na vida, e talvez o principal expoente da febre das sour ales, e outros estilos do gênero, craque na fermentação espontânea e na utilização de báctérias. Não vou entrar em muitos detalhes, porque a entrevista foi feita para uma reportagem que estou escrevendo, e que em breve eu compartilho por aqui. Para tudo ficar ainda melhor, me acompanhou no programa o amigo gaúcho Diego Fabris, dos Destemperados, ótimo companheiro de viagem, com quem dividi essa grande experiência.
Mas o fato é que foi mesmo incrível passar com ele uns 45 minutos, falando sobre esses assuntos. No final, quando nos despedíamos, ele perguntou se não queríamos beber uma cerveja. Como eu ia perder essa oportunidade?

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Então, ele buscou uma cerveja feita com 50% de vinho de cereja, Mikkeller Spontan Cherry Frederiksdal, maturada em barricas de Chardonnay, e produzida na Bélgica em parceria com a Proef Brouwerij.
– Este é o melhor vinho da Dinamarca, de cereja. Misturo ele à cerveja, e então há uma nova fermentação.
Ácida, cheia de fruta, perfumada, é uma cerveja para enófilo nenhum colocar defeito, e numa degustação às cegas certamente se passaria por um vinho. Delicioso. Leve, fresco e delicado.

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Então, ele nos serviu a base do preparo dessa receita, que leva 50% do vinho de cereja e 50% de cerveja. Primeiro, serviu o vinho, sozinho, que me lembrou muito um Porto Ruby jovem, com aquela característica explosão de frutas com final adocicado. Depois, a cerveja – a Hues 2014 – que recebeu o vinho de cereja para nova fermentação. Bela cerveja. No final, misturou ambas no copo. E nós fizemos o mesmo.

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Ficou bem, mas a outra a cerveja original me pareceu mesmo melhor, mais intensa e integrada. Grande momento.

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Se fui eu que consegui a entrevista com Mikkeler, o Diego Fabris retribuiu descolando informações sobre uma feirinha de comida de rua, uma obsessão que ele cultiva no momento, e eu também.

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Debaixo de uma chuva fraca, mas insistente, cruzamos a cidade, observando coisas que fazem de Copenhague um lugar legal, cheio de bossa, como este bar às margens do canal, com direito a sauna e DJ.

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Atravessamos até chegarmos ao espaço, imaginando que possivelmente a gente estava se metendo na maior furada, uma vez que comer comida de rua debaixo de chuva não é dos programas mais apetitosos. Mas, chegando lá, a surpresa: era uma feirinha indoor, com direito a containers do lado de fora, com lareira.

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Lá dentro, mais lareiras, muitas mesas espalhadas e uma ótima seleção de lugares para comer, com perfis bem variados.

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Tinha desde um churrasqueiro gaúcho…

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…a cozinha mexicana (o trailer da direita vende tacos), passando por um bar cubano,…

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…outro sul-coreano, outro italiano (à direita), uma pizzaria, e ainda um sushi bar (à esquerda) , uns três bares de cerveja, um bar de drinques sólidos, feitos com nitrogênio líquido, uma casa de hambúrguer, e uma outra com variações marinhas do sanduíche (de salmão, e outra do tipo surf ‘n’ turf, com camarões e carne bovina, e muitos outros estabelecimentos mais).

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Havia um trailer de carne “65 horas”: marinada 24 horas; com mais 11 de sous vide e 30 do preparo do molho.

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Tudo bem bonito e charmoso, e isso vale para o ambiente  e para a comida, perfumada, apetitosa, em suas várias diferentes sugestões.
– Os caras fizeram uma boa curadoria. Os lugares são bem diferentes. No Brasil, às vezes essas feirinhas têm comidas muito parecidas – observou, com razão, o Diego.
Sem falar no charme do lugar. Chegamos por volta de 14h. E, quando o relógio apontava 16h, olhamos para fora. Estava escuro, e chovia ainda mais forte. Não tem jeito, vou sempre estranhar um dia que amanhece às 8h e que escurece às 16h. São apenas 8h com luz natural, e uma luz bem fraquinha, ainda mais em um dia chuvoso como aquela sexta. E no auge do inverno, em janeiro, pode tirar aí, no barato, mais meia hora de sol pela manhã e mais meia hora de tarde.

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No tempo em que estivemos lá, comemos cachorros-quentes,…

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… hambúrgueres e um prato de carne picante com arroz, da barraca sul-coreana. Pra beber, cervejas e snaps. Tudo bom, mas nada emocionante. Mas com preços mais em conta que no resto da cidade, em estabelecimentos regulares (como é caro tudo aqui).
Saímos por volta das 17h, na mais completa escuridão; então, pegamos um barco para cruzar um canal, e encurtar o caminho.

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Desembarcamos na área de Nyhavn, o principal cartão-postal de Copenhague (ao lado da miúda estátua da Pequena Sereia), um cais apertadinho e comprido, com casinhas coloridas de quatro ou cinco andares, um dos lugares mais charmosos e fotografados da capital dinamarquesa.

