Palace e Carretão: em tempos de churrascarias compradas por fundos de investimento, sou mais as familiares

16/12/2013

Eu me lembro bem da primeira vez que eu fui ao Porcão, na Barão da Torre, em Ipanema. Tinhas uns oito anos, a mesa era grande, reunindo toda a família. Fiquei espantado com a quantidade de comida, e acabei me encantando com a cebola frita. Neste dia, fui apresentado à picanha. De lá para cá, passaram-se uns 30 anos, e neste longo período fui frequentador da casa, que há algum tempo foi vendida pela família Mocellin para o grupo BFG. Pois bem. Hoje já não me considero frequentador do Porcão. Já faz tempo que gosto muito mais de ir a lugares como o Esplanada Grill, o Giuseppe Grill ou a Majórica, preferindo comer com a moderação do “à la carte” em vez do rodízio, que acaba praticamente nos obrigando ao excesso.
Mas, quando quero enfiar o pé na jaca, já não penso mais no Porcão. Na minha última visita, vários cortes foram “descontinuados”, como prime rib. Muita coisa faltando, serviço capenga, carta de vinhos ruim. Restaurante não é negócio para grupo de investidores, e as coisas também não vão bem no Garcia & Rodrigues, comprado pela mesma BFG.
A Fogo de Chão também foi comprada por um fundo de investimento, e não pertence mais à família Coser, que agora começa a tocar uma nova marca de churrascaria. Faz tempo que não vou… Mas, hoje, quando penso em um rodízio de churrasco, prefiro investir meu tempo e dinheiro na Carretão, em Ipanema, ou na Palace, em Copacabana, ambas de administração familiar, que cobram praticamente a metade das duas já citadas, e estão no mesmo nível, até melhores (vamos considerar que os vinhos também são mais baratos). Na Palace, frequentada por amigos bons de garfo, como Nano Ribeiro, Gabriel Cavalcante e Moacyr Luz, o rodízio custa R$ 69 para quem participa do Club Palace, um programa de relacionamento (o preço normal é R$ 93).

Churrascaria Palace 1 - salão com painel
Foi assim que jantei na Palace, durante um festival de peixes amazônicos, com grande contentamento. Gosto deste painel, com grandes nome da MPB, mais especificamente, da Bossa Nova.

Churrascaria Palace 2 - bufê de frios
Comemos umas saladinhas, do bufê, com presunto cru, carpaccio, aspargos, palmito e outros petiscos frios…

Churrascaria Palace 3 - camarão ao alho e óleo
Depois, camarões ao alho e óleo, que precederam…

Churrascaria Palace 5 - ostras
… um prato de ostras frescas.

Churrascaria Palace 6 - Ìndio e o tambaqui

O Índio, o garçom boa-praça que anda ganhando (merecidamente) prêmios de melhor do Rio (e da Zona Sul) comandava o serviço, incluindo deliciosas costeletas de tambaqui e também…

Churrascaria Palace 4 - Marcel Deiss Riesling
… este lindo Riesling alsaciano, já com quase dez anos de vida, do jeito que eu gosto.

Churrascaria Palace 7 - pacu assado
Depois, o folclórico Hipoglos, apelido gaiato do pacu assado, iguaria mais pantaneira que amazônica, por sinal.

Churrascaria Palace 8 - Índio e o pirarucu
Por fim, antes das carnes, nos entregamos aos prazeres do pirarucu. Ou este seria um tucunaré? Ou seria o pintado?Hummmm. Não me lembro, mas me recordo que estava bom, macio, suculento, saboroso e bem temperado e assado. Beleza.

Churrascaria Palace 9 - Ìndio e a picanha

Depois, foi um desfile de cortes, no ponto certo, com carnes de boa procedência. Teve costeletas de cordeiros, e costela de boi assada longamente, teve picanha no espeto e também na chapa, como esta foto aí de cima.

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Bar da Gema: um clássico dessa nova e deliciosa geração de botequins cariocas, um lugar absolutamente imperdível

