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Guia 450 Sabores do Rio 58: Rio Minho, o berço da mitológica sopa Leão Veloso, a bouillabaisse carioca

26/04/2015
A sopa Leão Veloso do clássico restaurante Rio Minho, inaugurado em 1884, na rua do Ouvidor número 10: camarão, polvo, lula, cherne e mexilhões

A sopa Leão Veloso do clássico restaurante Rio Minho, inaugurado em 1884, na rua do Ouvidor número 10: camarão, polvo, lula, cherne e mexilhões

O pote de barro vem fumegando, com camarões VG expostos, corpo mergulhado, rabo saltando do líquido espesso, com tons de tijolo, avermelhados, por conta do urucum, usado no caldo de cabeça de peixe, e do tomate, base importante do tempero refogado. A sopa Leão Veloso foi criada no Rio Minho, no começo do século passado, pelo diplomata de mesmo nome (há quem conteste o autor, mas não o berço da receita), e entrou para a galeria de grandes pratos emblemáticos do Brasil, especialmente do Rio de Janeiro. Inspirado na bouillabaisse, de Marselha, no sul da França, ganhou contornos tropicais, apostando na nobreza marinha – o camarão, o polvo, a lula, o cherne, os mexilhões (às margens do Mediterrâneo, a receita tradicional dos pescados usa os peixes mais baratos, “de fundo de rede”, como se diz). Para encorpar, um truque: um pouco de creme de arroz. Um ramo de hortelã dá um pouco de cor, perfume e frescor. Além da qualidade dos pescados, é notável o ponto de cozimento de cada um dos ingredientes principais, ganhando todos texturas macias, nunca borrachudas. E o tempero vem na medida, e os sabores podem – e devem – ser realçados pela boa pimenta da casa, forte como se deve ser. Coisa de quem está mais do que habituado a fazer o prato. Vale dizer que a meia porção já serve duas pessoas, e pode valer um almoço. Inaugurado em 1884, o Rio Minho tem o charme de ser o restaurante mais antigo da cidade, funcionando há mais de 130 anos no mesmo endereço, o número 10 da histórica Rua do Ouvidor, veia das mais importantes do Rio Antigo. Na parte externa, sem ar-condicionado, alguns pratos são vendidos em versão. O cardápio é um desfile de pratos marítimos, com forte influência ibérica (fundada por portugueses do Minho, hoje é administrada por espanhóis da Galícia). Uma diversidade enorme de pratos de bacalhau, incluindo os ótimos bolinhos que podem ser pedidos de entrada, tem execução segura, à moda tradicionalista, usando postas altas, de alta classe, da melhor qualidade. Existe um grelhado misto que tem adeptos fervorosos, e reúne cherne, polvo, camarões, cavaquinha, mexilhões e lulas, acompanhados de arroz de brócolis, batatas coradas (ruins) e alho frito (o trio clássico que pode acompanhar outros pratos, como os tentáculos vistosos de polvo). A partir de quarta é servido um prato que é absolutamente necessário: o bobó de lagostins, que novamente apresenta os méritos do lugar de maneira enfática: bons ingredientes, técnica de cozinha ancestral e segura, tempero na medida e uma certa dose de amor que encontramos entranhada nesses restaurantes antigos, algo um pouco inexplicável, mas lindamente delicioso.

RIO MINHO – Rua do Ouvidor 10, Centro. Tel. 2509-2338. De seg. a sex., das 11h às 16h. Aceita cartões.

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Guia 450 Sabores do Rio 50 – Aconchego Carioca: e a Katia Barbosa escreve um dos capítulos mais importantes da gastronomia brasileira com o seu magnífico bolinho de feijoada

18/04/2015
O bolinho de feijoada do Aconchego Carioca, um ícone da gastronomia brasileira, hoje copiado em todo o país

O bolinho de feijoada do Aconchego Carioca, um ícone da gastronomia brasileira, hoje copiado em todo o país