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Paramos em um bar de jazz e cervejas, o Pale Bar, mas nem consumimos nada, uma vez que lá dentro é permitido fumar, o que torna o ambiente, mesmo que charmoso, algo insuportável (e fiquei imaginando que até uns 10 ou 15 anos atrás era assim em qualquer bar e restaurante do mundo). Mas adorei a logo.
Pegamos um táxi para voltar ao hotel, já que chovia e fazia frio. Vi que existe trânsito na Dinamarca. Chegamos ao hotel, e bebemos algumas cervejas do Hans Christian Andersen (que foi parte do post de ontem: para ler, clique aqui). Depois, fomos até o bar da Mikkeller, onde havíamos estado na noite anterior (absolutamente imperdível) para nos encontrarmos com o Giba, brasileiro boa-praça, que é representante da marca no Brasil (agora importada pela Interfood, que nos últimos anos apostou no mercado de cervejas especiais, e hoje tem uma linha ampla, variada e de qualidade). Pena que não pudemos ficar muito tempo.
Pena nada. Tínhamos uma reserva para às 21h30 no Relae, do chef Christian Puglisi, que trabalhou no Noma, um dos tantos restaurantes que vão seguindo o rastro de René Redzepi, revolucionando a gastronomia nórdica, e mundial, e transformando a Dinamarca em referência atualmente, com essa pegada orgânica e natural, com os ingredientes nítidos, muitas vezes crus, com preparações delicadas, e receitas saudáveis, em sua maioria. Mas não posso falar muito também, mas o jantar é a base de uma outra matéria que vou escrever, e não posso estragar a surpresa.

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Mas resumindo: além de pratos de execução primorosa, tive uma noite gloriosa também por conta da harmonização, precisa, surpreendente e ousada, que a sommelière da casa (ótima mesmo) nos proporcionou, servindo vinho puros, finos, elegantes e sinceros, como este Mucadet, do Domaine de la Paonnerie, o incrível ‘Rien que Muscadet. Sem falar no meu companheiro de mesa, gente da melhor qualidade para se dividir uma refeição, que teve até risotinho com trufas brancas, de Alba, claro.
Voltei para o hotel para uma saideira com o resto da turma que me acompanhou nesta viagem, um dos melhores grupos com os quais eu já viajei, quando reencontrei amigos como o próprio Diego e a jornalista Letícia Rocha, que voltou da Itália para editar a revista da Have a Nice Beer, e para trabalhar em uma produtora de vídeo que, entre outros projetos, também faz filmes para a Wine.Com (e também para a HNB, comprada por eles).
Fiquei pensando: sou mesmo um cara de sorte, e hoje sinto a vida fluindo tranquila, com muitas coisas boas acontecendo ao mesmo tempo. O ano de 2015 promete, e eu conto com a ilustre companhia de vocês nesta jornada.

Odense: fui, gostei, voltei

06/12/2014

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Existe uma certa magia ao redor da cidade de Odense. Esse encantamento, em grande parte, chama-se Hans Christian Andersen, o grande escritor, autor de muitas da mais famosas histórias infantis, como “A Pequena Sereia”, “O Patinho Feio” e “Soldadinho de Chumbo”. Sujeito importante na vida de qualquer criança, e por consequência de todo mundo.

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A casa onde ele nasceu foi transformada em museu.

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Na verdade, a pequena morada de sua família é apenas parte do grande complexo, que narra a vida do artista de múltiplos talentos, que desenhava postais de suas viagens,…

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… como este de Florença, …

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… e fazia delicados recortes, como os que estampam o rótulo da cerveja que leva o seu nome, produzida pela Albani, uma das 12 cervejarias da cidade, a uma hora de trem, ou duas de carro, a partir de Copenhague. Uma boa escapada de final de semana para quem visita a capital da Dinamarca.

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Fui até lá para visitar a fábrica, onde é produzida  linha de cervejas  Giraf.

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Curti continente e conteúdo.

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Razão pela qual a chaminé foi pintada como se fosse o pescoço do animal.

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Delicioso foi provar a cerveja diretamente do tanque, ainda não pasteurizada, com envolvente frescor.
Na cidade funciona um dos restaurantes mais antigos do mundo, o Den Gamle Kro, de 1683.É bom reservar com antecedência. Não conseguimos mesa, o que não foi qualquer problema, porque o almoço no restaurante Gronttorvet Odense, foi um dos pontos altos da viagem até agora.

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O restaurante charmoso e com ambiente acolhedor fica no centro antigo da cidade, bem como o museu HCA, exatamente onde começa a funcionar hoje um simpático mercado de Natal.

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Foi um banquete regional dignos da realeza. Comecei com mais uma deliciosa cerveja natalina, produzida pela Albani.

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Logo foram servidas as primeiras entradas, arenque em diferentes preparações: marinado, confitado em manteiga, empanado e frito, tudo com cebola cortada finamente, umas folhinhas, e servidos com uma espécie de maionese condimentada com curry e um belo pão preto.

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Fica uma delícia com um bom aquavit.

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Depois, um linguado delicioso, daqueles de tamanho pequeno, bem empanado, com limão e molho tipo rémoulade,…

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… além deliciosos ovos cozidos, cortados em meio, lambuzados com maionese e coroados com pequenos camarões cozidos, com um potinho de caviar no meio para a gente jogar por cima.