14/12/2013

A vida segue e, no cenário dos botecos cariocas, enquanto lamentamos perdas irreparáveis, como o Penafiel, e tememos pelo futuro de casas tradicionais. Por outro lado, saudamos a chegada de novas cozinhas que revigoram a essa instituição da gastronomia e da boemia do Rio de Janeiro. Nos últimos dez anos, e ainda mais especificamente nos últimos cinco, a cidade ganhou mais de dez endereços admiráveis, que dão novo fôlego à cultura botequeira do Rio. Assim, acompanhamos, como gosto, o nascimento de um time de bares de primeira linha na última década, espalhado por vários cantos da cidade. O Aconchego Carioca, e sua revolução culinária em forma de bolinhos; o Cachambeer, um boteco-boteco, sem frescuras, e delicioso; o Chico & Alaíde, dissidência que ampliou a oferta de bons bares do Leblon, entre tantos outros. Bar da Gema Um desses endereços imperdíveis é o Bar da Gema, ali mais ou menos na fronteira da Tijuca com o Andaraí. Se você nunca foi, planeje para amanhã uma visita, e eu vou tentar de explicar porque (mas, imagine que o que escreverei, e as fotos que postarei, não serão capazes de dizer o quanto esse boteco é incrível, isso para quem curte botecos de verdade, claro). Com as bênçãos de São Jorge. “Okê-okê, Oxossi/ Faz nossa gente sambar/ Okê-okê, Natal Portela é canto no ar”. Bar da Gema 2 - salão Estive lá já faz algum tempo, numa linda tarde primaveril, com clima de inverno e um sol macio, daqueles que tanto gostamos. Cheguei, e me acomodei em uma mesinha de canto. Bar da Gema - Gentileza Pedi uma cerveja, e enquanto dava uma espiada no cardápio (cuja foto está lá no final do post), levantei-me para fotografar o ambiente, com paredes de cor atijolada, pintadas com palavras gentis do Profeta Gentileza… Bar da Gema - Cristo … e com este Cristo Redentor bem simpático. Um lugar carioca por natureza. Bar da Gema 1 - salão Nesta imagem, ali no canto direito, sem que eu tivesse percebi, aparece um amigo, querido e admirado, o grande Gabriel Cavalcante, que até algum tempo atrás era mais conhecido como gabriel da Muda, um dos melhores sambistas da nova geração, parceiro de Moacyr Luz, outro querido e admirado, em vários projetos. Além do samba, o que nos une é também a paixão pela boa mesa, e pelos botequins cariocas. Eu sigo ele nas redes sociais, e vice-versa. Assim, ele logo me identificou, câmera em punho, clicando a casa. Algumas coisas eu já tinha decidido pedir. Para outras, levei o seu conhecimento de causa em consideração, e me dei bem. Bar da Gema 4 - pastéis Vamos lá, pela ordem. Comecei pedindo uma dupla de pastéis: de mortadela com cebola e de feijão gordo, servidos com pimenta da boa e cerveja gelada na escolta, montando um ciclo virtuoso, cheio de sabor, cheio de intensidade. Entre um pastel e outro, se tivesse que decidir, ficaria com o de feijão, mas a escolha é difícil, porque a versão de mortadela, vou te contar… Acontece que um bom feijão é algo que eu amo, eu adoro, eu venero. Bar da Gema 6 - Caldo de jiló Pronto. Depois, parti para dentro do caldinho de jiló, versão líquida e bem temperada deste ingrediente clássico dos botequins carioca, temperado com alho frito, com textura admiravelmente cremosa. Uma loucura, uma delícia. Uma boa introdução para quem não curte um jiló. Bar da Gema 7 - lasanha de jiló Mas este não é o meu caso, de modo que o meu terceiro pedido (tecnicamente o quarto, já os os pastéis são vendidos individualmente, ainda que tenham sido servidos juntos) foi um clássico da casa, a lasanha de jiló. Jesus-Meu-Deus-do-Céu-Nossa-Senhora-Ave-Maria… Que coisa boa. A montagem vertical, com camadas do jiló entremeadas por queijo, e uns pedacinhos de linguiça, com um bom e encorpado molho de tomate. Uma loucura. Outro prato perfeito para acompanhar uma boa cerveja, e um papo entre amigos. Bar da Gema 8 - polentinha com rabada Depois, as “polentinhas fritas com rabada”. Acho que a foto dispensa apresentação formal do prato, e qualquer análise crítica. Só de ver a foto o meu coração palpita, minha boca saliva e o estômago ronca. Que coisa deliciosa. Escrevo com água na boca, e uma linda memória. Lembro da textura, do sabor. Uma reivenção brilhante desta combinação clássica. Bar da Gema 9 - cerveja Foi neste instante que eu pulei de mesa, me juntando aos bons que estavam com o meu amigo Gabriel, entre eles o Leandro e Luiza, dois dos quatrro sócios, que abriram a casa (acho que em 2009) depois de cursarem Gastronomia. A fome já não havia, mas quem resiste a um pratinho de torresmo? Eu é que não sou… Bar da Gema 10 - torresmo Afinal, torresmo, cerveja e pimenta formam um triângulo amoroso, ménage à trois gastronômico, uma indecência gustativa, pura pornografia à mesa. Aí, o Gabriel mandou a deixa. – Tens que provar o péla égua. E eu sou lá homem de negar uma indacação dessas? Não mesmo… Bar da Gema 11 - péla água Daí, encerrei a deliciosa jornada com esta receita que (se não me falha a memória) traz uma trouxinha de folha de couve recheada com…. Não me lembro. Desculpe. Mas o molho era de tomate com pedacinhos de linguiça. Esqueci o recheio, é verdade, mas eu me lembro bem de que estava delicioso, como todo o resto. A conta foi bem razoável, algo ali entre R$ 70 e R$ 80. Fui embora feliz, encantado com a casa, e prometendo voltar, de preferência numa terça, quando é servida a famosa coxinha de galinha, ou numa quarta, quando a cozinha prepara um hambúrguer que tem entre os seus fiéis adoradores o… Gabriel Cavacalte, que – assim como eu – é um incansável apaixonado por esse sanduíche, e anda por aí, no Brasil e no mundo, a apreciar a receita. E não sou eu que vou duvidar dele… Sei que você ficou com vontade de ir agora ao bar da Gema, não ficou? Escrever este post me causou o mesmo efeito.

P.S. – Depois de ter o post publicado, escrevi para o Leandro Amaral, um dos sócios, que me explicou o prato acima. Chama-se Péla égua, e ele o descreve com a simplicidade que tanto aguça as nossas papilas: ” É uma trouxinha de couve recheada com canjiquinha e queijo. E coberta por um molho de linguiça”.

—————————- Agora, o cardápio, enxuto como eu aprecio (clique na imagem para ampliar).

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Escobar e Restaurante, no Leblon: um boteco pan-americano que só poderia existir no Rio de Janeiro

13/12/2013

Escobar 1 - salão
Escobar e Restaurante. Este é um lugar que só poderia mesmo existir no Rio de Janeiro. O trocadilho do nome é só um aperitivo das ironias e irreverências que a casa sustenta. Bom humor é sempre bom.
O delírio do batismo é inacreditável até. Acredite se quiser, mas a casa presta uma homenagem, por assim dizer, a dois personagens famosos de sobrenome Escobar, colombianos contemporâneos com histórias que não deixam de estar entrelaçadas: o jogador de futebol Andrés Escobar, que fez um gol contra que ajudou a eliminar a seleção de seu país da Copa de 1994, nos EUA, o que teria motivado o seu assassinato por um traficante, em Medellín; e Pablo Escobar, o megabandido, o “senhor das drogas”, líder do cartel de Medellín, morto um ano antes. Inacreditável.

Escobar 2 - Pablo Escobar
No andar de cima, onde o clima é mais de bar do que de restaurante, com sofás e um clima festivo bem carioca, encontramos uma figurinha do álbum da Copa de 1994, como a foto de Andrés, emoldurada em um quadro, e outras referências à dupla, irreverência beirando o surreal, como um grafite de Pablo Escobar tocando maracas. Como dizia, este lugar só poderia mesmo existir no Rio de Janeiro.
Mas a verdade é que ninguém vai a algum lugar pelo nome ou pela decoração. Eu sei que vai, mas ainda prefiro acreditar que não.
Assim, vamos nós ao que mais interessa. O Escobar e Restaurante tem como chef consultor o boliviano Checho Gonzales, um desses caras que já está aí batalhando nas cozinhas vanguardistas (e projetos gastronômicos) do eixo Rio e São Paulo há mais de dez anos. Como vanguardista não entenda pratos moleculares, mas especialmente o conjunto da obra. O Checho é um cara de visão, sempre envolvido em projetos bacanas. Trabalhou com Alex Atala, em São Paulo, passou pelo Zazá Bistrô, no Rio, e foi aos poucos apresentando aos brasileiros a culinária andina, servindo ceviches antes de quase todo mundo (exceção, talvez, ao peruano pioneiro Intihuasi, no Flamengo), o que faz muita gente pensar, até hoje, que ele é peruano, e não boliviano. O chef acabou voltando para a capital paulista, onde acabei o conhecendo pessoalmente (fui frequentador de seus restaurantes cariocas, como o Pecado, mas não o conhecia). É um cara que admiro. Que faz coisas originais. Que não fica babando ovos alheios, de jornalistas, blogueiros, fotógrafos, editores e produtores. Que faz uma cozinha de caráter, que se lança a projetos legais. Assim, ele criou em São Paulo sucessos como a feirinha gastronômica O Mercado, que já teve edição carioca (maior sucesso, no Circo Voador), além de outros eventos bacanas, que acompanho por aqui, de longe, torcendo para que algum dia cheguem ao Rio com força.
O Checho era, então, o sujeito ideal para criar um cardápio pan-americano, que juntasse na mesma cozinha receitas e ingredientes de vários países latinos, com direito a cervejas uruguaias, pratos peruanos e receitas mexicanas e venezuelanas.