Inaugurado em 2002, o Aconchego Carioca tem pouco mais de dez anos de  vida. Nem parece. O seu bolinho de feijoada, lançado em 2008, hoje pode ser encontrado em bares e restaurantes de todo o Brasil. E a transformação de diferentes pratos típicos do país em variadas formas de croquete virou uma forte tendência da gastronomia nacional. Com isso, Katia Barbosa inscreveu o seu nome na História da Culinária Brasileira, escrevendo um dos seus mais importantes capítulos. De fato, é algo genial a condensação de uma feijoada em um bolinho que se pode comer com as mãos. A massa, feita de feijão gordo, com o sabor e a textura das carnes suínas curadas, tem a consistência perfeita para, com delicadeza, abrigar o recheio que dá vivacidade e crocância ao conjunto: o verde intenso da couve cortada à mineira, e o torresmo, douradinho, com sua conhecida opulência em termos de textura e sabor. Tipo da coisa que pede, clama, implora, por pimenta malagueta. A casa abusa, e serve junto um copo de batida de limão, um pedaço de laranja e mais um punhado de torresmo… Dessa forma, o bolinho de feijoada do Aconchego Carioca se converteu em ícone. Acontece que este bar acabou virando um dos melhores restaurantes do Rio. Tudo que sai daquele cozinha tem o dom de ser sublime. As almofadinhas de camarão são travesseiros de tapioca recheados de camarão e requeijão. E o camarão na moranga merecia tombamento. A galinhada remete à roça, e faz parte das opções do “zé cultivo”, almoço executivo da casa. E os bolinhos de outras vertentes são tão marcantes quanto os de feijoada. O de feijão branco com rabada já é um clássico. O Pfinho é uma irreverente e genial condensação de um prato-feito clássico, uma porção de bolinhos feitos com massa de arroz e feijão envolvendo um ovo de codorna cozido, servidos com uma cumbuquinha de carne moída. De vez em quando o cardápio é renovado, e surgem acertos como o tartare de carne-de-sol, temperado com um pouco de picles de maxixe e servido com chips de batata-doce. Nessa toada foi criado o nhoque de vatapá. Sim, nhoque de vatapá. A massa não leva nada, nadinha de batata. É só mesmo o vatapá engrossado com farinha até dar o ponto certo. Uma doideira. Bem delicada na textura e intensa no sabor, a massa vem imersa em um caldo perfumado de camarões com gengibre e cebola, com amendoim moído por cima.A costelinha de porco vem laqueada na goiabada, por exemplo. O Aconchego Carioca, fundador do polo gastronômico da Praça da Bandeira, consegue assim ser um dos lugares mais importantes e fundamentais para se entender o que acontece na gastronomia brasileira neste exato momento.

ACONCHEGO CARIOCA – Rua Barão de Iguatemi 379, Praca da Bandeira. Tel. 2273-1035. De ter. a sáb, do meio-dia às 23h; dom., do meio-dia às 17h. www.aconchegocarioca.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 49 – Botto Bar: entre as 20 torneiras de cerveja da casa jorra sempre a Noi Amara, uma das melhores do Brasil

17/04/2015
A Noi Amara é produzida por Leonardo Botto na fábrica de Niterói: com uma espuma densa e muito perfumada, é uma Imperial IPA (India Pale Ale), com 10,5% de álcool, cheia de notas cítricas e maltadas. A receita leva cinco tipos de maltes e dois lúpulos diferentes — o americano summit e o australiano galaxy

A Noi Amara é produzida por Leonardo Botto na fábrica de Niterói: com uma espuma densa e muito perfumada, é uma Imperial IPA (India Pale Ale), com 10,5% de álcool, cheia de notas cítricas e maltadas. A receita leva cinco tipos de maltes e dois lúpulos diferentes — o americano nugget e o australiano galaxy

Exibida, encorpada e alcoólica, a cerveja Noi Amara é cotada como uma das melhores do Brasil. Produzida em Niterói seguindo a receita do mestre cervejeiro carioca Leonardo Botto, é deliciosa na garrafa, e consegue ser ainda melhor, como quase sempre acontece, quando servida “on tap”, direto das torneiras. Com uma espuma densa e muito perfumada, é uma Imperial IPA (India Pale Ale), com 10,5% de álcool, cheio de notas cítricas e maltadas. A receita leva cinco tipos de maltes e dois lúpulos diferentes — o americano nugget e o australiano galaxy. Pois o Leonardo Botto inaugurou o Botto Bar, e quase sempre – tem entre as suas 20 torneiras – a Noi Amara, servida no copo especial para IPAs. Não pode haver lugar melhor para se provar essa cerveja. A escolha de cervejas vendidas na casa geralmente é muito bem feita, criteriosa, com uma seleção de estilos diversos, de marcas de diversas procedências. Difícil ter algo que não seja bom. A cozinha segue a cultura cervejeira, com um apanhado de comidinhas com inspiração nos principais países produtores. Para celebrar a Bélgica, carbonade flamande, clássico da gastronomia flamenga, nacos de carne cozidos em cerveja e gratinados com queijo, macios e saborosos, servido com pão de malte feito na casa. Há deliciosos croquetes de queijo, empanados com massa cabelo de anjo, inspirada na receita do albergue vizinho à Abadia Notre Dame de Scourmont, na Bélgica, produtora da Chimay, a famosa trapista. No menu executivo, encontramos kassler com salada de batatas, lembrando a tradição alemã. E, festejando a cultura cervejeira dos EUA, wings picantes: oito coxinhas de frango fritas e marinadas em molho picante da casa, servidas com molho blue cheese e palitos de aipo. Não poderia faltar hambúrguer. A Inglaterra jamais seria esquecida neste painel, e a homenagem chega em forma de fish ‘n’ chips, claro, com molho tártaro e limão siciliano. A cerveja muitas vezes é usada ns receitas, caso do croquete cremoso a base de pernil assado no chopp. Acompanha molhinho de abacaxi agridoce; e do escondidinho Botto Bar, uma das melhores pedidas da casa: cubos de carne cozidos em molho cremoso de chope e cobertos por purê de aipim ao gorgonzola, tudo gratinado com mix de queijos, e servido em panelinha. Quente pra diabos, e ainda fica melhor se colocar ainda mais umpouco. Pra beber, uma Noi Amara, naturalmente. Encontro de gigante. Sábado rola feijoada. E na trilha sonora, rock, muito rock, muitas vezes tocado ao vivo, por bandas que desfilam repertórios clássicos do gênero.

