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Guia 450 Sabores do Rio 48 – Bazzar Lado B: a comida confortável com jeitinho brasileiro e seu lindo croque sinhá

16/04/2015
O croque sinhá do Bazzar Lado B, em IPanema: Servido em bonita tijela de cerâmica, é a combinação sedosa entre presunto cozido com queijo gruyère suíço, montados em pão de forma e gratinados, conjunto coroado pelo ovo caipira do Sítio Anahata

O croque sinhá do Bazzar Lado B, em Ipanema: servido em bonita tigela de cerâmica, é a combinação sedosa e cremosa entre presunto cozido com queijo gruyère suíço, montados em pão de forma e gratinados, conjunto coroado pelo ovo caipira do Sítio Anahata

 

Dizem que tudo fica melhor com dois ovos por cima. Tese inquestionável. Então, imagine um croque madame com um temperinho caipira. Pois o croque sinhá do Bazzar Lado B, que funciona no segundo andar da filial de Ipanema da Livraria da Travessa, é assim. Perfeito para um café da manhã tardio e preguiçoso. Servido em bonita tigela de cerâmica, é a combinação sedosa e cremosa entre presunto cozido com queijo gruyère suíço, montados em pão de forma e gratinados, conjunto coroado pelo ovo caipira do Sítio Anahata. Sim, comida confortável é a proposta da casa, que tem muitas formas de utilização. Pela manhã serve café, com cardápio específico, que tem, além do croque sinhá, ovos mexidos daqueles cremosos, de amarelo intenso. Ele também brilha em outro prato do menu enxuto e certeiro, composto ainda por sopinhas e saladas, sanduíches, grelhados com molhos e acompanhamentos a escolher, e um time de sobremesas estilo casa da avó. Desta vez cozido, o ovo caipira é um dos componentes da salada de bacalhau, com o peixe confitado em lascas, mesclado a arroz vermelho, cebola roxa, alho confit e folhas orgânicas, tudo com muito azeite, uma delícia ainda maior com uma taça de vinho branco. Ali encontramos clássicos do Bazzar, como o escondidinho de aipim com pato e queijo de cabra da Fazenda Genève, além da famosa tarte tatin. Outra excelente escolha é o hambúrguer, um dos melhores do Rio, seguindo a mais fina linhagem tradicionalista deste sanduíche clássico. A composição leva carne de picanha, com a gordura moída em separado, para dar mais suculência ao hambúrguer. A carne vem com o interior rosado, e a casquinha bem grelhada, coberta com queijo cheddar em estado de derretimento. Ao redor, alho confit, saladinha de rúcula, e dois molhos da casa, barbecue e mostarda. O pão fofinho vai à grelha, ganhando aquelas marcas tostadinhas, e que realçam o sabor. As batatinhas fritas em forma de palito comprido, sequinho, são servidas ao lado. Para encerrar, além da melhor tarte tatin do Rio, que tal um copo de churros, que chega à mesa simpaticamente em tábua de madeira, onde foi estrategicamente colocada uma colherada generosa de doce de leite Aviação, que ganha ainda uma salpicada de flor de sal, para contrapor. Há boas escolhas de vinhos em taça, que variam regularmente. E a carta de cervejas segue a mesma linha: se não é ampla, tem oferta variadas com rótulos bem escolhidos.

 

BAZZAR LADO B – Rua Visconde de Pirajá 572, Ipanema. Tel. 2249-4977. Seg., do meio-dia às 23h; de ter. a dom, das 10h às 23h. www.bazzar.com.br Aceita cartões.