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Em seguida, almôndegas de porco, das melhores almôndegas que já comi na vida, com um patê quente de fígado, coberto de bacon e molho de cogumelos, servidos com fatias de pepino e repolho.

 

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Close no patê.
Fiquei achando que essa cozinha do interior da Dinamarca, que parece ter sido preparada por uma avó boa de cozinha, reconfortante e saborosa, tem muito a ver com a culinária russa que encontramos no restaurante Dona Irene, em Teresópolis (veja se não é, clicando neste link, e neste aqui também). Não só pelos sabores, mas principalmente pelo formato de banquete, longo, que começa com arenque e saladas, pela preparação do ovo com caviar, o molho de cogumelos com creme de leite que é primo do estrogonofe… Acabei me sentindo em casa.

Gostei de Odense, e voltei para passar o final de semana. Hoje, escrevo este post exatamente no trem, que me leva para lá, numa viagem tranquila de uma hora e meia.

 

Suco de cevada: ele existe, e parece melado de cana

05/12/2014

Você já bebeu suco de cevada? Mas, não, não falo de cerveja, ou alguma bebida outra bebida alcoólica. Na verdade, o nome oficial é suco de malte. Mas, se o malte é de cevada, por consequência… É suco de cevada. Não conhecia o produto, que faz muito sucesso em países africanos (e onde há colônias expressivas de imigrantes do continente), principalmente, e também no Caribe, na Colômbia e na Venezuela , onde é usado como energético. Fui apresentado a ele ontem, numa visita à fábrica da cerveja Faxe, na cidade de mesmo nome, a cerca de uma hora de Copenhague.

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Um dos rótulos tem DNA bem brasileiro: é o Vita Malt Plus, feito com açaí, guaraná e aloe vera. Em tempo: açaí eles chamam de acai, sem o cedilha e o acento.

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Além desse, provei outro, o Supermalt Original, a versão clássica, o que valeu mesmo pela curiosidade: não é um produto para o meu bico. Muito doce e viscoso, lembra melado. Eu não bebo melado, mas acho que na cozinha é algo que pode ser usado com sucesso. Mas não imagino que algum dia seja algo que vá chegar ao Brasil.

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O que vai chegar ao Brasil, em março, é um lançamento mundial da marca, uma Witbier que segue o estilo clássico, com coentro e casca de laranja, de olho no gosto do brasileiro por este estilo, que aliás tem tudo a ver com o nosso clima, e que tão bem combina com mariscos, de uma maneira geral, e com receitas asiáticas picantes da cozinha asiática feitas com pescados.
– O Brasil é visto por nós como um mercado-chave. E depois de avaliar a resposta lá, o produto pode ir para outros lugares. Mas o lançamento é exclusividade do Brasil. Identificamos essa necessidade no país -conta Jan Ankersen, responsável pela área de exportação da Unibrew, dona da Faxe.
A cerveja será vendida na tradicional lata de um litro, marca registrada da Faxe, que capricha no desenho.
– A marca voltou ao país a partir de 2010 quando eles viram que uma garrafa vazia era vendida no Mercado Livre por R$ 30, já que sempre são feitas edições especiais, artísticas, e que viram objeto de coleção – completa Paulo André Pomerantzeff, gerente da marca Faxe no Brasil.
Porque quando o assunto é cerveja, a beleza também é fundamental. Quem nunca comprou uma cerveja (ou vinho) só porque simpatizou com a embalagem?

Para entrar logo no clima local, smorrebrod de arenque, snaps e cerveja

04/12/2014

Smorrebrod 1
Cheguei anteontem pouco depois do meio-dia em Copenhague. Fiz um check-in ligeiro no hotel Scandic, moderno e bem localizado, nas franjas do centro antigo da cidade, ao lado do Parque Tivoli e da Estação Central de trens, cercado por bons bares (incluindo o Mikkeller) e restaurantes. Para já me aclimatar ao país, fui logo almoçar em um restaurante clássico da cidade, o Aamanns, especializado em smorrebrod, os famosos sanduíches abertos tradicionais dos países nórdicos. Fiz uma excelente escolha. Mas não é bem um lugar barato: cada porção custa entre R$ 50 e R$ 60 (os praços variam entre 100 e 120 coroas dinamarquesas, que valem cerca de o dobro do nosso real).

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Fui caminhando tranquilo, passando por dentro do belo (ainda mais no outono) Ørstedsparken.

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Pedi uma cerveja local, e fui pedindo informações a respeito. Era uma ale amarronzada e encorpada, bem saborosa, de produção local, e artesanal. Vendo o meu interesse pelo assunto, ele me ofereceu uma degustação de snaps, os aguardentes aromatizados com frutas, ervas e raízes também típicos da região.

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Um era de alcaçuz, outro de pão (sim, de pão) e o terceiro uma edição de Natal, feita “com muitos ingredientes, entre ervas, temperos e frutas”, explicou o garçou. (E, aliás, como esse povo gosta de celebrar o Natal aqui. Os pratos do período já começam a ser servidos agora, os mercados natalinos estão em várias partes, e além do snap especial, as cervejarias também fazem as suas edições especiais de Noel, receitas mais alcoólicas e encorpadas, de cor acobreada).