BOTTO BAR – Rua Barão de Iguatemi 205, Praça da Bandeira. Tel. 3496-7407. De ter. a sáb., das 15h à meia-noite; dom., das 15h às 22h. http://www.bottobar.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 48 – Bazzar Lado B: a comida confortável com jeitinho brasileiro e seu lindo croque sinhá

16/04/2015
O croque sinhá do Bazzar Lado B, em IPanema: Servido em bonita tijela de cerâmica, é a combinação sedosa entre presunto cozido com queijo gruyère suíço, montados em pão de forma e gratinados, conjunto coroado pelo ovo caipira do Sítio Anahata

O croque sinhá do Bazzar Lado B, em Ipanema: servido em bonita tigela de cerâmica, é a combinação sedosa e cremosa entre presunto cozido com queijo gruyère suíço, montados em pão de forma e gratinados, conjunto coroado pelo ovo caipira do Sítio Anahata

 

Dizem que tudo fica melhor com dois ovos por cima. Tese inquestionável. Então, imagine um croque madame com um temperinho caipira. Pois o croque sinhá do Bazzar Lado B, que funciona no segundo andar da filial de Ipanema da Livraria da Travessa, é assim. Perfeito para um café da manhã tardio e preguiçoso. Servido em bonita tigela de cerâmica, é a combinação sedosa e cremosa entre presunto cozido com queijo gruyère suíço, montados em pão de forma e gratinados, conjunto coroado pelo ovo caipira do Sítio Anahata. Sim, comida confortável é a proposta da casa, que tem muitas formas de utilização. Pela manhã serve café, com cardápio específico, que tem, além do croque sinhá, ovos mexidos daqueles cremosos, de amarelo intenso. Ele também brilha em outro prato do menu enxuto e certeiro, composto ainda por sopinhas e saladas, sanduíches, grelhados com molhos e acompanhamentos a escolher, e um time de sobremesas estilo casa da avó. Desta vez cozido, o ovo caipira é um dos componentes da salada de bacalhau, com o peixe confitado em lascas, mesclado a arroz vermelho, cebola roxa, alho confit e folhas orgânicas, tudo com muito azeite, uma delícia ainda maior com uma taça de vinho branco. Ali encontramos clássicos do Bazzar, como o escondidinho de aipim com pato e queijo de cabra da Fazenda Genève, além da famosa tarte tatin. Outra excelente escolha é o hambúrguer, um dos melhores do Rio, seguindo a mais fina linhagem tradicionalista deste sanduíche clássico. A composição leva carne de picanha, com a gordura moída em separado, para dar mais suculência ao hambúrguer. A carne vem com o interior rosado, e a casquinha bem grelhada, coberta com queijo cheddar em estado de derretimento. Ao redor, alho confit, saladinha de rúcula, e dois molhos da casa, barbecue e mostarda. O pão fofinho vai à grelha, ganhando aquelas marcas tostadinhas, e que realçam o sabor. As batatinhas fritas em forma de palito comprido, sequinho, são servidas ao lado. Para encerrar, além da melhor tarte tatin do Rio, que tal um copo de churros, que chega à mesa simpaticamente em tábua de madeira, onde foi estrategicamente colocada uma colherada generosa de doce de leite Aviação, que ganha ainda uma salpicada de flor de sal, para contrapor. Há boas escolhas de vinhos em taça, que variam regularmente. E a carta de cervejas segue a mesma linha: se não é ampla, tem oferta variadas com rótulos bem escolhidos.