 

 

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Divino Malte: uma das melhores lojas de cerveja do Rio vende a mítica Westvleteren 12

08/04/2015
A deliciosa californiana Sierra Nevada Pale Ale, novidade no Brasil: lançamento a R$ 15, depois sobre para R$ 20

A deliciosa californiana Sierra Nevada Pale Ale, novidade no Brasil: lançamento a R$ 15, depois sobre para R$ 20

Conheci a loja Divino Malte através de sua própria insistência. Comecei a receber e-mails divulgando esta loja de cerveja. Apagava todos, até que um me chamou a atenção. Isso porque anunciava a cerveja Sierra Nevada Pale Ale a R$ 15. O rótulo está chegando agora ao Brasil, e é muito bom, por sinal, um belo representante da escola californiana, com boa carga de lúpulo, muito perfumada e com estrutura elegante, paladar fino. O praço é muito bom, visto que eu já paguei US$ 5 por uma garrafinha dessas em uma deli de um hotel da Flórida. Ou seja, com o câmbio atual, está mais barato aqui do que nos EUA. Isso quase nunca acontece com nenhum tipo de produto, ainda mais os americanos. Pois então fui ver, e descobri que a loja fica ao lado de minha casa, a apenas três quadras, exatamente na rua Visconde de Pirajá 437, é a loja “i” de uma galeria comercial como tantas do bairro.
A loja fica lá nos fundos, e é miúda. Mesmo assim, está sempre lotada, com seus seis ou sete clientes, capacidade máxima do lugar. Pedi uma Sierra Nevada Pale Ale, e falei sobre o preço.
– É uma promoção de lançamento. Depois, vamos subir. Vamos vender a R$ 20 – disse o atendente.

A loja Divino Malte, em Ipanema, tem rótulos como os da japonesa Kuchi Brewery e da americana Blue Moon

A loja Divino Malte, em Ipanema, tem rótulos como os da japonesa Kuchi Brewery e da americana Blue Moon

Ok, ainda assim está um valor ok. Os preços que praticam ali são os melhores que já vi na Zona Sul. Tipo Noi Amara a R$ 30. Era uma quarta-feira à tarde, e na TV passava um jogo da Liga dos Campeões. Toda hora entrava alguém, para comprar uma cerveja, ou para beber ali. Pelo espaço diminuto, rola uma intimidade quase obrigatória entre os frequentadores, que acaba, conversando sobre cerveja, muita cerveja, além de futebol, política, Rio de Janeiro. Como toda a mesa de um bar, o que o Divino Malte não deixa de ser. Para comer, só amendoins, ofertados como cortesia.
Continuo recebendo os e-mails deles. Pois então hoje chega mais um que me chama a atenção. No assunto estava escrito: “DIVINO MALTE | WESVLETEREN 12”.
Para quem não sabe, esta é provavelmente a mais cultuada cerveja do mundo. Raríssima, é vendida em pequenas quantidades no mosteiro belga onde é produzido, manipulada exclusivamente pelos próprios monges (daí a produção muito limitada). É a Browerij der Abdij van St. Sixtus, localizada na cidade de Westvleteren (ou Sint-Sixtusabdij Westvleteren, segunda outra grafia). Para visitar o site da abadia, clique aqui.

A Westvleteren 8, um pouco mais leve e menos alcoólica que a Westvleteren 12, sobre a mesa do bar do Antiquarius

A Westvleteren 8, um pouco mais leve e menos alcoólica que a Westvleteren 12, sobre a mesa do bar do Antiquarius

A Westvleteren 12 é um mito do universo cervejeiro, e beber uma dessas garrafas é um privilégio. Honra que eu pude ter através da generosidade de uma amiga, que foi até a Bélgica, e trouxe algumas dessas joias na mala (na mesma noite provei ainda a Westvleteren 8 e a Westvleteren 10, e fizemos isso no Antiquarius, comendo entre outras coisas bochechas de javali!). Na foto acima, aparece a Westvleteren 8, com detalhes em azul na tampinha.