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O cardápio (que posto no final deste texto) era pura sedução. Dava vontade de provar de tudo. Pedi indicações ao garçom, que me recomendou duas, com mais entusiasmo: a combinação de arenque frito (“Arenque frito é típico do Natal”, informa o cordial rapaz) com uma espécie de tartare de abóbora, com gomos de laranja, alcaçuz (outra obsessão nacional por aqui) e creme fresco, tudo isso sobre um pedaço fino de pão preto.

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Uma maravilha. O peixe, a combinação de ingredientes, a apresentação. Provei com a cerveja, e ficou bom. Mas certamente é um prato para ser acompanhado por um belo copo de snap. Casamento perfeito.

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A outra recomendação foi o tartare de carne bovina com emulsão de ostras e uns pedacinhos crocantes de pão. O que ele não disse era que o prato levava, ainda, umas ovas amareladas de peixe, bem pequenas, que davam um teor salino e marinho ao prato, decorado com belos e saborosos trevos.
Mesmo com vontade de provar todas as demais receitas (e degustação, de 390 coroas, ou R$ 195, só é servida para um mínimo de duas pessoas. Pena.

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Então, fui explorar outro lugar imperdível para o viajante com interesse na gastronomia (e por acaso tem brasileiro, hoje, que visite a Dinamarca sem ser um apaixonado pelo tema?). Sim, o mercado Torvehallerne (impossível pronunciar corretamente na língua deles).

Smorrebrod 11
O mercado, criado em 2011 já na esteira do sucesso da cozinha da Dinamarca, é aquela festa para os olhos de alguém que curte a boa mesa. Para os olhos, a boca, o nariz… Há muitas lojas de produtos da região, açougues,…

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… enoteca especializada em vinhos naturais, queijaria, chocolateria, cafeteria e algumas rotisserias de vitrines vistosas (dá para comer por lá, ou fazer um belo piquenique, o que não recomendo nesta época do ano), e até uma filial da Olive & Co (que para mim pareceu meio deslocada ali), entre outras. Além disso, há alguns bares com balcões onde podemos nos sentar oara comer. Nem tudo ali, neste caso, é nórdico: tem casa de tapas (pereciam ótimas) e pizzaria (idem), por exemplo.

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Mas, para ficar no clima local, escolhi a Hallernes Smorrebrod, cuja vitrine que exibia a oferta de comidinhas da casa me pareceu muito apetitosa. Além disso, já sabia que ali é servido cerveja Mikkeller “on tap”. Uau!
Sentei na cadeira alta. Puxei papo com o atendente sobre a Mikkeller. Muito prestativo, o cara começou a me indicar bares e restaurantes próximos ao meu hotel (fui muito bem tratado aqui em todos os lugares, mas depois me disseram que fui um ponto fora da curva, que geralmente os garçons e semelhantes não são lá os mais cordiais).
Ali também havia uma versão de arenque frito (“É típico do Natal”, disse-me o que já sabia),…

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…outra com rosbife, picles de pepino, cebola crocante uma chuvinha de raiz forte.

Smorrebrod 16

Na verdade, havia mais do que uma versão de arenque, uma delas com salada de ovo.

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Falando em ovo, outra especialidade é a combinação de ovo fatiado finamente com pequenos camarões cozidos, muito tradicional. A propósito: não sei de que ovo se tratava, porque era maior que o de codorna, e menor que o de galinha.

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Confesso que não foi fácil escolher, mas fui na salada de frango com cogumelo, seduzido em grande parte pela lâmina crocante de bacon que enfeitava este smorrebrod. Fiz bem.

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Contente naquele balcão, ainda pedi uma bela cerveja local de produção artesanal, a AZ Ale No 16, bem maltada, com pouca carbonatação, num estilo que chegou, para mim, perto de uma barley wine.
Voltei para o hotel satisfeito e aclimatado, andando pela área central (e antiga), com as suas ruas de pedestre enfeitadas para o Natal. Foi uma estreia feliz em terras e mesas dinamarquesas.