 

BAZZAR LADO B – Rua Visconde de Pirajá 572, Ipanema. Tel. 2249-4977. Seg., do meio-dia às 23h; de ter. a dom, das 10h às 23h. www.bazzar.com.br Aceita cartões.

 

 

Guia 450 Sabores do Rio 46 – Casa do Alemão: um clássico serrano que marcou gerações de gerações de cariocas

14/04/2015
Croquete de carne e sanduíche de linguiça (com mostarda, por favor): o pedido mais clássico entre tantos clássicos da mítica Casa do Alemão, nascida em Petrópolis

Croquete de carne e sanduíche de linguiça (com mostarda, por favor): o pedido mais clássico entre tantos clássicos da mítica Casa do Alemão, nascida em Petrópolis e hoje espalhada pelo Estado, principalmente em estradas, mas com duas lojas no Rio: no Leblon e na Barra da Tijuca

Durante anos, os cariocas só podiam comer os sanduíches, croquetes, doces, biscoitos amanteigados, o canudinho com chocolate e outros produtos da marca Kern, ou seja a Casa do Alemão, quando viajavam para a Região Serrana, na clássica parada nas duas filiais de Duque de Caxias, dos dois lados da pista, perfeito para quem vai, e para quem vem. Mas de uns dez anos para cá a cidade ganhou duas unidades, na Barra da Tijuca e no Leblon. E a vantagem de se estar no Rio, é que se pode aproveitar com mais calma o lugar, e até beber um chope para acompanhar. Agora podemos aproveitar as iguarias germânicas quando der vontade. Grande parte dos clientes pede um croquete (ou dois) e um sanduíche de lingüiça no pão de leite (queijo pode ser pedido à parte, e combina). O croquete é imitado por muitos, mas jamais copiado: tem aquele interior cremoso, o tempero perfeito, e a casquinha crocante. Tem parecido, igual não tem. A linguiça é picante na medida, com um tempero bem dosado, para não assustar as crianças. Nos dois casos, a mostarda escura faz um bem danado. Isso, apesar de haver uma série de produtos que podem ser considerados clássicos também. Entre os salgados, vale destacar o brioche de presunto (ou de queijo, que podem ser usados para montar sanduíches), os cahorros-quentes, com salsichas e salsichões, brancos e vermelhos, as refeições com kassler e eisbein da casa, de primeira linha, com salada de batata e chucrute, os biscoitinhos, e os doces alemães, sem falar em itens menos badalados, mas não menos recomendáveis, como o sanduíche de língua defumada, uma das melhores pedidas do lugar, ainda que pouca gente peça. Também podemos comprar vários desses produtos para levar. A linguiça, por exemplo, é uma das melhores que se pode comprar no Rio para abrilhantar um bom churrasco. Kassler, eisbein, língua s]ao vendidos quase prontos, defumados: a nós, em casa, no conforto do cabe, cabe apenas a fácil finalização.

CASA DO ALEMÃO – Av.Ataulfo de Paiva 644, lojas A e B, Leblon. Tel. 2540-7900. De seg. a qua., de 8h30 à meia-noite; qui. e dom., das 8h30 à 1h; sex. e sáb., de 8h30 às 2h. Matriz em Petrópolis, e outra loja no Rio na Barra da Tijuca (entre outras no interior do Estado). www.casadoalemao.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 41 – Bar da Portuguesa: o mais botequim dos botequins e seu torresmo fora de série

09/04/2015
O torresmo do bar da Portuguesa: é preciso destacar, e reverenciar, o torresmo do Bar da Portuguesa. O toucinho de porco frito, essa instituição dos botequins do Brasil, essa estigmatizada iguaria, que vemos sumir dos bares da cidade, esse pobre petisco execrado por cardiologistas, porque essa esse crocante bocado é preparado à perfeição no Bar da Portuguesa, e não se tem notícia de que haja melhor torresmo no Rio

O torresmo do bar da Portuguesa: é preciso destacar, e reverenciar, o torresmo deste boteco clássico de Ramos. O toucinho de porco frito, essa instituição dos botequins do Brasil, essa estigmatizada iguaria, que vemos sumir dos bares da cidade, esse pobre petisco execrado por cardiologistas, porque essa esse crocante bocado é preparado à perfeição no Bar da Portuguesa, e não se tem notícia de que haja melhor torresmo no Rio

