Posts Tagged ‘Frutos do mar’

Guia 450 Sabores do Rio 58: Rio Minho, o berço da mitológica sopa Leão Veloso, a bouillabaisse carioca

26/04/2015
A sopa Leão Veloso do clássico restaurante Rio Minho, inaugurado em 1884, na rua do Ouvidor número 10: camarão, polvo, lula, cherne e mexilhões

A sopa Leão Veloso do clássico restaurante Rio Minho, inaugurado em 1884, na rua do Ouvidor número 10: camarão, polvo, lula, cherne e mexilhões

O pote de barro vem fumegando, com camarões VG expostos, corpo mergulhado, rabo saltando do líquido espesso, com tons de tijolo, avermelhados, por conta do urucum, usado no caldo de cabeça de peixe, e do tomate, base importante do tempero refogado. A sopa Leão Veloso foi criada no Rio Minho, no começo do século passado, pelo diplomata de mesmo nome (há quem conteste o autor, mas não o berço da receita), e entrou para a galeria de grandes pratos emblemáticos do Brasil, especialmente do Rio de Janeiro. Inspirado na bouillabaisse, de Marselha, no sul da França, ganhou contornos tropicais, apostando na nobreza marinha – o camarão, o polvo, a lula, o cherne, os mexilhões (às margens do Mediterrâneo, a receita tradicional dos pescados usa os peixes mais baratos, “de fundo de rede”, como se diz). Para encorpar, um truque: um pouco de creme de arroz. Um ramo de hortelã dá um pouco de cor, perfume e frescor. Além da qualidade dos pescados, é notável o ponto de cozimento de cada um dos ingredientes principais, ganhando todos texturas macias, nunca borrachudas. E o tempero vem na medida, e os sabores podem – e devem – ser realçados pela boa pimenta da casa, forte como se deve ser. Coisa de quem está mais do que habituado a fazer o prato. Vale dizer que a meia porção já serve duas pessoas, e pode valer um almoço. Inaugurado em 1884, o Rio Minho tem o charme de ser o restaurante mais antigo da cidade, funcionando há mais de 130 anos no mesmo endereço, o número 10 da histórica Rua do Ouvidor, veia das mais importantes do Rio Antigo. Na parte externa, sem ar-condicionado, alguns pratos são vendidos em versão. O cardápio é um desfile de pratos marítimos, com forte influência ibérica (fundada por portugueses do Minho, hoje é administrada por espanhóis da Galícia). Uma diversidade enorme de pratos de bacalhau, incluindo os ótimos bolinhos que podem ser pedidos de entrada, tem execução segura, à moda tradicionalista, usando postas altas, de alta classe, da melhor qualidade. Existe um grelhado misto que tem adeptos fervorosos, e reúne cherne, polvo, camarões, cavaquinha, mexilhões e lulas, acompanhados de arroz de brócolis, batatas coradas (ruins) e alho frito (o trio clássico que pode acompanhar outros pratos, como os tentáculos vistosos de polvo). A partir de quarta é servido um prato que é absolutamente necessário: o bobó de lagostins, que novamente apresenta os méritos do lugar de maneira enfática: bons ingredientes, técnica de cozinha ancestral e segura, tempero na medida e uma certa dose de amor que encontramos entranhada nesses restaurantes antigos, algo um pouco inexplicável, mas lindamente delicioso.

RIO MINHO – Rua do Ouvidor 10, Centro. Tel. 2509-2338. De seg. a sex., das 11h às 16h. Aceita cartões.

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Guia 450 Sabores do Rio 54 – Nam Thai: um passeio pelos sabores do Sudeste Asiático no Leblon

22/04/2015
Um mix de entradinhas do Nam Thai, para poder provar várias coisinhas: Pla Shell Yahng pode ser considerada indispensável:  vieras grelhadas e servidas na concha, com chili, limão e molho de ostras, além de mandiopan; trouxinhas de frango com molho picante; bolinhos de camarão com chutney de abacaxi; espeto de frango satay com molho picante de amendoim

Um mix de entradinhas do Nam Thai, para poder provar várias coisinhas: Pla Shell Yahng pode ser considerada indispensável: vieras grelhadas e servidas na concha, com chili, limão e molho de ostras, além de mandiopan; trouxinhas de frango com molho picante; bolinhos de camarão com chutney de abacaxi; espeto de frango satay com molho picante de amendoim