Copenhague, a Dinamarca e as memórias de infância…

03/12/2014

Copenhague

Eu gostava de estudar mapas, bandeiras e capitais quando criança. Gostava de ler quadrinhos do Tio Patinhas, quando ele cruzava o mundo atrás de tesouros, e também do Tintim, esse repórter aventureiro que vivia entre aviões, barcos e trens. Com a minha avó Luzia eu via programas de turismo na televisão (lembro de dois, um na TVE e um outro que passava, se não me engano, nas manhãs de domingo, em algum horário comprado de alguma TV paulista, acho que Record, antes dos bispos: não me esqueço do patrocinador, Abreu Turismo, na verdade, como bem lembrou o Helio no comentário lá embaixo, era a Urbi et Orbi, e não a Abreu, que patrocinava o programa). Não sei porque a Dinamarca que remete à infância. E pensar neste país também é um pouco voltar ao passado.
Por diversas razões a Dinamarca sempre povou o meu imaginário, a começar pela marca de chocolates Kopenhagen, até chegar nas histórias mitológicas dos povos nórdicos, e a aptidão que eles sempre demonstraram para a navegação. Sem falar no Tivoli Park da Lagoa, batizado em homenagem àquele clássico parque homônimo criado em meados do século 19, em Copenhangue, e que também foi fonte de inspiração para ninguém menos que Walt Disney criar os seus parques de diversão, e que ainda existe, firme e forte. As fábulas infantis, as histórias de Hans Christian Andersen, A Pequena Sereia… O Lego, que hoje monto com a filha, e o Playmobil, meu brinquedo preferido quando criança. O casario antigo, algo meio conto de fadas… Existe aqui uma certa magia que me levou até a infância, a inocência juvenil, um período intenso de descobertas.
Em 1986 eu tinha dez anos quando a Dinamarca chamou a atenção do mundo com a sua seleção de futebol no Mundial do México. O time encantava dentro do campo, e a torcida, capitaneada por mulheres lindíssimas e festeiras, fazia a alegria nas arquibancadas. Que coisa bonita. Era a Dinamáquina.
Ao longo da adolescência a Dinamarca sempre pareceu um destino próximo, isso porque havia voo direto da Varig, por muito tempo, fazendo a rota Rio-Copenhague (hoje, infelizmente, precisamos de conexões).
Então chega a idade adulta, e a Dinamarca se torna ainda mais sedutora para mim. Não estou falando apenas das beldades alouradas, mas de muita coisa mais. A começar pelos cuidados ambientais. Ninguém aguenta mais nos dias de hoje tanta poluição, tanta sujeira, tanta gente sem educação. E a vida, na Dinamarca, parece fluir assim, mais verde, com poucos carros nas ruas e muita bicicleta, com uma limpeza urbana comparável à de um lobby de hotel. São exemplo de educação ambiental. O lixo é quase todo reciclável, e pelo menos um terço da energia do país vem dos ventos que sopram fortes por aqui. Talvez por isso os seus moradores tenham sido eleitos há pouco tempo como os mais felizes do mundo, mesmo encarando, no começo de dezembro, temperaturas que chegam facilmente a alguns graus abaixo de zero, com dias curtos e noites longas. Em todos os lugares que visitei fui tratado com simpatia e cordialidade.
Então, no capítulo final desta saga de construção de identidade nacional, ainda em pleno andamento, nos seduzem e desconcertam os sabores. Hoje a Dinamarca é destino de gente apaixonada pela boa mesa das mais diversas vertentes. O gourmet mais fino, que vai atrás de restaurantes como o Noma, que dispensa apresentações, e o Geranium, menos famoso e ainda melhor, segundo minhas fontes que incluem nomes como o do Boni. Lugares que servem vinhos naturais de pequenos produtores europeus. Os ingredientes locais e orgânicos, os peixes, as carnes de caça, os jovens chefs que souberam como poucos absorver a sua cultura culinária ancestral para criar algo novo, puro, original, sincero, surpreendente e vanguardista, e fazendo isso sem se esquecer de suas raízes.
E, depois, ainda como parte deste movimento de exaltação dos sabores dinamarqueses, chegaram até mim as cervejas. Já conhecia há muito marcas dinamarquesas grandes e internacionais, como a Faxe, a Carlsberg e a Tuborg, e conhecia também há um bom tempo a história da criação da Theresópolis (que contei dois posts abaixo, e deixo aqui o link). E no ano passado, talvez em 2012, quando comecei a me interessar com entusiasmo por cervejas, eu descobri as pequenas marcas dinamarquesas, como a Mikkeller – e por sorte neste momento eu ando muito atraído pelas cervejas do tipo sour ale, e já apurei que elas andam em alta por aqui.
Não precisei de muito tempo para ver como a cidade é linda e deliciosa, de muita gente simpática. E muito cara. Assim, em certos aspectos, não é que se parece com o meu Rio de Janeiro querido e maltratado? Mulheres bonitas, e cenários idem, preços altos, boa comida, bicicletas compartilhadas. Estou me sentindo em casa. Até porque, plana, Copenhague tem condições perfeitas para eu fazer o que mais gosto em uma viagem: caminhar. E, pequena, tem a medida perfeita para se fazer isso. Além de sua beleza. Ver os parques, o casario colorido do bairro portuário de Nyhavn, os canais navegáveis… Copenhague, sem dúvida, é um lugar aprazível, e eu precisei de apenas uma tarde para perceber isso.
E, nesta época do ano, com frio, tem as condições climáticas ideais para longas caminhadas (entre 5 e 20 graus Celsius eu estou feliz.), porque prefiro que agasalhar do que sair sem roupa por aí, e ainda assim ficar todo suado.
Aliás, falando em temporada ideal de visita… Eu tenho cada vez mais gostado de viajar para a Europa entre novemebro de dezembro. Não só pelas temperaturas amenas, mas porque é tempo de trufas de Alba, de muitos cogumelos, e também é temporada de caça. Se as temperaturas não me assuatam, por outro lado, os dias curtos não me agradam. São quase 8h e está totalmente escuro. Ontem, às 16h, já não havia luz natural. Isso eu acho estranho (mas tampouco gosto da claridade das 22h durante o verão que vemos na Europa).
No mais, percebe-se que por aqui o que se bebe mesmo é cerveja, e snaps, uma ampla família de aguardentes com frutas, raízes e outros temperos (provei um feito com pão). Mas isso fica para o próximo post. Porque ontem já deu para comer uns bons Smörgåsbord, e sentir o frio da cidade.

