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Guia 450 Sabores do Rio 45 – Chico & Alaíde: um boteco-boteco, com alma e cozinha brasileira de primeira linha

13/04/2015
O choquinho de camarão é um dos melhores petiscos da cidade: um enorme crustáceo empanado em massa leve, recheado com catupiry e envolvido por uma camada de batata palha antes de ser frito

O choquinho de camarão é um dos melhores petiscos da cidade: um enorme crustáceo empanado em massa leve, recheado com catupiry e envolvido por uma camada de batata palha antes de ser frito

Alaíde é uma cozinheira e tanto. Falando de comida brasileira, é uma das grandes referências do país. Começou no Bracarense, onde deu forma ao mais famoso acepipe da casa, o bolinho de aipim com camarão e Catupiry, trabalhando na apertada cozinha, e servindo carnes assadas, pernis, feijoadas, rabadas, costelinhas, empadas e outros quitutes seguindo a mais fina linhagem da cozinha popular carioca. Em parceria com Chico, o colega de Braca, o garçom mais popular do Leblon, abriu o seu próprio bar, onde deu prosseguimento ao seu talento culinário, apresentando um cardápio que é quase um sonho aos que gostam de comida brasileira, ali tratada com esmero, e originalidade em alguns casos. Lá ela serve tudo isso citado acima. Mas, ao abrir a sua casa, Alaíde teve um surto criativo (que perdura, com menor intensidade), e assim nasceu uma seleção de petiscos realmente fora de série. Há condensações de pratos como o baião-de-dois, chamado cascudinho, versão em forma de bolinho, empanado com torresmo e queijo coalho. Nesse ímpeto de construções de novos acepipes Alaíde inventou o choquinho de camarão. Um monumento. Um dia, quem sabe, farão uma estátua de bronze, coisa que anda na moda na cidade, louvando Alaíde e seu choquinho de camarão, e ela será colocada justamente ali, naquele entrocamento da rua Dias Ferreira com a Bartolomeu Mitre, no Leblon, endereço deste bar que, embora tão jovem (inaugurado em março de 2009), já seja um clássico. Pois o tal do choquinho de camarão é um enorme crustáceo empanado em massa leve, recheado com catupiry e envolvido por uma camada de batata palha antes de ser frito. É uma das melhores criações da gastronomia carioca nos últimos anos. Mais que uma usina de bolinhos criativos, o Chico & Alaíde é um boteco-boteco. Tem manjubinha frita, diversas fritadas (até de siri mole), croquete de carne, vinagrete de polvo, sanduíche de linguiça, rissoles camarão, empada de siri, frango à passarinho, lula à dorê, filé aperitivo, isca de peixe, carne-seca com aipim, isca de fígado com jiló, torresmo, caldinho de feijão, coxinha de galinha e todo aquele tradicional repertório de petiscos que tão bem acompanham um chope gelado. Com pimenta da casa. Os PFs podem ser considerados entre os melhores da cidade. Vá no de carne assada. E com preços realmente que valem a pena. Comida com alma, boa e barata. No Leblon. O Chico & Alaíde é único.

CHICO & ALAÍDE – Rua Dias Ferreira 679, Leblon. Tel. 2512-0028. De seg. a qui., das 11h30m à meia-noite; sex. e sáb., das 11h30m à 1h; dom., de 11h30m às 22h. www.chicoealaide.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 44 – Guimas: o mais carioca dos bistrôs e sua cozinha aconchegante

12/04/2015
O filé à milanesa, servido com salada de batatas, pode vir em versão aperitivo, já cortado para ser compartilhado pela mesa

O filé à milanesa, servido com salada de batatas, pode vir em versão aperitivo, já cortado para ser compartilhado pela mesa