O chef David Zisman é um pesquisador incansável. Viajou à Tailândia para aprender a cozinha tradicional do país, e abriu o seu restaurante em 1998, em Itaipava, um dos primeiros do Brasil dedicados à especialidade. Três anos depois trocou de endereço, e desceu a serra, inaugurando a casa da rua Rainha Guilhermina, no Leblon. Nos últimos anos começou a investigar outras cozinhas do Sudeste Asiático, visitando – e aprendendo – países como Cingapura, Malásia e Vietnã, incorporando alguns pratos ao cardápio (quando a receita não é tailandesa, a procedência é indicada, ao lado de outras informações, como nível de pimenta, vegetariano ou se tem ou não glúten). O lugar é despojado, e serve pratos com notável regularidade, explorando bem a complexidade da cozinha tailandesa, baseada na composição de pratos com vários elementos: o ácido, o doce, o salgado, o picante. É sempre difícil escolher o que pedir. Mas, de uma maneira geral, os pratos de peixes e frutos do mar estão sempre entre as melhores pedidas. Das entradas, a chamada Pla Shell Yahng pode ser considerada indispensável: são seis vieras grelhadas e servidas na concha, com chili, limão e molho de ostras, além de mandiopan. Essas vieiras podem aparecer em outra boa pedida para começar, os pratos que misturam várias entradinhas. O Bangkok combina trouxinhas de frango com molho picante; bolinhos de camarão com chutney de abacaxi; espeto de frango satay com molho picante de amendoim e thai salmão gravlax, com creme de leite aromatizado.  Dá até vontade de ficar só nas preliminares, como a Yam Kung Mammuang, uma salada picante – e refrescante – de camarão, manga e papaya. Pedida certeira é o Poh Pia Phed, dois rolinhos primavera de pato e gengibre confit, com chutney de abacaxi. Entre os pratos principais, o Pla Nam Prik é um lombo de peixe do dia, sempre muito bem grelhado, servido com com chutney de gengibre e chili, e servido em leito de acelga e shitake. Há boas massas e arrozes, coomo o Pennag Laksa, originário da Malásia: talharim de arroz frito com frutos do mar (camarões, vieras e lulas) leite de coco, curry malaio, tamarindo, folhas de limão kafir e hortelã. O Gaeng Phed Yang é surpreendente: leva peito de pato fatiado, curry vermelho tailandês, abacaxi, leite de coco, tomate e manjericão. Para os carnívoros, o Nuea Paad Kannaa também causa surpresa: mignon fatiado temperado em saquê, óleo de gergelim torrado, preparado com brócolis, shitake e molho de ostras.

NAM THAI – Rua Rainha Guilhermina 95, lojas A e B, Leblon. Tel. 2259 2962. Seg., das 19h à 1h; de ter. a sex., do meio-dia às 16h e das 19h à 1h; sáb., do meio-dia à 1h; dom., do meio-dia às 22h30. namthai.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 52 – Epifania Oriental, no Leme: cozinha japonesa com pitadas autorais

20/04/2015
Parece atum, mas é um gravlax de salmão, curado em marinada de beterraba com cítricos e tangerina, uma das melhores pedidas no restaurante Epifania Oriental, no Leme

Parece atum, mas é um gravlax de salmão, curado em marinada de beterraba com cítricos e tangerina, uma das melhores pedidas no restaurante Epifania Oriental, no Leme

 

 