Escobar 4 - pisco
Para beber, hay pisco, por supuesto. Bem feito, por sinal.

Escobar 7 - bloody mary revisitado
E carta enxuta lista outros drinques clássicos (na receita tradicional, ou “revisitados”), como o bloody mary, de apresentação original.

Escobar 3 - bar

O bar se destaca na decoração do primeiro andar. Além de outros drinques de perfil mais criativo, receitas elaboradas por Gustavo Stemler, barman com passagem pelo Meza, entre outras casas que se dedicam aos drinques,

Escobar 5 - mojito de morango com manjericão

Entre elas estão o mojito de morango com manjericão, delicada e deliciosamente feminino e refrescante.

EScobar 13 - Tropicália
E também há uma boa seleção de cervejas artesanais. Além daqueles drinques que parecem chope. No caso, o Tropicália, feito com vodca, Cointreau, maracujá e “espuma” de mojito, leve e refrescante.

Escobar 16 - Pachamama

E também o Pachamama, com písco, hibiscus, limão siciliano e colarinho de negroni, também leve e refrescante, e ainda mais gostoso.
A carta de bebidas, e também o cardápio da cozinha, estão reproduzidos lá no final deste post.
Mas vamos à comida, que é o que importa de verdade. O cardápio é dividido em seis partes: “Ceviche, tiradito ou escaveche”; “Causa ou fricassé”; “Anticuchos, assados ou fritos”; “Arepas, tacos ou no pão”; “O que vai pro tacho”; e “O que adoça a vida”.

Escobar 6 - crocantes de batatas
Aproveitando o clima festeiro do lugar, herança do antigo bar que funciona ali, o Gente Fina, animadinhos nas noitadas, o Escobar e Restaurante foi feito na medida para mesas grandes, de seis ou oito pessoas, como foi o meu caso, para que os pratos sejam divididos, e os drinques também, quem sabe?
Nós fomos justamente seguindo a ordem que aparece no cardápio. Primeiro, fomos no “crocantes de batatas”, esse aí de cima, um guacamole ladeado por chips de batata e aipim.

Depois, vamos aos ceviches. Escobar 8 - ceviche de camarões

Primeiro, o de camarões com vieiras ao leite de coco, e eu esperava que os mariscos fossem um pouco mais delicados.

EScobar 9 - ceviche de bonito

Depois, de bonito  – aquele primo próximo do atum – em vinagrete oriental, com gergelim, shoyo e cubinhos de manga.

EScobar 10 - escaveche de polvo

Ainda no primeiro setor do menu, pedimos o escaveche de polvo, com cubinhos de tomate e abacate, além de uns brotinhos.

Escobar 11 - Tiradito de bonito

Depois, “los tiraditos”. Pedimos o de bonito, com guacamole e tortillas, o melhor entre essas entradinhas de origem peruana, e…

Escobar 12 - tiradito de namorado

… e o de  namorado, com tirinhas de limão, pimenta boquinho e palha de pão árabe.

Escobar 14 - causa de cogumelos

Então, partimos para para dentro da causa de cogumelos com aspargos e purê picante de baroa.

Escobar 15 - Croquetas
Depois, as croquetas de carne com maionese picante e …

Escobar 18 - majao

… e o majao, um arroz tropeiro com carne seca, linguiças, chips de banana e mandioca e um ovo frito por cima, e tudo melhora com um ovo por cima.

Escobar 17 - Wäls Saison de Caipira

Os “platos fuertes” foram escoltados pela brasileiríssima Wäls Saison de Caipira, feita com caldo de cana-de-açúcar, uma deliciosa, leve e refrescante surpresa, boa cerveja para a comida.

Escobar 19 - chicharrones

E o derradeiro passo, com esta linda cerveja no copo, foi bem adequado a ela: os chicharrones, pedaços de pernil de porco bem temperados em muitas especiarias, feitos à passarinho, com tempero de alho, além de milho cozido.

Escobar 20 - suspiro limeño

Para a sobremesa, não poderia faltar o suspiro limeño, em versão muito bem executada, e…

IMG_4923

… uma mousse de gianduia.

Escobar 22 - Le Freak

Devidamente escoltados pela cerveja Le Freak, uma Ale californiana, rica e encorpada, quebrando a doçura das sobremesas com sua acidez, intenso amargor e caráter frutado, cítrico.

Mais uma boa novidade na área. E, por incrível que pareça, gostei mais dos pratos quentes que dos frios.

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Brewteco, no Leblon: como o nome já diz, um legítimo pé-sujo com ótima lista de cervejas a bons preços