Existem muitos restaurantes e chefs franceses no Rio. Nenhum, porém, é tão bistrô quanto o Guimas, que mesmo assim pode ser considerado um dos mais cariocas dos restaurantes. Porque o conceito de bistrô tem a ver com informalidade, com a cozinha caseira e o ambiente familiar, frequentado pelos moradores da redondeza e com forte identidade local. O Guimas é tudo isso, e muito mais. Tão carioca que é, o Guimas – inaugurado em 1981 – chega a ser boemio. Está encravado no Baixo Gávea, onde bate forte o espírito notívago da cidade, mesmo com as restrições de horário dos últimos anos (a cozinha fecha à uma da madrugada, mas o povo ainda fica um tempo por lá). Mesmo sendo bistrô, tem forte identidade lusitana, já que as famílias Guimarães e Mascarenhas (sacou a origem do nome?), os fundados e ainda à frente do negócio, agora com as novas gerações ajudando nos trabalhos, são de origem portuguesa. Daí os bolinhos de bacalhau muito bons que ótima pedida para começar. O couvert tem aquele jeitinho de antigamente, com pão feito na casa, quentinho, lembrando uma sacadura, e seu acompanhamentos: patê da casa, boursin, manteiga, azeitonas e os sumidos palitos de cenoura, servidos em um copinho. Seguindo a linhagem confortável e tradicionalista da casa, a lista de petiscos inclui famosos croquetes de carne e pastéis de brie, e carpaccio de carne, com rúcula e parmesão. Chamado de Best Burger, o hambúrguer do Guimas leva molho brie e gorgonzola e vem com batata frita e salada. Às sextas-feiras no almoço tem um cultuado steak tartare, seguindo a escola francesa, e ele não poderia deixar de existir em um bistrô. Na lista de receitas mais emblemáticas do restaurante, Portugal está bem representado, pelo bacalhau à Brás (desfiado com cebola, ovo, salsa e batata palha) e pelo arroz de pato, com tempero de cenoura e alho-poró, além do paio de sempre. As carnes são a especialidade. Se estiverem em cartaz, peça a costeleta de cordeiro ao molho de mostarda. Não menos que perfeitas. O filé do Chico está entre os mais pedidos, com molho de vinho, champignons e creme, acompanhado de batata palha e arroz. Outro clássico de bistrô, o steak au poivre tem ótima execução. O picadinho com farofa, banana, arroz, feijão e ovo celebra a mesa carioca. E outro prato clássico da cozinha tradicional do Rio de Janeiro, nascido nas casas alemães mas que se alastrou por toda a cidade, o filé à milanesa com salada de batatas do Guimas é digno de tombamento, assim como os do Bar Luiz e o do Herr Pfeffer, este sim um legítimo germânico, cada qual ao seu estilo. No restaurante da Gávea a carne vem macia,   quase do tamanho de um prato, com a salada cremosa, de maionese caseira, temperada com cheiro verde, vem em cumbuca à parte, com um pratinho com limão cortado e a mostarda. Pode ser pedido como prato principal, ou em versão aperitivo, já cortado, para ser petiscado pelos comensais. Vai bem com cerveja. Vai bem com vinho branco, e vai bem com tinto leve. Vai bem com tudo. E depois de repasto aconchegante assim, tem doce de leite (dos melhores do Rio), goiabada com flan de queijo coalho, mil folhas, pudim de chocolate e até sundae para quem quiser lembrar um pouco da infância.

GUIMAS – Rua José Roberto Macedo Soares 5, Gávea. Tel. 2259-7996. Diariamente, do meio-dia à 1h. www.restauranteguimas.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 41 – Bar da Portuguesa: o mais botequim dos botequins e seu torresmo fora de série

09/04/2015
O torresmo do bar da Portuguesa: é preciso destacar, e reverenciar, o torresmo do Bar da Portuguesa. O toucinho de porco frito, essa instituição dos botequins do Brasil, essa estigmatizada iguaria, que vemos sumir dos bares da cidade, esse pobre petisco execrado por cardiologistas, porque essa esse crocante bocado é preparado à perfeição no Bar da Portuguesa, e não se tem notícia de que haja melhor torresmo no Rio

O torresmo do bar da Portuguesa: é preciso destacar, e reverenciar, o torresmo deste boteco clássico de Ramos. O toucinho de porco frito, essa instituição dos botequins do Brasil, essa estigmatizada iguaria, que vemos sumir dos bares da cidade, esse pobre petisco execrado por cardiologistas, porque essa esse crocante bocado é preparado à perfeição no Bar da Portuguesa, e não se tem notícia de que haja melhor torresmo no Rio