Se imaginarmos o arquétipo perfeito de um botequim carioca ele: 1) Deverá estar localizado em uma esquina; 2) Será administrado por uma família portuguesa; 3) Bolinho de bacalhau precisará ser muito bom; 4) A vitrine aquecida obrigatoriamente exibirá torresmo; 5) No cardápio haverá sardinha frita e jiló; 6) O salão será abençoado por um altar em louvor a São Jorge; ) A pimenta da casa terá que ser da boa; 8) A clientela mesclará bebuns e famílias; 9) Os preços precisarão ser honestos, para não dizer módicos; 10) A comida, como um todo, deve ser farta e muito saborosa. E seria desejável, mas não item obrigatório, como os anteriores, que ele estivesse localizado no subúrbio. Pois o Bar da Portuguesa, em Ramos, se enquadra em todos os dez requisitos, nos 11, considerando a condição geográfica, elemento importante por conta da ambiência. Sem falar na cerveja bem gelada, item tão óbvio que os não o obedeçam já são desclassificados de cara.Talvez seja o mais botequim dos botequins brasileiros. Tem alma. E coração. E muitos outros elementos qualitativos, ainda mais em se tratando de um boteco de administração familiar, com dona Donzília, a matriarca, trabalhando ao lado dos filhos Paulinho e Cris, os três sempre por lá. Tem um altar para São Jorge, e mesas espalhadas pela calçada. A frequência mescla com absoluto equilíbrio os bebuns que não podem faltar em botequim que se preze, com famílias reunidas, grupos de amigos barrigudos com camisas de times de futebol, moças formosas, moradores do bairro com forasteiros atraídos pelo excelente repertório de comidas, e as cervejas, sempre geladas. Podemos elencar diversos itens como a especialidade da casa: os bolinhos de bacalhau, e a fritada do mesmo peixe, ambos entre os melhores do Rio. O “sanduíche” formado por duas bandas de jiló recheado com carne-seca (este, tradicionalmente servido apenas aos domingos), lambuzado por delicioso molho com tomate, os bolinhos de aipim com recheio copioso de camarão, de massa leve e recheio abundantemente bom… As empadas… A sardinha frita, que vai chegando em levas de cinco à estufa do balcão, e logo é servida, e assim está sempre deliciosamente fresquinha. Sem falar nos pratos do dia. Porque se domingo é dia de jiló com carne seca, e de carne assada, as quintas é servida uma famosa e concorrida sopa de siri (que no inverno fica ainda melhor) e, às sextas, mocotó, mas bom mesmo são os sábados, quando tem salada de bacalhau, e punheta, feita com o mais lusitano dos peixes. Tudo muito bom, tudo muito bem. Mas é preciso destacar, e reverenciar, o torresmo do Bar da Portuguesa. O toucinho de porco frito, essa instituição dos botequins do Brasil, essa estigmatizada iguaria, que vemos sumir dos bares da cidade, esse pobre petisco execrado por cardiologistas, porque essa esse crocante bocado é preparado à perfeição no Bar da Portuguesa, e não se tem notícia de que haja melhor torresmo no Rio. Vai bem com uma cerveja gelada que é uma beleza. E um copo de boa pinga, com uma rodela de limão ao lado, também vai muito bem. Esse Bar da Portuguesa é mesmo um baita de um botequim. Inaugurado em 192, era frequentado por Pixinguinha. Só isso, apenas isso.

BAR DA PORTUGUESA – Rua Custódio Nunes 155, loja D, Ramos. Tel. 2260-8979. De seg. a qua., das 17h às 23h; qui. e sex., das 1h à 1h; sáb., das 10h às 18h; dom., das 10h às 18h. Aceita cartões.

Divino Malte: uma das melhores lojas de cerveja do Rio vende a mítica Westvleteren 12

08/04/2015
A deliciosa californiana Sierra Nevada Pale Ale, novidade no Brasil: lançamento a R$ 15, depois sobre para R$ 20

A deliciosa californiana Sierra Nevada Pale Ale, novidade no Brasil: lançamento a R$ 15, depois sobre para R$ 20

Conheci a loja Divino Malte através de sua própria insistência. Comecei a receber e-mails divulgando esta loja de cerveja. Apagava todos, até que um me chamou a atenção. Isso porque anunciava a cerveja Sierra Nevada Pale Ale a R$ 15. O rótulo está chegando agora ao Brasil, e é muito bom, por sinal, um belo representante da escola californiana, com boa carga de lúpulo, muito perfumada e com estrutura elegante, paladar fino. O praço é muito bom, visto que eu já paguei US$ 5 por uma garrafinha dessas em uma deli de um hotel da Flórida. Ou seja, com o câmbio atual, está mais barato aqui do que nos EUA. Isso quase nunca acontece com nenhum tipo de produto, ainda mais os americanos. Pois então fui ver, e descobri que a loja fica ao lado de minha casa, a apenas três quadras, exatamente na rua Visconde de Pirajá 437, é a loja “i” de uma galeria comercial como tantas do bairro.
A loja fica lá nos fundos, e é miúda. Mesmo assim, está sempre lotada, com seus seis ou sete clientes, capacidade máxima do lugar. Pedi uma Sierra Nevada Pale Ale, e falei sobre o preço.
– É uma promoção de lançamento. Depois, vamos subir. Vamos vender a R$ 20 – disse o atendente.