12/12/2013
Algo muito triste que vem acontecendo no Rio de Janeiro nos últimos anos é o fechamento – ou a descaracterização – de muitos e muitos botecos e restaurantes tradicionais da cidade. Perdemos lugares clássicos da boemia e da gastronomia carioca, como o Penafiel, o Le Coin, A Lisboeta e o Nino’s, entre tantos outros, isso só para ficar nos exemplos que me são mais caros. Lamentável.
Aos poucos, acompanhamos um processo de higienização da identidade de casas da Zona Sul, que passam por reformas – que além de produzirem lugares feios e uniformizados, lhe tiram toda a identidade acumulada com o tempo. Está cada dia mais difícil beber uma cerveja ou chope na Zona Sul do Rio em algum lugar que valha a pena, para os que apreciam esse caráter dos bares tipicamente cariocas. Uma tristeza.
Brewteco - fachada
Foi com imenso entusiasmo, portanto, que eu fui apresentado no último domingo ao Brewteco, cujo o nome entrega muito da personalidade do lugar. O dono da casa, ali na Dias Ferreira, no Leblon, comprou a antiga Marisqueira do Leblon, botecão com fama de servir uma deliciosa batida de maracujá, e uma comida farta e barata, seguindo a linhagem clássica dos botecos do Rio: costela, rabada, feijoada e assim por diante.
Pois ele fez uma aposta ousada, andando de certo modo na contramão. Manteve a equipe que trabalhava ali. Fez apenas uma reforma pequena, sem assinatura de arquiteto badalado, apenas para dar uma ajeitada no ambiente, abrindo espaço para mesas lá dentro (antes, havia só um imenso balcão) e limpando a cozinha, os banheiros, mas sem descaracterizar o espírito do lugar.
Brewteco - Delirium Tremens
Antes mesmo de fazer as obras, ele já passou uns dois meses no comando do negócio, para entender melhor o esquema. Mas já começou a mudar um pouco – e para melhor – o bar, colocando cervejas especiais, o que acabou chamando a atenção do meu amigo Juarez Becosa, que fez até uma coluna sobre o lugar.
Pois há algumas semanas, depois de uma reforminha rápida, o bar reabriu, rebatizado de Brewteco (o letreiro ainda aguarda aprovação da Prefeitura). Num desses acasos da vida, acabei indo parar lá no final da tarde de domingo, para beber umas cervejas e acompanhar a rodada final do Brasileirão, que determinou a queda para a Segunda Divisão de fluminense e Vasco. Comemorei, brindando com bons rótulos.
Curioso foi que, logo ao chegar, reconheci na mesa o Rafael Thomas, dono da Mercado Futuro, distribuidora de alimentos e bebidas, a quem tinha conhecido no ano passado, para provar uma de suas marcas exclusivas no Rio, a cerveja catarinense Bierbaum, muito boa, por sinal. Foi uma noite agradável, com bom papo, lá no Gibeer, no Jardim Botânico. Falamos muito de cervejas, e de negócios, e realmente eu vi nele um talento para empreender, uma boa visão do mercado. E foram essas características, a meu ver, que o levaram a abrir o Brewteco.
- Queria abrir um boteco com bos cervejas, mas que mantivesse o estilo, os preços, a identidade de um boteco. Vendo Original a R$ 7, e mantive a famosa batida de maracujá. Mas o foco são as cervejas especiais. Quero vender barato, e às vezes consigo ter um rótulo mais em conta do que em lojas, trabalhando com margens baixas, e muito giro. Imprimo a carta de cervejas todos os dias. Não quero ter muitos rótulos, 100, 200, mas sim uma boa oferta, variada, com qualidade e bom preço, girando na faixa de 40 ou 50 rótulos disponíveis a cada dia. Mantive o cardápio, com pratos do dia, e também a equipe da cozinha. Agora, quero encontrar outro boteco, para fazer o mesmo, mas não quero ter que fazer uma outra reforma, pretendo pegar um lugar mais ajeitadinho, mas que seja um botecão mesmo – conta.
Brewteco - Way IPA
Enquanto isso não acontece, temos o Brewteco funcionando a pleno vapor. Para a minha alegria, e a do meu bolso.
Brewteco - carta de cervejas
Pois veja aí os preços se não estão bons (clique na imagem para ampliar, facilitando a leitura).

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Cerveja, asado de tira, hamburguesas e até farofa de ovos: as novidades no uruguaio Gonzalo

11/12/2013

Gonzalo 2 - Hija de Punta

Amanhã, o uruguaio Gonzalo lança, no Brewteco, a sua cerveja. Hija de Punta (o nome é genial) foi produzida pela Mistura Clássica, uma receita leve e refrescante, uma lager bem lupulada, com delicioso amargor, boa para se levar à mesa – e que também será servida em forma de chope. Além disso, será vendida ao público, em lojas, como o próprio empório uruguaio que o Gonzalo vai abrir em breve, ali mesmo ao lado, na Humberto de Campos, só com produtos uruguaios (incluindo morcilla, nham nham nham!!!)
E foi com ela no copo que eu almocei ali no último domingo, encerrando a tarde vendo a última rodada do Brasileirão diante da TV do Brewteco, ali mesmo, no Leblon, um bar que me encantou, na Dias Ferreira, e sobre o qual eu pretendo escrever aqui neste blog, amanhã ou sexta (em resumo, foi um boteco que manteve o seu astral, jeito, cardápio e preço de pé-sujo, mas está servindo cervejas de alta qualidade, sem deixar de vender as Originais da vida: genial).

Gonzalo 1 - morcilla
Pois, além da própria cerveja, o Gonzalo anda cheio de novidades no menu. A morcilla não é uma delas, mas sou incapaz de resistir a esse embutido de sangue, e sabendo dessa minha predileção, o chef Dudu Mesquita mandou servir uma frigideira fumegante assim que cheguei. Bravo!

Gonzalo 3 - Hija de Punta - contra-rótulo
No contra-rótulo da Hija de Punta encontramos a história que deu origem a ela. Uma “chica guapa” que fez o parrillero cair de amores por ela, em um certo verão passado em Punta del Este, muitos anos atrás (para ler, clique na imagem, para ampliar a foto).

Gonzalo 4 - hamburguesas
Pois, então, fomos mordiscar as outras novidades do cardápio. Primeiro, as “hamburguesas”, com duas receitas. Uma delas, com queijo e um hambúrguer que combina três cortes da casa, ojo de bife. É a chamada “hamburguesa gourmet”, com chorizo, picanha e, ancho moídos, com queijo provolone, cebola roxa, tomate , alface, e molho de mostrada Dijon A outra, feita inteiramente com a carne de asado de tira, é chamado de “hamburguesa Centenário”, com temperada só com sal e servida com cebolas assadas na parrilla, tomate, alface, e maionese. Bom demais da conta. Uma sugestão para os amantes da carne: peça o sanduba pelado, só com pão de carne. E, para ler mais sobre outros belos hambúrgures do Rio, clique aquiaqui, aqui e aqui)

Gonzalo 5 - Dudu Mesquita

Aí está o Dudu Mesquita, o chef boa-praça, autor da receitas, comandante da cozinha do Gonzalo, um cara que conquistou a minha admiração nesses pouco mais de ano ano de funcionamento da casa, que supriu a carência do carioca de carnes platenses.

Gonzalo 6 - asado de tira uruguaio
O asado de tira, aliás, é um capítulo à parte. Resultado do cruzamento das raças wagyu e hereford, numa proporção com muita mais carga genética do gado japonês do que do inglês, resultando em um corte macio, cheio de sabor, com gordura entremeada. Uma verdadeira loucura. São três “tiras” de costela, que devido á grande quantidade de gordura, me parecem perfeitas para serem divididas por três pessoas, acho muito para uma dupla, mas é bom demais, difícil resistir. Mas, repara na gordura espalhada embaixo da carne: haja fígado.
Não fotografei, mas a pedido dos clientes a casa começou a servir, também no próprio domingo, uma farofa de ovos. Reza a lenda que foi um pedido do Ghiggia, o carrasco da Copa de 1950, amigo de infância do “señor” Hector Estebán Gonzalo, que – aliás – visitou o restaurante recentemente, cujas paredes estão enfeitadas com uma camisa da Celeste com autógrafo seu.

Gonzalo 7 - dulce de leche
Para encerrar, mais novidades, uma composição simples e inteligente. Uma colher de doce de leite Lapataia espalhada de modo a formar uma pequena cavidade, preenchida com azeite Punta Lobos aromatizado com limão, com um toque de flor de sal. O sal quebrando o doce, o azeite dando untuosidade, o perfume de limão dando o toque cítrico. Uma delicioso loucura.
Curti mil vezes.

