Posts Tagged ‘Cabrito’

Guia 450 Sabores do Rio 43 – Adegão Português: um restaurante certeiro, e seu menu de bacalhaus, polvos e coelhos

11/04/2015

 

Dupla de arroz: de pato, à  esquerda, tem paio (dos bons) e açafrão, e o cordeiro (à direita) é um pouco mais molhadinho, e leva azeitonas pretas

Dupla de arroz: de pato, à esquerda, tem paio (dos bons) e açafrão, e o cabrito (à direita) é um pouco mais molhadinho, e leva azeitonas pretas

O Adegão Português é um restaurante notável. Nascido em São Cristóvão em frente ao Pavilhão, é um reduto da comunidade lusitana, e dos amantes da boa mesa, de uma maneira geral, que vivem e trabalham por lá. Dirigentes do Vasco são figurinha fácil ali. Há filial no Rio Design Barra, e logo abrirá mais uma, em Ipanema. Ótimo. Mas para os que vivem entre a Zona Sul e a Barra, vale deixar a preguiça de lado e ir até a matriz. Ali a experiência pareça mais autêntica. Como boa casa portuguesa, o bacalhau é o artista principal do repertório de receitas que carregam o tempero da tradição. A começar pelos bolinhos de bacalhau, petisco que ali é item obrigatório, o primeiro pedido. São nada menos que 21 receitas com o peixe. Talvez um recorde mundial. O Maraca, por exemplo, é uma bela posta assada na brasa, com pimentões, batatas ao murro, azeitonas pretas e alho laminado frito no azeite. Vale notar os pratos do dia. Domingo tem cozido, um dos melhores do Rio (tem até orelinha de porco e língua), e o leitão assado, outro prata valioso, que recebe o afago da guarnição caipira do Brasil, com com tutu e couve à mineira. A semana passa assim. Segunda tem rabada com batatas e agrião, terça é a vez de tripa à moda do Porto, quinta a pedida do dia é ossobuco com arroz de açafrão. Sexta tem duas receitas de bacalhau: a Zé do Pipo e na tigela de barro. Sábado, não podia ser diferente, tem feijoada. Encontramos folhando o menu vasto outros clássicos da cozinha ibérica. As alheiras são artesanais, e deliciosas, e podem ser servidas à maneira clássica, com dois ovos e batata frita palito. Há presunto cru do bom, e queijo de ovelha curado. Caldo verde. Que tal as   sardinhas ao Adegão, assadas, e servidas com pimentão assado, rodelas de cebolas, alho cru e batatas. Seguramente é um dos melhores lugares do Rio para se comer coelho. Tem algumas receitas, como a clássica à caçadora: refogado ao alho e cebola, tomate, presunto picadinho, petit pois, torradas, molho de tomate e batata noisette. Quando se atrevem a fazer pratos brasileiros, acertam, como é o caso do bobó de camarão e a moqueca capixaba. O polvo é sempre preparado de maneira impecável. Experimente o à lagareiro: assado no forno, com batatas ao murro, arroz de brócolis, ao molho de cebola e alho com açafrão. Em alguns lugares, não muitos, conseguimos sentir carinho na comida. É o caso. E no Adegão Português o que melhor representa isso, e o que a casa apresenta de mais extraordinário, sem igual na cidade, são os arrozes. São vários. Um melhor que o outro. O de coelho talvez seja o mais relevante elemento disso, justamente por não ser algo fácil de se encontrar por aí. Sem esquecer do igualmente raro e delicioso arroz de cabrito, que é um pouco mais molhadinho, e leva azeitonas pretas.  Mas e o arroz de pato, que é amarelado pelo tempero dourado do açafrão, e feito com um paio de primeira grandeza? Há lulas, macias que só, também servidas com arroz de açafrão, e também, é claro, o clássico e classudo polvo com arroz e brócolis, com tentáculos tenros. Chama a atenção, em todos os casos, o ponto de cozimento dos grãos, o tempero úmido que dá uma textura untuosa ao conjunto, e as carnes em doses equilibradas. E a fartura: dá para dividir por uns três. O Adegão é desses restaurantes ótimos para se ir em grupos, e poder pedir muita coisa. Um dos melhores lugares para aquele mesão de dez, doze pessoas. Para beber, deixe-se levar pelo sommelier Francisco Edcarlos, que vai lhe servir com competência e simpatia, com foco nos rótulos lusitanos, mas lançando mão de algo brasileiro, especialmente entre os espumantes. Uma boa pedida é começar com um Portônica antes de passar para os vinhos propriamente. Para encerrar, além de uma amarguinha, aquele lindo repertório de doces portugueses: pasteizinhos de Santa Clara, pastel de natas, toucinho do Céu e  siricaia, entre outros, mesclados a coisas bem brasileiras, como pudim de leite com ameixa, quindim de coco e goiabada com catupiry.

 

ADEGÃO PORTUGUÊS – Campo de São Cristóvão 212, São Cristóvão. Tel. 2580-7288. De seg. a sáb., das 11h às 23h; dom., das 11h às 20h. www.adegaoportugues.com.br Aceita cartões.