A loja Divino Malte, em Ipanema, tem rótulos como os da japonesa Kuchi Brewery e da americana Blue Moon

A loja Divino Malte, em Ipanema, tem rótulos como os da japonesa Kuchi Brewery e da americana Blue Moon

Ok, ainda assim está um valor ok. Os preços que praticam ali são os melhores que já vi na Zona Sul. Tipo Noi Amara a R$ 30. Era uma quarta-feira à tarde, e na TV passava um jogo da Liga dos Campeões. Toda hora entrava alguém, para comprar uma cerveja, ou para beber ali. Pelo espaço diminuto, rola uma intimidade quase obrigatória entre os frequentadores, que acaba, conversando sobre cerveja, muita cerveja, além de futebol, política, Rio de Janeiro. Como toda a mesa de um bar, o que o Divino Malte não deixa de ser. Para comer, só amendoins, ofertados como cortesia.
Continuo recebendo os e-mails deles. Pois então hoje chega mais um que me chama a atenção. No assunto estava escrito: “DIVINO MALTE | WESVLETEREN 12”.
Para quem não sabe, esta é provavelmente a mais cultuada cerveja do mundo. Raríssima, é vendida em pequenas quantidades no mosteiro belga onde é produzido, manipulada exclusivamente pelos próprios monges (daí a produção muito limitada). É a Browerij der Abdij van St. Sixtus, localizada na cidade de Westvleteren (ou Sint-Sixtusabdij Westvleteren, segunda outra grafia). Para visitar o site da abadia, clique aqui.

A Westvleteren 8, um pouco mais leve e menos alcoólica que a Westvleteren 12, sobre a mesa do bar do Antiquarius

A Westvleteren 8, um pouco mais leve e menos alcoólica que a Westvleteren 12, sobre a mesa do bar do Antiquarius

A Westvleteren 12 é um mito do universo cervejeiro, e beber uma dessas garrafas é um privilégio. Honra que eu pude ter através da generosidade de uma amiga, que foi até a Bélgica, e trouxe algumas dessas joias na mala (na mesma noite provei ainda a Westvleteren 8 e a Westvleteren 10, e fizemos isso no Antiquarius, comendo entre outras coisas bochechas de javali!). Na foto acima, aparece a Westvleteren 8, com detalhes em azul na tampinha.

As Westvleteren 8 e 12, no Antiquarius, em foto do Instagram (@brunoagostinifoto)

As Westvleteren 8 e 12, no Antiquarius, em foto do Instagram (@brunoagostinifoto)

Mas falamos da Westvleteren 12, a maioral, ícone maior desta abadia, pra muita gente, como dizíamos, a melhor cerveja do mundo, acima  em foto do Instagram (@brunoagostinifoto) ao lado da 8.
É uma cerveja corpulenta, afinal tem pelo menos 10,2% de álcool, e uma base de malte densa, untuosa, ampla. Musculosa e firme, a Westvleteren 12 (também se usa a numeração romana, XII) tem notas finas de padaria, malte e fermento, com algo que remete a frutos secos, como passas, ameixas e tâmaras, lembrando até um Jerez Pedro Ximenez. Tem aromas de chocolate amargo, especiarias… Uma loucura.
Lançada oficialmente em 1941, com nome oficial de Sixtus, a partir de 1992 adotou o nome Westvleteren depois de uma briga com a cervejaria vizinha St. Bernardus, com quem tinha uma parceria. A Justiça, então, determinou que ninguém poderia usar o nome Sixtus (o nome do mosteiro é Abadia de São Sisto). Lá na abadia uma caixa com 24 garrafas de 330 ml custa 40 euros, ou 52, para quem não tiver a caixa de madeira e os vasilhames para trocar.
Pois a Divino Malte está fazendo, até o próximo sábado, dia 11, a pré-venda desta cerveja mítica, a famosa garrafa sem rótulo, com tampinha com detalhes em amarelo. Vai custar R$ 175. Barato realmente não é… Mas da última vez que ouvi falar da venda da Westvleteren 12 no Rio ela custava R$ 250. Em São Paulo, soube da venda no Empório Alto de Pinheiros a R$ 190.