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Até o brasileiríssimo Aconchego Carioca se rende à onda do hambúrguer (e, finalmente, chega ao Rio o bolinho de virado à paulista)

10/12/2013

O hambúrguer, definitivamente, está em alta no Rio de Janeiro – e no Brasil, já que o mesmo fenômeno é verificado também em São Paulo, e em outras cidades do paí (e eu já escrevi sobre o assunto aqui até mais de uma vez: para ler, clique aqui, aqui e aqui).

Neste final de semana passado eu pude provar mais duas versões do sanduíche: no Aconchego Carioca, sim, no Aconchego Carioca, o delicioso e brasileiríssimo restaurante da Praça da Bandeira; e no Gonzalo, a querida parrilla uruguaia, no Leblon, mostrando que essa onda não faz distinções de país, e muito menos tem limitações geográficas na cidade.

Na noite de sábado, saindo do jornal, resolvi voltar ao Aconchego Carioca, coisa que eu não fazia há algum tempo. É aquela delícia de sempre. Um serviço que eu acho simpático, uma linda carta de cervejas, algo muito alto na minha estima, já que foi ali que eu voltei a me atrair por cervejas, e o cardápio que me faz feliz, com a sua equilibrada combinação de receitas autorais, como a seleção de bolinhos, ícone da gastronomia brasileira, e pratos clássicos, como o camarão na moranga.

Aconchego Carioca - bolinho de virado à paulista

Pois bem. Nem vou me alongar muito, resumindo a história. Logo que abri o cardápio eu dei de cara com um velho objeto de desejo, nem tão velho assim, é verdade, mas era uma vontade intensa, e imensa. Finalmente chegaram ao Rio de Janeiro os bolinhos de virado à paulista, criados para a abertura da filial paulistana, digna e deliciosa homenagem da Káia Barbosa aos meus amigos paulistanos, receita com massa de feijão carioquinha com recheio de couve, linguiça e ovo. Para acompanhar, pedi uma Red Ale, da Baden Baden, isso para ficarmos em termos de comes e bebes em terras paulistas.

Que maravilha, que beleza, ainda mais porque eu reguei os bolinhos com a boa pimenta da casa, e fiquei numa felicidade gigante, até porque, foi uma surpresa, e eu não esperava encontrar os bolinhos ali.

Aconchego Carioca 1

Depois, vendo o cardápio novamente, dois nomes me chamaram a atenção. Tapa na Cara e Buraco Quente. Perguntei ao garçom do que se tratavam. Tapa na cara é um harburguinho, desses de linhagem simples, só carne e pão, com mostarda e ketchup para acompanhar. Buraco Quente, em louvor à famosa localidade da Mangueira, é um pão com carne moída apimentada. O burguinho da Kátia estava bom, em toda a sua simplicidade, com carne bem saborosa, e um pão muito bom, que realmente chama a atenção.

Aconchego Carioca 2

Mas quem roubou a cena foi mesmo o buraco quente, que estava divinamente bom, com a carne bem puxada nos temperos, destacando-se o cominho, e a pimenta, e eu ainda lasquei umas gotas de malagueta da casa, e foi um momento de pura felicidade, até porque no copo estava brilhando a cerveja Velhas Virgens, da Invicta, a melhor dessas cervejas roqueiras que andam surgindo aos montes, acobreada, bem lupulada, refrescante e encorpada, na medida para acompanhar os sandubinhas, em especial o tal do delicioso Buraco Quente.

Foi uma noite de pura alegria, entre outras razões porque eu estava postando algumas fotos ao vivo no Instagram (meu nome ali é @brunoagostinifoto, eu ficarei feliz se você me seguir).

Não que postar fotos em redes sociais seja algo que, por si só, me faça feliz. O que aconteceu foi que o simpático casal Shalimar Diniz e Romulo Nascimento também estava lá, e somos amigos no Facebook e no Instagram, e então o garçom veio me trazer o recado.

– Acho que tem um pessoal aí que conhece você.

Logo, então, surge o Romulo Nascimento com um sorriso feliz, dizendo que sempre liam das matérias do Boa Viagem, e que já tinha feito alguns roteiros seguindo as minhas matérias, e que tinham sido muito felizes com isso. Feliz fiquei eu, e a gente engatou em um papo agradável, falando de vinhos, viagens, cervejas e restaurantes até o Aconchego Carioca fechar. Realmente foi uma noite deliciosa, com belas surpresas, que fechamos com chave de ouro saboreando uma garrafa grande de Duvel.

E fiquei feliz, ainda, por ter leitores muito legais, cuja confiança que depositam em mim me enche de orgulho. Obrigado mesmo, de coração, pela simpatia, e pela leitura e confiança. E como este post já está longo demais, deixamos as novidade do uruguaio Gonzalo para amanhã, ou para quarta, ok? Porque tô escrevendo no carro, a caminho de Bento Gonçalves, e a agenda lá está intensa. Até mais!!!

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Da horta para a (boa) mesa no Parador Lumiar: o trabalho delicado, criativo e autêntico do chef Isaias Neries

06/12/2013
O chef orgulhoso no meio de sua horta, junto à plantação de uma prima da sálvia, conhecida por nomes como peixinho de horta ou lambarizinho, porque tem textura e sabor que remetem a peixes

O chef orgulhoso no meio de sua horta, junto à plantação de uma prima da sálvia, conhecida por nomes como peixinho de horta ou lambarizinho, porque tem textura e sabor que remetem a peixes

Uma horta com mais de 100 variedades de plantas, entre verduras, legumes, ervas, flores comestíveis e frutas, é o sonho de qualquer chef de cozinha. Pois Isaias Neries, do Parador Lumiar, neste distrito de Nova Friburgo, tem essa riqueza ao alcance das mãos, o que contribui para que o restaurante da pousada seja um dos mais atraentes do interior do estado do Rio, um dos poucos que seguem a filosofia, muito comum na Europa, de ser um hotel de campo aonde as pessoas vão para comer bem e relaxar em meio à natureza.

O risoto de raízes com cogumelo eryngui

O risoto de raízes com cogumelo eryngui

Todos os anos, entre outubro e novembro, ele muda o cardápio, que também sempre ganha novas receitas ocasionalmente, de acordo com a sazonalidade dos produtos, com a oferta da horta. O novo menu, imperdível, entrou em cartaz no dia 16 de novembro, apresentando receitas temperadas por boas doses de criatividade, como o crostini de açaí com queijo de cabra, surubim e tomatinhos marinados ao azeite de vique (esta é uma plantinha que é a base do Vick Vaporub e que dá um toque refrescante aos pratos) e o risoto de raízes com cogumelo eryngui, entre outras boas novas (no final do post eu coloco todos os pratos do novo cardápio).
— O Isaias é um dos chefs mais queridos do Rio de Janeiro, e não há quem o conheça e não goste dele. É uma referência em profissionalismo, carisma e competência. Admiro demais a trajetória dele, a humildade, as convicções e a maneira como ele enxerga a cozinha e o nosso ofício. Ainda não tive a chance de visitá-lo no hotel, mas sei que tem uma horta todinha pra ele, o que me deixa com mais vontade de realizar esse desejo rápido — conta a chef Roberta Sudbrack, uma das tantas fãs da cozinha do chef.