As Westvleteren 8 e 12, no Antiquarius, em foto do Instagram (@brunoagostinifoto)

As Westvleteren 8 e 12, no Antiquarius, em foto do Instagram (@brunoagostinifoto)

Mas falamos da Westvleteren 12, a maioral, ícone maior desta abadia, pra muita gente, como dizíamos, a melhor cerveja do mundo, acima  em foto do Instagram (@brunoagostinifoto) ao lado da 8.
É uma cerveja corpulenta, afinal tem pelo menos 10,2% de álcool, e uma base de malte densa, untuosa, ampla. Musculosa e firme, a Westvleteren 12 (também se usa a numeração romana, XII) tem notas finas de padaria, malte e fermento, com algo que remete a frutos secos, como passas, ameixas e tâmaras, lembrando até um Jerez Pedro Ximenez. Tem aromas de chocolate amargo, especiarias… Uma loucura.
Lançada oficialmente em 1941, com nome oficial de Sixtus, a partir de 1992 adotou o nome Westvleteren depois de uma briga com a cervejaria vizinha St. Bernardus, com quem tinha uma parceria. A Justiça, então, determinou que ninguém poderia usar o nome Sixtus (o nome do mosteiro é Abadia de São Sisto). Lá na abadia uma caixa com 24 garrafas de 330 ml custa 40 euros, ou 52, para quem não tiver a caixa de madeira e os vasilhames para trocar.
Pois a Divino Malte está fazendo, até o próximo sábado, dia 11, a pré-venda desta cerveja mítica, a famosa garrafa sem rótulo, com tampinha com detalhes em amarelo. Vai custar R$ 175. Barato realmente não é… Mas da última vez que ouvi falar da venda da Westvleteren 12 no Rio ela custava R$ 250. Em São Paulo, soube da venda no Empório Alto de Pinheiros a R$ 190.

DIVINO MALTE – Rua Visconde de Pirajá 437, Loja i, Ipanema. Tel. (21) 3563-9491. http://www.divinomalte.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 29 – Boteco DOC: cervejas especiais e comidinhas bem boladas em Laranjeiras e Ipanema

28/03/2015
O trio de mini burger tem o tamanho ideal para ser apreciado em cinco ou seis mordidas, e virou um símbolo do lugar: a carne chega alta, quase uma almôndega, macia e suculenta, por um macio pão de parmesão, suja banda superior vem ao lado, permitindo uma visão melhor do sanduichinho. Derretendo-se, um queijo que minas padrão, e sobre ele temos picles de beterraba e cebola caramelizada

O trio de mini burger tem o tamanho ideal para ser apreciado em cinco ou seis mordidas, e virou um símbolo do lugar: a carne chega alta, quase uma almôndega, macia e suculenta, por um macio pão de parmesão, suja banda superior vem ao lado, permitindo uma visão melhor do sanduichinho. Derretendo-se, um queijo que minas padrão, e sobre ele temos picles de beterraba e cebola caramelizada

O Boteco DOC abriu as portas em 2013 com uma proposta bem antenada às demandas da boemia carioca. Comida boa, com receitas inteligentes e bem boladas, boa seleção de cervejas e preços camaradas. Por trás do sucesso da casa, um espaço pequeno e intimista em Laranjeiras, está o chef Gabriel de Carvalho,que cria receitas confortáveis e bem montadas. O trio de mini burger tem o tamanho ideal para ser apreciado em cinco ou seis mordidas, e virou um símbolo do lugar, pedido praticamente obrigatório. É mesmo muito bom. A carne chega alta, quase uma almôndega, macia e suculenta, por um macio pão de parmesão, suja banda superior vem ao lado, permitindo uma visão melhor do sanduichinho. Derretendo-se, um queijo que minas padrão, e sobre ele temos picles de beterraba e cebola caramelizada. Ou seja, todos os elementos de um burger perfeito. Outras boas sacadas são o pastel de carne assada, à moda do boeuf bourguignon; os dadinhos de queijo coalho empanados na tapioca; a barriga de porco assada com cogumelos em molho tonkatsu e o escondidinho de linguiça, com tutu de feijão, couve e farofa de laranja. O menu muda sempre, e no almoço há boas pedidas. Para encerrar, bolo de aipim com doce de leite e coco queimado. Para beber, há sempre alguns diferentes tipos de cerveja da Noi, direto das torneiras. Abriu filial em Ipanema, em lugar igualmente pequeno e acolhedor, com cardápio praticamente igual, e um foco também nos drinques, não apenas nas cervejas.