Copenhague, Copenhaga ou Copenhagen? (e como é divertido pensar nos nomes dos lugares)

02/12/2014

Guia Copenhagen

Estou chegando a Copenhague, esperando minha conexão no aeroporto de Roma. Se eu fosse português, estaria chegando a Copenhaga. Mas, para boa parte do resto do mundo, incluindo aí os países de língua inglesa, seria Copenhagen. E se eu resolvesse escrever na grafia nórdica, ninguém entenderia o destino: que tal irmos a København? E ainda tem o chocolate Kopenhagen…
Um dos prazeres de viajar é aprender. Novas línguas, observar diferentes culturas, a gastronomia, a música, a literatura… Conhecer as narrativas épicas de cada nação, e também a mesma História que já conhecemos, mas de um outro ponto de vista.
Nesse aprendizado constante, a nomeclatura de países, cidades e acidentes geográficos é algo muito divertido. Sempre. Copenhague ou Copenhaga? Mesmo na língua portuguesa encontramos muitas grafias diferentes. Se um dia você estiver a caminho de Frankfurt voando pela TAP, saiba que deverás pegar o voo para Francoforte. Isso aí. Eu já soube de história de um sujeito que queria ir para Gênova. Tomou um trem para Genebra, ludibriado pela grafia fracófila, Genève.
Há debates acalorados sobre certas grafias. Nova York, por exemplo. Eu prefiro assim. New York soa pedante, enquanto Nova Iorque fica feio. Mas já vi gente defendendo com afinco esta última forma, dizendo que “se é para traduzir, que se traduza tudo”. Não acho que seja por aí.
Ainda bem, por exemplo, que ninguém traduz Rio de Janeiro. O mundo inteiro fala Rio de Janeiro. Imagine que ridículo seria no inglês “River of January”, ou ainda pior no italiano, Fiume de Gennaio… Nem imagino como ficaria em russo ou japonês. Melhor mesmo o Rio de Janeiro. Já São Paulo, como homenagem ao Santo, ganha tradução. San Pablo, San Paolo… Mas não do inglês… Saint Paul seria mesmo estranho.
Imagine, então, a gente indo um dia visitar Bons Ares? Não soa bem, parece nome de aromatizar de ambiente, e não de uma capital tão querida por nós, brasileños.
Mas não existe lógica. São Francisco, na Califórnia, ganha tradução, mas San Sebastián, no País Basco (tambpem chamado Donostia em língua local), não.
Outro exemplo engraçado é o nosso vizinho Peru. Para nós, a ave que comemos no Natal. Mas e para os americanos? Turkey, a Turquia, significa, com todas as letras, o peru que eles comem no Dia de Ação de Graças.
E a República dos Camarões, que até onde consta não tem nada que vem com os crustáceos? Cameroon, até onde sei, não significa nenhum tipo de animal (não me lembro no momento em que escrevo, do significado).
E a confusão aumenta com os países que mudam de nome. Birmânia vira Myanmar. E Belarus? Que país mesmo era Belarus? Sim, era Bielorrússia
Cada caso é um caso, e quando trabalhamos para uma empresa de comunicação devemos seguir as instruções do manual, quando ele existe. Eu que já passei pelas redações do Jornal do Brasil, da Editora Abril e d’O Globo, ainda me pego pensando em qual é a maneira correta de se escrever certos lugares. No JB cheguei a mudar a maneira como se escrevia Paraty. No começo dos anos 2000 eles escreviam Parati. Mas eu convenci com muitos argumentos. “Se nas placas dos carros está escrito Paraty, se a prefeitura da cidade usa Paraty, se os moradores acham assim mais bonito, se até o Governo do Estado, e as placas do DER estão com Paraty, porque a gente vai escrever Parati?” Pois é. Pra mim, quando tem “i” no final estamos falando do peixe parati, do carro Parati, ou até mesmo deste sinônimo de pinga, cantado por Noel Rosa “Em vez de tomar chá com torradas bebeu parati”.
Existem pegadinhas, como Cingapura, que muita gente escreve com “S”, por conta da grafia inglesa, Singapore.
Agora vem a China, querendo nos convencer a escrever Beijing em lugar de Pequim. Inclua-me fora dessa… Imagine só, comer um pato Beijin… Não consigo, acabo lembrando do brasileiríssimo doce beijinho, aquela espécie de brigadeiro branco com coco, delícia.
Muitas vezes eu uso o critério da beleza. Provença, com todo o respeito, é mais feio que Provence, a grafia francesa, replicada na língua inglesa. Fico com a segunda. Também acho estranho falar do rio Ródano. Não sei se por causa de minha enofilia que muito aprecia os vinhos de lá (viva Ermitage, viva Condrieu, viva Côte-Rôtie!!!!!), mas eu só uso a palavra Rhône, tanto para me referir aos vinhos quanto também ao próprio rio, e o vale formado por ele.
Também não me acostume do o Rio Tibre, prefiro o Tevere. Aí, vamos traduzir também o bairro? Trastibre me soa estranho…
Adoro a forma italiana de grafar os lugar, adaptada á sua língua. Assim, o México vira Messico, Moscou vira Mosca, Paris vira Parigi e Brasil vira Brasile. E a China, vira Cina (fala-se Tina, e aí eu me lembro dos comerciais da Pepsi com Tina Turner).