Pequeno e escondidinho numa rua tranquila do Leme, o restaurante Epifania Oriental é mesmo uma revelação. Japonês com uma pegada contemporânea, até certo ponto autoral, tem um cardápio bem montado, que apresenta os clássicos da cozinha nipônica em montagens caprichadas, com louças bonitas e cortes preciso de peixes e vegetais. O trabalho com pimentas e especiarias é uma das especialidades da casa, bem como a utilização de frutas, e os pratos mais apimentados são indicados com uma pimenta, como acontece em restaurantes indianos, vietnamitas e tailandeses, enquanto os vegetarianos são representados por uma folhinha verde. O gravlax de salmão rosa é um corte vistoso da barriga desse peixe, curado em molho cítrico, de beterraba e tangerina, deliciosa surpresa, com bela coloração rosada, e uma textura firme, mas macia, transbordando de sabor, com sal, acidez e açúcar na medida exata. Um achado. Os pratos preparados no balcão do sushi bar estão entre as melhores pedidas. Há duplinhas, como unagui (enguia), ikura (ovas de salmão) e ovo de codorna, além makimonos diversos, com arroz por fora (uramaki) ou por dentro (hosomaki: prove o Spice tuna, de atum com creme de massago, togarashi e cebolinha), temakis, e muitos combinados, reunindo diversos bocadinhos. Da cozinha saem robatas (espetinhos) espertas, como de carne com geleia de pimenta e de camarão ao mel de gengibre. Seguindo a linhagem pan-asiática, o shot de vieiras traz quatro delas, grelhadas com camarões, chutney thai de tomates e ervas. Para o prato principal, yakissobas e teppanyakis, além de algumas receitas com assinatura da chef. São as “Sugestões da Ju”, seleção com sete pratos, como o atum semi cru em crosta de gergelim e pistache, servido com purê de wasabi, e salada crocante de cenoura e abobrinha ao perfume de gengibre. Entre as sobremesas, releituras, como a mousse de chocolate com sal negro e morangos, e receitas clássicas, como o brownie de chocolate, além de harumakis doces.

 

EPIFANIA ORIENTAL – Rua Roberto Dias Lopes 25, Leme. Tel. 2541-8330. Diariamente, do meio-dia à meia-noite. http://www.epifaniaoriental.com.br Aceita cartões.

 

Guia 450 Sabores do Rio 45 – Chico & Alaíde: um boteco-boteco, com alma e cozinha brasileira de primeira linha

13/04/2015
O choquinho de camarão é um dos melhores petiscos da cidade: um enorme crustáceo empanado em massa leve, recheado com catupiry e envolvido por uma camada de batata palha antes de ser frito

O choquinho de camarão é um dos melhores petiscos da cidade: um enorme crustáceo empanado em massa leve, recheado com catupiry e envolvido por uma camada de batata palha antes de ser frito

Alaíde é uma cozinheira e tanto. Falando de comida brasileira, é uma das grandes referências do país. Começou no Bracarense, onde deu forma ao mais famoso acepipe da casa, o bolinho de aipim com camarão e Catupiry, trabalhando na apertada cozinha, e servindo carnes assadas, pernis, feijoadas, rabadas, costelinhas, empadas e outros quitutes seguindo a mais fina linhagem da cozinha popular carioca. Em parceria com Chico, o colega de Braca, o garçom mais popular do Leblon, abriu o seu próprio bar, onde deu prosseguimento ao seu talento culinário, apresentando um cardápio que é quase um sonho aos que gostam de comida brasileira, ali tratada com esmero, e originalidade em alguns casos. Lá ela serve tudo isso citado acima. Mas, ao abrir a sua casa, Alaíde teve um surto criativo (que perdura, com menor intensidade), e assim nasceu uma seleção de petiscos realmente fora de série. Há condensações de pratos como o baião-de-dois, chamado cascudinho, versão em forma de bolinho, empanado com torresmo e queijo coalho. Nesse ímpeto de construções de novos acepipes Alaíde inventou o choquinho de camarão. Um monumento. Um dia, quem sabe, farão uma estátua de bronze, coisa que anda na moda na cidade, louvando Alaíde e seu choquinho de camarão, e ela será colocada justamente ali, naquele entrocamento da rua Dias Ferreira com a Bartolomeu Mitre, no Leblon, endereço deste bar que, embora tão jovem (inaugurado em março de 2009), já seja um clássico. Pois o tal do choquinho de camarão é um enorme crustáceo empanado em massa leve, recheado com catupiry e envolvido por uma camada de batata palha antes de ser frito. É uma das melhores criações da gastronomia carioca nos últimos anos. Mais que uma usina de bolinhos criativos, o Chico & Alaíde é um boteco-boteco. Tem manjubinha frita, diversas fritadas (até de siri mole), croquete de carne, vinagrete de polvo, sanduíche de linguiça, rissoles camarão, empada de siri, frango à passarinho, lula à dorê, filé aperitivo, isca de peixe, carne-seca com aipim, isca de fígado com jiló, torresmo, caldinho de feijão, coxinha de galinha e todo aquele tradicional repertório de petiscos que tão bem acompanham um chope gelado. Com pimenta da casa. Os PFs podem ser considerados entre os melhores da cidade. Vá no de carne assada. E com preços realmente que valem a pena. Comida com alma, boa e barata. No Leblon. O Chico & Alaíde é único.