O delicioso risoto de chuchu com capim-limão e lâminas de amêndoas

O delicioso risoto de chuchu com capim-limão e lâminas de amêndoas

No Parador há oito anos, Isaias — que foi sous-chef de Flavia Quaresma, no Carême — combina técnica apurada na cozinha com muita intuição, montando pratos com base clássica mas sempre com uma pitada autoral, levando a sua assinatura. Nesse novo menu encontramos pratos surpreendentes como o nhoque de batata-doce com um toque de canela ao molho cremoso de Parmigiano Reggiano. Para a sobremesa, duas receitas tradicionalmente salgadas brilham no novo cardápio: o risoto de chuchu com capim-limão e lâminas de amêndoas (delicioso) e o ravióli de avelã com banana ao molho cremoso de tomilho (idem).
— Uma das coisas mais difíceis no trabalho de um cozinheiro é encontrar os ingredientes. Aqui eu estou feliz porque tenha uma ótima matéria-prima à disposição. Além de tudo o que eu planto, tenho fornecedores locais para carne de porco, cogumelos, queijos. Assim fica realmente fácil cozinhar — conta o chef, nascido na cidade de Santo Amaro da Purificação, terra de Dona Canô e seus filhos, Caetano Veloso e Maria Bethânia.

Adultos e crianças às margens do lago: hotel nasceu com foco em casais, mas hoje recebe muitas famílias, que muitas vezes vão até lá apenas para visitar o restaurante, aberto a não hóspedes

Adultos e crianças às margens do lago: hotel nasceu com foco em casais, mas hoje recebe muitas famílias, que muitas vezes vão até lá apenas para visitar o restaurante, aberto a não hóspedes

Aos sábados é servida a feijoada, que já fez fama na região, atraindo muita gente que não está hospedada ali. Além de uma admirável seleção de saladas (nada como uma boa horta, de onde saem quase todos os ingredientes, colhidos momentos antes de serem servidos), há o bufê servido sobre o fogão a lenha que domina o salão. Um dos segredos é a variedade de carnes.
— Uso porco fresco, salgado e defumado, e tiro a gordura, buscando uma feijoada que tenha muito sabor, mas seja mais leve — revela o chef, que serve, ainda, no almoço de sábado, uma seleção de doces e compotas caseiras, como a combinação de carambola com rapadura.
Em um imenso terreno junto à entrada do hotel ele planta desde ingredientes mais comuns, como alface, alecrim, tomilho e pimenta dedo-de-moça até outros bem raros por aqui, como ruibarbo, além de ter a possibilidade de colher brotos variados. Entre as mais de 100 hortaliças na plantação orgânica, encontramos brócolis, ervilha torta, rúcula, tomate-cereja, cebola, capim-limão, endro, taioba, couve-flor, nirá, alho poró, mostarda, beterraba, rabanete e gengibre, entre outras variedades.

Resumo da ópera: hoje, o restaurante do Parador Lumiar não é simplesmente um dos melhores do interior do estado, mas está entre os grandes do Rio, considerando os da capital. É uma dessas raras cozinhas que justificam uma viagem. É um dos pouquíssimos restaurantes de hotel (aí, sim, falando dos que estão no interior) que servem uma comida de alta classe aos seus hóspedes (e não hóspedes). Ninguém conquista a admiração da Roberta Sudbrack, e de tanta gente querida e importante no meio da gastronomia carioca, à toa. Fiz ali uma das refeições mais agradáveis e surpreendentes dos últimos meses. Duas, porque ainda teve uma feijoada memorável no sábado, com um louvável bufê de saladas e outro de doces caseiros, além de uma pinga da boa. Eu sei que já estou doido para voltar.

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Agora, o novo cardápio completo.

. Crostini de açaí com queijo de cabra, surubim, tomatinhos marinados ao azeite de vique
. Nhoque de canela com batata doce, parmigiano-reggiano ao molho mi-chèvre
. Albacora sobre pirão de farinha d’àgua do Maranhão com extrato de coco e frutos do mar
. Filé sete luas sobre baião de dois e crocante de chia com tapioca
. Cocainhame com calda de cumaru
. Risoto de raízes com cogumelo eryngui
. Risoto de chuchu com capim limão e lâminas de amêndoas
. Ravióli de avelã com banana ao molho cremoso de tomilho

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 P.S. – Esta reportagem foi escrita para a edição de 14/11 da revista Boa Viagem, do jornal O Globo.

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Gutessen: o saboroso e acessível café judaico de Botafogo

03/12/2013

Há algum tempo eu li que havia sido inaugurado em Botafogo, um dos meus recantos favoritos na cidade, gastronomicamente falando, um pequeno empório judaico, Gutessen, que nasceu como bufê para abastecer a comunidade hebraica do Rio, e suas muitas celebrações religiosas, sempre encontros familiares com cardápios específicos para as ocasiões, com uma série de iguarias típicas.
O negócio fazia tanto sucesso no boca-a-boca que os sócios resolveram abrir um pequeno café, ali na saborosa Rua Visconde de Caravelas, do querido Lima, e do renovado Aurora, no burburinho gastro-boêmio do bairro.
Lugar pequeno e simpático, boa pedida para uma refeição ligeira com preços acessíveis (entradas de R$ 4 a R$ 22; pratos de R$ 20 a R$ 28). Sem contar que é um dos poucos lugares do Rio onde podemos apreciar a culinária judaica (anos atrás, fazendo uma reportagem no plantão dominical, ainda nos tempos de JB, almocei no bufê do Clube Israelita Brasileiro, e curti – do mesmo modo, pretendo conhecer o restaurante ibérico da Casa de Espanha, no Humaitá, em muito breve, para fazer um post para cá).

Gutessen - borsch
O cardápio é enxuto, e pode ser visto neste link aqui (mas com preços levemente desatualizados, o borsch passou de R$ 3,50 para R$ 4, por exemplo). Para começar, um copinho de borsch, a sopa de beterraba que eu tanto adoro desde criança, quando fui apresentado a ela no restaurante russo Dona Irene, em Teresópolis (que, aliás, é uma cozinha, assim como a ucraniana, e outras do Leste Europeu, cheia de influências judaicas – também tem, por exemplo, o varenike: para ler um post sobre a casa, clique aqui ou aqui). Pedi a versão menor, a R$ 4 (a grande custa R$ 12).