Por essas e outras, viajar é tão divertido e enriquecedor.

A conexão entre Teresópolis e a Dinamarca através da cerveja (ou Estamos a caminho de Copenhague pra beber sour ales)

01/12/2014

Saison Ipa Goiaba
Há exatos 102 anos, precisamente em 1912, nascia a cervejaria Therezópolis, na cidade com este nome, com a sua grafia antiga. A marca foi fundada pela família Claussen, de origem dinamarquesa, num momento em que a bebida preferida de Gambrinus começava a fazer imenso sucesso por aqui, com o surgimento de várias pequenas fábricas artesanais espalhadas por todo o país.
A produção da Therezópolis foi interrompida por muito tempo, até que a cerca de dez anos uma grande fábrica de bebidas da cidade fez um acordo com a família, e relançou a marca, com uma linha que foi ganhando corpo e qualidade ao longo dos anos. Abriram o complexo com bares, lojas e restaurantes, no bairro do Alto, e foram ampliando a quantidade de rótulos, lançando cervejas sazonais, que mudam a cada estação. Já tivemos o outono marcado pelo sabor de uma boa rauchbier, enquanto o inverno ganhou o tempero de uma pimentinha, duas cervejas bem acertadas dentro de seus parâmetros. A primavera, que está em sua reta final, ganhou a delicadeza de uma Session Ipa feita com goiaba, uma cerveja leve e refrescante, perfumada e muito fácil de beber e de gostar (essa belezura que enfeita o alto deste post).
Quem vem fazendo barulho com essas produções é o jovem mestre cervejeiro Gabriel de Martino, meio-irmão do primo de uma ex-namorada minha de adolescência. Mas isso não importa. O rapaz é fera, e vem mostrando grande talento, um dos mais promissores cervejeiros do Brasil, que aos 20 e poucos anos assumiu uma baita responsabilidade – conduzir uma das cervejarias mais importantes do país no momento da explosão do mercado das artesanais. E vem fazendo bonito.
Este ano, encorpou a linha com mais dois rótulos. A Jade, uma IPA que vai em sentido contrário ao mercado, que vem pegando pesado na lupulagem (eu gosto) e fez uma India Pale Ale mais leve e delicada, e me parece que a delicadeza é um traço de seu trabalho. Porque outro lançamento deste ano de 2014 que vai chegando ao fim foi a Or Blanc, uma witbier leve, refrescante, com notas cítricas características, por conta do uso de cascas de laranja na receita. Ele já tinha tirada um tanto do açúcar residual que muitas vezes deixava meio enjoativa a Irish Red Ale.
Ontem gastei parte da minha tarde por lá, saboreando a cerveja de primeira, a tal Session IPA com goiaba, e depois uma Irish Red Ale, ambos “on tap”.
Não à toa, o rapaz está na Alemanha, para um intercâmbio de mestres cervejeiros, e deixo ele mesmo contar mais detalhes (copiei de um post que ele fez nas redes sociais): “Amanhã estou embarcando para o treinamento e intercâmbio de cervejeiros que é oferecido pela Maltaria Weyermann, na maior densidade cervejeira do mundo, em Bamberg na Alemanha!
A busca pelo conhecimento, evolução e também melhorias naquilo que se faz, nunca pode parar… Então vou com tudo pra poder absorver ao máximo que eu puder!”
E esse post de hoje é para saudar o Gabriel di Martino. Mas ele também acontece porque além de ser cliente fiel das cervejas da Therezópolis, e frequentador da cervejaria Villa Sankt Gallen, eu curto esta história da família dinamarquesa fazendo cerveja na serra. E porque hoje eu estou embarcando para ir lá beber na fonte. Viajo em minutos em direção a Roma, de onde pego um avião para Copenhague, chegando amanhã na hora do almoço, ainda em tempo de começar a explorar os sabores locais. Vou visitar algumas cervejarias da Royal Unibrew, que produz a Faxe. Uma viagem altamente estimulante para um amante da boa mesa, especialmente se também for alguém que goste de apreciar uma boa cerveja. Feliz em dobro, ainda mais porque ando apaixonado por cervejas azedinhas, tipo Sour Ale, e toda a linhagem das Lambics (e sei que a Dinamarca anda fazendo coisas incríveis nesses estilos). Feliz x 3.
Não, não consegui reserva no Noma… Infelizmente, mas continuo tentando. Nos próximos dias vou contar por aqui algumas historinhas desta viagem.
Como sempre, é um prazer ter a sua companhia.