DIVINO MALTE – Rua Visconde de Pirajá 437, Loja i, Ipanema. Tel. (21) 3563-9491. http://www.divinomalte.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 40 – Cachambeer: um boteco épico, com petiscos heróicos e deliciosos

08/04/2015
Meninas ficam espantadas, e encantadas, com o costelão recém-saído do forno de bafo, onde fica por horas assando lentamente

Meninas ficam espantadas, e encantadas, com o costelão recém-saído do forno de bafo, onde fica por horas assando lentamente

Há um certo sentido épico na existência do Cachambeer. Numa bebedeira, Marcelo Novaes, o dono atual deste boteco com trocadilho anglófilo no nome tipicamente carioca, acabou comprando o bar, do qual era frequentador assíduo. Hoje ele preserva o ritual copioso e está lá, batendo ponto dia sim, outro também, ajudado por sei fiel escudeiro, o Pança, que comanda a churrasqueira com heroísmo heróico, na calçada. Como Don Quixote e Sancho Panza, formam uma dupla e tanto. Marcelo montou um boteco de sonhos, quase um devaneio. A costela no bafo é uma epopeia carnívora, os ossos expostos, a carne longamente assada por horas e horas, do tipo que se desmancha ao olhar, nem precisa colher, aquela cebola desmaiada que ajusta o sabor, dando delicados contornos adocicados. Há porções de tamanhos variados, para até seis pessoas. As menores servem três. Quatro até, caso recorram aos petiscos preliminares. Até seis ou oito, até dez, caso as pessoas encarem o costelão como tapa, a maneira espanhola do petiscar comunitário. Com pompa e circustância. O cardápio é enorme, investindo pesado nas iguarias mais calóricas possíveis, e das mais apropridas para serem divididas entre muitos, entre elas duas das porções mistas, no meio de uma seleção com várias, uma chamada Infarto Completo, outra de Tábua Hipertensão (o primeiro, com torresmo, coração e aipim, entre oito itens; e o segundo um combinado com sete carnes, como cordeiro, paio, camarão à milanesa e costelinha de porco, com dois molhos: rosé e barbecue). Outro elemento de destaque é o palmito in natura, coberto com muito camarão e Catupiry (mesmo crustáceo que estrela um dos pastéis mais famosos da casa). O chamado Porquinho embriagado é uma costelinha laqueada em muita cerveja preta, servida com farofinha de bacon, alho torrado e uma dose de pinga. Tudom na medida exata. A deliciosa loucura prossegue com a língua faladeira e o jiló (o músculo bucal bovino em rara e feliz namoro com o vegetal amargo), o joelhão de porco à pururuca e o prato batizado como Olha a marra do porquinho, nada menos do que nacos robustos de barriga suína lindamente assados ao alho e servidos com dois molho: o de mel e mostarda e o de limão com abacaxi. Veja só que abuso…

CACHAMBEER – R. Cachambi 475, Cachambi. Tel. 3597-2002. DE ter. a sex., das 17h à meia-noite; sáb., do meio-dia à meia-noite; dom. e feriados, do meio-dia às 18h. http://www.cachambeer.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 38 – Bar da Frente: um boteco original e imperdível, com seus petiscos deliciosos com nomes impagáveis

06/04/2015
O fofinho de camarão é uma espécie de bolinho de chuva em verão salgada, recheado com o crustáceo envolto em Catupiry. Simplesmente isso...

O fofinho de camarão é uma espécie de bolinho de chuva em verão salgada, recheado com o crustáceo envolto em Catupiry. Simplesmente isso…