 

Guia 450 Sabores do Rio 8 – Nova Capela: o cabrito assado mais famoso do Rio de Janeiro

09/03/2015
O cabrito do Nova Capela tem como companheiro clássico o arroz de brócolis,  as batatas coradas, e uma generosa camada de alho frito, um conjunto que pede por um bom chope gelado

O cabrito do Nova Capela tem como companheiro clássico o arroz de brócolis (vale regar com azeite e a boa pimenta da casa), as batatas coradas, e uma generosa camada de alho frito, um conjunto que pede por um bom chope gelado

Uns garantem que sim, é carne de cabrito, o filhote do bode com a cabra. Outros afirmam categoricamente que a carne é de cordeiro, o filhote do carneiro com a ovelha. Seja lá qual for, por lá o prato é mais conhecido como cabrito mesmo, e tem como companheiro clássico o arroz de brócolis, as batatas coradas, e uma generosa camada de alho frito, um conjunto que pede por um bom chope gelado. Vale regar o arroz com azeite e pimenta. Os cortes ovinos ficam expostos numa vitrine sobre o balcão clássico do bar, com altar a Nossa Senhora. Há devotos fervorosos do prato. Garçons trajados à moda antiga, com gravatinha borboleta, calça preta e paletó branco, assim como os seus cabelos, servem uma clientela fiel, entre os almoços executivos dos dias de semana às madrugadas repletas de boêmios das mais diversas vertentes que ocupam a Lapa. O cardápio tem raízes lusitanas, e ao longo do tempo foi se adaptando ao que podemos chamar de cozinha urbana do Rio. Temos bolinhos de bacalhau, para começar, e pratos como rins ao molho Madeira com purê de batatas, canja de galinha, leitão assado, iscas de fígado à lisboeta e carne assada “à moda” montam um repertório saudosista de receitas. O salão com paredes ajulejadas cheias de premiações e reportagens reforça o clima dos anos 1960, quando o antigo Capela, inaugurado no começo do século passado, agregou o Nova ao nome, instalando-se no endereço atual, um monumento da gastronomia carioca.

NOVA CAPELA – Av. Mem de Sá 96, Lapa. Tel. 2252-6228. Diariamente, das 11h às 4h (sex. e sáb. até 5h). Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 6 – Pastoria, na Gamboa: um cabrito formidável servido com “asseio e prontidão”

07/03/2015
A estrela do Café e Restaurante Pastoria, na Gamboa: eles pegam os melhores pedaços do cabrito (leia-se sempre partes com osso, agarradas e entremeadas a ele) e marinam com cebola, tomate, alho. Sabe aquele esquema de assar no próprio caldo, restando um líquido espesso, com os temperos amolecidos, a gordura diluída (para alegria das papilas e tristeza dos médicos) e o sabor impregnado?

A estrela do Café e Restaurante Pastoria, na Gamboa: eles pegam os melhores pedaços do cabrito (leia-se sempre partes com osso, agarradas e entremeadas a ele) e marinam com cebola, tomate, alho. Sabe aquele esquema de assar no próprio caldo, restando um líquido espesso, com os temperos amolecidos, a gordura diluída (para alegria das papilas e tristeza dos médicos) e o sabor impregnado?

As batatas chegam naquele ponto mais que perfeito de cozimento: macias, quase um purê por dentro, e com uma casquinha dourada, em alguns pontos até crocante. Sobre elas, um pedaço generoso de cabrito, coroado por um molho denso, com base de cebola e tomate, dando suculência e reforçando o sabor do conjunto. A carne se solta do osso ao toque da faca, que sequer seria necessária: uma colher ou mesmo apenas o garfo seria o suficiente para se apreciar o prato, de tão macio que é o cabrito, o prato mais famoso do Restaurante e Café Pastoria, mais conhecido pelo apelido de 28, em referência ao número da casa onde funciona na rua Barão de São Félix, na Gamboa. Não tenho dúvidas de que o prato – que pode ser dividido por duas pessoas – apresenta uma das melhores relações custo-benefício do Rio de Janeiro. Fosse na Zona Sul, seria uma porção menor, e custaria o triplo. Aos 88 (foi inaugurado em 1927), a casa não vive só do magnífico ovino, servindo outros pratos que atraem uma clientela fiel, um cardápio que se divide entre especialidades lusitanas e brasileiras, com receitas como o polvo à portuguesa (muito bom), o bacalhau à espanhola (idem), e à portuguesa (igualmente), a carne-seca com feijão (também, o mocotó com feijão branco (ainda não provei, mas tenho ótimas recomendações). Os pratos saem rapidamente, fator importante na correria do almoço de quem trabalha no Centro. Outro ponto que me chama a atenção é a limpeza do lugar. A cozinha, nos fundos, com janelinha que nos permite observar o que se passa lá dentro, está entre as mais limpinhas da cidade. Não à toa, o cardápio diz que o restaurante serrve “Almoços e jantares com asseio e prontidão”. Tudo verdade, exceto o fato que – hoje – o a casa só abre de 11h às 16h, e nos dias úteis.

PASTORIA (28) – Rua Barão de São Félix 28, Gamboa. Tel. 2263-2438. Seg. a sex., das 11h às 16h. Aceita cartões.