Se imaginarmos o arquétipo perfeito de um botequim carioca ele: 1) Deverá estar localizado em uma esquina; 2) Será administrado por uma família portuguesa; 3) Bolinho de bacalhau precisará ser muito bom; 4) A vitrine aquecida obrigatoriamente exibirá torresmo; 5) No cardápio haverá sardinha frita e jiló; 6) O salão será abençoado por um altar em louvor a São Jorge; ) A pimenta da casa terá que ser da boa; 8) A clientela mesclará bebuns e famílias; 9) Os preços precisarão ser honestos, para não dizer módicos; 10) A comida, como um todo, deve ser farta e muito saborosa. E seria desejável, mas não item obrigatório, como os anteriores, que ele estivesse localizado no subúrbio. Pois o Bar da Portuguesa, em Ramos, se enquadra em todos os dez requisitos, nos 11, considerando a condição geográfica, elemento importante por conta da ambiência. Sem falar na cerveja bem gelada, item tão óbvio que os não o obedeçam já são desclassificados de cara.Talvez seja o mais botequim dos botequins brasileiros. Tem alma. E coração. E muitos outros elementos qualitativos, ainda mais em se tratando de um boteco de administração familiar, com dona Donzília, a matriarca, trabalhando ao lado dos filhos Paulinho e Cris, os três sempre por lá. Tem um altar para São Jorge, e mesas espalhadas pela calçada. A frequência mescla com absoluto equilíbrio os bebuns que não podem faltar em botequim que se preze, com famílias reunidas, grupos de amigos barrigudos com camisas de times de futebol, moças formosas, moradores do bairro com forasteiros atraídos pelo excelente repertório de comidas, e as cervejas, sempre geladas. Podemos elencar diversos itens como a especialidade da casa: os bolinhos de bacalhau, e a fritada do mesmo peixe, ambos entre os melhores do Rio. O “sanduíche” formado por duas bandas de jiló recheado com carne-seca (este, tradicionalmente servido apenas aos domingos), lambuzado por delicioso molho com tomate, os bolinhos de aipim com recheio copioso de camarão, de massa leve e recheio abundantemente bom… As empadas… A sardinha frita, que vai chegando em levas de cinco à estufa do balcão, e logo é servida, e assim está sempre deliciosamente fresquinha. Sem falar nos pratos do dia. Porque se domingo é dia de jiló com carne seca, e de carne assada, as quintas é servida uma famosa e concorrida sopa de siri (que no inverno fica ainda melhor) e, às sextas, mocotó, mas bom mesmo são os sábados, quando tem salada de bacalhau, e punheta, feita com o mais lusitano dos peixes. Tudo muito bom, tudo muito bem. Mas é preciso destacar, e reverenciar, o torresmo do Bar da Portuguesa. O toucinho de porco frito, essa instituição dos botequins do Brasil, essa estigmatizada iguaria, que vemos sumir dos bares da cidade, esse pobre petisco execrado por cardiologistas, porque essa esse crocante bocado é preparado à perfeição no Bar da Portuguesa, e não se tem notícia de que haja melhor torresmo no Rio. Vai bem com uma cerveja gelada que é uma beleza. E um copo de boa pinga, com uma rodela de limão ao lado, também vai muito bem. Esse Bar da Portuguesa é mesmo um baita de um botequim. Inaugurado em 192, era frequentado por Pixinguinha. Só isso, apenas isso.

BAR DA PORTUGUESA – Rua Custódio Nunes 155, loja D, Ramos. Tel. 2260-8979. De seg. a qua., das 17h às 23h; qui. e sex., das 1h à 1h; sáb., das 10h às 18h; dom., das 10h às 18h. Aceita cartões.

Divino Malte: uma das melhores lojas de cerveja do Rio vende a mítica Westvleteren 12

08/04/2015
A deliciosa californiana Sierra Nevada Pale Ale, novidade no Brasil: lançamento a R$ 15, depois sobre para R$ 20

A deliciosa californiana Sierra Nevada Pale Ale, novidade no Brasil: lançamento a R$ 15, depois sobre para R$ 20

Conheci a loja Divino Malte através de sua própria insistência. Comecei a receber e-mails divulgando esta loja de cerveja. Apagava todos, até que um me chamou a atenção. Isso porque anunciava a cerveja Sierra Nevada Pale Ale a R$ 15. O rótulo está chegando agora ao Brasil, e é muito bom, por sinal, um belo representante da escola californiana, com boa carga de lúpulo, muito perfumada e com estrutura elegante, paladar fino. O praço é muito bom, visto que eu já paguei US$ 5 por uma garrafinha dessas em uma deli de um hotel da Flórida. Ou seja, com o câmbio atual, está mais barato aqui do que nos EUA. Isso quase nunca acontece com nenhum tipo de produto, ainda mais os americanos. Pois então fui ver, e descobri que a loja fica ao lado de minha casa, a apenas três quadras, exatamente na rua Visconde de Pirajá 437, é a loja “i” de uma galeria comercial como tantas do bairro.
A loja fica lá nos fundos, e é miúda. Mesmo assim, está sempre lotada, com seus seis ou sete clientes, capacidade máxima do lugar. Pedi uma Sierra Nevada Pale Ale, e falei sobre o preço.
– É uma promoção de lançamento. Depois, vamos subir. Vamos vender a R$ 20 – disse o atendente.