Gutessen - salgados
Depois, fui nos salgadinhos. No menu de entradas, há os “beigueles” (de batata, queijo, cebola ou berinjela) e as “burrecas” (de queijo, berinjela ou ricota com cebola). Confesso que não me lembro bem, mas acho que pedi um beiguele de batata (à direita) e uma burreca de queijo (á esquerda), mas confesso que não tenha certeza dos sabores.

Gutessen - varenike
Depois, fui no varenike, aquela espécie de ravióli robusto, com recheio de batata e salteado na manteiga, servido com cebola frita por cima. Em português, podemos chamar de varênique.

Gutessen - varenike 2

Um close nele. Vendido a R$ 20, é uma ótima pedida, uma porção farta e saborosa, que me fez feliz.

Gutessen - sanduíche de língua
Já não tinha fome, mas “linguarudo” que sou como já admiti aqui mais de uma vez, não resisti à língua salitrada, uma espécie de conserva deste órgão bovino, prato típico do Pessach. Mas, em vez de ir no prato, pedi um sanduíche, com pepinos em conserva, uma preparação típica. Estava muito bom. Levei metade para casa.

Gutessen - strudel
Para encerrar, um bem-feito sdrudel de maçã, e um café. Com duas taças de vinho (R$ 12 cada), minha conta deu uns R$ 65, R$ 70. Uma pechincha neste Rio de Janeiro de preços esquizofrênicos.

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“Quero cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro”: vermelho e preto é Flamengo, e ponto final

28/11/2013
Reprodução da TV: a nação rubro-negra pode comemorar

Reprodução da TV: a nação rubro-negra pode comemorar

 

Nada representa mais um clube de futebol do que as suas cores.
E a identificação delas dá a grandeza de uma dessas instituições do futebol brasileiro.
O Flamengo é rubro-negro. O mundo sabe que o Flamengo é rubro-negro. O Vermelhe-e-Preto se confunde com a Nação. No Rio, em Nova York, em Londres, em Dubai ou em Tóquio, o o planeta sabe que o manto sagrado é rubro-negro, sabe que Vermelho-e-Preto é Flamengo.
Pobres dos torcedores dos clubes de cores sem caráter. Não falo do Barcelona grená. Falo do Vasco, do Botafogo, do Corinthians, da Ponte Preta, do Bragantino, do Ceará e tantos e tantos clubes alvi-negros Brasil a foto. Preto e branco é a foto, preto e branco são muitas coisas. Vermelho e preto é Flamengo.
Piores ainda são os tricolores. Tricolor é o Fluminense, é o São Paulo, é o Grêmio, é o Bahia, é o Santa Cruz, são muitos, são milhates, lhes faltam identidades.
O tricolor carioca, por exemplo, tem as cores da Itália, e quando vemos a sua bandeira, ela nada mais é que uma fâmula italiana, com escudo aplicado, mesmo que as faixas seja horizontais, e que o branco seja uma linha fina, em alguns casos. As três cores, me perdoem, só traduzem “tradizione”.
O vermelho e o preto, não. O vermelho e o preto são o Flamengo, aqui e alhures, em quaisquer galáxias. Rubro-Negro é Flamengo.
E ponto final.

 

P.S. – Escrevi este texto na semana passada, durante a primeira partida da final da Copa do Brasil, lembrando do que é, de fato, ser um time grande, único. Obrigado, meu Mengão. Eu gosto de você.

Philippe Moulin e Livia Guerrante juntos no Térèze, no Hotel Santa Teresa: o equilíbrio entre inovação e tradição, experiência e juventude