BOTECO DOC – Rua das Laranjeiras 486, Laranjeiras. Tel. 3486-2550. De ter a sex., do meio-dia à meia-noite; sáb., das 13 h à 1h; dom., das 13 h às 19h. http://www.botecodoc.com Aceita cartões.

O risoto de crista de galo do Fasano al Mare: tem, mas não é fácil conseguir, e vale a pena insistir, porque é delicioso

26/03/2015

Nessa série de 450 Sabores do Rio de Janeiro, eu tenho buscado diversificar pratos, e também especialidades, áreas geográficas, filosofias gastronômicas, e de ambientações, para criar um painel abrangente, um inventário da mesa carioca. Existem lugares nos quais a escolha de uma receita emblemática é muito simples, como a sopa Leão Veloso, no Rio Minho, e o filé á Oswaldo Aranha do Cosmopolita, visto que esses dois pratos foram criados nesses lugares, viraram emblemas da gastronomia do Rio, e são até hoje especialidade dessas duas casas. Porém, há restaurantes com cardápios consistentes, cheios de pratos de referência, altamente recomendáveis. Aí, fica mesmo difícil escolher. No Gero, por exemplo, de cozinha tão correta, com um repertório de receitas clássicas da cozinha italiana, com execução sempre segura, penso em destacar – como um ato de irreverência e celebração da simplicidade – as abobrinhas fritas que são servidas logo que chegamos ao restaurante. Acho aquilo incrível. E não tem em outra parte. É exclusividade. Incrível exclusividade.

O risoto de crista de galo do chef Paolo Lavezzini: é simplesmente sensacional!

O risoto de crista de galo do chef Paolo Lavezzini: é simplesmente sensacional!

Pois na casa irmã do Gero, o Fasano al Mare, certa vez eu comi um risoto de crista de galo. Sim, de crista de galo. Foi das melhores coisas que já comi ali. Mais que isso, foi um dos melhores risotos de toda a minha vida, e olha que sou um risoteiro danado, e cheguei a ir até Vercelli, no Piemonte, a cidade do carnaroli, só para comer no restaurante La Cinzia, possivelmente o maior restaurante de risotos do mundo, um fenômeno que justifica a viagem (tanto que cheguei, almocei, me hospedei e jantei lá). Para ler uma matéria sobre esta viagem piemontesa, clique aqui.
Assim, de cabeça, o único risoto que faz frente ao de crista de galo foi um que comi justamente no La Cinzia: era de coelho, com foie gras e fonduta de queijos piemonteses, incrível. Incrível, porque além do equilíbrio, e as texturas perfeitas, o que dava cremosidade e intenso sabor do prato era o uso preciso do foie gras: ele substituía a manteiga para emulsionar o risoto, entregando impressionante e saborosa cremosidade.
Já tinha comido crista de galo em outras ocasiões, por coincidência também no Piemonte. La Finanziera é um prato típico do outono naquela região, tempo também das trufas brancas de Alba. E o prato é um ensopado divino, receita típica do outono-inverno que combina ingredientes como timo, cérebro e coração de vitelo, crista de galo e fígado de porco, entre outros miúdos, com ervilhas, cogumelos e cebolas, num molho delicioso feito com vinho branco e servida em uma pequena caçarola de cobre. Acredite, é uma delícia.