CHICO & ALAÍDE – Rua Dias Ferreira 679, Leblon. Tel. 2512-0028. De seg. a qui., das 11h30m à meia-noite; sex. e sáb., das 11h30m à 1h; dom., de 11h30m às 22h. www.chicoealaide.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 43 – Adegão Português: um restaurante certeiro, e seu menu de bacalhaus, polvos e coelhos

11/04/2015

 

Dupla de arroz: de pato, à  esquerda, tem paio (dos bons) e açafrão, e o cordeiro (à direita) é um pouco mais molhadinho, e leva azeitonas pretas

Dupla de arroz: de pato, à esquerda, tem paio (dos bons) e açafrão, e o cabrito (à direita) é um pouco mais molhadinho, e leva azeitonas pretas

O Adegão Português é um restaurante notável. Nascido em São Cristóvão em frente ao Pavilhão, é um reduto da comunidade lusitana, e dos amantes da boa mesa, de uma maneira geral, que vivem e trabalham por lá. Dirigentes do Vasco são figurinha fácil ali. Há filial no Rio Design Barra, e logo abrirá mais uma, em Ipanema. Ótimo. Mas para os que vivem entre a Zona Sul e a Barra, vale deixar a preguiça de lado e ir até a matriz. Ali a experiência pareça mais autêntica. Como boa casa portuguesa, o bacalhau é o artista principal do repertório de receitas que carregam o tempero da tradição. A começar pelos bolinhos de bacalhau, petisco que ali é item obrigatório, o primeiro pedido. São nada menos que 21 receitas com o peixe. Talvez um recorde mundial. O Maraca, por exemplo, é uma bela posta assada na brasa, com pimentões, batatas ao murro, azeitonas pretas e alho laminado frito no azeite. Vale notar os pratos do dia. Domingo tem cozido, um dos melhores do Rio (tem até orelinha de porco e língua), e o leitão assado, outro prata valioso, que recebe o afago da guarnição caipira do Brasil, com com tutu e couve à mineira. A semana passa assim. Segunda tem rabada com batatas e agrião, terça é a vez de tripa à moda do Porto, quinta a pedida do dia é ossobuco com arroz de açafrão. Sexta tem duas receitas de bacalhau: a Zé do Pipo e na tigela de barro. Sábado, não podia ser diferente, tem feijoada. Encontramos folhando o menu vasto outros clássicos da cozinha ibérica. As alheiras são artesanais, e deliciosas, e podem ser servidas à maneira clássica, com dois ovos e batata frita palito. Há presunto cru do bom, e queijo de ovelha curado. Caldo verde. Que tal as   sardinhas ao Adegão, assadas, e servidas com pimentão assado, rodelas de cebolas, alho cru e batatas. Seguramente é um dos melhores lugares do Rio para se comer coelho. Tem algumas receitas, como a clássica à caçadora: refogado ao alho e cebola, tomate, presunto picadinho, petit pois, torradas, molho de tomate e batata noisette. Quando se atrevem a fazer pratos brasileiros, acertam, como é o caso do bobó de camarão e a moqueca capixaba. O polvo é sempre preparado de maneira impecável. Experimente o à lagareiro: assado no forno, com batatas ao murro, arroz de brócolis, ao molho de cebola e alho com açafrão. Em alguns lugares, não muitos, conseguimos sentir carinho na comida. É o caso. E no Adegão Português o que melhor representa isso, e o que a casa apresenta de mais extraordinário, sem igual na cidade, são os arrozes. São vários. Um melhor que o outro. O de coelho talvez seja o mais relevante elemento disso, justamente por não ser algo fácil de se encontrar por aí. Sem esquecer do igualmente raro e delicioso arroz de cabrito, que é um pouco mais molhadinho, e leva azeitonas pretas.  Mas e o arroz de pato, que é amarelado pelo tempero dourado do açafrão, e feito com um paio de primeira grandeza? Há lulas, macias que só, também servidas com arroz de açafrão, e também, é claro, o clássico e classudo polvo com arroz e brócolis, com tentáculos tenros. Chama a atenção, em todos os casos, o ponto de cozimento dos grãos, o tempero úmido que dá uma textura untuosa ao conjunto, e as carnes em doses equilibradas. E a fartura: dá para dividir por uns três. O Adegão é desses restaurantes ótimos para se ir em grupos, e poder pedir muita coisa. Um dos melhores lugares para aquele mesão de dez, doze pessoas. Para beber, deixe-se levar pelo sommelier Francisco Edcarlos, que vai lhe servir com competência e simpatia, com foco nos rótulos lusitanos, mas lançando mão de algo brasileiro, especialmente entre os espumantes. Uma boa pedida é começar com um Portônica antes de passar para os vinhos propriamente. Para encerrar, além de uma amarguinha, aquele lindo repertório de doces portugueses: pasteizinhos de Santa Clara, pastel de natas, toucinho do Céu e  siricaia, entre outros, mesclados a coisas bem brasileiras, como pudim de leite com ameixa, quindim de coco e goiabada com catupiry.