A loja Divino Malte, em Ipanema, tem rótulos como os da japonesa Kuchi Brewery e da americana Blue Moon

A loja Divino Malte, em Ipanema, tem rótulos como os da japonesa Kuchi Brewery e da americana Blue Moon

Ok, ainda assim está um valor ok. Os preços que praticam ali são os melhores que já vi na Zona Sul. Tipo Noi Amara a R$ 30. Era uma quarta-feira à tarde, e na TV passava um jogo da Liga dos Campeões. Toda hora entrava alguém, para comprar uma cerveja, ou para beber ali. Pelo espaço diminuto, rola uma intimidade quase obrigatória entre os frequentadores, que acaba, conversando sobre cerveja, muita cerveja, além de futebol, política, Rio de Janeiro. Como toda a mesa de um bar, o que o Divino Malte não deixa de ser. Para comer, só amendoins, ofertados como cortesia.
Continuo recebendo os e-mails deles. Pois então hoje chega mais um que me chama a atenção. No assunto estava escrito: “DIVINO MALTE | WESVLETEREN 12”.
Para quem não sabe, esta é provavelmente a mais cultuada cerveja do mundo. Raríssima, é vendida em pequenas quantidades no mosteiro belga onde é produzido, manipulada exclusivamente pelos próprios monges (daí a produção muito limitada). É a Browerij der Abdij van St. Sixtus, localizada na cidade de Westvleteren (ou Sint-Sixtusabdij Westvleteren, segunda outra grafia). Para visitar o site da abadia, clique aqui.

A Westvleteren 8, um pouco mais leve e menos alcoólica que a Westvleteren 12, sobre a mesa do bar do Antiquarius

A Westvleteren 8, um pouco mais leve e menos alcoólica que a Westvleteren 12, sobre a mesa do bar do Antiquarius

A Westvleteren 12 é um mito do universo cervejeiro, e beber uma dessas garrafas é um privilégio. Honra que eu pude ter através da generosidade de uma amiga, que foi até a Bélgica, e trouxe algumas dessas joias na mala (na mesma noite provei ainda a Westvleteren 8 e a Westvleteren 10, e fizemos isso no Antiquarius, comendo entre outras coisas bochechas de javali!). Na foto acima, aparece a Westvleteren 8, com detalhes em azul na tampinha.

As Westvleteren 8 e 12, no Antiquarius, em foto do Instagram (@brunoagostinifoto)

As Westvleteren 8 e 12, no Antiquarius, em foto do Instagram (@brunoagostinifoto)

Mas falamos da Westvleteren 12, a maioral, ícone maior desta abadia, pra muita gente, como dizíamos, a melhor cerveja do mundo, acima  em foto do Instagram (@brunoagostinifoto) ao lado da 8.
É uma cerveja corpulenta, afinal tem pelo menos 10,2% de álcool, e uma base de malte densa, untuosa, ampla. Musculosa e firme, a Westvleteren 12 (também se usa a numeração romana, XII) tem notas finas de padaria, malte e fermento, com algo que remete a frutos secos, como passas, ameixas e tâmaras, lembrando até um Jerez Pedro Ximenez. Tem aromas de chocolate amargo, especiarias… Uma loucura.
Lançada oficialmente em 1941, com nome oficial de Sixtus, a partir de 1992 adotou o nome Westvleteren depois de uma briga com a cervejaria vizinha St. Bernardus, com quem tinha uma parceria. A Justiça, então, determinou que ninguém poderia usar o nome Sixtus (o nome do mosteiro é Abadia de São Sisto). Lá na abadia uma caixa com 24 garrafas de 330 ml custa 40 euros, ou 52, para quem não tiver a caixa de madeira e os vasilhames para trocar.
Pois a Divino Malte está fazendo, até o próximo sábado, dia 11, a pré-venda desta cerveja mítica, a famosa garrafa sem rótulo, com tampinha com detalhes em amarelo. Vai custar R$ 175. Barato realmente não é… Mas da última vez que ouvi falar da venda da Westvleteren 12 no Rio ela custava R$ 250. Em São Paulo, soube da venda no Empório Alto de Pinheiros a R$ 190.

