Prazer em conhecer, C&A: Chico e Alaíde, no Leblon, um boteco-boteco

Caricatura da dupla por Chico Caruso

Pode ser que alguém não goste. Não tem hostess à porta. O Chico & Alaíde é o que se pode chamar, parodiando o Wanderlei Luxemburgo, de boteco-boteco. Com a vantagem de aceitar cartões de crédito. E de ficar no Leblon, bairro de grandes botecos. O Chico & Alaíde chegou para se juntar ao Jobi, ao Clipper, ao Cantinho do Leblon (você me permite chamar o Cantinho de boteco, né?), ao Azeitona, à Academia da Cachaça e ao Bracarense, é claro, que aliás deu origem ao C&A (eu já batizei assim a casa). O C&A tem um quê de Fla-Flu. É uma dissidência do Braca, como o futebol do rubro-negro nasceu de uma dissidência do tricolor. Se for assim, não vai demorar para superar a matriz, não é, Julio?
Sábado estive lá à tarde. Mesas lotadas, porta lotada. As grades que envolvem a varanda, estrategicamente planas e não arredondadas, serviam de apoio para o chope de quem estava do lado de fora. O papo fluía entre todos, de dentro para fora, de fora para dentro. Gostei do que vi. Estava temeroso. Confesso que quando fui ver como estava o bar, no dia da inauguração, já que eu viajaria, não gostei muito da decoração. Azulejos bonitinhos, lustres redondos dependurados do teto, placas da AmBev imitando cartazes clássicos. Fiquei mesmo com medo. Parece com esses tantos botecos arrumadinhos que, à medida que foram infestando o Brasil, me fizeram desenvolver uma grande implicância pela categoria. Criei um mantra, repita comigo: “Boteco arrumadinho nunca mais, boteco arrumadinho nunca mais, boteco arrumadinho nunca mais”.
E, à primeira vista, o Chico & Alaíde estava arrumadinho demais. Mas, claro, era um boteco novo, ainda nem inaugurado. Não poderia, então, ter cara de boteco velho, entende? Aos poucos, as paredes vão encardir um pouco, os clientes cativos vão ter as suas contas e garrafas de uísque, e o chão vai perder o aspecto de salão de baile das antigas. Até o banheiro, breve, vez ou outra vai entupir e, então, homens e mulheres dividirão a mesma portinha.  Mas hoje, ainda cheirando a novo, o C&A tem espírito de boteco que é, afinal, o que importa mesmo.
Foi bom eu emendar duas viagens seguidas. Porque, sem tempo de ir lá logo nos primeiros dias de funcionamento da casa, cheguei com as engrenagens aparentemente mais azeitadas. E o que isso significa? Um caos organizado, onde a confiança impera. Ouvi algumas queixas dos primeiros freqüentadores. Eu não posso me queixar, até porque, gosto desse tipo de caos.
Voltemos ao sábado. Quando vi o movimento logo desisti de lutar por uma mesa. Queria só provar os bolinhos, só ver como estavam. Porque boteco não é como restaurante. O pessoal fica horas. Para almoçar num restaurante até que dá para encarar uma fila, em boteco não recomendo. Nunca se sabe a que horas a turma vai desistir de comer e beber. Ainda mais num sábado modorrento, de mormaço muito chato e chuvinha fina, como neste último aqui no Rio. Ainda mais no Leblon, onde a rapaziada gosta de gastar a tarde, ainda mais de sábado, na mesa de um bar.
Primeiro chamei o garçom e perguntei se podia pedir uns bolinhos e chopes dali de fora mesmo. Claro que sim. Já me animei. Em bom boteco, você come e bebe onde quiser, até do outro lado da rua, como no Bar Urca. Ele trouxe primeiro os bolinhos e os chopes. Na hora do segundo pedido, sugeriu que eu fosse até o balcão e pedisse, seria mais rápido. Bastava dar o meu nome que eles comandavam de lá mesmo. Também gostei disso. Gosto de boteco honesto. E, além disso, em boteco que é boteco o cara também tem que se virar – caso contrário ele teria ido a um bar temático. Quer coisa mais chata que o garçom vir acender o teu cigarro num boteco? Ou puxar a cadeira para a tua namorada? Se eu quisesse garçom puxando a cadeira para a minha namorada não tinha ido a um boteco, ora bolas!
E lá fui eu ao bar. À minha esquerda estava o ator Antonio Pedro tomando a sua Brahma Black. Hummm. Brahma Black, ainda mais naquele copinho tipo sundae, com logomarca e tudo, coisa de barzinho arrumado… Tudo bem, no C&A eu deixo.