 

ADEGÃO PORTUGUÊS – Campo de São Cristóvão 212, São Cristóvão. Tel. 2580-7288. De seg. a sáb., das 11h às 23h; dom., das 11h às 20h. www.adegaoportugues.com.br Aceita cartões.

 

Guia 450 Sabores do Rio 31 – Bracarense: o bom e velho boteco do Leblon, e o seu bolinho de aipim com camarão e Catupiry, tão emblemático

30/03/2015
Em meio a outros acepipes de responsa, como o camarão empanado com catupiry, o bolinho de abóbora com carne seca e  o bolinho de feijoada, brilha o mais famoso salgadinho do Bracarense, o  bolinho de aipim com camarão e catupiry

Em meio a outros acepipes de responsa, como o camarão empanado com catupiry, o bolinho de abóbora com carne seca e o bolinho de feijoada, brilha o mais famoso salgadinho do Bracarense, o bolinho de aipim com camarão e Catupiry

 

Houve um tempo em que o Bracarense papava todos os prêmios de botequins no Rio. Ganhava como melhor bar, melhor chope, melhor happy hour, melhor PF… Ganhava tudo, mas ganhava, sobretudo, no quesito melhor salgado, ou melhor petisco, seja lá que nome se dava aos acepipes típicos do Rio. Ganhava por causa do arredondado bolinho de aipim com camarão em Catupiry, ainda que as empadas sempre fossem sublimes, que as porções de pernil de porco assado estivessem invariavelmente entre as mais cobiçadas da cidade e que os PFs da casa eram campeões na relação preço-qualidade-quantidade-serviço. Isso foi lá em meados dos anos 1990, quando os cariocas começaram a dar mais valor aos seus botecos, e foram assim criados troféus gastronômicos, livros sobre o tema, e guias, como o clássico e icônico Rio Botequim. Se o bom e velho Braca sempre tinha uma comida altamente saborosa – naquele lindo repertório luso-carioca, com polvo, bacalhau, tutu, pernil, carne assada, feijão e feijoada, e a média do café da manhã, e os salgadinhos expostos na vitrine aquecida – também tinha ao mesmo tempo o seu elemento mais emblemático: o tal bolinho de aipim com camarão e Catupiry. Alaíde fez as malas e se partiu, hoje à frente do bar Chico e Alaíde (ótimo, por sinal), perto dali, no mesmo Leblon, ao lado de seu companheiro de Bracarense, Chico, que é dos garçons mais famosos e carismáticos do Rio. E a macaxeira recheada com a perfeita combinação entre o crustáceo e o requeijão, tão brasileira fórmula, continua sendo o carro-chefe do Braca. Continua igual ao que sempre foi. Há quem diga que não. Me parece o mesmo de sempre. Mas o Braca deixou de ser cartão-postal do Rio. Voltou a ser algo como o que sempre foi, dos anos 1950, quando abriu as portas, até o final dos anos 1990, quando entrou na moda. Dirceu continua no comando da chopeira, enchendo os copos com a dosagem certa de pressão. Os mesmos coroas do Leblon ainda aparecem pela manhã, para jogar conversa fora, e às vezes baralho e porrinha, derramando os seus copos de chope, de vinho e de aguardente. As mesas do lado de fora, que durante algum tempo foram propriedade apenas dos clientes cativos, estão cheias em todas as noites, naquele belo movimento do final de tarde do Rio. As empadas de siri, essas lindas, permanecem tapadas com plástico, para não deixar ressecar o recheio aberto, que merece gotas de pimenta, da casa, da boa. E podemos pedir sempre que quisermos o filezinho aperitivo com cebola, alho e salsinha, acompanhado de aipim frito. A impressão que se tem é que o Bracarense nunca foi tão Bracarense como hoje. Mas não espalha.