DIVINO MALTE – Rua Visconde de Pirajá 437, Loja i, Ipanema. Tel. (21) 3563-9491. http://www.divinomalte.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 40 – Cachambeer: um boteco épico, com petiscos heróicos e deliciosos

08/04/2015
Meninas ficam espantadas, e encantadas, com o costelão recém-saído do forno de bafo, onde fica por horas assando lentamente

Meninas ficam espantadas, e encantadas, com o costelão recém-saído do forno de bafo, onde fica por horas assando lentamente

Há um certo sentido épico na existência do Cachambeer. Numa bebedeira, Marcelo Novaes, o dono atual deste boteco com trocadilho anglófilo no nome tipicamente carioca, acabou comprando o bar, do qual era frequentador assíduo. Hoje ele preserva o ritual copioso e está lá, batendo ponto dia sim, outro também, ajudado por sei fiel escudeiro, o Pança, que comanda a churrasqueira com heroísmo heróico, na calçada. Como Don Quixote e Sancho Panza, formam uma dupla e tanto. Marcelo montou um boteco de sonhos, quase um devaneio. A costela no bafo é uma epopeia carnívora, os ossos expostos, a carne longamente assada por horas e horas, do tipo que se desmancha ao olhar, nem precisa colher, aquela cebola desmaiada que ajusta o sabor, dando delicados contornos adocicados. Há porções de tamanhos variados, para até seis pessoas. As menores servem três. Quatro até, caso recorram aos petiscos preliminares. Até seis ou oito, até dez, caso as pessoas encarem o costelão como tapa, a maneira espanhola do petiscar comunitário. Com pompa e circustância. O cardápio é enorme, investindo pesado nas iguarias mais calóricas possíveis, e das mais apropridas para serem divididas entre muitos, entre elas duas das porções mistas, no meio de uma seleção com várias, uma chamada Infarto Completo, outra de Tábua Hipertensão (o primeiro, com torresmo, coração e aipim, entre oito itens; e o segundo um combinado com sete carnes, como cordeiro, paio, camarão à milanesa e costelinha de porco, com dois molhos: rosé e barbecue). Outro elemento de destaque é o palmito in natura, coberto com muito camarão e Catupiry (mesmo crustáceo que estrela um dos pastéis mais famosos da casa). O chamado Porquinho embriagado é uma costelinha laqueada em muita cerveja preta, servida com farofinha de bacon, alho torrado e uma dose de pinga. Tudom na medida exata. A deliciosa loucura prossegue com a língua faladeira e o jiló (o músculo bucal bovino em rara e feliz namoro com o vegetal amargo), o joelhão de porco à pururuca e o prato batizado como Olha a marra do porquinho, nada menos do que nacos robustos de barriga suína lindamente assados ao alho e servidos com dois molho: o de mel e mostarda e o de limão com abacaxi. Veja só que abuso…

CACHAMBEER – R. Cachambi 475, Cachambi. Tel. 3597-2002. DE ter. a sex., das 17h à meia-noite; sáb., do meio-dia à meia-noite; dom. e feriados, do meio-dia às 18h. http://www.cachambeer.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 39 –Bar da Gema: um boteco bem bolado que serve polenta, torresmo, pastel, lasanha, coxinha, hambúrguer…

07/04/2015
Uma das estrelas do cardápio do Bar da Gema é a polenta que, coberta com rabada desfiada, é dos melhores petiscos em cartaz no Rio

Uma das estrelas do cardápio do Bar da Gema é a polenta que, coberta com rabada desfiada, é dos melhores petiscos em cartaz no Rio