Rota da Cerveja celebra a tradição (e as novidades) na Região Serrana do Rio de Janeiro

25/11/2014

St Gallen 7 escura

Na semana passada o governo Rio de Janeiro lançou a Rota Cervejeira, um circuito turístico reunindo produtores do da Região Serrana. A iniciativa reúne grandes marcas, como Bohemia, as de médio porte, como a Sankt Gallen, bem como os cervejeiros caseiros, além de bares dedicados à bebida.
O projeto vem cororar um processo que ganhou força na uma última década, quando cidades como Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo resgataram a antiga tradição na produção de cerveja.
A notícia nem é tão nova assim, já tem uma semana. Este post aqui é, para além de celebrar a boa nova, reunir alguns links relacionados ao tema.
Inaugurada a Villa St. Gallen, o templo cervejeiro

Petrópolis, cidade imperial e capital da cerveja

A boemia sobe a serra em direção a Teresópolis

– Villa Sankt Gallen: a cervejaria mais bacana do Rio

– A tradição cervejeira das montanhas do Rio cada vez mais forte

– Uma seleção das melhores cartas de cervejas na serra fluminense

 

A despedida da Borgonha: a simplicidade deliciosa dos oeufs en meurette

24/11/2014

Chegar em casa é sempre bom, ainda mais em um domingo chuvoso, que emenda em uma segunda-feira idem, estimulando a preguiça e o relaxamento. Voltemos à França, rapidinho.
Quando eu disse que viajaria para a Borgonha, o meu amigo petropolitano e francófilo, Igor Olszowski, logo se manifestou, assim mesmo, eu caixa alta, para reforçar sua indicação: “NAO DEIXE DE COMER LES OEUFS EN MEURETTE”.
Ele é mais que um amigo, mas uma fonte a quem sempre recorro quando preciso de informações de Paris. Foi ele, por exemplo, quem me indicou a Rue Sainte-Anne como reduto de ótimos restaurantes japoneses, ponto de encontro da colônia nipônica, bem como foi quem me recomendou o restaurante L’Afghani, em Montmarte, isso para citar apenas duas dicas usadas há pouco tempo.
Por obra do destino, acabei comendo um oeufs en meurette apenas no meu último dia, pouco antes de pegar o trem rumo a Paris, para voltar ao Brasil.

Oeufs en Meurette - com Chablis
Na verdade, eu até tinha provado o oeufs en meurette antes, mas era uma versão menos usual, feita com vinho branco (mas, sim, estava delicioso). A receita clássica é uma combinação entre ovo e vinho tinto, com bacon e cogumelos, num desses exemplos calorosos de que à mesa a simplicidade muitas vezes é tudo. A gema mole derretendo-se sobre o caldo vínico e untuoso, a colher que leva à boca essa bagunça de sabores úmidos, o salgadinho do bacon, a textura macia dos cogumelos e das cebolas… Foi no aconchegante Le Bistrot du Bord de l’Eau, na Hostellerie de Levernois; logo na chegada à Borgonha, embalados pela lareira e por um menu fincado na tradição local.

Borgonha 2 Jean-Michel Lorain
Mas a versão original mesmo ficou para o último dia. Depois de um café da manhã leve com uma salada cheia daquelas frutinhas vermelhas que adoramos, tive o prazer de ir visitar, guiado pelo chef Jean-Michel Lorain (do la Côte Saint Jacques), o mercado que acontece nas manhãs de sábado, na cidade de Joigny, em uma bela construção de ferro, bem característica.

Borgonha 1

Fiquei de boca aberta com os produtos locais, incluindo uma charcuterie só de carne de coelho, e com os queijos locais, em seus diversos pontos de maturação, dos frescais que vão sendo curados em vários estágios até o époisses, um dos mais fedorentes, deliciosos e cultuados queijos do mundo, produzido na Borgonha mesmo. As famílias de pequenos agricultores que vão vender os seus produtos, os artesãos da queijaria e da charcuterie…
De Joigny fomos almoçar na graciosa Auxerre. Um passeio pelo centro antigo, com construções com mais de 300 anos e cheias de charme, abriu o apetite. E o local do almoço não poderia ser mais apropriado para uma refeição de despedida.

Borgonha 3 - La Petite Beursaude

O restaurante La P’tite Beursaude é um pequeno bistrô com com administração familiar e cardápio caseiro, com os sabores locais.

Borgonha 4 - Thomas Becket

Provei uma cerveja local, a Thomas Becket Ambrée de Bourgogne, uma amber ale refermentada com mel, depois um copo de Chablis, e no final um tinto, cuja denominação (da Borgonha, claro) eu não me lembro. Não foi fácil escolher o prato principal.

Borgonha 5

A entrada foi uma saladinha de fígado de galinha com boudin de pato. Que prazer!
Para o principal, fiquei na dúvida. Havia uma carne com molho cremoso de époisses. Mas havia também os oeufs en meurette, em sua versão original, com vinho tinto. Isso soava como uma ordem.

Borgonha 5 - La Petite Beursaude

E lá veio a tijela crepitante com os ovos. E suas gemas moles. E aquele caldo quente e reconfortante. E o pão torrado em cubinhos que não se cansava de enxugar o líquido nem ralo nem espesso, sopa de vinho com ervas, e seus nacos de toucinho defumado, e a cebola que quase caramelizou.
Disse até breve á Borgonha assim, com os pés fincados em suas raízes, com vontade de me entranhar ainda mais nelas.


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