BRACARENSE – Rua José Linhares 85, Leblon. Tel. 2294-3549. De seg. a sex., das 8h à meia-noite; sáb., das 9h30m à meia-noite; dom., das 10h às 22h. http://www.bracarense.com.br Aceita cartão de débito.

Guia 450 Sabores do Rio 28 – Haru Sushi Bar: com suas ostras frescas e menu esperto, o japonês é um achado em Copacabana

27/03/2015
Enaltecendo o frescor do marisco, o nama kaki é a ostra quase pura, temperada com cítricos do molho ponzo e do limão, com um toque picante da pimenta japonesa togarashi

Enaltecendo o frescor do marisco, o nama kaki é a ostra quase pura, temperada com cítricos do molho ponzo e do limão, com um toque picante da pimenta japonesa togarashi

Nas noites de quarta-feira, por volta das 22h, chega ao Haru Sushi Bar, em Copacabana, um carregamento de ostras, recolhidas na manhã do mesmo dia, em Santa Catarina. Pode atrasar um pouco, até umas 23h. O fato é que essa é a melhor hora para se chegar ao pequeno restaurante, na entrada de uma galeria, com seis mesas na calçada e três no lado interno. Porque elas podem em poucos minutos chegar à mesa. No Japão, muitos dos melhores chefs trabalham assim, em lugares pequenos, com uma cozinha enxuta, e muitas vezes em locais inusitados, como estações de metrô e salas comerciais. É um lugar de ambiente simples, e cozinha ótima, o que se reflete no preço. É possível conversar com o chef Aurélio dos Santos, sócio da casa ao lado de Menandro Rodrigues, o homem por trás do Boodah Sushi Lounge, que estão lá todas as noites. Aurélio fica na cozinha muito perto dos clientes das mesas internas. Para quem curte comida, é o melhor lugar. E a melhor pedida é a degustação do chef, o omakasê, o menu confiança japonês. Basta informar preferências e restrições, que ele monta um percurso cheio de bossa, roteiro que muda regularmente. As ostras são fundamentais. Além de recém-colhidas, são pequenas, com sabor mais delicado e concentrado. Podem chegar em molhos orientais, ou empanadas em panko, entre outras versões. Enaltecendo o seu frescor, o nama kaki é a ostra quase pura, temperada com cítricos do molho ponzo e do limão, com um toque picante da pimenta japonesa togarashi. O usuzukuri chega em cortes finos e precisos, os mais delicados da cidade, expondo o peixe em sua melhor forma. Vale notar na louça produzida por ceramistas japoneses de São Paulo, que realçam a apresentação cuidadosa dos pratos. O repertório é rico, executado com boa técnica e precisão, e pode ter boas sacadas, como um carpaccio de polvo, fininho, fininho, servido com mini nirá salteado e azeite quente, que perfuma o prato, temperado com gergelim e cebolinha picada. E sempre é possível pedir a la carte, pinçando do menu especialidades do chef, como rolinhos de camarão crocante com salmão brûlée. Novidade fresquinha recém-lançada é o wagyu em molho cremoso de cogumelos frescos: além da maciez suprema da carne, chama a atenção o ponto do molho, e seu sabor. A cereja no bolo neste segredinho gostoso que só poderia mesmo existir em Copacabana. Ou em Tóquio… E já ia me esquecendo… Muito boa carta de saquês, com ótimos preços, e até uma refrescante Jeffrey Niña, que vai bem com comida japonesa, aliás.