Imagine um daqueles bolinhos de chuva, a massa aerada e macia, em versão salgada. Carregando em seu interior delicadamente esponjoso um camarão espetado em um palito, e envolto em uma colherada de Catupiry, é um daqueles petiscos dignos de antologia. Batizado adequadamente de fofinho de camarão, é uma das estrelas principais do Bar da Frente, um desses botecos essenciais para entender o que se passa na gastronomia tradicional do Rio de Janeiro. Com muita imaginação, cuidado e inteligência no desenvolvimento, além de carinho e técnica no preparo, nasceram nos últimos anos várias receitas que trabalham com clássicos do gênero, categoria na qual o Aconchego Carioca é ícone, com os seus bolinhos de feijoada, e outras reinterpretações (e cabe dizer que o bar da Frente funciona no mesmo local de fundação do Aconchego, agora do outro lado da rua, e assim nasceu o nome do bar pilotado por Valéria e Mariana Rezende, mãe e filha, sempre presentes, e amigos da Katia Barbosa, e de toda a turma do Aconchego). Pois o Bar da Frente, é dos mais aconchegantes e cariocas dos botecos. Pequeno, tem a medida exata da intimidade. Vamos ao banheiros, e damos um alô para a cozinha. A varandinha de poucas mesas é muito aprazível, e pedimos alguma das bem escolhidas cervejas da carta, baseada em rótulos nacionais. O repertório de belisquetes é um primor. Além dos fofinhos de camarão, há as mini coxinhas com fondue de queijo. Pois é isso mesmo. O salgadinho em versão miúda é servido junto de um pequeno réchaud que mantém aquecido uma cremosa fonduta de queijo. E se fazer bolinhos virou moda, o Bar da Frente criou uma versão certeira do estrogonofe, a melhor que se tem notícia entre as tantas variações de croquete deste prato de carne, em formato comprido, com interior cremoso e casquinha crocante, para ser passado em batata palha, que vem ao lado. Quer mais? Temos o indecente e delicioso porquinho de quimono, de nome muito bom. Isso porque se trata de um harumaki de massa crocante recheado com costelinha suína defumada e desfiada com requeijão. E o repertório não termina nas entradas, seção que inclui ainda uma das melhores moelas do Rio, cozida em molho de tomate e vinho. Entre os pratos principais, o arroz de rabada está entre os campeões. Os nomes são tão bons quanto a comida. O arroz de puta rica é outro prato ícone, feito com linguiça, carne-seca, frango, filé-mignon, ervilha, cenoura, milho, palmito, azeitona e dois ovos estrelados, coroando lindamente a refeição, farta. Outro exemplo é o camarão à Chica Louca, salteado no vinho branco, com alho poró, que põe um temperinho francófilo neste boteco tão autêntico, e tão carioca. Uma das maiores joias da gastronomia do Rio.

BAR DA FRENTE – Rua Barão de Iguatemi 388, Praça da Bandeira. Tel. 2502-0176. De ter. a sáb., do meio-dia à meia-noite; dom., do meio-dia às 18h. http://www.bardafrente.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 35 – Cantinho das Concertinas, no Cadeg: a festa portuguesa embalada a bacalhau, sardinha e muita música folclórica

03/04/2015
As sardinhas na brasa do Cantinho das Concertinas, as melhores do Rio

As sardinhas na brasa do Cantinho das Concertinas, as melhores do Rio

Concertina é uma espécie de sanfona, de origem europeia, que chegou ao Brasil pelas mãos de imigrantes, entre eles os portugueses. É um dos instrumentos que embalam as músicas folclóricas e populares do norte do país. Nas manhãs de sábado elas embalam a festa portuguesa, com certeza, que acontece há anos no Cadeg, Centro de Abastecimento do Estado da Guanabara (agora Mercado Municipal do Rio de Janeiro), em Benfica. Justamente no bar chamado Cantinho das Concertinas, um dos mais tradicionais o deste mercado. A farra começa por volta das 10h, e entra pela tarde. O bacalhau é pedido de duas maneiras: em forma de bolinho ou com as suas postas douradas na brasa. Azeite, pimenta, batata… Bebe-se cerveja gelada e vinho verde, às vezes tinto, em garrafa de um litro. O povo dança. E o grupo de origens minhotas desfila um repertório dos mais divertidos, com boa técnica. E o perfume das sardinhas invade o ambiente. São as melhores sardinhas na brasa do Rio. De tamanho médio, recebem um punhado de sal grosso antes de seguirem para a grelha. De lá voltam tostadinhas, no ponto certo. Uma delícia. Dessas que pedem goladas firmes na cerveja. Ou em um belo vinho branco (dá até para comprar nas lojas do Cadeg, e levar para lá). Ao lado podemos encerrar o programa gastronômico lusitano escolhendo doces portuguesas nas duas barraquinhas montadas ao lado: ovos moles e pastéis de nata lideram as preferências, mas encontramos gostosuras conventuais menos conhecidas, como guardanapo, em formato triangular, pastel de amêndoa e outras receitas dessas sublimes, que combinam ovos e açúcar. Nas manhãs de sábado do Cantinho das Concertinas é como estar em Portugal.

CANTINHO DAS CONCERTINAS – Cadeg: Rua Capitão Felix 110, rua 16, loja 11, Benfica. Tel. 2580-4326. Seg. a sex., das 6h às 15h; sáb, das 6h às 18h. De seg. a sáb, das 5h às 17h. Não aceita cartões.