O Bar da Gema tem um histórico muito particular, e ao mesmo tempo muito bem representa a nova geração de botequins do Rio de Janeiro. Resultado da união de amigos que fizeram faculdade de gastronomia, a dupla Luiza Souza e Leandro Amaral, tem uma lista vasta de quitutes bem bolados, e com execução segura de quem sabe cozinhar, com técnica, um pouco de criatividade e respeito às tradições culinárias. Desse modo, encontramos ali coxinha, hambúrguer, caldinhos, lasanha, polenta, pastel e torresmo. Mas sempre com uma bossa. Símbolo maior desse borogodó simpático é a polenta que, coberta com rabada desfiada, é dos melhores petiscos em cartaz no Rio. Nem muito alta, nem muito fina, a massa de farinha de milho é grelhada, ganhando uma camada externa douradinha e crocante, protegendo o interior cremoso. Cortado em quadradinhos, serve de base para a carne do rabo bovino muito bem cozida, se desmanchando, com um toque de cheiro verde, para dar vivacidade. Nas noites de terça rola uma coxinha de galinha, que muita gente boa considera a melhor do Rio. Às quartas, a turma que vai até lá ver o futebol, tem como iguaria do dia o hambúrguer de peito bovino com compota de berinjela e muçarela, com batatas rústicas e molho béarnaise. Golaço! Tem pastel, sim. Mas de mortadela com cebola e de feijão gordo. Caldinho? Mas é claro. Só que é caldinho de jiló, versão líquida e bem temperada deste ingrediente clássico dos botequins carioca, temperado com alho frito, com textura admiravelmente cremosa. A lasanha é de jiló, fazendo as vezes de massa. A montagem é vertical, com umas quatro camadas do jiló entremeadas por igual quantidade de andares de queijo, e de uns pedacinhos de linguiça, com um bom e encorpado molho de tomate regando todo o lindo conjunto. Outro bom exemplo do nível do menu é o petisco que atende pelo nome de Péla égua: “É uma trouxinha de couve recheada com canjiquinha e queijo. E coberta por um molho de linguiça”, como define o próprio criador, o chef Leandro Amaral. Como bom botequim que se preze, há torresmo, tipo pipoca, dos bons, uma companhia esperta para apurar a sede, e derramarmos mais cerveja goela abaixo, muito próprio para embalar o papo com os amigos. A última criação da dupla Luiza Souza e Leandro Amaral foi para a edição 2015 do Comida di Buteco: uma porção de cubos de frango acompanhado de farofa de quiabo de milho flocado. Mais um motivo para corrermos até lá para conferir a novidade.

BAR DA GEMA – Rua Barão de Mesquita 615, lojas C e D, Tijuca. Tel. 2208-9414. De ter. a qui., das 17h à meia-noite; sex., das 17h à 1h; sáb., das 13h à 1h; dom., do meio-dia às 19h. Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 38 – Bar da Frente: um boteco original e imperdível, com seus petiscos deliciosos com nomes impagáveis

06/04/2015
O fofinho de camarão é uma espécie de bolinho de chuva em verão salgada, recheado com o crustáceo envolto em Catupiry. Simplesmente isso...

O fofinho de camarão é uma espécie de bolinho de chuva em verão salgada, recheado com o crustáceo envolto em Catupiry. Simplesmente isso…

Imagine um daqueles bolinhos de chuva, a massa aerada e macia, em versão salgada. Carregando em seu interior delicadamente esponjoso um camarão espetado em um palito, e envolto em uma colherada de Catupiry, é um daqueles petiscos dignos de antologia. Batizado adequadamente de fofinho de camarão, é uma das estrelas principais do Bar da Frente, um desses botecos essenciais para entender o que se passa na gastronomia tradicional do Rio de Janeiro. Com muita imaginação, cuidado e inteligência no desenvolvimento, além de carinho e técnica no preparo, nasceram nos últimos anos várias receitas que trabalham com clássicos do gênero, categoria na qual o Aconchego Carioca é ícone, com os seus bolinhos de feijoada, e outras reinterpretações (e cabe dizer que o bar da Frente funciona no mesmo local de fundação do Aconchego, agora do outro lado da rua, e assim nasceu o nome do bar pilotado por Valéria e Mariana Rezende, mãe e filha, sempre presentes, e amigos da Katia Barbosa, e de toda a turma do Aconchego). Pois o Bar da Frente, é dos mais aconchegantes e cariocas dos botecos. Pequeno, tem a medida exata da intimidade. Vamos ao banheiros, e damos um alô para a cozinha. A varandinha de poucas mesas é muito aprazível, e pedimos alguma das bem escolhidas cervejas da carta, baseada em rótulos nacionais. O repertório de belisquetes é um primor. Além dos fofinhos de camarão, há as mini coxinhas com fondue de queijo. Pois é isso mesmo. O salgadinho em versão miúda é servido junto de um pequeno réchaud que mantém aquecido uma cremosa fonduta de queijo. E se fazer bolinhos virou moda, o Bar da Frente criou uma versão certeira do estrogonofe, a melhor que se tem notícia entre as tantas variações de croquete deste prato de carne, em formato comprido, com interior cremoso e casquinha crocante, para ser passado em batata palha, que vem ao lado. Quer mais? Temos o indecente e delicioso porquinho de quimono, de nome muito bom. Isso porque se trata de um harumaki de massa crocante recheado com costelinha suína defumada e desfiada com requeijão. E o repertório não termina nas entradas, seção que inclui ainda uma das melhores moelas do Rio, cozida em molho de tomate e vinho. Entre os pratos principais, o arroz de rabada está entre os campeões. Os nomes são tão bons quanto a comida. O arroz de puta rica é outro prato ícone, feito com linguiça, carne-seca, frango, filé-mignon, ervilha, cenoura, milho, palmito, azeitona e dois ovos estrelados, coroando lindamente a refeição, farta. Outro exemplo é o camarão à Chica Louca, salteado no vinho branco, com alho poró, que põe um temperinho francófilo neste boteco tão autêntico, e tão carioca. Uma das maiores joias da gastronomia do Rio.