Um close nele: repare na textura cremosa

Um close nele: repare na textura cremosa

O risoto de crista de galo do chef Paolo Lavezzini estava algo irretocável também. A cremosidade que se espera de um risoto, e os grãos al dente, igualmente necessários. A cremosidade era intensificada pelo próprio ingrediente principal do prato, a crista de galo, que solta as suas gorduras durante o cozimento, o colágeno que ajuda a dar liga ao conjunto. A pimenta-do-reino moída na hora levantava o sabor, com seus perfumes intensos. A cista tem textura de cogumelos, muito macia, e sabor que se aproxima de foie gras, não tão intenso. Sua estrutura esponjosa absorve os sabores do tempero. O resultado é divino.
Pelo conjunto da obra, pela originalidade, pela competência na execução, eu estava considerando destacar o risoto de crista de galo quando fosse escrever sobre o Fasano al Mare. Mas acontece que são necessários dez galos para se fazer uma porção. Ou seja, não está no cardápio, e mesmo sob encomenda, não é fácil conseguir. Portanto, deixo aqui a dica, como se contasse um segredinho para o amigo.
Negociando com antecedência, é possível ter essa experiência única e memorável. E, mais importante de tudo: simplesmente deliciosa.
Vai por mim. Jogue longe um possível preconceito. Insista. Vale a pena. E não esqueça de pedir uma taça de vinho branco, encorpado e com madeira, para acompanhar. Um Chardonnay piemontês, com os de Pio Cesare, vai muito, mas muito bem, obrigado. Fica a dica.

 

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro:clique aqui.

Guia 450 Sabores do Rio 23 – Entretapas: o bar de tapas fiel à sua proposta, que serve os indecentes huevos rotos, com fritas e linguiça

22/03/2015
Uma travessa de barro chega à mesa forrada com batata frita mesclada a linguiça esfarelada e tostadinha (também há pedaços do embutido), com dois ovos, reluzindo feito ouro, salpicados de salsinha; e conforme a gema (mole, claro) vai se incorporando ao resto, a coisa fica ainda melhor

Uma travessa de barro chega à mesa forrada com batata frita mesclada a linguiça esfarelada e tostadinha (também há pedaços do embutido), com dois ovos, reluzindo feito ouro, salpicados de salsinha; e conforme a gema (mole, claro) vai se incorporando ao resto, a coisa fica ainda melhor

Se existe um prato no Rio de Janeiro que pode ser classificado de indecente, deliciosamente indecente, são os huevos rotos, do Entretapas. Veja se não. A receitas é simples, e executada com brilhantismo. Uma travessa de barro chega à mesa forrada com batata frita mesclada a linguiça esfarelada e tostadinha (também há pedaços do embutido), com dois ovos, reluzindo feito outro, salpicados de salsinha. Conforme a gema (mole, claro) vai se incorporando ao resto, a coisa fica ainda melhor. Devorar o prato é um ato quase erótico. No menu, uma parte é dedicada aos ovos, caso único na cidade. Além dos rotos, temos o revuelto de champignons e camarões, e outras versão, com a piparrada (típico do País Basco, um refogado com tomate, cebola, pimentão e páprica). Fiel à proposta de ser um bar de tapas, a casa tem uma seleção de petiscos de primeira linha, a começar pelas croquetas (a de jamón é pura alegria), com recheio cremoso e casquinha crocante. As chistorras são linguicinhas levemente picantes, servidas sobre uma fina fatia de pão. A tortilla é executada com perfeição, assim como outros clássicos ibéricos, como o gazpacho, receita das mais difíceis. As favas com jamón seguem a mesma linha, tipo puro conforto, caso também dos montaditos, que são fatias de pão com uma cobertura (a que leva ovo de codorna na chapa com chorizo espanhol salteado em vinho branco é a melhor pedida). Há receitas com mais subastancia, tipo as carrilleras al vino tinto, que são bochechas de vitelo cozidas ao vinho tinto servidas com purê de grão de bico; e a costilla lacada con damasco, uma costela suína desossada, cozida e desfiada, depois grelhada e laqueda, acompanhada de purê de damasco. Nos fins de semana, as melhores paellas do Rio brilham. A valenciana leva frango e coelho, legumes e açafrão; já a paella de mariscos tem lula, mexilhão, polvo e camarão, também com açafrão. O arroz negro é feito com lulas (e sua tinta) e camarões, com alioli; enquanto o arroz de cotillejas foge do trivial, uma receita típica do sudeste da Espanha, feita com costelinha e outros cortes suínos, com pimentão vermelho e tomilho. Fechamos com churros, acompanhados de calda de chocolate e doce de leite ou com crema catalana, a versão espanhola do creme brulée. Abriu uma filial em Ipanema, maior, com carta de drinques e de vinhos ainda mais caprichada (lá o cardápio é um pouco maior, e as paellas são servidas diariamente).