23/11/2013
Aconteceu exatamente há uma semana. Para ser preciso, uma semana e uma hora.
Convidado para conhecer o novo chef do restaurante Térèze, no Hotel Santa Teresa, neste bairro simpático, e o seu menu, convoquei o meu amigo Pedro, o Mello e Souza, que também atende pela sigla PMS. Meu camarada, editor do site Talheres, Cheguei, e das revistas Eatin’ Out e Casashopping, entre outras, e habitual colaborador do caderno Ela, d’O Globo, meu companheiro de mesa favorito, pela alegria em compartilhar as coisas boas da vida, e pelo amplo conhecimento de causa, porque poucos também sabem tanto sobre gastronomia quanto ele, que não à toa está escrevendo – trabalho de duas décadas – uma enciclopédia sobre o assunto, a maior jamais produzida neste planeta. Pedrão, como eu disse, é meu amigo, meu irmão, e até um ídolo.
Pois eu marquei o almoço para às 13h, mas pegamos um megaengarrafamento na Lagoa, mesmo no início da tarde de sábado, e levamos uma hora de Ipanema até lá. Acabamos chegando às 14h. Tarde de sol, mas com calor moderado, nem parecia novembro.
O hotel é um gay-friendly, de modo que o porteiro nos recebeu perguntando se chegávamos para o check-in, ou se tínhamos reserva no restaurante.
Era só um almoço  de trabalho entre amigos.
Atravessamos o jardim tropical. Clima de festa na piscina, champanhe e música rolando, descemos as escadas e foi realmente muito gostoso, a primeira delícia daquele sábado, entrar no salão bem refrigerado.
Térèze - Livia Guerrante
A graciosa sommelier Livia Guerrante se encarregou do serviço, com eficiência e elegância, e beleza, o que, se não é fundamental, ao menos é sempre bom.
Térèze - Amalaya
Ela jogou, de certo modo,  na defensiva, apostando em vinhos desses que são certeiros, com um ou dois lances mais ousados, escolhendo um percurso enogastronômico equilibrado. O primeiro acerto da moça foi logo este Amalaya 2012, um branco argentino vigoroso, surpreendente corte de Riesling e Torrontés produzido nas alturas da região de Salta, que combina frescor e potência aromática, cheio de fruta, como maçã verde,  e especiarias, como gengibre, uma beleza.
Térèze - couvert
Foi com ele na taça que tudo começou alegremente, com o couvert que tem a grandeza da simplicidade. Cesta de pães quentinhos, tapenade e manteiga com um toque de flor de sal. Para mim, mais que suficiente para iniciar uma grande refeição.
Térèze - tartare de salmão 1
Se o o couvert e o vinho já estavam tratando de deixar a mesa feliz, a chegada do tartare de salmão fresco, com espuma de coco e raiz forte, com molho de pimenta chipotle e guacamole apresentou muito bem as credenciais do chef francês Philippe Moulin – que assumiu a cozinha da casa, mantendo a conexão do lugar com o país. Casado com uma brasileira, ele veio do México – chegou com indicação do Claude Troisgros -, e trouxe na bagagem um tempero típico da terra da tequila.
Térèze - tartare de salmão 2
Além da pasta temperada de abacate, e da pimenta porreta, ele espalhou brotinhos de coentro, reforçando a sua influência chicana. A espuma de coco dava leveza ao conjunto, e a pimenta emprestava a sua eletricidade, enquanto o guacamole tratava de dar untuosidade, e o aro de massa crocante dava o contraste de textura. E o vinho brilhou, arredondando isso tudo, jogando acidez na brincadeira, e a sua complexidade de sabores. Casamento perfeito, que me fez vislumbrar uma refeição brilhante, como de fato aconteceu.
Térèze - foie gras 2
Do mil folhas de foie gras com pão de especiarias, tipo terrine, coberta com fina camada de geleia de vinho do Porto e  um vinagrete trufado, posso dizer que foi das melhores receitas que já provei com o fígado gordo. E aí, a Livia novamente apostou em um vinho bem ajustado à receita, mas desta vez me surpreendeu, servindo um Chandon Brut Rosé, espumante brasileiro desses que honram a nossa fama nesta categoria. Um prato cheio de sabor, rico, com texturas diferentes, contrastes… Ela tinha muitas possibilidades de escolha, e o espumante rosado, com seu frescor, sua cremosidade e corpo levemente taninoso conseguiu encarar com galhardia o foie gras, temperando a receita com sua explosão de frutas vermelhas, e limpando a boca, seguidamente, para a garfada seguinte, criando um processo gustativo cheio de nuances.
Térèze - foie gras 1
Gostei, e ainda achei bonito.
Térèze - lagosta
Um tartare, um foie gras e, seguindo uma trajetória segura e certeira, chegou uma lagosta. Bem, não era uma lagosta qualquer. Olha para isso.  Posso dizer, foi um dos melhores pratos que comi este ano, em toda a sua simplicidade e grandeza. Foi, também, uma das melhores lagostas que já provei, grelhada à perfeição, na casca e temperada com sal grosso, como deve ser, com um lado tostadinho, e o outro quase cru, criando diferentes camadas de sabor. Comeria umas 15 dessas. Talvez 20. Ao lado, uma cumbuquinha com risoto de moqueca, e um molho “beurre blanc” jogando o sabor às alturas, me fazendo lembrar o ditado inglês: “Everything gets better with butter”.
Térèze - Pouilly-Fumé
Sim, tudo fica melhor com manteiga. E, neste caso, ficou ainda melhor, mas muito melhor, por conta do vinho servido, o Pouilly-Fumé Mademoseille de T 2011, um lindo Sauvignon Blanc “du Château de Tracy”, mineral, cítrico, profundo, transformando a lagosta em algo ainda mais divino. Pensei até em encomendar uma missa de ação de graças em homenagem à dupla lagosta-vinho.  Fez por merecer o louvor.
Térèze - cordeiro
Pois, como dizia, o cardápio tem raízes clássicas, seguindo um percurso impecável. Assim, o que poderíamos ter na próxima etapa que não um cordeiro? Pois, sim, foram as suas costeletas que chegaram à mesa. O prato, chamado “churrasco de cordeiro” tinha aqueles bifinhos colados ao osso, em crosta de castanha, com molho de pimenta verde e menta, polenta branca e batata-doce picante, novamente trazendo influências apimentadas do México, em comunhão com o tradicional corte francófilo do carneiro bebê, de carne saborosa e delicada. Novamente, o ponto de cozimento da carne, como acontecera com a lagosta, chamou a atenção. Miolo rosadinho, suculento, como manda a regra. Foi um delírio.
Térèze - Jean-Luc Colombo Les Abeilles
Porque o churrasco de cordeiro foi elevado à condição de sensacional não apenas pelo ponto e qualidade da carne, mas também pelo vinho escolhido. Rhône, e a Shiraz, de uma maneira geral, são a mais perfeita companhia para churrascos, de uma maneira geral, e para o cordeiro, de modo mais específico. Então, um belo cordeiro no prato, com um lindo Rhône da taça, no caso o Jean-Luc Colombo Les Abeilles 2011, um Côtes do Rhône que é garantia de felicidade plena e absoluta.
Foi uma alegria.
Fazendo um resumo rápido do almoço: todos os pratos estavam muito bons, e os vinhos escolhidos realçaram cada receita, sem se sobrepor ou se intimidar, criando um resultado delicioso. Se eu tiver que pensar em uma refeição perfeita, essa certamente está entre elas. Um circuito com quatro pratos, com perfil clássico, explorando ingredientes de caráter distinto, numa sequência de tirar o fôlego. Foi assim, sob esse entusiasmo, que nasceu a ideia, que pretendemos repetir outras vezes.
- Pedrão, porque não combinamos de escrever um post cada um, e publicarmos juntos? Vamos armar de fazer isso?
Aí, assim, acertamos de publicar hoje, sábado, às 13h. O meu está aqui, o post do Pedro está lá no Talheres, Cheguei (para ler, clique aqui neste link).
Térèze - chef Philippe Moulin
Ao final, o chef veio até a mesa, para saber como foi. Não contive o meu entusiasmo, mas desconfio que Philippe Moulin não tenha conseguido, mesmo com meu discurso elogioso, entender o quanto eu gostei do almoço. E a mesma ideia tenho a respeito do trabalho da Livia, que deu suporte à altura à cozinha. Gosto de chefs criativos, de receitas inovadoras, da cozinha ultracontemporânea. Mas, para mim, felicidade à mesa é muito mais isso, um cardápio de base clássica, com poucas intervenções inteligentes, deixando os ingredientes se mostrarem. A comida como ela é. Essa foi uma das grandes refeições do ano, e se tem uma coisa da qual não posso me queixar é dos restaurantes que frequentei neste 2013 que está terminando (ainda bem). E esse almoço no Térèze, pela qualidade da comida, pelos vinhos servidos, pela companhia à mesa, e pelo sol brilhando lindamente lá fora, foi um dos melhores.
Térèze - pâtisserie de cupuaçu 2
E eu já tinha isso em mente quando chegou a sobremesa, uma composição de cupuaçu, com uma infusão de capim-limão do jardim, com um toquezinho de cachaça, dando aquele temperinho brasileiro ao final. Um doce pouco doce, como eu prefiro.
Térèze - café
Veio o café. E uns macarons de chocolate a acompanhar.
Térèze - árvore na parede
E, na hora de ir embora, ainda dei de cara com esta obra de arte, feita em conjunto por homem e natureza. Como, pensando bem, uma grande refeição. A Natureza entrega os ingredientes. O chef, o enólogo e o sommelier tratam de transformam essa matéria-prima em algo sublime.
Bravo!!!!
Valeu, meu amigo Pedro.

Obrigado, Livia Guerrante.

Merci, Philippe Moulin.

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