BAR DA FRENTE – Rua Barão de Iguatemi 388, Praça da Bandeira. Tel. 2502-0176. De ter. a sáb., do meio-dia à meia-noite; dom., do meio-dia às 18h. http://www.bardafrente.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 37 – Bar do Momo: o boteco de cozinha criativa na Muda, e o seu clássico bolinho de arroz

05/04/2015
Bar do Momo - Bolinho de arroz

O bolinho de arroz com queijo e linguiça do mar do Momo, um clássico da casa: tem recheio cremoso e a casquinha bem dourada, e merece gostas de pimenta para intensificar o seu sabor.

 

O Bar do Momo alcançou o estrelato. Entrou na rota dos melhores botequins do Rio, chamando a atenção para o pequeno balcão. Por trás do sucesso está Antonio Carlos Laffargue, o Toninho do Momo, como é conhecido o jovem cozinheiro, que assumiu o comando das panelas do antiga negócio familiar, e começou a aprontar. A origem do burburinho ao redor deste boteco miúdo da Muda são os bolinhos de arroz com queijo e linguiça, uma simples ideia brilhante, com interior saboroso e cremoso, cheio de sabor, com a casquinha dourada. É o clássico da casa, tipo de petisco obrigatório em uma primeira visita. Na segunda, também. Ir ao Momo significa comer bem, e comer os tais bolinhos. Merece gostas de pimenta para intensificar o seu sabor. No lugar são servidas refeições substanciosas, e com direito a algumas provocações, como o divertido farol de milha, uma bem executada combinação entre fatias de carne assada recheada com linguiça, daquelas bem saborosas, com molho denso, imersas em queijo meia-cura derretido, com um ovo frito em cima, o próprio farol de milha… Torradas de alho estratégicas chegam junto, justamente para serem usadas de várias formas: pode ser afundada no molho ou servir de base para levar o conjunto à boca. Há pratos do dia. Sexta-feira, por exemplo, tem feijoada, que conta com uma legião de adeptos. Toninho está sempre criando novidades, e muita coisa só sai quando ele está na cozinha, como os hambúrgueres, tal o que é feito com linguiça artesanal, cebola roxa e maionese de Dijon no pão de farelo de trigo, ou a versão com carne assada, cebola roxa e geleia de pimenta. Uma das versões clássicas do sanduíche é um burger alto, com muito queijo derretido, um belo ovo frito por cima, e muita cebola frita, fininha e crocante, ao lado. Recentemente ele lançou a Larica da Muda: um “bolão” de arroz recheado com duas linguiças, cebola caramelizada e ovo caipira. Tartare de jiló? Pois sim, ele pode ser servido. De vez em quando acontece o “Convite do Rei”, quando um chef aparece para cozinhar ali.