ENTRETAPAS – Rua Conde de Iraja 115, Humaitá. Tel. 2537-0673. Sáb., das 13h à 1h; dom., das 13h à meia-noite; de seg. a qui, das 19h à meia-noite; sex. (e véspera de feriado), das 19h à 1h. http://www.entretapas.com.br/ Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 16 – Esplanada Grill, templo das carnes: wagyu é a estrela do vasto menu carnívoro

15/03/2015
Da esquerda para a direita: filé mignon, bife de chorizo e ojo de bife, de wagyu australiano, exclusividade do Esplanada Grill

Da esquerda para a direita: filé mignon, bife de chorizo e ojo de bife, de gado da raça japonesa wagyu criada na Austrália, com importação limitada, uma  deliciosa exclusividade do Esplanada Grill. Repare na untuosidade da carne e no ponto de cozimento, um pouco mais tostado que o habitual, mas mantendo o interior suculento e rosado

Eu poderia escolher o ojo de bife, meu corte convencional preferido. Ou, então, o asado de tira, carnudo, quando tem. Quem sabe a picanha, que vem sempre no ponto que mais goste. As costeletas de cordeiro chegam como manda o figurino: agarradas ao osso, macia, e rosada por dentro, cheia de sucos. O prime rib, ali também chamado “pirulito”, é sempre uma pedida certeira. Se optasse pelas morcillas estaria revelando meu apreço pelas “achuras” da parrilla platense, de Uruguai e Argentina. Se escolhesse o costelão que circula pelo salão, uma edição limitada, uma única unidade por dia, que quando acabou, acabou, estaria demonstrando todo o meu apreço pelo jeito brasileiro de assar boi, o churrasco em cozimento longo, que derrete a gordura, temperando o conjunto, junto ao sal grosso, se entrando na carne, que sai se desfiando. Eu poderia eleger quando um desses cortes para representar o Esplanada Grill. Mas preciso render a minha homenagem ao feliz encontro que une dois hemisférios orientais, o Japão, origem da raça wagyu, e a Austrália, terra onde este gado é criado com sucesso imenso, e chega ao Brasil importado em pequenas levas, para poucos lugares, como o Esplanada Grill. Entre tantas visitas que fiz ao restaurante, a minhas experiência mais espetacilar de todas foi uma degustação de três cortes de wagyu australiano: filé mignon, com maciez e sabor incomparáveis; o bife de chorizo, com gordura bem marcada na parte de cima, e bife ancho, com a gordura enviesada, demarcando duas carnes um pouco diferentes entre si. Em todos os casos, aquela nobre gordura entremeada, que besunta tudo, o prato, a boca. Acompanhamento? Nem precisa. Mas uma farofinha sempre vai bem para limpar os caldos que sujam o prato. Neste dia aprendi que wagyu com esses níveis de marmorização da gordura, como se diz, precisa ser servido um pouco mais passado que o que seria recomendável para um gado normal, para derreter um pouco dessa matéria gorda que se encontra entranhada na carne. Assim, temos o sabor do tostado na camada externa, os defumados, aquela história toda de caramelização (aquela história de Reação de Maillard). Minha dica. Reúna um grupo de três pessoas, peça os três cortes, e que cada um prove um pouco da cada. Não será barato, mas com certeza inesquecível. Mas ligue antes, pra saber se tem, porque é mesmo raridade, tipo uma joia carnívora. E olha que nem falei de outras coisas que são sensacionais no Esplanada Grill, a começar pela caipirinha de caju, dos bons e  velhos Bira e Walter, e dos pães de queijo do couvert (os melhores!), e também a vinagrete de cebola, da salada com molho caprichado, melhor ainda com palmito, a farofinha sempre no ponto e o bom e velho beef tea, talvez o único lugar da cidade que ainda sirva o legítimo e revigorante caldo de carne (meu conselho: peça um copo de Jerez ou madeira seco, jogue um pouco no copo e beba o resto). E os corações? E as linguicinhas e salsichinhas, com boa mostarda?

