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Salve Jorge, padroeiro dos botequins cariocas

23/04/2015

Devemos desconfiar de um boteco carioca que não tenha um altar dedicado a São Jorge. O santo guerreiro, tão identificado com o Rio de Janeiro, e toda a cultura popular e religiosa, do samba ao candomblé, abençoa grande parte dos botequins da cidade.

Hoje, dia 23 de abril, com São Jorge é festejado, reuni três botecos da cidade que contam com os seus altares.

A Adega Flor de Coimbra, na Lapa.

O Bar da Portuguesa, em Ramos.

O Gracioso, na Gamboa, em foto pré-incêndio.

 

Salve, Jorge!

 

 

Guia 450 Sabores do Rio 32 – Aboim, em Copacabana: o melhor PF do Rio, com feijão e farofa mais que perfeitos

31/03/2015
O PF de carne-seca com abóbora do Aboim, em Copacabana: feijão cremoso e bem temperado e uma farofinha crocante e tostada na medida certa

O PF de carne-seca com abóbora do Aboim, em Copacabana: feijão cremoso e bem temperado e uma farofinha crocante e tostada na medida certa

 

O Aboim, em Copacabana, é um boteco de alta classe. A poucos passos do calçadão da mítica Avenida Atlântica, é lugar para poucos. Cabem no máximo seis pessoas em seu interior, um dos tantos bundas de fora da cidade devido ao perfil modesto de suas instalações. Do lado de dentro todos os clientes ficam de pé, apoiados no balcão, onde reluzem pastéis (imperdíveis, em especial o de carne-seca), carnes assadas, pernis suínos e outras iguarias tradicionalistas. Do lado de fora, há mesinhas e cadeiras baixas, mas não é fácil consegui-las. Lotam nos fins de semana, claro, boa parte levada pelos próprios frequentadores, como um dia foi no Bracarense. O PF do Café e Bar Aboim, nome oficial, é cotado como o melhor do Rio por gente como Guilherme Studart. Assinamos embaixo. O feijão e a farofa são mais que perfeitos. O primeiro é cremoso, encorpado, com tempero bem marcado, e sempre aquelas nuances de carne de porco que compõem a feijoada. O segundo tem a medida certa de tostagem, dando crocância e intensificado o sabor. A mistura dos dois, com gotas de pimenta, já seria uma refeição de gala. São acompanhamentos, mas jamais figurantes. O elemento principal escolhemos à parte. Carne assada e pernil, que também podem ser convertidos em sanduíche ou servidos como aperitivo, sempre estão disponíveis na casa, expostos na vitrine toda a sua gostosura. E há os pratos do dia. Rabada, carne-seca com abóbora, mocotó… Eles são servidos em pratinho à parte, enquanto feijão e farofa (também é possível pedir macarrão ou arroz, mas eu acho dispensáveis diante da qualidade da dupla citada) chegam forrando o prato, preparado e montado pelo chef Chicão, que fica lá atrás, na minúscula cozinha, manejando com destreza rara as suas panelas, conchas, escumadeiras e facas. Prato feito por ele, que vai perguntando as quantidades desejadas, e até se o sujeito quer o feijão por cima ou por baixo. PF de primeira. Para beber, ecletismo justo: cerveja, cachaça, caipirinha e até uma seleção de uísque boa, com preços imbatíveis na Zona Sul. Como se isso tudo não bastasse, o Aboim tem uma frequência que representa bem a fauna urbana do Rio de Janeiro: reúne pedreiros, pintores de parede, guardas municipais e PMs, apontadores do Jogo do Bicho, estudantes e boemios em geral, senhores praianos e elegantes de Copacabana e grupos de amigas, turistas e cariocas da gema, jornalistas, garçons e sommeliers. Uma síntese deliciosa da cidade. Sem contar que podemos passar lá na ida ou na volta da praia, ou em ambos os casos, coisa tão típica e agradável essa.

ABOIM – Rua Souza Lima 16-B, Copacabana. Tel. 3072-0094. Diariamente, das 7h à meia-noite. Não aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 10 – Bar da Amendoeira: carne-seca na farofa, pimenta e chope na caldereta

11/03/2015
A carne-seca passada na farofa e o ótimo chope na caldereta, tipo schinitt: duas belas razões para ir até este boteco clássico em Maria da Graça

A carne-seca passada na farofa é servida com o ótimo chope na caldereta, tipo schinitt, com espuma cremosa: duas belas razões para ir até este boteco clássico em Maria da Graça

A carne-seca é preparada com a sabedoria de um grande cozinheiro. Dessalgada no ponto certo, é cozida e depois… assada, acho eu, ganhando uma casquinha mais saborosa, durinha, e com aquele tostadinho que dão relevo a um prato, com o interior rosado, macio, desfiando-se ao toque do talher. Para melhorar, os blocos de charque são envolvidos em uma farofinha leve e branquinha, um empanado de farinha de mandioca. Em seguida, antes de nos servir tal iguaria, o atendente ainda tem a nobreza de cortar os pedaços, para ficarem do tamanho perfeito para serem levadas à boca, espalhando sobre o petisco uns palitinhos, pra faciliar o manuseio de quem dispesa garfo e faca nessa hora. O Bar da Amendoeira, em Maria da Graça, um dos monumentos suburbanos mais relevantes da gastronomia carioca, consegue com algo tão simples preperar um acepipe delicioso, sem igual na cidade (o Bunda de Fora, em Ipanema, mas um parecido, bom, mas que não chega aos pés). Melhora a situação o fato de que a pimenta do Bar da Amendoeira – assim batizado por causa da árvore que enfeita a sua fachada azul desgastada pelo tempo – é muito boa; e que o chope, servido na caldereta, tipo schnitt, está entre os (meus) três melhores do Rio, ao lado do Bar Brasil e Adonis (já resenhados aqui nesta série). Mas não pense que é só carne-seca, pimenta e chope, o que já seria muito. O bar serve, além de petiscos botequeiros, tipo jiló, moela, pernil e bolinho de bacalhau, refeições antológicas, como o angu à baiana dos sábados, que atrai legiões de fãs fieis, e outros clássicos do almoço executivo dos bares cariocas, como carne-seca com abóbora, feijoada (sexta). Há alguns anos, Cesar, o dono, morreu, dentro do bar, após uma briga com o cliente. Apesar da trajédia, o Amendoeira continua firme e forte com um dos bastiões da cultura botequeira do Rio de Janeiro. Graças a Deus, e Maria da Graça.

BAR DA AMENDOEIRA – Rua Conde de Azambuja 881, Maria da Graça. Tel. 2501-4175. Seg. a qui., das 6h às 22h; sex., das 6h à meia-noite; sáb. até 20h. Aceita cartões.