HARU SUSHI BAR – Rua Raimundo Correia 10, Copacabana. Tel. 2547-6867. De seg. a sáb., do meio-dia à meia-noite. http://www.harurestaurante.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 27 – Gurumê: o japa moderninho que é um barato, combinando boa comida e preços bem atraentes

26/03/2015
A pipoca de camarão do Gurumê: pedaços do crustáceo em tempurá com molho apimentado

A pipoca de camarão do Gurumê: pedaços do crustáceo em tempurá com molho apimentado

Uma das melhores novidades de 2014 na gastronomia carioca foi o restaurante Gurumê, um japonês despojado e moderno, que reúne duas coisas que todos adoram: boa comida, e preços atraentes. Com ambiente arejado, é um sushi bar de respeito, que segue uma vertente contemporânea da culinária nipônica. Existe um prato que é emblema disso tudo. A pipoca de camarão com maionese picante. Custa R$ 18, e é das coisas mais divertidas a esse preço no Rio. Pedaços de camarões médios são empanados e fritos em massa de tempurá, com precisão. Salgadinhos na medida certa. Nem precisavam de adornos, mas a maionese picante que o acompanha dá relevo e grandeza a esse prato, simples e delicioso. Mas a casa não vive só disso, e o menu – concebido pelo chef Shin Koike, do celebrado japonês paulistano Aizomê – é altamente confiável, com custos aceitáveis. A começar pelos sushis e sashimis, que podem fugir do trivial, e chegam em cortes precisos, com bela apresentação, preparados por Daiti Ieda, pupilo de Koike, em louças caprichadas. Tem barriga de salmão brûlée, vieiras, lagostins com mel, mostarda e shoyo; e atum foi gras e maçã verde laqueada, Mas que também trazem referências consagradas, como ceviches, bem acabados, e apresentados em copos de martini, como o de vieiras; e robata de lula e camarão. Não falta o black cod, peixe da moda nas casas japonesas de todo o mundo, grelhado e envolto em molho missô. Para beber, o saquê da casa é servido em jarrinhas, e são possivelmente a melhor relação custo-benefício deste fermentado japonês no Rio de Janeiro. E a seleção de drinques merece observação. as variações mais ácidas e condimentadas, com pimenta dedo-de-moça inclusive, geralmente vão bem com os pratos da casa. Vale contar uma curiosidade sobre o nome. Gurumê é um neologismo japonês, derivado do francês gourmet, palavra que não existia no vocabulário local. O mesmo aconteceu com outras palavras ocidentais, como mesa, que virou algo como tabilê.

GURUMÊ – Estrada da Gávea 899, São Conrado, Fashion Mall. Tel. 3324-4290. Diariamente, do meio-dia à meia-noite. http://japagurume.com.br/ Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 25 – Giuseppe Grill: a casa de carnes que aposta na maminha (e nos pescados também)

24/03/2015
Entre tantos cortes recomendáveis do Giuseppe Grill, a maminha ganha destaque pela raridade, e pela execução perfeita, em termos de tempero e tempo de grelha (a carvão!), alcançando uma maciez e suculência difícil de se ver, sendo servida em fatias finas, o que reforça a delicadeza do corte

Entre tantos cortes recomendáveis do Giuseppe Grill, a maminha ganha destaque pela raridade, e pela execução perfeita, em termos de tempero e tempo de grelha (a carvão!), alcançando uma maciez e suculência difícil de se ver, sendo servida em fatias finas, o que reforça a delicadeza da carne

Em algumas regiões do Brasil ela é chamada de ponta de alcatra. Mas na maior parte do país ela atende pelo simpático nome de maminha (ou maminha de alcatra). Já viveu os seus dias de glória, e até os anos 1980 era a carne mais nobre para um bom churrasco. Uma fina camada de gordura garante aquela dose especial de sabor, realçando o gosto delicado de carne, muito vermelha, resultado de uma grande irrigação sanguinea. Tende a ser macia, com a sua estrutura de fibras finas, lisas, macias. Não se sabe bem por quais razões, mas a maminha anda sumida dos menus, e também das churrasqueiras caseiras. Por isso, entre tantos cortes recomendáveis do Giuseppe Grill, a maminha ganha destaque pela raridade, e pela execução perfeita, em termos de tempero e tempo de grelha (a carvão!), alcançando uma maciez e suculência difícil de se ver, sendo servida em fatias finas, o que reforça a delicadeza da carne. Para acompanhar, farofa é suficiente, dando uma textura crocante e absorvendo os sucos que a maminha vai soltando no prato, mas as batatinhas suflê da casa também sempre vão bem. Pena que outras steak houses cariocas não façam o mesmo, só as churrascarias rodízio andam servindo este corte clássico. Além da maminha, vale explorar outras carnes que são especialidade da casa, como prime rib, T-bone, picanha supra-sumo e um lançamento recente, o New York Strip da raça wagyu (simplesmente sensacional). Apesar de ser uma casa de carne, os pescados também brilham, centollas, camarões, garoupas e lagostas enfeitando uma bancada de gelo, na frente da cozinha, antes de irem à churrasqueira, o que fez do lugar um dos melhores do Rio para se comer peixes e frutos do mar. Tem até pampo, peixe tão comum em nossas águas e tão raro em nossas mesas, além de olho de boi, badejo, robalo… Na verdade, nem todos os cortes estão disponíveis sempre, porque dependem do que o mar entrega às redes e anzóis dos pescadores (não é raro vê-los chegando no meio da tarde para entregar a seleção do dia). Mas as vieiras, preparadas na na brasa, quase sempre estão disponíveis. A carta de vinhos acompanha a proposta, com uma seleção ampla de rótulos, com boa variedade de brancos e tintos, incluindo safras antigas, produtores icônicos e algumas verticais de grande importância. Tem filial no Centro.