ESPLANADA GRILL – Rua Barão da Torre 600, Ipanema. Tel. 2512-2970. De seg. a qui., do meio-dia às 16h e das 19h à meia-noite; sex. e sáb., do meio-dia à 1h; dom., do meio-dia à meia-noite. esplanadagrill.com.br Aceita cartões.

Guia 450 Sabores do Rio 11 – Satyricon: “Gran Piatto di Mare”, a sublimação dos pescados

12/03/2015
O "Gran Piatto di Mare" pode variar de acordo com a sazonalidade, uma imperdível seleção de preparações de peixes e frutos do mar à moda mediterrânea, com azeites, limões, pimentas, cebolas, ervas e outros temperos e perfumes

O “Gran Piatto di Mare” pode variar de acordo com a sazonalidade, uma imperdível seleção de preparações de peixes e frutos do mar à moda mediterrânea, com azeites, limões, pimentas, cebolas, ervas e outros temperos e perfumes

O Satyricon nasceu em 1983, em Búzios, e pouco tempo depois chegou a Ipanema. Desde então, é o melhor restaurante de pescados do Rio, quiçá do Brasil. Numa cidade litorânea, é uma pena que haja poucas casas dedicadas aos peixes e frutos do mar. O Satyricon é um porto seguro. Algumas especialidades estão ainda vivas, mantidas em aquários. Outras, reluzem fresquinhas, entre pedras de gelo. O menos, ali, é mais. Lagostins chapeados com azeite de limão e alho, pargo ao sal grosso, cherne alla “belle meunière”… Um festival de receitas com perfil mediterrâneo, seleção de pratos certeiros para explorar as iguarias marinhas. Entre tantas variações com acento italiano, a melhor pedida é um dos clássicos do restaurante, um apanhado de receitas com o sugestivo e acertado nome de “Gran Piatto di Mare”, definido apropriadamente como “festival de frutos do mar”. O prato mais icônico do Satyricon, na verdade, são vários pratinhos com preparações frias, que chegam juntos, em uma grande montagem preservada no gelo, com limões, siciliano e taiti. Tartares e carpaccios, e diversas marinadas. Alguns nos chegam crus, outros levemente cozidos, uma oferta que varia de acordo com a temporada, com o que entregam as redes e os anzóis dos pescadores. Mas há, digamos, uma espinha dorsal: ostras cruas, vinagretes de polvo e mexilhões, conserva de atum, anéis de lula marinados, camarões em molho de tomate, e um ou outro tartare ou carpaccio, e vez ou outra ovas no azeite, ouriço, e nós sempre podemos pedir itens extras, como vieiras, dessas que saem diretamente do aquário para a mesa, mais frescas impossível… É o mar em sua mais pura essência. De fato, um “Gran Piatto di Mare”, um dos maiores pratos não do Rio, mas do Brasil, em toda a sua quase simplicidade.
Deixo ainda uma sugestão adicional: a matriz, em Búzios, debruçada sobre o mar da Praia da Armação, com seus barquinhos a balançar a final de tarde cinematográfico, com o sol caindo no horizonte, é a sublimação disso tudo. O mar à mesa, o mar diante dos olhos. Comer ali é um acontecimento.

SATYRICON – Rua Barão da Torre 192, Ipanema. Tel. 2521-0627.  De dom. a qui., do meio-dia à meia noite; sex. e sáb., do meio-dia à 1h. http://www.satyricon.com.br Aceita cartões.