Chico no comando da chopeira

Confesso que fiquei feliz quando o Chico, comandando a chopeira, me viu e acenou: E aí, rapaz, beleza?. Aproveitei a intimidade e, diante de uma vitrine cheia de salgadinhos, fui elegendo o que queria. Me dá esse, esse, esse, esse também. “E esse aí, é de que?”, perguntei sobre um, que para mim era novidade (todos os outros eu já conhecia do Braca). “É a almofadinha de frutos do mar”, responderam. “Dá duas”. Com uma massinha delicada e arredondada, tinha recheio cremoso, com polvo predominando. Delicado, uma delícia. Custa R$ 3,50.
No mais, os clássicos do Bracarense preparados por quem os criou, Alaíde. E o Chico comandando a chopeira e o serviço. Não tinha como dar errado. Os famosos bolinhos de camarão e catupiry, que deram fama universal ao Braca, ali são chamados de bolinhos da Alaíde, muito justamente, e custam R$ 2,50. É para comer uns 10. Provei ainda o bobozinho de macaxeira, a R$ 3,20, a maravilhosa de camarão (acho que é maravilha de camarão, mas na nota fiscal veio escrito maravilhosa), a R$ 3,80, a empada de camarão e catupiry, de R$ 2,80. Gostei demais de tudo.

Uma das especialidades é o tôtivendo, uma espécie de escondidinho aparecido, sem recheio escondido, sacas? Tem de vários sabores.

Jogue um pouquinho de azeite, muitas gotas de pimenta e seja feliz

De camarão com catupiry…

Feijoada em forma de escondidinho: um novo olhar sobre um velho conhecido

… de feijoada

Na minha primeira visita nem consegui pegar a boa pimenta da casa. Só da segunda fez recebi uma garrafinha, e a pimenta é muito boa, obrigado, digna de um boteco-boteco, porque bar que se preza tem malagueta – tabasco, que me desculpem os adeptos, mas é coisa de restaurante mexicano ou americano.

Tranqüilo, tranqüilo mesmo, para chegar com calma à mesa, só ali pelas 16h, 17h de um dia de semana, que não seja quinta e sexta, me avisou a caixa. Tudo bem, seguirei o conselho da moça. Das modernidades que permito a um boteco está trabalhar com cartões de crédito e débito. E o C&A trabalha. Ótimo assim, até porque eu estava sem um puto no sábado. Só uma moedinha de R$ 1 pro guardador e três pacotinhos de figurinha pra filha – e olhe lá..
No mais, o ideal é fazer como se fazia antigamente no Bracarense, quando mesas não havia e tanto o Chico quanto a Alaíde ainda eram celebridades apenas de bairro: leve a sua cadeira de praia e pronto. Ou, então, torça para que o banquinho do tipo praça da pizzaria ao lado esteja vago. Eu dei essa sorte.

Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro: clique aqui.

Publicado em 25/3/2009

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3 Respostas to “Prazer em conhecer, C&A: Chico e Alaíde, no Leblon, um boteco-boteco”

  1. Luca Says:

    Vou lá e peço os bolinhos pela cara. O meu preferido, que acho muito melhor que o da Aláide, é o de abóbora com carne seca.

  2. Guilherme Lopes Says:

    Só fui conhecer o C&A agora, no finalzinho de outubro.

    Confesso que fui com certa preguiça. Mas no final, eu gostei bastante!

    Além dos predicados citados no post, o garçom que nos atendeu fui muito bacana e atencioso. E isso faz uma baita diferença. Se não me engano ele era xará do Chico.

    O Chico aliás estava prestes a correr a Maratona de NY, e serviu umas bitelas de uns bifes para o seus colegas, que não estavam no cardápio. Ficamos com vontade!

    ; )

  3. Índice de posts de bares e restaurantes na cidade do Rio de Janeiro « Rio de Janeiro a Dezembro Says:

    […] Chico e Alaíde […]

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