GIUSEPPE GRILL – Avenida Bartolomeu Mitre 370, Leblon. Tel. 2249-3055. Seg. a qui. do meio-dia às 16h e das 19h à meia-noite; sex. e sáb., do meio-dia à 1h; dom., do meio-dia às 23h. http://www.bestfork.com.br/giuseppegrill/leblon Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 14 – Vice-Rey, a microcervejaria artesanal da Barra da Tijuca, um patrimônio carioca

14/03/2015

 

O chope tipo PIlsen do restaurante Vice-Rey, na Barrao ali, que produz a bebida logo ali, atrás do balcão

O chope tipo Pilsen artesanal do restaurante Vice-Rey, na Barra, que produz a bebida logo ali, atrás do balcão, em pequenos tanques: menu tem pescados, especialidade alemães e cariocas

É triste dizer isso, mas o restaurante Vice-Rey está prestes a renunciar. O casarão em estilo colonial dos anos 1970 que ocupa uma grande área na Barra da Tijuca, ali na Praça do Ó, a poucos metros da praia, é uma relíquia do Rio de Janeiro. Merecia tombamento como patrimônio da cidade, mas seu destino parece ser um dia derrubado para dar lugar a mais um prédio. Pena. Mas ainda é tempo de visitar o lugar, um dos mais pitorescos que eu conheço, quase um museu, com decoração antiga, de fazenda, o piso de lajota, os móveis de madeira de demolição, ambiente que logo nos remete aos anos 1970, com jeito rural, de casarão colonial (foi inaugurado em 1976, quando começava a expansão da cidade em direção à Barra, até então um grande areal). Nas paredes vemos fotos, recortes de jornal e uma coleção de arpões e outras armas de pesca, com um acervo divertido para aqueles, como quase todo o carioca, que amam o mar, memória de Lucio Lenz, sócio da casa. Uma mesa de sinuca está à disposição, e as mesas são bem espaçadas entre si. Há um conforto descontraído no ar. O cardápio, como se pode supor, é focado em pescados, com boas receitas à moda antiga, de peixes e frutos do mar, como sardinha frita, anéis de lula empanados, polvo com arroz e brócolis, camarões ao Catupiry, moqueca… Mas, honrando as raízes alemães da família Lenz, há especialidades ancestrais germânicas, como salsicha aperitivo, kassler, eisbein, escalope Holstein e algumas receitas típicas de outrora, o que venho chamando aqui de cozinha urbana do Rio de Janeiro, como bolinhos de bacalhau, medalhões ao molho Madeira com arroz à piemontesa e o bom e velho Oswaldo Aranha. E é justamente essa veia alemã que faz do Vice-Rey um lugar especial, e único. Muito antes de ser moda a produção de cerveja artesanal o lugar já era uma microcervejaria com boa estrutura. Hoje são servidas duas receitas, Pilsen e Amber Ale (minha preferida), ambas deliciosas. Uma alegria. Cervejas bem feitas, que saem dos tanques (que estão logo atrás do balcão) direto para os canecões, trincando de gelados, com a espuma densa, transbordante. Adoro o lugar, e fico triste que pouca gente conheça. Uma pena. Mas fica a dica: aproveite o Vice-Rey antes de acabe. E espalhe pros amigos.

VICE-REY – Avenida Monsenhor Ascânio (Praça do Ó) 535, Barra da Tijuca. Tel. 2493-5560. Diariamente, do meio-dia às 2h. http://www.vice-rey.com.br/ Aceita cartões.