BAR DO MOMO – Rua General Espirito Santo Cardoso 50, loja A, Tijuca. Tel. 2570-9389. De seg. a sáb., das 14h às 22h. Dom. e feriados, das 10h às 18h. Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 36 – Winehouse, em Botafogo: poderia haver 100 casas como essa espalhadas pelo Rio

04/04/2015
Digno de distinção é o parfait de fígado de galinha, acompanhado de cebola caramelizada e torradinhas

Digno de distinção é o parfait de fígado de galinha, acompanhado de cebola caramelizada e torradinhas

Seria ótimo que houvesse espalhadas pela cidade várias casas nos moldes da Winehouse, em Botafogo. Um bar de vinhos pequeno e aconchegante, que propõe uma seleção enxuta, porém certerira, de rótulos e comidinhas. Um lugar para o pré ou o pós cinema ou teatro, para um encontro romântico ou reunião entre amigos. A oferta de conservas, queijos, embutidos e carnes curadas tem coisas como berinjela marinada, chabichou, jamón serrano, fuet espanhol, brie, azeitonas, tudo de boa qualidade. É possível montar distintas combinação entre eles, com picles, geleias e outros adornos. Digno de distinção é o parfait de fígado de galinha, acompanhado de cebola caramelizada e torradinhas. Um patê cremoso, tão bom, mas tão bom, que remete a foie gras. Um deleite. Bom para acompanhar um branco seco bem aromático, como Rieslig ou Gewürztraminer, ou doce, feito com essas mesmas uvas (de preferência na Alemanha ou na francesa Alsácia), ou Tokaj, Sauternes e outros nessa linha. O guacamole também é digno de nota, e acompanha tortillas mexicanas. Há também um quintetto de bruschettas, com coberturas como queijo de cabra, pimentão vermelho e redução de balsâmico ou salmão defumado com cebola roxa, cream cheese e alcaparras. A seleção de vinhos alterna denominações e vinícolas clássicas com algumas novidades e inovações. Quem não quer vinho tem cerveja Noi. São apenas 35 lugares, divididos entre as mesinhas na calçada e o pequeno e simpático salão, decorado com madeira e azulejos e quadros negros que listam alguns petiscos do dia, e os vinhos disponíveis em taça. Seria ótimos haver umas 50 Winehouses espalhadas pelo Rio de Janeiro. Ou 100…

WINEHOUSE – Rua Paulo Barreto 25, loja E, Botafogo. Tel. 3264-4101. De ter. a qui., das 17h à meia-noite; sex. e sáb., das 17h à 1h; dom. das 17h à meia-noite. http://www.winehouserio.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 35 – Cantinho das Concertinas, no Cadeg: a festa portuguesa embalada a bacalhau, sardinha e muita música folclórica

03/04/2015
As sardinhas na brasa do Cantinho das Concertinas, as melhores do Rio

As sardinhas na brasa do Cantinho das Concertinas, as melhores do Rio

Concertina é uma espécie de sanfona, de origem europeia, que chegou ao Brasil pelas mãos de imigrantes, entre eles os portugueses. É um dos instrumentos que embalam as músicas folclóricas e populares do norte do país. Nas manhãs de sábado elas embalam a festa portuguesa, com certeza, que acontece há anos no Cadeg, Centro de Abastecimento do Estado da Guanabara (agora Mercado Municipal do Rio de Janeiro), em Benfica. Justamente no bar chamado Cantinho das Concertinas, um dos mais tradicionais o deste mercado. A farra começa por volta das 10h, e entra pela tarde. O bacalhau é pedido de duas maneiras: em forma de bolinho ou com as suas postas douradas na brasa. Azeite, pimenta, batata… Bebe-se cerveja gelada e vinho verde, às vezes tinto, em garrafa de um litro. O povo dança. E o grupo de origens minhotas desfila um repertório dos mais divertidos, com boa técnica. E o perfume das sardinhas invade o ambiente. São as melhores sardinhas na brasa do Rio. De tamanho médio, recebem um punhado de sal grosso antes de seguirem para a grelha. De lá voltam tostadinhas, no ponto certo. Uma delícia. Dessas que pedem goladas firmes na cerveja. Ou em um belo vinho branco (dá até para comprar nas lojas do Cadeg, e levar para lá). Ao lado podemos encerrar o programa gastronômico lusitano escolhendo doces portuguesas nas duas barraquinhas montadas ao lado: ovos moles e pastéis de nata lideram as preferências, mas encontramos gostosuras conventuais menos conhecidas, como guardanapo, em formato triangular, pastel de amêndoa e outras receitas dessas sublimes, que combinam ovos e açúcar. Nas manhãs de sábado do Cantinho das Concertinas é como estar em Portugal.

CANTINHO DAS CONCERTINAS – Cadeg: Rua Capitão Felix 110, rua 16, loja 11, Benfica. Tel. 2580-4326. Seg. a sex., das 6h às 15h; sáb, das 6h às 18h. De seg. a sáb, das 5h às 17h. Não aceita cartões.